Hoje a gente só disputa a superfície da Universidade

Texto publicado dia 17 de abril de 2018 no facebook.


Hoje a Câmara Municipal de Florianópolis ignorou a vigorosa greve dos trabalhadores da cidade, o consenso de todos os conselhos populares de saúde e a posição da maioria da população ao aprovar o caminho para a destruição do caráter público de nossa saúde e educação municipais. Essa é, sem dúvida, a pauta urgente. Amanhã, 13h, todas e todos precisam estar no centro da cidade.

Ainda assim, hoje eu não fui para o centro. Tinha que trabalhar e tinha, também, um dia agitado na Universidade. A UFSC foi palco de três eventos incríveis durante a tarde. Dentro do auditório da Reitoria, um dia inteiro de atividades e debates organizados pelos estudantes indígenas. Em frente à Reitoria, bandeiras dos movimentos camponeses indicavam o início da 5ª Jornada Universitária pela Reforma Agrária, com um dia inteiro discutindo a luta camponesa. E, em frente ao DCE, foi feita a inauguração de uma placa de memória sobre estudantes de SC presos durante a ditadura, alguns dos quais estavam lá, ou suas famílias. Tudo muito bonito e emocionante.

Os mais desavisados poderiam pensar que a Universidade é, talvez, uma bolha separada da guinada conservadora e autoritária da sociedade. Alguns falam até em doutrinação de esquerda na educação pública. Não enxergariam a verdade nem se batessem com ela na sua cara. Essas atividades de hoje, por fundamentais e incríveis que sejam, representam migalhas. Se custaram algo dos cofres da Universidade, foram centenas ou alguns milhares de reais. Atingiram algumas centenas de pessoas. O que os movimentos populares conseguem disputar das universidades públicas hoje é só a superfície.

Senão, o que estão produzindo as centenas de grupos de pesquisa da Universidade? Drogas para a Natura e indústria farmacêutica, refrigeradores mais eficientes para a Embraco, aviões para a Embraer, tecnologias de vigilância em massa para a Polícia Militar e Federal, para dar alguns exemplos da pesquisa de ponta da UFSC. Quantas parcerias público-privadas nós temos? Quantos milhares de trabalhadores qualificados estamos formando obedecendo todas as demandas do mercado? Quanto ganham os especuladores imobiliários quando a UFSC decide mandar milhares de estudantes ter aulas em uma área inóspita de Joinville, dentro de um parque industrial privado, que aliás vai custar por dia 10 vezes mais do que essas três atividades de hoje?

As críticas que uma bandeira do MST ou um canto de luta indígena na praça central da UFSC recebem, hoje, são totalmente desproporcionais, sem propósito. Nossa luta é para disputar nossas pesquisas, nossa formação, nosso orçamento, e fazer com que todo esse incômodo tenha sentido.

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A repercussão da execução de Marielle nas redes sociais é nossa

Texto publicado no facebook no dia 17/03/2018, dois dias depois das manifestações que tomaram o país por Marielle Franco.


A execução da vereadora mulher, negra, lésbica, socialista e favelada Marielle (PSOL), em poucos dias, gerou mais atenção e debate nas redes sociais do que o impeachment de Dilma.

No twitter, todas as principais postagens falavam sobre choque, comoção, e ressaltavam as pautas pelas quais Marielle sempre lutou. Foram 88% dos tweets positivos a sua memória. No facebook, também 75% das principais postagens expressaram tristeza e não ódio ou críticas, embora estas tenham existido em grandes números.

A vereadora é um símbolo muito diretamente ligado à esquerda, ao movimento negro e ao combate à intervenção federal. Como não podem ignorar o fato político, nem apagar o histórico de suas lutas, setores de extrema-direita estão fazendo tudo que podem para desmerecer Marielle com falsas notícias, ao mesmo tempo que buscam algum malabarismo argumentativo para defender o aumento da repressão que ela sempre combateu. Os dados acima mostram que não terão sucesso fácil nessa tarefa.

Infelizmente, enquanto isso acontece muitas e muitos entre nós estão generalizando alguns comentários dos setores punitivistas e anti-direitos humanos como se representassem a maioria do povo, ao contrário do que dizem os dados. Condenam nosso povo à caricatura fascista e, ao mesmo tempo, se condenam a ficar longe do povo. Pelo contrário, o momento é fundamental para fazer chegar a mensagem de Marielle o mais longe possível.

Marielle vive na luta contra o genocídio do povo negro, a Polícia Militar e a intervenção federal

Texto publicado no facebook no dia 15/03/2018, dois dias após a morte da militante Marielle e um dia depois dos atos que tomaram o país.


A indignação popular pela execução da militante Marielle Franco (PSOL) tomou as ruas como pólvora no dia de ontem. De forma espontânea, mais de 30 cidades pelo país realizaram atos, cerimônias e vigílias. No Rio de Janeiro, mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas. O povo chorou, em luto coletivo, mas também cantou pelo fim do genocídio do povo negro, pela desmilitarização da Polícia Militar e pelo fim da intervenção federal no Rio de Janeiro. O assassinato da 5ª vereadora mais votada na segunda maior cidade brasileira não teria como ser ignorado: também tomou as notícias mundiais, durou 35 minutos na edição do Jornal Nacional e exigiu pronunciamentos de todas as grandes figuras políticas e candidatos a presidência (menos Bolsonaro, que se recusou).

Nesse momento, tudo indica a continuidade das manifestações massivas. O cenário lembra Junho de 2013, pela força, indignação e espontaneidade, mas também pelo comportamento que começa a apontar na mídia hegemônica e nas lideranças políticas. Em 2013, após as vitórias contra o aumento da tarifa em Porto Alegre e Goiânia, atos do Movimento Passe Livre em São Paulo foram brutalmente reprimidos pela Polícia Militar, levando atos espontâneos às ruas em dezenas de cidades, que começaram pela indignação contra a violência policial e as tarifas. Após um crescimento incontrolável das ruas, a mídia opta por não criminalizar mais as manifestações, mas por deturpar completamente seu significado, empurrando a pauta anticorrupção e outras demandas genéricas que diluíram as reivindicações.

Nesse momento, é fundamental que a esquerda saiba disputar o sentido dessa indignação, a partir do legado de luta que Marielle nos deixou: contrária à violência de Estado nas periferias e ao racismo estrutural. Temer aproveitou sua declaração de condolências para defender a intervenção militar (goo.gl/SNVG7m). A inteligência do Governo Federal veiculou a hipótese de um crime premeditado pelas facções para deslegitimar a intervenção (goo.gl/ByuZ6c). Na mídia e nas redes sociais, diferentes agentes tentam retratar a execução de Marielle como um crime comum, causado pela violência generalizada no RJ, que poderia ser resolvida com mais polícia ou uma possível intervenção nacional, como sugeriu o senador Jorge Viana, do PT (goo.gl/ohh4uQ). Exatamente o tipo de medida genocida contra qual Marielle dedicou sua luta e pela qual foi morta também.

Ainda que alguns setores nas ruas tentem colocar panos quentes dizendo que “não se pode especular” sobre uma execução sob o comando do Exército ou da Polícia – ou mesmo alegando que “não se pode achar que a polícia se mistura com o crime”, como colocou o deputado Marcelo Freixo (PSOL) de maneira infeliz (goo.gl/3qXiJN) – a comoção das ruas caminha para manter o legado da vida de Marielle, denunciando a violência da Polícia Militar contra as favelas, o genocídio do povo negro, repudiando a intervenção federal e todos os ataques contra os pobres. Esse é significado dos atos que a mídia não irá permitir, é esse o significado que precisamos sustentar.

Foto: Guilherme Prado / PSOL

Foto: Guilherme Prado / PSOL

Comentários sobre a condenação de Lula

Texto publicado no facebook em 25 de janeiro, escrito algumas horas depois da condenação de Lula no STF.

Vou arriscar umas opiniões aqui em cima da hora. Como toda análise apressada, pode se mostrar equivocada em pouco tempo, mas achei importante compartilhar.

1. Simpatizo com quem tá cobrando o PT por não ter mobilizado tanto nas greves e demais lutas contra os retrocessos (ou mesmo por tantas vezes ter boicotado e puxado o freio de mão das mobilizações). Mas acho que, nesse momento, esse argumento dá um poder pro PT que ele não tem mais.

Com meses de antecedência para a mobilização, gente vindo do País todo, em uma cidade e Estado de histórico do petismo, as fotos dificilmente mostram atos com mais de poucas dezenas de milhares. Para quem tá lutando pela sobrevivência política do maior ícone da esquerda brasileira das últimas décadas e seu partido de massas, é uma miséria. Como foi dito em outro lugar, “1/3 das intenções de voto é uma coisa, amplas camadas da população se mobilizarem em torno ao slogan ‘Eleição sem Lula é fraude’ é outra, bem diferente” (http://bit.ly/2rytBI4).

Fora a repercussão na bolha de facebook Mídia Ninja / MST / Brasil de Fato / Jean Wyllys, a verdade é que a movimentação foi fraca. Nos dias que antecederam o julgamento, o tema foi menos comentado no conjunto das redes sociais do que a pré-candidatura de Collor ou a (não)posse da nova Ministra do Trabalho (http://bit.ly/2BsgHe9).

2. Nem mesmo no período pré-eleitoral, nos discursos para animar a militância, Lula se posicionou de forma convincente de que iria desfazer os retrocessos do Governo Temer (http://bit.ly/2DyCGC1). Pelo contrário, se empenhou em refazer o arco de alianças com o MDB e afastar a imagem de “radical” (http://bit.ly/2wlq5Sd).

Como já vimos em 2014, é tático para o PT dar um discurso bem à esquerda daquele que tenta colocar em prática. Então não tem sustentação alguma achar que sua eleição era uma arma confiável ou estratégica para combater os retrocessos. Tudo indica um governo ainda mais subserviente às elites, caso ele aconteça (e ainda pode acontecer). Política não se faz só com vontade, muito menos com promessa, se faz com correlação de forças.

A arma para barrar os retrocessos é a única, a mesma que sempre foi: organização popular e luta nas ruas, nas greves e nas ocupações. É ela que faz a diferença, ela que transforma o impossível em alcançável, depois em vitória, é ela que nos oferece horizontes respiráveis. Independente de quem esteja lá em cima.

3. Do ponto de vista das elites, o julgamento fechava posição se era mais útil ter Lula dentro ou fora do jogo. Se a mobilização em sua defesa fosse forte, combativa, impactante, tudo que isso conquistaria era o lugar do PT novamente dentro do pacto de conciliação de classes junto com nossos inimigos.

Esse pacto se sustentou durante mais de 10 anos porque o PT prometeu e cumpriu acalmar os ânimos populares, desarmar as lutas combativas e dar estabilidade à exploração capitalista. Se mais gente tivesse ido às ruas em defesa de Lula, talvez esse papel voltasse a ser necessário às elites, mas não foi.

Quem tá fazendo memes do “acordão nacional, com Supremo, com tudo” nesse momento, tá esquecendo que o Sergio Machado disse assim pro Romero Jucá: “O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais”. É nesse acordo nacional que as mobilizações iriam colocar o Lula de volta, se conseguissem.

Agora, para quem não quer dar estabilidade e vida fácil para quem nos explora e humilha, para quem não tem horizonte de conciliação de classes, Lula lá de volta não seria uma vitória, assim como Lula impedido de concorrer também não é.

4. Sobre o significado dessa condenação para o fortalecimento da repressão, é preciso responder que o Estado Democrático de Direito e a Constituição não foram rasgados agora. Pra uma parcela enorme da população, eles nunca existiram. Antes de ser vítima, o PT é um dos responsáveis por isso. Durante os anos de governo PT, o encarceramento da população negra e pobre explodiu, cresceu mais de 200%. O PT criou a Força de Segurança Nacional, a Lei Antiterrotismo, defendeu as UPPs, militarizou as cidades na Copa do Mundo, só para dar alguns exemplos.

A judicialização da política foi uma tática central dos setores golpistas desde o início da sua ofensiva, como a CAB e outros já apontaram no início de 2016 (http://bit.ly/2DAXWeG). Mas ela dependeu da conivência do PT, que não buscou democratizar o Judiciário durante todos seus anos de governo. Pior que isso, o golpe parlamentar foi facilitado pelo poder intocado das grandes corporações de mídia, servidas com concessões irrestritas e amplas remessas de dinheiro público pelo PT durante todos os anos de governo.

Por fim, a repressão e criminalização das lutas sociais foi também marca dos governos do PT, sentidas por todas e todos lutadores combativos nos últimos anos, com militarização, prisões, processos, invasões, que vieram do próprio PT ou que foram ignoradas por ele. O fortalecimento do Estado repressor e punitivo não depende do PT para seguir, isso está nítido. O que é difícil de acreditar é que seu retorno iria frear essa tendência.

Não vejo nenhum sentido de justiça, muito menos vingança, em ver Lula ser condenado. Mas é preciso que seja analisado o trajeto que nos trouxe até esse ponto e o papel do PT em cavar essa cova, porque precisamos aprender com os erros cometidos.

5. Apesar do esforço de tantas e tantos de nós, a esquerda não tem força hoje para puxar mobilizações de massa capazes de reverter os ataques sofridos pelo conjunto dos oprimidos, como a Reforma Trabalhista demonstrou. Superar essa incapacidade coletiva precisa ser prioridade.

A estratégia que o PT articulou durante décadas se demonstrou insuficiente desde sempre e desastrosa em seu fim. O que quiser se propôr a alternativa precisa passar por fora do PT, no mínimo, porque precisa passar por fora da conciliação de classes com empresariado, grande mídia e partidos burgueses, assim como precisa passar por fora da militarização e repressão política e por fora do aparelhamento e desarme dos movimentos sociais e das lutas combativas. Senão não é alternativa, é tragédia.

Essa é uma tarefa em construção, aberta a todas e todos dispostos. Nós, anarquistas especifistas da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB, temos apontado a estratégia de construir um povo forte, ou seja, um conjunto das classes oprimidas capaz de se defender e avançar através de seus próprios instrumentos de luta, acumulando força social a partir da organização popular, ação direta e solidariedade de classe. Sem vender nossos princípios, sem descanso, sem desistir, continuaremos.

Mochileiros pedindo dinheiro em ano sabático deveriam ter vergonha de si mesmos

O texto abaixo foi publicado por Radhika Sanghani em 12 de abril de 2017 aqui no site inglês Telegraph.


Mochileiros vendendo postais na Tailândia. Créditos: Twitter

Mochileiros vendendo postais na Tailândia. Créditos: Twitter

Dê uma volta pela Khao San Road em Bangkok e você verá pessoas fazendo fila nas ruas pedindo dinheiro. Só que não são locais sem teto lutando para alimentar suas famílias; são mochileiros “gap yah” [1] que excederam seu orçamento semanal com drinks no bar do hostel #fail #YOLO.

Há um recente crescimento de “begpackers” – isto é, mochileiros pedintes – em alguns dos países mais pobres do mundo. Sua tentativa de financiar suas viagens através da mendicância, de apresentações nas ruas e, ocasionalmente, da venda de suas fotos de férias tem sido capturada e compartilhada nas redes sociais por viajantes com mais consciência social – e por locais enojados.

A maioria dos “begpackers” tem sido avistada no Sudeste Asiático, pela rota turística bastante trilhada entre Tailândia, Camboja, Laos, Vietnã e Malásia. Uma mulher da Cingapura, Maisarah Abu Samah, ficou chocada de ver dois casais brancos vendendo postais e tocando música por dinheiro.

“Nós achamos muito estranho pedir dinheiro para que outras pessoas te ajudem a viajar”, ela disse The Observers no France 24. “Vender coisas nas ruas ou pedir dinheiro não é considerado respeitável. As pessoas que fazem isso estão realmente necessitadas: elas pedem para comprar comida, pagar pela escola de suas crianças ou pagar dívidas. Mas não para fazer algo visto como um luxo”.

Viajar pelo mundo – mesmo em hostels baratos com um orçamento de 5 euros por dia – não é um direito concedido por Deus; é um luxo que milhões nunca terão. Mochileiros podem até justificar seu comportamento para si mesmos dizendo que não estão forçando ninguém, que realmente não conseguem pagar seu próximo vôo ou que estão se apresentando por dinheiro ao invés de pedir, mas no fundo certamente sabem que isso que estão fazendo é errado.

Não há como passar tempo em algumas das áreas mais empobrecidas do mundo e não ver a diferença entre ter seu smartphone roubado e não ter o que comer. Mesmo se você está viajando exclusivamente para usar a hashtag #peregrinação e ir a uma festa rave, é impossível ignorar a realidade da pobreza.

Mochileiros não podem – e não devem – nunca sentir que merecem os trocados de alguém quando estão se apresentando ao lado de outra pessoa que não comeu uma refeição adequada há dias.

Pessoas que não reconhecem isso são o ápice do privilégio branco. Elas acham que vender postais por alguns dólares é “hilário” e uma ótima história de viagem, enquanto estão potencialmente roubando clientes de alguma pessoa local que precisa desse dinheiro mais do que elas podem imaginar.

Um amigo, atualmente viajando no Sudeste Asiático, me disse: “As pessoas escolhem torrar dinheiro com bebidas, refeições e atividades caras, depois se perguntam por que ficaram sem grana. Viajantes em ano sabático podem gastar o salário mensal de um local em apenas um dia. Eles não têm nenhum direito a reclamar ou pedir. É nojento e sem noção. Se estão realmente sem dinheiro, não tenho dúvida de que podem vender seus iPads”.

Há inúmeras alternativas para mochileiros que ficaram sem dinheiro, como trabalhar em hostels ou participar de programas onde eles podem trabalhar em troca de acomodação. Não há necessidade alguma de sentar com suas sandálias Birkenstock e calças de yoga com placas onde se lê: “Estou viajando pela Ásia sem dinheiro. Por favor apoie minha viagem” – um cartaz real com o qual um homem foi fotografado.

Em anos recentes, houve também um crescimento em pessoas fazendo financiamento coletivo de suas viagens. Não é mais surpreendente ver um casal pedir doações para sua 5ª lua de mel em vez de presentes de casamento, ou ver alguém abrir um Kickstarter pedindo ajuda para financiar seu programa de voluntariado no exterior.

É o equivalente moderno das pessoas pedindo para seus amigos assinar seu formulário de patrocínio na escola – e está passando do limite.

Mochileiros estão tão convencidos de que estão “retribuindo” ou “vivendo uma importante experiência cultural” que perdem de vista o que estão realmente fazendo: pedindo para as pessoas por uma injeção de dinheiro em seu feriado. Já é ruim quando turistas vão em “tours na favela” em países subdesenvolvidos e tiram fotos dos pedintes, mas quando se juntam a eles para poder pagar por seu rafting radical, eles levaram seu sentimento de direito e merecimento longe demais.


[1] “Gap yah” é uma expressão criada por uma série de vídeos britânicos no YouTube que você pode acompanhar aqui. Ela se refere a estudantes britânicos de classe média-alta que tiram um ano sabático para viajar antes de entrar na Universidade e escolhem locais de terceiro mundo com uma atitude de fetiche sobre a pobreza e a colonização. Nota da tradução.

Polícia e escola junto não dá, a lógica é incompatível

Texto publicado aqui no facebook em 18/11/2017.


Por motivos de trabalho, frequentei alguns anos atrás uma escola pública de outro Estado que atende principalmente juventude de periferia. Em uma visita, tirei essa foto da parede de uma turma de primeiro ano do ensino médio. No canto, borrei o nome e o símbolo de uma facção da região, pois não importa nesse momento qual é.

As outras trabalhadoras que estavam visitando a escola logo repararam esses escritos, pois o nome da facção estava pixado por toda a sala. Soubemos que a Polícia Militar tinha entrado nessa sala de aula algumas semanas antes. Juntando com algumas informações sobre comportamento de estudantes, logo chegamos na hipótese de que aquela turma era “difícil”, que vários desses jovens estavam nas mãos do tráfico e que frequentavam a escola apenas para desafiá-la.

Mas ao conviver um pouco mais com eles, essa explicação se tornou cada vez mais insuficiente.

Um dia, perguntei para um dos professores da escola por que a PM entrou naquela sala. O que ele me disse é que não houve nenhuma denúncia específica naquela turma, apenas uma visita de rotina da polícia dentro da escola, onde entraram em várias turmas. O professor me disse que aqueles jovens não eram do tráfico, só pixaram a sala por indignação com a abordagem da PM na sala. Segundo ele, foi uma atitude de “revolta”.

Isso aqui é Brasil. Quem trabalha no serviço público ganha mal e precisa fazer do possível e impossível para cumprir suas tarefas sem a estrutura mínima necessária. A gente atende essa enorme parcela da população sem oportunidade nem direitos mínimos, das quais muitas vezes nós próprios fazemos parte.

Tem uma massa de jovens que não enxerga qualquer horizonte profissional, sua forma de cantar e dançar é criminalizada, sua pipa ou a pelada resistem em uma cidade que não reservou espaço nenhum para eles. Sua família adoece e sofre nas filas ou nos recibos dos remédios. Nossa escola, ainda que precarizada, é a migalha que o Estado oferece a essa juventude. A escola precisa reconhecer essa realidade para pensar qual estratégia é capaz de disputar um horizonte junto a esses jovens.

Mas aí vem a PM com outra estratégia. A nossa polícia é militar porque ela é uma estrutura de guerra. É por isso que ela trata a população negra e pobre como inimiga, por isso que ela mata tantos dos nossos e nossas. A polícia entra em uma escola de periferia como os EUA invadindo um país estrangeiro: busca controlar o território demonstrando sua presença e seu domínio pela força.

A consequência disso é previsível. Muito mais do que a escola, a PM é o símbolo do Estado, é o sistema. Mas o sistema só oprime, então a juventude é jogada para a força que se insurge contra esse sistema, infelizmente a única força que eles têm acesso cotidiano e que mostra capacidade de enfrentar esse sistema, as facções.

Tem quem acredite que esse é o único caminho possível para essa juventude periférica. Nós, que acreditamos na escola pública, não achamos. Temos outro plano para essa juventude, mas a invasão da PM em nosso espaço de trabalho é um obstáculo para nossa estratégia. A PM implementa uma lógica oposta à lógica da escola.

Essa juventude também acredita em outro caminho possível. Quem olhar a foto novamente, com mais atenção, vai ver outro escrito, feito a caneta, muito sutil: “Em vez de me prender, por que não voa comigo?” Fazer essa juventude voar é tarefa nossa, que a polícia fique longe disso.

Onde estão os “professores legais”?

O texto abaixo foi escrito em 20 de agosto de 2015, por Flora, Samantha e eu, que publicamos ele aqui no portal UFSC à Esquerda. Em outubro daquele ano escrevi uma avaliação dos impactos desse texto, junto a uma interpretação sobre a greve estudantil, que está aqui.


Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo.​” – Paulo Freire

Sinceramente? Cansamos dos “professores legais” da Biologia. Cansamos daqueles que se dizem “críticos”, daqueles que falam sobre “outras cosmovisões”, que falam sobre a realidade de “outros sujeitos”, sobre “comunidades tradicionais e povos originários”, cansamos especialmente daqueles no campo da educação que se dizem “freireanos”. Não é que essas ideias não sejam fundamentais para o curso, pelo contrário, nem que esperamos só desses docentes que tomem ações. O problema é o abismo que vem separando o discurso da prática.

A Universidade Pública Brasileira vive um verdadeiro desmonte. Não se trata apenas de uma crise orçamentária, mas de um projeto deliberado de ataque à educação pública. Senão, como explicar que os R$12 bilhões de reais em verbas cortadas nesse ano coexista com um novo investimento de R$5 bilhões no Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), programa que financia indiretamente as Universidades Privadas?

Como explicar a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), uma empresa pública de direito privado para gerir os Hospitais Universitários na lógica de mercado? Ainda, como explicar a aprovação pelo Supremo Tribunal Federal da contratação através de Organizações Sociais (OSs) em toda a Administração Pública, incluindo Universidades, Hospitais e Institutos? Com isso, não será mais necessário haver concurso público para a contratação de servidores e docentes, uma forma clara de precarização das condições de trabalho. As políticas para a educação no país caminham a passos rápidos para formas privatistas e mercadológicas.

Não se trata apenas da necessária luta em defesa da educação pública, como isso já não fosse o bastante. Os mesmos professores que falam sobre educação popular, sobre outra forma de extensão universitária e sobre valorizar os conhecimentos tradicionais têm se mostrado incapazes de olhar para as condições de acesso e permanência de estudantes.

Existe uma transformação clara no perfil do estudante na UFSC, após quase dez anos de aumento progressivo de vagas e da criação e fortalecimento das políticas de ações afirmativas. Uma enorme leva de estudantes das classes populares agora ingressa na Universidade, mas estão sendo recebidos com total descaso sem Restaurante Universitário, sem novos editais na PRAE, sem vagas na Moradia Estudantil, com corte de bolsas de pesquisa e extensão, com cortes anunciados no auxílio­moradia. Estudantes pobres, negros, estudantes com filhos e estudantes indígenas serão os primeiros a abandonar a Universidade caso a Reitoria e docentes continuem fingindo que há condições para manter esse semestre. Na verdade, isso já está acontecendo.

Em que pese todas as dificuldades de permanência para estudantes, nos mobilizamos para uma Assembleia Estudantil da Biologia nessa quinta (20), parte de um esforço de unidade na luta pela Universidade Pública firmado na Assembleia Comunitária da UFSC na semana passada, onde servidores docentes, servidores técnicos e estudantes dialogaram e tiraram encaminhamentos juntos.

Para nós, é essencial reconhecer a coragem e disposição de vários docentes e TAEs que estão na luta e construíram essa mobilização conosco através do Comando Unificado de Greve, discutindo lado a lado a conjuntura da UFSC, escrevendo panfletos e até preparando os almoços do ato que chamou a Assembleia Comunitária, dando um exemplo real de uma educação crítica, dialógica e transformadora. Será que podemos contar com os docentes do CCB nessa luta?