Amanhã é um dia decisivo para mudar a história do país

A escolha que você fizer amanhã pode ter impactos duradouros nos próximos anos e décadas. Pense bem. Estude as suas opções.

Amanhã, segunda-feira (08/10), começa mais uma semana de trabalho, estudo ou de procurar emprego. Ainda não sabemos os resultados do primeiro turno das eleições, mas temos certeza de uma coisa.

A exploração no local de trabalho continua e vai crescer muito pelos efeitos da reforma trabalhista e do desemprego. Todos os canais de televisão, rádio e jornais vão continuar nas mãos de poucas famílias de elite. Nossa comida vai continuar cheia de veneno, o mesmo veneno que adoece as pequenas agricultoras ou sem terra. O agronegócio vai continuar ameaçando e matando quilombolas e indígenas para impedir as demarcações e retomadas. O postinho de saúde do bairro continuará enfrentando a precarização. E assim por diante.

Por isso, a escolha de amanhã é muito séria.

A pergunta é uma só: vou participar de um movimento popular ou não vou?

Se não vou, o cenário acima vai continuar e tende a piorar cada vez mais. Se vou, estarei dando início à criação de um novo mundo.

Posso participar das atividades do meu sindicato e construir núcleos de base por local de trabalho. Posso entrar em um movimento social de luta por moradia, reforma agrária, direito à cidade ou transporte. Posso construir a mídia independente popular. Pode ser um coletivo ou movimento feminista, negro, ou LGBT. Posso entrar no movimento estudantil.

Não existe uma demanda mais importante, capaz de resolver todas as outras. As lutas são como um círculo, todas estão relacionadas, lado a lado, e assim que você entra elas não terminam nunca. Pelo menos é nisso que acredito.

Política é disputa de projetos através da correlação de forças. Nós não temos a mídia, as grandes propriedades, o dinheiro, as armas nem as leis ao nosso lado. Só podemos contar com a força do povo organizado.

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Ato contra o Bolsonaro está entre os três maiores da história do país

Ainda não vi um esforço sério da mídia nem da academia em buscar representar com dados o tamanho da gigantesca onda feminista e popular que aconteceu ontem contra o candidato da extrema-direita. Juntando informações que encontrei por aí, acredito que esteja entre as três maiores mobilizações da história do país.

O dado mais impressionante é a quantidade de cidades com atos, embora as cidades pequenas estejam sendo ignoradas na maioria das análises. Levantamentos informais mostram que houve pelo menos 12 atos em Santa Catarina, um estado pequeno e com eleitorado conservador enorme. No RS, também parte do Sul conservador, foram pelo menos 25. A grande maioria das cidades listadas aí não aparecem em nenhuma das notícias, seja da grande mídia ou da alternativa. No Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte, também houve em atos em todas as grandes cidades e dezenas de cidades pequenas de cada Estado.

Estimativas conservadoras indicam mais de 50 mil pessoas em Porto Alegre, mais de 30 mil em Florianópolis, mais de 30 mil em Curitiba, epicentro da onda conservadora. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo tiveram multidões de pelo menos 200 mil pessoas na rua. No exterior, dezenas de cidades fizeram atos em solidariedade. Por isso, uma estimativa conservadora indica que houve milhões de pessoas nas ruas, em centenas de cidades.

Não chegou ao tamanho das mobilizações de Junho de 2013, é verdade, quando a revolta contra o preço dos ônibus e a violência policial em São Paulo gerou atos simultâneos em mais de 300 cidades. Talvez também não tenha alcançado o tamanho da maior mobilização feita em defesa do impeachment, em 2016. Mas as marchas do impeachment recebiam uma cobertura imensa da mídia, que passava o dia inteiro transmitindo ao vivo os acontecimentos por todo o país e os serviços de transporte público chegaram a funcionar gratuitamente para levar as pessoas para as ruas.

Ao contrário delas, a mobilização das mulheres não tem apoio da grande mídia nem dos serviços públicos porque é um ato de rebeldia contra o sistema. Contra Bolsonaro, sim, mas na verdade contra toda a onda conservadora, ultraliberal, racista, misógina e LGBTfóbica que domina o Estado brasileiro e nossa elite. O ato das mulheres de ontem foi, sem sombra de dúvidas, uma manifestação de esquerda, contra os poderes vigentes. Não terá espaço na mídia, mas caberá a nós fazer com que ela ressoe, se multiplique e vença. Faremos registro vivo de ontem nas próximas lutas que virão, cada vez mais fortes.

Voto de protesto, voto programático e voto tático

Muito tem sido falado sobre que abordagem adotar na escolha do voto às eleições para os cargos executivos e legislativos no Estado – estou especificando porque esse guia vale para essa disputa, não às eleições em sindicatos, entidades comunitárias ou estudantis de luta.

Enquanto anarquista, apresento aqui minha sugestão de voto nas diferentes abordagens.

1. Para fazer um voto de protesto, vote nulo. Se você discorda do atual modelo de sociedade, em que a propriedade privada vale mais do que a vida dos despossuídos; e se você discorda da estrutura de dominação que mantém essa injustiça, em que políticos têm o poder de decidir as leis que as pessoas pobres devem seguir, em que juízes aplicam as leis em benefício próprio e dos mais ricos, em que a polícia e o Exército possuem o monopólio da violência e da morte para fazer todo mundo obedecer as regras criadas pela elite, então você discorda do Estado. Embora você não possa decidir nas eleições por nenhuma mudança significativa na forma do Estado, a escolha eleitoral confere legitimidade a ele.

No entanto, apesar de simbolizar e ecoar a sua oposição, o voto nulo de protesto não vai derrubar esse sistema. Por isso, vamos analisar as próximas opções.

2. O voto programático é aquele em que você escolhe um representante e um conjunto de propostas em que você realmente acredita e se identifica. O programa que o anarquismo defende envolve a coletivização das terras, indústrias e comércio; o trabalho coletivo sem patrões; a gestão política de toda a sociedade por meio de assembleias abertas; o fim das heranças e do acúmulo de riquezas; e a utilização das tecnologias para facilitar e reduzir ao máximo o trabalho necessário para garantir a todas as pessoas alimentação, moradia, saúde, educação, arte e cultura. Se o Estado é a estrutura de dominação que impede a implementação desse programa através da força, o voto programático é nulo.

Mas, ainda assim, esse voto é incapaz de efetivar esse programa. Vamos, então, analisar o voto tático (ou “voto útil”).

3. O voto tático/útil é, teoricamente, aquele que faz uma escolha dentro das possibilidades imediatas de vitória, para impedir um resultado muito pior. Mas o que é tática?

Como disse recentemente o Bruno Lima Rocha, só tem tática quem tem estratégia e um objetivo finalista, um horizonte de sociedade, que só pode ser construído coletivamente. Ou sua tática é um passo adiante em uma caminhada coletiva, que se aproxima de onde queremos chegar, ou a sua tática na verdade é um passo dentro de outra estratégia, formulada por outros interesses.

O Estado não pode servir a qualquer tipo de interesse, porque sua natureza é o domínio de uma elite sobre o povo, pela lei, pelo controle e pela força. Quem comanda o Estado tem interesses de classe que nunca serão os nossos, aqui embaixo. Agora, como podemos utilizar uma tática/estratégia que depende do instrumento dos nossos adversários? Se nossa estratégia envolve a independência de classe (incluindo a independência ao Estado), o único voto útil é nulo.

O voto nulo faz parte da tática porque defendê-lo no seio de nossos instrumentos (movimentos sociais) e de nossa classe reforça o princípio indispensável da independência de classe na nossa estratégia. Quem pode efetivar esse programa com os nossos interesses somos nós, o conjunto das classes oprimidas, e nós estaremos melhor preparadas para isso quanto menos nós dependermos dos políticos profissionais, dos juízes, dos militares e dos tecnocratas no Estado, incluindo aqueles que vieram do seio do povo.

Votamos 00 por protesto, programa, tática, estratégia e objetivo finalista.

Uma nova greve de caminhoneiros é fake news?

Centenas de mensagens de whatsapp e áudios alegam que a greve dos caminhoneiros vai voltar no domingo ou segunda-feira. O que pouca gente parece entender é que essas mensagens não são verdadeiras, mas tanto quanto elas não são falsas.

Em uma categoria que se espalha nacionalmente, com rotinas de trabalho sem descanso, sem pontos de encontro coletivos para ter assembleias e sem um sindicato com grande legitimidade, só podemos tirar uma conclusão dessas mensagens: há pessoas tentando fazer com que os caminhoneiros parem novamente. Podem ser caminhoneiros, podem não ser.

Nesse sentido, esses avisos de greve não são um resultado da sua deliberação, são antes o lançamento da proposta, o início da discussão. Ela vem em formato de notícia, apresenta elementos falsos, mas chamar isso de “fake news” esconde a intenção dessa mensagem. Ela é um tipo de profecia que busca se auto-realizar e, em algumas situações, tem funcionado.

Um dos riscos de trabalhar com esse modelo de mobilização é a alta possibilidade da mensagem “não colar”, ou seja, não fazer as coisas acontecerem. Quando isso acontece, se reduz a crença no método, na própria possibilidade de outras mobilizações. Não é como na fábula em que a pessoa dá vários avisos falsos de que o lobo vai chegar, aí quando o lobo vem de verdade ninguém acredita. Nesse caso, ao avisar que o lobo vem e ele não aparece, efetivamente se dificulta com que o lobo (a greve) venha outra vez.

Por isso, eu não espero que essas mensagens “sejam” verdade. Eu espero que elas se tornem verdade. A luta precisa continuar para abaixar os preços da gasolina e do gás, para mudar a política de preços da Petrobrás e sua gestão neoliberal.

O tipo de repercussão dessas mensagens faz grande diferença, porque vimos o sentimento coletivo dos caminhoneiros de terem sido “traídos” por muitos de seus apoiadores, ou pelo “povo” (de forma genérica). Mas, no fim, quem faz uma greve é a categoria, em sua capacidade coletiva de parar. Os caminhoneiros, transportadores de quase toda a produção e riqueza no país, continuam com o poder nas mãos.

A imagem pode conter: texto

Quem é contra a luta dos caminhoneiros?

Texto publicado no facebook em 28 de maio de 2018.


1. A luta é contra o aumento dos custos no trabalho dos caminhoneiros, que impactam diretamente nos custos de vida de toda a classe trabalhadora.

2. Reduzir impostos não vai reduzir o preço de forma consistente, enquanto eles estiverem atrelados ao mercado internacional. A única solução efetiva para reduzir o custo é tirar a gestão neoliberal de Pedro Parente da Petrobrás, que atrelou o preço ao mercado internacional (http://bit.do/ekCGs).

3. Temer não quer fazer isso porque depende do apoio do capital financeiro e busca privatizar a Petrobrás, como já tem feito quando cede a exploração de poços de petróleo para empresas estrangeiras e quando vende refinarias, como fez um mês atrás (https://bit.ly/2xk473M).

4. Bolsonaro diz que apoia a greve porque sabe que ela tem muito apoio popular. No entanto, ele é contra a vitória da greve porque também precisa do apoio do capital financeiro e tem adotado um programa cada vez mais privatista e neoliberal (http://bit.do/ekCHm). Observem que ele não vai criticar nunca a política de preços da Petrobrás, nem vai defender sua manutenção 100% pública.

5. Quadros do Exército dizem que apoiam a greve e estimulam os defensores da ditadura a estar junto com os caminhoneiros porque querem legitimidade para seu projeto autoritário e possuem interesse eleitoral nisso, já que dezenas de militares vão se candidatar esse ano (http://bit.do/ekCH4). No entanto, eles não têm interesse em defender a Petrobrás 100% pública, nem mudar sua política de preços, porque sempre estiveram de joelhos para o imperialismo dos EUA e os interesses de mercado. Ou seja, militares no poder seriam incapazes de resolver a pauta da greve.

6. Quem pode resolver a pauta da greve é o povo em luta. Ninguém lá em cima tem interesse em fazer o que precisa ser feito. Só vai acontecer quando nós, os de baixo, obrigarmos eles. O poder da classe trabalhadora não está no voto, está na capacidade de parar a produção, como estão ensinando os caminhoneiros e petroleiros. É hora de dar todo apoio e construir uma greve geral em defesa da Petrobrás 100% pública, de uma nova política de preços, conta o aumento dos custos de vida do povo pobre e contra qualquer saída autoritária. A única solução para a luta dos caminhoneiros está junto ao resto da classe trabalhadora, junto aos sindicatos e movimentos sociais que não têm rabo preso com o poder e podem defender a mesma pauta que eles.

Fotografia por Karol Moraes @retinainsurgente para Disparadora.

Relato da visita à greve dos caminhoneiros no posto Catarinão (Palhoça, SC)

Texto publicado no facebook em 27 de maio de 2018.


Estivemos visitando um importante posto de greve dos caminhoneiros ontem e hoje, na Palhoça (SC). Confirmamos algumas impressões e relatos: a categoria está muito mobilizada, tem apoio de setores muito diversos da sociedade e não está pensando no fim da greve. Quem tá puxando a luta são trabalhadores muito precarizados, embora tenham apoio de grande parte do empresariado. A categoria tem um rechaço muito forte à toda a mídia corporativa, especialmente a Rede Globo. Chega doação o tempo todo, gente passa buzinando, muitos carros com bandeiras e escritos em apoio aos caminhoneiros. Apesar do apoio formal de praticamente toda a esquerda, nos dois momentos em que estivemos lá não vimos mais nenhum militante organizado da esquerda junto (mas sabemos que tem gente se organizando para isso).

Acredito que dois dilemas são fundamentais nos rumos da greve.

Um deles diz respeito à pauta principal das condições de trabalho e de vida (preço do diesel, pedágio, etc). As falas e reivindicações estão girando muito em torno da redução dos impostos, o que interessa aos patrões, mas não vai resolver a alta de preços e vai certamente gerar falta ainda maior de investimentos em direitos sociais. Há caminhoneiros pautando a mudança na política de preços da Petrobrás, mas parece que eles ainda estão em minoria.

O outro dilema é o horizonte político para além do Fora Temer, que é consensual. A defesa de uma intervenção militar está bem presente, mas surge geralmente de forma externa, a partir de setores de extrema-direita que estão lá o tempo todo. Em geral, são aposentados e aposentadas de classe média-alta, que podem ser facilmente distinguidos da categoria. A adesão ativa da categoria aos militares varia muito em cada lugar, mas tem apoio significativo entre caminhoneiros na Palhoça, onde há várias faixas e escritos em caminhões sobre essa pauta. Quem levou esses materiais foi a extrema-direita organizada, mas tudo indica que há espaço para outras faixas de apoio com nossa perspectiva política, coisas como “toda força à luta da classe trabalhadora”, “Petrobrás a serviço do povo”, “fora Pedro Parente”, “intervenção popular já”, etc.

As propostas dos patrões (reduzir impostos) e da extrema-direita (intervenção militar) não possuem qualquer perspectiva de resolver a pauta da greve. Os militares não iriam enfrentar os interesses dos acionistas estrangeiros para abaixar os preços. Esse debate está em aberto para ser feito com a categoria e considero que há espaço para isso.

Enfim, acho que os resultados e consequências dessa greve precisam ser disputados e abaixo proponho algumas formas.

1. A pauta concreta são os custos de trabalho e de vida dos caminhoneiros, uma reivindicação com potencial de atingir toda a classe trabalhadora. Com a dimensão que a luta tomou, existe um risco de se perder essa pauta na discussão pelo horizonte político, entre “Fora Temer”, “Intervenção Já”, “Eleições Já”, etc. Assim como em junho de 2013, quando a esquerda teve que fincar o pé no tema das tarifas (e conquistou a gigantesca vitória de baixar a tarifa em mais de 100 cidades), penso que temos que lutar para manter a pauta do preço dos combustíveis e outros custos dos caminhoneiros. A greve precisa alcançar vitórias materiais.

2. A participação da esquerda junto aos pontos de greve é importante, mas precisa ser feita de forma coletiva e qualificada, a partir dos sindicatos, entidades e movimentos sociais. Apoio de verdade é levar comida, bebida, ajudar com a infraestrutura, logística, ajudar com mídia, divulgação e contatos internacionais. Ao contrário da extrema-direita, que tenta colonizar o espaço sem escrúpulos, colocando suas faixas e gritos por cima das reivindicações da categoria, a esquerda precisa estar lá garantindo a autonomia da categoria, que não pode ser tratada como gado. O objetivo lá é questionar as pautas da redução de impostos e da intervenção militar, dialogando para mostrar que elas não vão resolver as necessidades da categoria e, nesse processo, desmascarar a extrema-direita e os patrões oportunistas.

3. Mais importante ainda do que estar lá é a esquerda se mobilizar em seus espaços de atuação, com solidariedade à greve, mas colocando a sua agenda política nesse momento de confusão nacional. Essa agenda mínima inclui a mudança da política de preços da Petrobrás; a defesa da Petrobrás pública e a serviço do povo; e o repúdio ao governo neoliberal de Temer, repúdio à repressão da luta e às saídas autoritárias representadas nos militares. Quem é trabalhador sindicalizado, precisa cobrar seus sindicatos imediatamente para entrar em solidariedade e puxar greves (nas escolas e universidades também). Mobilizações nos bairros e atos com as nossas pautas também são fundamentais e podem ser organizados através dos movimentos sociais e organizações de esquerda.

Quem não for pra disputa vai ver a história passando batida e ela dificilmente vai virar pro nosso lado sozinha.

Hoje a gente só disputa a superfície da Universidade

Texto publicado dia 17 de abril de 2018 no facebook.


Hoje a Câmara Municipal de Florianópolis ignorou a vigorosa greve dos trabalhadores da cidade, o consenso de todos os conselhos populares de saúde e a posição da maioria da população ao aprovar o caminho para a destruição do caráter público de nossa saúde e educação municipais. Essa é, sem dúvida, a pauta urgente. Amanhã, 13h, todas e todos precisam estar no centro da cidade.

Ainda assim, hoje eu não fui para o centro. Tinha que trabalhar e tinha, também, um dia agitado na Universidade. A UFSC foi palco de três eventos incríveis durante a tarde. Dentro do auditório da Reitoria, um dia inteiro de atividades e debates organizados pelos estudantes indígenas. Em frente à Reitoria, bandeiras dos movimentos camponeses indicavam o início da 5ª Jornada Universitária pela Reforma Agrária, com um dia inteiro discutindo a luta camponesa. E, em frente ao DCE, foi feita a inauguração de uma placa de memória sobre estudantes de SC presos durante a ditadura, alguns dos quais estavam lá, ou suas famílias. Tudo muito bonito e emocionante.

Os mais desavisados poderiam pensar que a Universidade é, talvez, uma bolha separada da guinada conservadora e autoritária da sociedade. Alguns falam até em doutrinação de esquerda na educação pública. Não enxergariam a verdade nem se batessem com ela na sua cara. Essas atividades de hoje, por fundamentais e incríveis que sejam, representam migalhas. Se custaram algo dos cofres da Universidade, foram centenas ou alguns milhares de reais. Atingiram algumas centenas de pessoas. O que os movimentos populares conseguem disputar das universidades públicas hoje é só a superfície.

Senão, o que estão produzindo as centenas de grupos de pesquisa da Universidade? Drogas para a Natura e indústria farmacêutica, refrigeradores mais eficientes para a Embraco, aviões para a Embraer, tecnologias de vigilância em massa para a Polícia Militar e Federal, para dar alguns exemplos da pesquisa de ponta da UFSC. Quantas parcerias público-privadas nós temos? Quantos milhares de trabalhadores qualificados estamos formando obedecendo todas as demandas do mercado? Quanto ganham os especuladores imobiliários quando a UFSC decide mandar milhares de estudantes ter aulas em uma área inóspita de Joinville, dentro de um parque industrial privado, que aliás vai custar por dia 10 vezes mais do que essas três atividades de hoje?

As críticas que uma bandeira do MST ou um canto de luta indígena na praça central da UFSC recebem, hoje, são totalmente desproporcionais, sem propósito. Nossa luta é para disputar nossas pesquisas, nossa formação, nosso orçamento, e fazer com que todo esse incômodo tenha sentido.