Carta a Patrícia

homenagem a uma desconhecida #1


te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía
(mario benedetti)

É tempo de Escola Sem Partido (Escola do Partido Único), de Psicologia da sexualidade única (heterossexual), de consenso neoliberal na economia, de uma esquerda que insiste em uma estratégia única de vitória eleitoral através da conciliação com o poder. A gente precisa desesperadamente de dissenso. Precisamos das pessoas do contra.

Mas não é isso que temos construído.

Além da bomba, além da algema, além do processo judicial, além da violência patriarcal, além da ameaça de fome, da corda no pescoço, tem mecanismos mais sutis de manufaturar consentimento, normatizar, disciplinar os corpos, domesticar as ideias.

Quem aguenta ser, o tempo todo, a pessoa “radical”? Quando acaba a reunião, a assembleia, a aula, o almoço de família, quem permanece com o peso de ter trazido a discórdia, de ter levantando a crítica, quem segura o peso da responsabilidade pelo conflito? O que garante promoção de salário, nome em artigo, fim de semana na casa de praia, festinha open bar e open food, o que garante acordar de conchinha no domingo de manhã, é ser conveniente. Conivente. Congruente.

Taxar as pessoas “polêmicas”, “revoltadas”, construir seus muros de segurança e conforto com elas para fora, são escolhas políticas. Queimação implicitamente orientada por um projeto de sociedade que não é nosso.

É tarefa cotidiana, agora mais que nunca, produzir corpos, sujeitos e valores incômodos. Isso começa com a base material, estrutural, socialização dos meios de produção da crítica, mas está também na subjetividade. Precisamos agradecer, vibrar, acolher Pagu e seu crime sagrado de ser divergente. Vai ser desastroso estigmatizar a diferença, repelir o desassossego, afastar a pessoa que incomoda, porque incomodar está cada vez mais difícil.

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Ser uma força da Natureza

homenagem à metodologia de pesquisa #2


Uma seta e quatro letras de l-u-t-a.

Ser uma força da Natureza: implacável. Passível de derrota, mas não de desistência. A força da Natureza nem sempre vence, mas ela não se adapta. O mundo se adapta a ela. A força social é uma força natural.

Ser um raio, uma ventania, uma tormenta. A porra da própria gravidade. A chuva não se importa quem vai molhar, ela cai. Não concede, não vacila.

É o córrego que abre o cânion. O vento que desenha a montanha, mesmo que nunca a derrube. Aliás, nenhuma montanha dura para sempre.

Não se supera o Sol. Não se supera a maré. A onda transforma o rochedo em praia e continua.

O rio de Brecht que tudo arrasta. O vulcão não negocia, a lava leva o vilarejo. A avalanche deslancha megatoneladas de quinhentas casas duas mil pessoas todas as leis vaidades prazos vírgulas com a vontade da primeira pedra rolar rolar rolar.

Uma queimada só se impede na primeira chama. O cerrado vermelho em nuvens irresistíveis de calor e labareda.

Seremos um metero, uma força inimiga da NASA, da CIA, da GRANA. Ingovernável.

Projeto 2020

O texto abaixo foi circulado por e-mail em 22 de agosto de 2016, só entre pessoas de confiança, a partir das afinidades de ideias e práticas entre estudantes ou ex-estudantes de Biologia na UFSC. Agora que a situação de vida é outra, acho que dá para ter ele publicado aqui abertamente. A aposta nesse projeto de vida segue viva.


tenho 25 anos
de sonho e de sangue
e de américa do sul…
Amigas e amigos,

escrevo para vocês que compartilharam comigo momentos no CABio, GEABio e EREBs, principalmente. Para aquelas e aqueles, dentre nós, que já apontaram seus caminhos pra educação, ou que ainda não sabem que caminho trilhar.

Essa mensagem não existiria sem dois momentos simples, mas muito importantes: uma conversa (alcoólica) com a Mariah sobre projetos de vida e uma entrevista que eu respondi pra Bianca. Quem sabe esses momentos se tornam marcantes para mais gente?

Licença aqui para eu falar um pouco da minha vida.

Desde fevereiro estou dando aula em duas escolas de São José, na EJA e no ensino médio noturno. Uma escola mais central (Kobrasol) e uma escola na periferia (Zanellato). Também tô morando no Roçado (São José), um bairro pra lá da BR-101, feito de casinhas baixas, festa junina de bairro, cadeira de praia na calçada e tardes de domingo com pagode no volume máximo. Só na minha rua moram quatro estudantes que eu dou aula. Se eu ando pelos comércios do bairro, também sempre encontro alguns trabalhando.

Nas minhas turmas, a idade vai de 15 a 65 anos. Embora existam contextos bem variados, a maioria trabalha em empregos precários: faxineiras, seguranças, atendentes, ambulantes, ajudantes de cozinha. As pessoas que fazem a cidade acontecer. Muita gente pensa em fazer faculdade; mas, por uma perversidade da nossa sociedade, o acesso às faculdades privadas é mais fácil para eles.

Nas minhas turmas, tem pai, mãe e filho estudando juntos. Tem aluno surdo com intérprete em Libras. Tem aluno diagnosticado com TDAH, aluno que chega trincado da cocaína, aluna sem diagnóstico que precisa urgentemente de atendimento psicológico. Tem aluna trans. Tem muita, muita gente com dificuldade para interpretar textos básicos.

Eu estou muito feliz com o espaço da sala de aula e o convívio extraclasse com estudantes. Não posso dizer o mesmo da sala dos professores.

Professoras e professores pensam e falam mais sobre férias e sobre faltar aulas do que estudantes. A maioria está desgastada e desinteressada no que faz para viver. É o resultado de uma conta complexa que envolve a desvalorização social e financeira, as más condições de trabalho, falta de horizonte profissional, repetição e ritualização da prática docente, mas também a dificuldade ou incapacidade em criar uma sala de aula interessante e significativa. No limite, a sensação é de que a escola é uma prisão e ali você é o agente prisional. Se estudantes reclamam a cada vez que você entra em sala, é fácil de explicar o desconforto, estresse, crises de pânico e enorme número de professores em licença médica.

A rotina escolar também envolvem uma série de burocracias e rituais que todo mundo cumpre sem ânimo e sem reflexão. Parece um pacto de mediocridade, estimulado pela estrutura escolar e pelas direções, onde ninguém se questiona e nada se transforma, assim se evitam os incômodos e desconfortos. Tudo vira ponto, assinatura, chamada, nota e contabilidade. A equipe escolar está sempre ocupada com problemas e você é bem visto por passar despercebido, sem arranjar mais pepinos.

É claro que nem tudo está morto. Mas mesmo onde surgem ideias, debates ou projetos, às vezes não se encontra muita esperança. Em seis meses de trabalho, várias histórias me vêm à mente. Penso na vez em que a professora evangélica conseguiu apoio da Secretaria de Educação pra fazer a saída de campo no show gospel. Lembro do professor de história que defende cobrança na educação pública, para imitar o modelo que ele diz que conheceu na Alemanha. Os professores de esquerda, colegas de greve, chamando os alunos de “ignorantes” e “fascistas” por terem apoiado o Fora Dilma – saibam que professores falam tão mal dos alunos quanto vice-versa, no mesmo nível de refinamento. Teve também o professor aposentado explicando a posição social dos negros porque “não têm ambição” e “ainda vivem como caçadores nas tribos da África”. A diretora – indicada pela prefeita – que fez todo mundo trabalhar domingo pra levar estudantes na passagem da tocha olímpica.

Me chamou muita atenção quando estudantes me agradeceram por ser “imparcial” ou por “respeitar as visões deles”. Nunca dei “aula neutra” nem deixei de colocar opiniões controversas em sala. Junto com os exemplos acima, isso só me confirmou que o sentido da educação tá em disputa e essa disputa não é sutil. Mais importante ainda: essa disputa está em aberto, inclusive em aberto pra gente, e os impactos dela podem ser gigantescos.

Seis meses, 8 turmas, preciso reconhecer que as experiências ainda tão no começo. Mas já deu pra fazer bastante coisa.

Deu pra fazer debate sobre epidemia de zika discutindo falta de saneamento básico e direito ao aborto com todas as turmas. Discutir sexualidade falando sobre pessoas assexuais, lésbicas, gays, bi, trans, queer, pan, intersex. Discutir sexualidade falando sobre saúde física e mental, acesso às políticas de saúde – todo mundo é usuário do SUS –, consentimento, prazer. Dar apoio pra um aluno gay que tava sofrendo bullying, mesmo quando a Direção da escola disse pra “ele resolver os problemas sozinho”. Tirar tempo das aulas de genética para falar que cromossomo não define gênero nem sexualidade. Ler poesia sobre a África. Discutir a inexistência genética das raças, mas sua existência social bem concreta. Ler poesia sobre a violência policial. Apresentar leis de conservação ambiental, discutir especulação imobiliária e crescimento desordenado. Falar sobre espécies invasoras e extinções. Discutir alimentação saudável. Falar sobre drogas, redução de danos, legalização. Apresentar evidências da evolução e discutir relação ciência-religião. Mostrar que cientistas discordam entre si. Conversar sobre a greve. Convocar estudantes a participar da luta contra o aumento das passagens de ônibus. Fazer assembleia de avaliação das nossas aulas.

Dá pra fazer muito, muito mais coisa. Não é só o conteúdo trabalhado em sala de aula; a escola enquanto instituição é igualmente importante. Nenhum espaço hoje tem a capacidade de articular, juntar, mobilizar, oxigenar uma comunidade como a escola – no máximo os espaços religiosos, dependendo do local. A estrutura física, as festas escolares, o atendimento social, o diálogo com as famílias, o respeito da comunidade, a participação em conselhos de discussão e deliberação pública: tudo isso coloca a escola numa posição bem privilegiada para ser um agente de mudança social.

Existe uma disputa pelo aumento de democracia na gestão escolar, que é fundamental para que possa exercer esse papel – as eleições democráticas para Direção são novidade na rede. Ao mesmo tempo, é só pela enraizamento no espaço geográfico e social da escola que a gente pode entender as necessidades e potencialidades daquela localidade. Eu recém cheguei no bairro ao lado da escola, mas sei que esbarrar em estudantes pela rua, nos espaços de trabalho e convívio, já faz uma diferença real na participação e interesse pelas discussões e pela aula.

Quantos bairros da Grande Florianópolis não precisam discutir Plano Diretor, áreas de conservação, especulação imobiliária? Quantos precisam de um apoio para mobilizar na defesa de saneamento básico, áreas de lazer, mobilidade urbana acessível e sustentável? Quantas comunidades precisam discutir violência policial, violência LGBTfóbica e contra a mulher? Quanta biodiversidade não tá esquecida, quanta cultura e tradição sendo perdidas? A escola é um espaço para mobilizar isso tudo.

O Projeto 2020 é esse: trabalhar em alguma escola de bairro, morar na comunidade, criar laços e disputar um projeto de educação e um projeto de escola que criem um povo forte. Envolve disputar a sala de aula, o currículo, a juventude, mas também os bairros, os conselhos, as direções das escolas, as formações pedagógicas, as greves, o sindicato. Até 2020, quem tá no mestrado agora ou entrando ano que vem já vai ter saído; quem tá na graduação vai ter se formado ou quase, então já vamos ter um caldo bem grande. Pra quem tá na Universidade ainda, já tem muita disputa pra fazer na valorização da licenciatura, na extensão universitária e na (auto)formação pra chegar em 2020. Pra quem tá saindo agora, tô juntão pra ajudar no que for preciso nessa transição assutadora entre Universidade e sala de aula.

Só pra mim, pessoalmente, esse projeto já vale a pena. Inclusive, vale mais a pena que tentar uma carreira acadêmica, sair viajando por aí, ir morar em outro país. Todos esses projetos de vida são legais e muitos de nós também pensamos neles, mas eu reconheci que esse aqui envolve mais elementos do que eu quero pra minha vida.

Só que essa iniciativa é do tipo onde atua a sinergia, multiplicação dos esforços, onde a soma de 1 + 1 é maior que dois. Se formos dois vai ser muito; se formos oito vai ser incrível; mas se formos vinte ou trinta educadoras e educadores espalhados pela Grande Florianópolis, aí vai ser revolução.

Quem tá junto?

poética-te

homenagem à metodologia de pesquisa #1


bola rola cinética
semeia sentido fonética
fome afronta ética
alforria alegria estética

natureza cultura mimética
cor tato flor sintética
casa caiu caquética

brancura urdidura asséptica
mente monofilética
poética-te

Não esqueçam das profundas veias que compartilhamos com os povos irmãos da América Latina

Texto publicado no facebook em 01 de setembro de 2017, acompanhando a nota da Federación Anarquista de Rosario sobre o desaparecimento de Santiago Maldonado e a luta mapuche.


Não esqueçam das profundas veias que compartilhamos com os povos irmãos da América Latina.

Faz um mês que uma força do Estado argentino sumiu com Santiago Maldonado, um militante que estava junto ao povo indígena mapuche. Não sabemos onde ele está e se está com vida. Hoje acontece uma grande manifestação, em diferentes lugares da Argentina, em defesa de sua aparição com vida.

Ontem, na cidade de Córdoba, a polícia invadiu dezenas de sedes sociais, ateneus, centros comunitários onde se organiza a esquerda argentina. As primeiras batidas foram nos espaços puxados por anarquistas. Foram detidos companheiros, além da apreensão de diversos materiais dos movimentos, faixas, baterias, até mesmo comida, numa tentativa de amedrontar o campo popular.

O povo argentino já respondeu que não vai se intimidar. Hoje tomam as ruas pela aparição com vida de Santiago Maldonado e pela autodeterminação do povo mapuche. Tomam as ruas, também, pela própria liberdade de lutar.

Nesse continente, fodido mas rebelde, os ataques dos de cima não costumam distinguir onde estão as fronteiras dos países. E nós? Nós não podemos esquecer das profundas veias que compartilhamos com os povos irmãos da América Latina.

Mais informações:
Aparición Con Vida Ya De Santiago Maldonado
Federación Anarquista de Rosario
Organización Anarquista de Córdoba

Angela Davis: A esquerda mundial irá falhar se não entender a feminização da força de trabalho

A entrevista abaixo foi publicada em dezembro de 2016 no site The Wire, ela foi realizada por Sidharth Bhatia com Angela Davis antes de uma palestra que ela realizou na Índia. O original em inglês pode ser lido aqui.

 


O capitalismo global ataca principalmente as minorias étnicas¹, diz a renomada ativista

Angela Davis. Crédito: Oakland Local/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Angela Davis é uma intelectual excepcional. Ela é uma acadêmica, ativista e escritora. Richard Nixon a chamou de “terrorista” e o governador da Califórnia, Ronald Reagan, pediu que ela fosse barrada de lecionar na Universidade da Califórnia. Nos anos agitados e politizados de 1960 e 1970, Davis – com sua marca Afro – era um nome que recebia o mesmo nível de reconhecimento, admiração e condenação. Ela era uma militante radical, líder do Partido Comunista dos EUA, além de ser muito próxima dos Panteras Negras.

Davis foi condenada por conspiração, ao ser relacionada à invasão armada de um tribunal na Califórnia nos anos 1970, onde quatro pessoas foram mortas. Ela foi presa por 16 meses, período no qual uma campanha mundial foi realizada exigindo justiça em seu nome. Enfim, ela foi liberta sob fiança e posteriormente absolvida de todas as acusações.

Celebrada em filmes, músicas e nas artes, Davis esteve diretamente envolvida nas campanhas contra o racismo e o que ela chama de “complexo industrial-prisional”. Em Mumbai para palestrar no memorial anual Anuradha Ghandy, ela conversou com The Wire sobre os movimentos de esquerda, o capitalismo global e a vitória de Trump.

Desde o movimento Panteras Negras nos anos 1960 até agora, como você vê o progresso das relações raciais nos EUA?

É importante não ignorar o progresso que aconteceu. Em vários sentidos as coisas estão melhores, principalmente devido às lutas realizadas por movimentos radicais ou progressistas e pelos movimentos antirracismo. Mas, ao mesmo tempo, o racismo não mudou substancialmente. Isso está relacionado à força com que o racismo está imerso nas estruturas da sociedade estadunidense. Enquanto a ênfase geralmente tem sido nas expressões individuais ou atitudinais do racismo, as formas institucionais do racismo permanecem intocadas. Muitas pessoas têm a impressão de que, por tanta violência policial que vemos hoje, isso é um fenômeno novo, mas a verdade é que esse fenômeno está conosco desde a época da escravidão.

O Partidos dos Panteras Negras foi fundado exatamente sobre a premissa de que era importante combater a violência policial nas comunidades negras. Embora o impacto dos Panteras Negras tenha sido profundo, particularmente no que diz respeito à consciência do papel da política e das prisões na manutenção do racismo nos EUA, essas estruturas não mudaram substancialmente.

Por que isso aconteceu?

Em alguns casos elas até pioraram, particularmente por causa da emergência do capitalismo globalizado, que teve como impacto a deterioração da vida de minorias étnicas e pobres como resultado do processo de desindustrialização, a saída de corporações dos EUA para partes do mundo onde os trabalhadores não estão organizados, onde a força de trabalho pode ser comprada muito mais barato. Isso causa uma perda para as pessoas que precisam de empregos no setor produtivo e muitas vezes elas recorrem a mercados clandestinos, o que as torna vulneráveis à polícia e às prisões. Isso é um exemplo de como condições históricas são agravadas pelo desenvolvimento do capitalismo e das ideologias neoliberais.

Mas nada substantivo mudou, mesmo durante os oito anos de presidência do Obama?

Eu acho que é importante não subestimar o significado da eleição de Obama. Mas não estou falando tanto da conquista do indivíduo, mas dos movimentos que foram responsáveis por alcançar o que parecia impossível. De forma que, se mudamos a perspectiva, do indivíduo que foi o primeiro presidente negro a ocupar o posto mais alto dos EUA para os movimentos que possibilitaram que tal pessoa fosse eleita, podemos enxergar além da esperança de eleger tal presidente – que ainda é o presidente dos Estados Unidos da América capitalista – para ter a esperança de um futuro muito diferente. E me parece que, precisamente porque essa esperança não pode ser cumprida através da presidência, esses movimentos cresceram e se expandiram. Eu gosto de pensar em movimentos produzindo a mudança histórica, não o indivíduo.

Foto de arquivo de Angela Davis (esquerda) e a cosmonauta russa Valentina Tereshkova (direita). Créditos: RIAN Archive.

Como a esquerda estadunidense e a esquerda global responderam a essas mudanças na economia mundial?

A esquerda, da forma que a conhecemos, por mais importante que tenha sido, não pode manter a mesma força a não ser que lide adequadamente com esses desenvolvimentos. Portanto, é importante para a esquerda reconhecer que a constituição das classes trabalhadoras mundiais é muito diferente agora. De várias formas, a esquerda ainda está lidando com essa noção das classes trabalhadoras como brancas, ou de homens brancos, como no caso dos EUA. Acho que o feminismo, o feminismo radical², o feminismo antirracista e anticapitalista nos ajuda a fazer a reconceitualização que é necessária para produzir uma esquerda mais alinhada com as vastas mudanças ocorridas na era do capital global, reconhecendo a feminização da força de trabalho, as mudanças estruturais na economia mundial, o fato de que alguns ramos produtivos são amplamente compostos por mulheres, ramos baseados no trabalho reprodutivo, no trabalho de cuidado e criação das crianças, serviço doméstico, assistência de saúde, etc. Me parece que, de várias formas, centrais sindicais por todo o mundo não estão dispostas a reconhecer essas mudanças. Organizar o desorganizado, nesse momento, é organizar as mulheres.

Existe um argumento, muitas vezes dito, que classe é mais importante do que raça. Aqui na Índia, a esquerda se focou mais em classe do que em casta, por exemplo.

Se olharmos para a última campanha presidencial nos EUA, Bernie Sanders vocalizou uma importante mensagem, uma mensagem anticapitalista. Ao mesmo tempo, ele não falou necessariamente às pessoas que estão no que as feministas chamam de intersecções. O racismo não é só uma função da classe. Não se pode presumir que abolir o capitalismo é também abolir o racismo. É preciso abandonar essas análises reducionistas e desenvolver análises mais complexas que reconheçam a sobreposição, a inter-influência e a intersecção dessas questões.

Por todo o mundo estão crescendo forças de extrema-direita e ultranacionalistas. Isso combina com o capitalismo neoliberal e globalizado?

Sim, especialmente o racismo – e formas de racismo, discriminação, como a xenofobia, sentimentos anti-imigrantes, ou, na Índia, o sistema de castas. Infelizmente a esquerda sempre presumiu que se deve focar na classe trabalhadora e todas essas coisas serão resolvidas. Mas políticos de direita são capazes de criar bodes expiatórios e guiar a compreensão popular dos impactos do capitalismo globalizado para esses bodes expiatórios: imigrantes, muçulmanos, pessoas negras, dalits. Pense na conferência de Durban em 2001 sobre racismo, onde a Índia insistiu que as castas eram uma questão interna e portanto não faziam parte das agendas mundiais de estratégias para combater o racismo.

Quando se olha para os EUA, onde aconteceram os protestos de Ferguson no verão de 2014, antes disso, havia uma relutância esmagadora em se falar sobre raça e racismo. A premissa era, uma vez que Barack Obama foi eleito, então passamos a uma era pós-racial. Agora, em menos de dois anos, raça está bem no centro do debate político nos EUA. Isso nos mostra como protesto, organização e mobilização na luta de massas pode causar guinadas em um período muito curto de tempo.

Os EUA acabaram de ter eleições marcantes com um resultado chocante. A grande maioria esperava que Hillary Clinton vencesse. Em sua opinião, o que deu errado para ela e os Democratas? Para onde os EUA estão indo agora?

Pouquíssimas pessoas previram a eleição de Donald Trump. Havia uma presunção generalizada de que, independente de quais fossem as afinidades políticas das pessoas, Clinton iria ganhar. Acho que até mesmo Trump pensou que Clinton venceria (risos). Minha sensação, e estou acompanhada por muitos militantes radicais aqui, é de que nosso papel era exatamente evitar a vitória de Trump, por causa do impacto disso na história futura. A Suprema Corte, por exemplo, a possibilidade de que sua gestão possa desfazer muito do que aconteceu na gestão Obama e foi produtivo, como o esforço para garantir que jovens imigrantes, sonhadores, tivessem a possibilidade de se tornarem cidadãos, permanecer nas escolas e outras instituições. Ou o sistema de saúde pública, mesmo que não tenha sido aquilo que deveria.

Clinton era muito relacionada a Wall Street e raramente fez algum comentário sobre a necessidade de abordagens anticapitalistas; ela só começou a mudar timidamente sua abordagem após ver o apoio que Bernie Sanders estava recebendo. Algumas das pessoas que votaram em Trump argumentaram que foram totalmente esquecidas pelo Partido Democrata, que Clinton nunca mencionou a classe trabalhadora. Ela falou sobre os mineiros como se fossem dispensáveis – “ah, sim, você precisa de um novo emprego”. Então reconheci que o apelo deveria ter sido direcionado à classe trabalhadora, às pessoas pobres, às minorias étnicas, que é de onde pode surgir um futuro progressista naquela parte do mundo, a possibilidade de uma aliança. Infelizmente isso não aconteceu e Trump conseguiu apontar para os muçulmanos, aos imigrantes e às minorias étnicas como bodes expiatórios. Aqueles que historicamente votaram nos Democratas mudaram seu voto para Trump porque ele estava dizendo que sua situação era o resultado direto dos muçulmanos, de imigrantes, e que chutá-los do país, construir um muro em nossa fronteira, poderia magicamente trazer seus empregos de volta.

Trump também está falando sobre a perda de vagas de emprego para a Índia, China, Indonésia. Ele vai trazer esses empregos de volta?

Eu não acho que ele vai trazer esses empregos de volta. Ele tomou uma posição anti-globalização, a qual muita gente respondeu. Mas o próprio Trump se beneficiou enormemente; todos seus negócios são baseados no capitalismo global. Então ele pode se envolver em alguns esforços simbólicos, como ele fez a respeito dos empregos em Wisconsin, mas não vai reverter o impacto do capitalismo global. A forma em que se pode lidar com essas mudanças não é pedindo retorno a uma época passada, não é falar sobre como fazer a América grande novamente, mas falar sobre o que é necessário nesse contexto e como é possível criar centrais sindicais mundiais e unidade para que os capitalistas dos EUA não possam apenas se mudar para outra parte do mundo e encontrar força de trabalho mais barata.

Você trabalhou com o tema da reforma prisional e criou o grupo Critical Resistance³ [Resistência Crítica] nos anos 1980. Ele surgiu com o foco nas prisões privadas, o “complexo industrial-prisional”, mas isso logo se tornou maior e pior. Isso está baseado em mais e mais prisioneiros e, portanto, mais e mais lucros.

Absolutamente. E esse é um âmbito onde se pode ver como racismo é parte dramaticamente integrante da estrutura. Pense em punição – o racismo sempre carregou a punição nos EUA, desde a época da escravidão. Nos anos 1980, com o ascenso da globalização que levou à desindustrialização, ao desmonte da assistência social, ao crescimento do neoliberalismo, quando havia uma premissa de que bens públicos deveriam ser transformados em estruturas que gerassem lucro privado, vimos o declínio das corporações na metalurgia, automobilística, etc. As primeiras pessoas a perder empregos foram aquelas que haviam conseguido emprego por último e aconteceu de serem pessoas negras e minorias étnicas.

Quando elas não puderam continuar construindo a vida que tinham antes, acabaram buscando outros meios e vimos o crescimento dos mercados clandestinos, que foi seguido então pela demanda por lei e ordem. Ao mesmo tempo, houve um fortalecimento em instituições, prisões, que capturam aqueles que se tornam dispensáveis. Durante os anos 1980, vimos um incrível crescimento nas populações carcerárias, um aumento na construção de prisões, a emergência de um mercado das prisões privadas e a emergência da corporativização do processo punitivo.

Emprestamos o termo complexo industrial-prisional do acadêmico-ativista Mike Davis, que o usou para se referir primeiramente à situação da Califórnia. Nós usamos o termo para apontar a nova confluência de punição, corporações, mídia, políticos; nós o vemos como um conjunto de relações, não apenas como a construção de novos complexos prisionais. As ligações são econômicas, políticas, ligações midiáticas que são todas altamente lucrativas. Os EUA possui agora um quarto de toda a população encarcerada mundial e a maioria é de minorias étnicas. Vemos agora esse modelo ser exportado para a Europa, América do Sul e África. Esse modelo é, de fato, um fracasso em lidar os reais problemas sociais e econômicos, mas agora a própria punição se tornou rentável.

¹: Angela Davis usa o conceito de “people of color”, um termo em inglês que engloba pessoas negras, asiáticas, indígenas e latinas. O termo é geralmente reivindicado por militantes desses grupos, ao contrário de “colored people”, que geralmente é utilizado apenas para se referir a pessoas negras, com caráter preconceituoso. Nessa entrevista, “people of color” será traduzido por minorias étnicas, entendendo que esses grupos foram historicamente considerados como minorias políticas, mesmo quando são a maioria da população. (N. da T.)

²: Nos EUA, o termo “radical” é muito utilizado para caracterizar um campo político mais à esquerda, da forma como utilizamos “combativo” ou “revolucionário”, então Angela não se refere necessariamente à corrente do Feminismo Radical. (N. da T.)

³: http://criticalresistance.org/

Proposta de Congresso do Centro Acadêmico de Biologia UFSC

O texto abaixo foi publicado em 30 de junho de 2016 no grupo interno de facebook do Centro Acadêmico de Biologia – UFSC. Como gostei da proposta, coloco ela aqui publicamente, quem sabe interesse a outros Centros Acadêmicos, em especial aqueles autogestionados. Esse comentário surgiu após uma longa discussão sobre uma decisão que havia sido contestada por sobrepôr acordos prévios do CA a respeito do uso do espaço físico.



Oi gente. Só estou fazendo uma disciplina, vou uma vez por semana pra UFSC, não tenho como ir nas reuniões do CA nem construir nada que eu vou propôr. Só pra deixar isso claro.

Eu venho alimentando um sonho, desenvolvendo ele, agora acho que chegou a hora de sugerir. Vai ser só uma sugestão, porque é isso que eu consigo fazer. (Tem a ver com essa discussão aqui.)

1. Quem disputa eleições para DCE ou Centros Acadêmicos costuma justificar esse esforço com o argumento de que “é um bom momento para fazer discussão política”. Eu acho que esse argumento tem fundamento.

2. Nosso modelo de autogestão tem sido interpretado muitas vezes como “cada um faz o que quiser”. Eu não acho que seja isso, mas eu entendo que essa impressão não vem à toa. Durante muitos anos, participei do CA e me envolvi em coisas através do CA sem ter apoio ou mesmo acordo com outras pessoas que frequentavam as reuniões.

3. A situação “2” é positiva porque permite um CA amplo, onde junta vários interesses distintos: quem quer organizar Bio na Rua organiza, quem quer participar do Conselho participa, quem quer pensar a calourada pensa, quem quer ir pra Ponta do Coral vai, etc.

4. Porém, a situação “2” é ruim porque pode criar um CA sem identidade, sem posições coletivas e, consequentemente, um espaço de representação individual e não coletiva.

Exposto esse problema, surge a pergunta: de que forma o CA pode tomar decisões e expressar opiniões de forma mais legítima, representativa e confiável? E de que forma podemos discutir e aprender juntos para chegar nessas posições?

Eu pensei no seguinte modelo.

5. O CABio continua sendo uma autogestão, sem eleições, reuniões abertas, decisões em reunião (pra mim não deveria precisar de consenso, só maioria de votos, mas não quero comprar essa discussão agora).

6. Porém, periodicamente (sugiro uma vez por ano), se organize um “Congresso do CABio”, um espaço de assembleia amplamente divulgado, com antecedência, realizado num horário acessível, onde se votem TESES para o CA.

7. O que são teses? São propostas. “Por motivos A, B e C, o CA é favorável à terceirização do RU”. “Por motivos D, E, e F, o CA é contrário à presença da PM no Campus”. “Pelos motivos G, H, e I, o CA é contrário a emprestar o espaço para festas de outros cursos”. “Por motivos J, K e L, o CA defende a realização de avaliação docente independente feita por estudantes”. Etc, etc.

8. Algumas teses seriam contraditórias umas com as outras, se tudo der certo. Todas elas são apresentadas em site, grupo de facebook, etc, e existe um debate público. “Eu acho a tese 22 um absurdo, vamos lá no Congresso votar contra”, etc. Levamos tudo pro Congresso e votamos.

9. Ao final do processo, a gente teria algo similar a um “programa de chapa eleitoral”, mas discutido abertamente e aprovado pela maioria em assembleia. Isso iria reger as ações do Centro Acadêmico pelo período.

10. Seria necessário um prazo para construção das teses, depois um prazo para veicular essas teses e elas serem debatidas pelas pessoas, depois uma divulgação e registro das teses adotadas. Ou seja, isso envolve uma comissão organizadora do Congresso, que estabeleça datas, faça divulgação, organize a assembleia, etc.

11. É necessário também recuperar o Estatuto do CABio ou, melhor, escrever um Estatuto novo, que explique o funcionamento da entidade, que fale sobre instâncias de decisão, quórum, etc e que seja aprovado em Assembleia com muita gente. Poderia ser votado junto no primeiro Congresso.

Por que fazer tudo isso? Meu motivo principal para essa proposta é que eu acho que vai propiciar muito debate e discussão saudável e interessante no curso. Outros motivos são mobilizar mais pessoas pra participar do CA e dar mais legitimidade institucional pras nossas opiniões.

Que tal?