Entrevista ao podcast Bloco A

No episódio de abertura do podcast Bloco A: olhares anarquistas sobre o mundão, dei uma entrevista falando sobre Piotr Kropotkin, imprensa operária brasileira, sindicalismo revolucionário, ciência, anarquismo e também um pouco sobre mim mesmo.

O episódio pode ser acessado no youtube e no soundcloud.

Pra seguir o trabalho do Bloco A, é só ir atrás dele nas redes sociais (twitter, facebook, soundcloud e youtube).

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Maio, de 1918 a 2019

O texto abaixo é uma leitura dramática apresentada no V Sarau 1º de Maio (Joinville, 2019). Ele partiu da adaptação do artigo Primeiro de Maio, escrito pela trabalhadora anarquista Maria Angelina Soares em 1918.


JOSÉ — Alguém aí lembra quem era o presidente em 1918, cento e um anos atrás? Alguém lembra? (…) E quais foram os grandes patrões que apoiaram ele para chegar lá? Quem financiou a campanha? Não? (…) Então vamos ouvir com atenção.

MARIA — Primeiro de Maio! Pesa sobre nós uma atmosfera asfixiante. Sente-se um mal estar indizível, causado por uma tirania estúpida e bárbara, cuja existência não acertamos a compreender, mas que nos dá uma sensação semelhante à sentida nesses dias de calmaria que precedem sempre as grandes tempestades.

JOSÉ — Uma tirania estúpida e bárbara… E não é isso o grande projeto prometido pelo ministro Sergio Moro, de repressão política e gatilho fácil na mão policial?

MARIA — A opressão procura esmagar-nos com o seu corpo informe de mastodonte, crava as garras impiedosamente nos cérebros e nos corações dos que se sentem homens, pretendendo arrancar deles ideias e sentimentos generosos, coisas estas grandes e sublimes, mas que não podem ser aceitas numa terra maldita como esta, terra de tiranias e baixezas.

JOSÉ — Arrancar dos cérebros e corações ideias generosas e sublimes… Isso não é aquela mordaça da Escola Sem Partido? Não é?

MARIA — Parece como que um imenso manto obscuro e espesso ocultasse o sol aos nossos olhos. Sufoca-se e sente-se um frio cortante que penetra até ao íntimo da nossa alma.

JOSÉ — “De madrugada eu senti um calafrio, não era do vento, não era do frio”. Diz aí, Mano Brown.

MARIA — É a revolta, a indignação comprimida que pugna por mostrar-se, por transbordar em correntes impetuosas, correntes que arrastam consigo leis tirânicas, instituições caducas.

JOSÉ — Correntes que arrastam tudo consigo… “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Diz aí Bertold Brecht.

MARIA — Maio veio alçar uma ponta deste tétrico manto que nos priva de sol. Maio é a lembrança de grandes ações, de sacrifícios que nos animam, de lutas que nos ensinam. Por isso, quando, oprimidos e escorraçados, começa o entusiasmo a arrefecer, Maio traz-nos alentos e esperanças, aquece-nos com o seu rubro manto, manto de dor e de martírio, mas também de glória e de justiça!

JOSÉ — Sacrifícios que nos animam, lutas que nos ensinam! Eu sei que “vértebras foram reduzidas a poeira no ar pra que eu tivesse o direito de me manifestar”. Fala tu, Eduardo Taddeo.

MARIA — A plutocracia paulista pode deportar e encarcerar trabalhadores, violar domicílios a altas horas da noite, impedir que o pensamento se manifeste livremente, violar as relativas liberdades adquiridas a custa de grandes sacrifícios, pode fazer muito no sentido de tornar o povo mais submisso e degradado, mas não poderá nunca impedir que os cérebros se desenvolvam e pensem, que os corações se dilatem a impulsos de nobres sentimentos.

JOSÉ — Engraçado. Essa é a plutocracia paulista? Ou de Brasília? Ou de Joinville? Ou é a elite de Washington? Parece que a elite é a mesma em qualquer lugar. Será que tem algum lugar em que ela não existe mais? Talvez Chiapas? Rojava?

MARIA — Maio e as recordações que ele nos traz vivem há muito no coração do povo. Porém sentimos uma necessidade imperiosa de afirmar que não esquecemos nossos mártires, de afirmar que as ideias que os levaram à morte são as mesmas que alentam as nossas almas, e que por elas, como eles, estamos prontos a enfrentar as perseguições, a calúnia, a própria morte. São Paulo comemorou também, apesar dos obstáculos que lhe opuseram, o dia 1º de Maio.

JOSÉ — Santa Catarina comemorou também, apesar dos obstáculos que lhe opuseram, o dia 1º de Maio.

MARIA — A comemoração deste ano limitou-se a uma vela de propaganda realizada na noite de 30 de abril, e que constou do seguinte programa:
1. Hino dos trabalhadores, pela orquestra.
2. Subiu à cena o esboceto dramático intitulado “Primeiro de Maio”.
3. Foi recitada a poesia “Fuerza” de Alberto Ghirlado, dedicada aos mártires da ideia.
4. A poesia “Jesú”, de Ovidio F. Rios.
5. Foi à cena a interessante farsa de crítica e propaganda “El acabóse”.
6. “Chicago!”, poesia de A. Ghiraldo.
7. “Donde está Diós?”, poesia de M. Rey.
8. “El león de bronze”, monólogo de Joaquim Dicenta.

JOSÉ — A comemoração deste ano constou do seguinte programa:
1. Peça com Coletivo Aflora
2. Leitura dramática, com Bárbara e JG
3. Cenas de teatro-fórum do curso do Centro de Teatro do Oprimido na Amorabi
4. Partilha de alimentos
5. Torneio de futebol rebelde
6. Show com David Lover
7. Slam com Endril e Marina
8. Peça “Não pense em trabalho: crise”, do Grupo Organizado de Teatro Aguacero

MARIA — Foi pois uma comemoração mais modesta que a dos outros anos, mas de uma modéstia que encerrava mais grandiosidade, pois era uma altiva resposta ao regime de terror que aqui impera, uma afirmação enérgica dos nossos princípios, e da confiança que no seu triunfo continuaremos a depositar. Muitos lutadores foram daqui retirados; outros surgiram. Correm boatos de que a polícia maquina novas infâmias, e é bem provável que as leve à prática. (…) No entanto, quando esses lutadores forem daqui afastados, outros ainda surgirão, inevitavelmente.

JOSÉ — Lembrei daquela que diz assim: “Não são os rebeldes que criam os problemas do mundo, são os problemas do mundo que criam os rebeldes”. Diz aí, Flores Magón.

MARIA — Os sentimentos, quanto mais reprimidos, mais se afirmam e crescem, até que enfim, transformados em paixão violenta, irrompem cegos, loucos e com força titânica arrastam consigo quanto a seu passo se opõe. Isto sucede sempre e com o povo paulista sucederá também.

JOSÉ — Isto sucede sempre e com o povo catarinense, brasileiro, latinoamericano, sucederá também.

MARIA — Maria A. Soares, São Paulo, maio de 1918.

JOSÉ — A elite, com seus presidentes, barões, industriais, seus juízes, milicos e polícias, foi esquecida. A companheira Maria Angelina Soares, trabalhadora, mulher, anarquista, é lembrada. Nosso povo tem memória, nosso povo é forte, nosso povo vai vencer.

Agitação e propaganda de rua na história de Florianópolis, por Seu Mimo

Os trechos abaixo foram retirados do livro autobiográfico “Caminho”, de Manoel Alves Ribeiro, o Seu Mimo, testemunha do início do movimento operário em Florianópolis, fundador do Partido Comunista Brasileiro em Santa Catarina e militante nessas terras por toda a vida. Entre diversos relatos interessantes sobre a história da cidade, seu povo e suas lutas, separei algumas a respeito das táticas de agitação e propaganda de rua do movimento operário em Meiembipe/Desterro/Florianópolis. As fotos são da Casa da Memória e foram disponibilizadas no facebook pela página Fotos Antigas da Grande Florianópolis, mas não possuem nenhuma relação direta com as citações, apenas que são fotos da primeira metade do século XX.


“O Partido Comunista continuava crescendo e já andava por uns trezentos militantes em todo o Estado. Nossa maior tarefa era ajudar, com os demais aliados anti-fascistas catarinenses, na luta pela derrota dos alemães e seus parceiros. Veio a campanha do ferro-velho para a Siderúrgica transformar em utilidades para a guerra. O povo, nas ruas, exigia de nosso governo que mandasse uma força militar para lutar na Europa contra o nazi-fascismo. (…) Os comunistas, de nossa parte, não deixamos um único muro na cidade sem um pichamento, exigindo o envio dessa força. Esses letreiros eram feitos à noite, pois em pleno Estado Novo, mesmo com milhões de comunistas morrendo na luta contra o nazismo lá na União Soviética, nossos companheiros aqui eram tidos como criminosos.” (Ribeiro, 1989, pp. 30-31)

 

“Os americanos pressionavam o nosso governo para que fornecêssemos soldados para lutar a favor da Coreia do Sul, onde eles tinham empossado testas de ferro que defendiam os seus interesses. (…) Foi lançada então a campanha para impedir o envio de soldados brasileiros para a Coreia. Como sempre, o governo desencadeou uma forte repressão contra tal campanha, prendendo, em primeiro lugar, os comunistas, e depois, todos os demais patriotas e democratas que participassem na campanha. (…) Em Florianópolis os companheiros também entraram na luta, e na calada da noite pichavam os muros com dizeres contra o envio de tropas. A repressão, por parte da polícia, era também muito forte. Criaram um batalhão especial para reprimir e prender os políticos. Comandados por um oficial de antecedentes arbitrários, recebiam diariamente doutrina anti-comunista. Como comunista eram, para eles, todos aqueles que não aceitavam a política reacionária e antinacional do governo, desciam o pau a valer, tornando difícil continuarmos a escrever nos muros e paredes, pois além dos soldados que vigiavam a noite inteira, havia também uma guarda noturna particular, que era ligada à polícia, e que foi depois dissolvida, pois começaram até a roubar galinhas nos quintais da cidade.” (Ribeiro, 1989, pp. 36-37)

“Estava programado um torneiro de futebol entre Florianópolis e Curitiba, e os clubes se preparavam para receber os vizinhos paranaenses. O muro do campo de futebol foi todo pintado juntamente com a arquibancada, pois ia-se realizar uma importante competição esportiva, com a colaboração e a presença dos governadores dos dois Estados. O campo, situado próximo ao bairro onde funcionava nossa organização, era o lugar indicado para executarmos ali um letreiro alusivo a nossa campanha contra o envio de soldados para a Coreia. Esse letreiro não podia ser feito por qualquer pessoa. Aquele muro bem pintado merecia uma coisa bem feita; por isso tinha que ser executado por artista competente. Nossa base era composta totalmente de operários, operários competentes, pois operários burros não procuram o seu caminho. Ficam a vida inteira servindo de lacaios e pelegos dos capitalistas. (…) Reunimo-nos e discutimos todas as dificuldades e aceitamos a tarefa de fazer o letreiro. Apresentaram-se os companheiros Verzola, Secura, Vagner e eu. Secura era operário mecânico e Vagner, pintor. Ambos mestres em suas profissões. Trabalhavam, juntos, na Diretoria de Obras Públicas do Estado. Em parceria, prepararam tintas e demais ferramentas para o trabalho. Osvaldo Moreira era o nome do Secura, e ele tinha esse apelido porque, quando jogava futebol, corria atrás da bola como um louco. A pedido de Vagner, Osvaldo preparou um tubo metálico, de uns trinta centímetros de comprimento, por cinco de diâmetro, que o nosso companheiro Vagner encheu de tinta especial, feita por ele, colocando, na ponta do tubo, uma esponja, também de sua fabricação, de estopa especial. A tinta era feita de forma que, no contato com o muro, fosse rapidamente absorvida para não borrar, e depois de seca, ficasse brilhosa.

O letreiro devia ser feito no máximo em 5 minutos, com letras de 50 centímetros de altura e 5 de largura. Deveria tomar o espaço entre quatro pilastras, com a extensão de 4 metros. Reunimo-nos mais uma vez e acertamos todos os detalhes, inclusive, os nossos pontos de encontro, pois não devíamos estar os quatro juntos, a não ser na hora do trabalho, porque se fôssemos presos, os quatro, não restaria ninguém para comunicar ao Partido. Cada um de nós tinha um itinerário; íamos por ruas diferentes, e em determinado momento encontrar-nos-íamos no local escolhido para a escalada do muro. Para isso tínhamos acertado nossos relógios, e não falhou. No momento exato, estávamos juntos, mas quando da escalada do muro tivemos que nos dispersar, porque o campo estava policiado, justamente no lugar escolhido, à sombra de dois eucaliptos. Ali estavam dois soldados da polícia. “Espero vocês no banco redondo”, disse Osvaldo. O banco redondo ficava na Praça Etelvina Luz, bem perto do campo. Assim, dentro de poucos minutos, estávamos os quatro no chamado branco redondo. Discutimos uma nova estratégia. Osvaldo, então, apresentou uma saída. “Tenho uma moça, conhecida, que mora na pensão da Libânia, lá na rua João Pinto; vocês esperam-me aqui, que eu vou falar com ela, para distrair os soldados”. “Como?” perguntou Vagner. Combinaremos com ela para trazer outra companheira sua, fingir que estão perdidas na cidade, e pedir para os soldados acompanhá-las até a pensão. Concordamos e Osvaldo, em menos de meia hora, estava de volta, acompanhado das duas moças. Descemos até a praia e ficamos esperando que ele aparecesse. Luci acercou-se dos soldados e contou-lhes que vinham de carona da Trindade, onde foram dançar, e como o cara que lhes deu carona começou com umas conversas bobas, elas ameaçaram pular do carro. Aí o motorista desistiu de levá-las até a pensão. Os soldados caíram na armadilha e foram levá-las até a pensão da dona Libânia. Com o sinal de Osvaldo, nos aproximamos do muro e, no local já escolhido, tentamos a escalada da muralha, que ali tinha mais de 2 metros de altura. O companheiro João Verzola, o mais forte da turma, encostou-se no muro para servir de escada. Vagner, munido do canudo metálico, que lhe servia de pincel, foi o primeiro a subir. Em seguida subiria o Osvaldo, que não conseguiu na primeira tentativa, pois Verzola era meio surdo e quando o Osvaldo pediu para ele esticar-se um pouco mais, Verzola não ouviu bem e fez o contrário; encolheu-se. Como seu companheiro ainda não tinha se segurado no muro, caiu por cima da escada improvisada, do Verzola. Entre risos e discussão, tentou a segunda vez e conseguiu pular. Nessa altura, Vagner já tinha começado o seu trabalho. Agora era eu que serviria de escada para que o companheiro Verzola se colocasse em cima do paredão, para no caso dos soldados voltarem, ao meu sinal, os companheiros saíssem pelo portão principal da outra rua, próximo à casa do zelador do campo, seu Valdemar, que àquela hora da madrugada já estava dormindo. Mas tudo correu bem. Dentro do previsto o letreiro ficou pronto e os dois voltaram pelo mesmo lugar em que haviam entrado.

Terminada a tarefa nos despedimos e cada qual tomou o rumo de casa. Na manhã seguinte, domingo, dia do torneio, seu Valdemar abriu cedo o portão que ficava bem defronte do letreiro e lá estava em letras vermelhas: NENHUM JOVEM PARA A COREIA. As letras de 50 centímetros de altura por 5 de largura, de cor vermelha, brilhavam como se tivessem sido feitas naquele instante, e eram perfeitas, e estavam corretamente equidistantes uma das outras, numa demonstração que haviam sido desenhadas por um grande artista. Seu Valdemar, ao ver o letreiro, telefonou para o presidente do clube, o Sr. Oliveira, que veio imediatamente ao campo. De volta à casa, seu Oliveira convocou o pessoal da diretoria para discutir o assunto. Se se raspava o muro ou se deixava o letreiro: ele já tinha sua opinião formada. Achava que deveria permanecer e assim ganhou toda a diretoria para sua proposta. E lá ficou por muito tempo aquele apelo, em defesa de nossa juventude. Seu Oliveira, esportista, filho de operário, democrata e nacionalista, na sua condição de patriota, ao ver aquela obra de arte, feita por operário como seu pai e seus irmãos, sensibilizou-se.

Mas, para levar a efeito essa tarefa talvez não seria possível sem a colaboração de Luci e sua companheira.” (Ribeiro, 1989, pp. 37-40)

“Nosso partido, já organizado em todo o Estado, nunca parou com suas lutas em defesa da soberania nacional. Em pleno Estado Novo, sob uma perseguição, desencadeada pelas forças de direita, sobre o movimento operário, não deixava passar um primeiro de maio sem um protesto. Quem passasse pelos morros e subúrbios da cidade, nas noites de véspera do primeiro de maio, ouvia o barulho de velhas máquinas de costura fabricando bandeirolas, de pano vermelho, algumas delas com a foice e o martelo, pesadelo da burguesia, desenhados no centro, que ao amanhecer do primeiro de maio, oscilavam garbosas e desafiadoras, penduradas às dezenas nos fios de alta tensão de energia elétrica, levando aos pobres e oprimidos a mensagem de esperança de dias melhores. Os reacionários e seus representantes no governo comentavam apavorados: Como podia ser colocadas bandeirolas nos fios de alta tensão a oito metros de altura, com a cidade fortemente policiada? Sendo que bem na frente do palácio do governo se encontrava uma com a foice e o martelo. Os bombeiros tiveram que usar escada “Marigus” para retirá-las, e este trabalho levou muitas horas. Essa burguesia que nunca acreditou no povo e muito menos na inteligência e capacidade da classe operária, esqueceu, que seu domínio não é eterno, que está condenado a desaparecer justamente pelo avanço de seu sistema, condicionado na exploração do homem pelo homem, e essa missão a história reservou ao proletariado, e , particularmente, à classe operária.” (Ribeiro, 1989, pp. 46-47)

“O governo e sua polícia, em todos os escalões, tachou de comunismo esse movimento, a ponto de considerar crime alguém dizer que o petróleo era nosso. Nosso partido mobilizou seus militantes, que na calada da noite pichavam muros e calçadas, com esse slogan. Usávamos um lápis, fabricado por nossos companheiros, que era muito difícil de apagar. Os entreguistas e a polícia, a seu serviço, pintavam por cima com cal as letras que fazíamos, procurando encobri-las, mas essas letras, imitando o exemplo de nosso solo, furavam a camada da tinta e apareciam sempre, como se estivessem dizendo: “foi um operário quem me desenhou, e só se derrubares o muro, pois de outra fora daqui não sairei”.

Os padres, na Igreja, os integralistas e a burguesia exploradora, exigiam do governo um maior policiamento, “pois esses diabos”, como diziam os padres, “ontem meteram as mãos na linha de alta tensão elétrica e, agora, fazem tinta mágica, que não se pode barrá-la”. (Ribeiro, 1989, pp. 49-50)

“Com quase todo o tempo tomado, sempre se conseguia reservar algo para as comemorações políticas, com primeiro de maio, aniversário de Prestes; aniversário da derrota do fascismo e outras. Divertíamo-nos com essas comemorações e dávamos um trabalhinho à polícia. Usavam muito o pelotão de cavalaria e um dia, em um de nossos comícios, na Praça Quinze de Novembro, eles tentaram impedir, mas nós já tínhamos um saco de rolhas e um de bolinhas de vidro, espalhamos na rua e o resultado, trinta cavaleiros no Hospital de Caridade. (…) O dia três de janeiro, aniversário de Prestes, era comemorado pela nossa base no morro do Ceu, que tinha o seu nome. Na véspera nos reuníamos e acertávamos os nossos relógios, marcávamos os pontos que eram mais de vinte. Comprávamos foguetes cabeça-de-negro, os maiores na época, e os companheiros que possuíam armas de caça poderiam usá-las. À meia-noite exata o morro era sacudido por um forte estrondo, e com pouca demora, lá aparecia o pelotão de cavalaria. Mas já era tarde, nosso companheiro já tinha sido homenageado. Os moradores do bairro gostavam e nunca reclamaram. Também, ali naquele bairro que se chama Morro do Ceu, onde outrora os escravos encontravam guarida com uma população na sua maioria de operários, cada casa tinha uma história de luta, cada pedaço de chão, cada árvore ali plantada, tinha a marca do sacrifício dos trabalhadores. (Ribeiro, 1989, pp. 88-89)

“Quantos companheiros precursores de tua luta deram a vida para tornar realidade a jornada de oito horas de trabalho! Quantas vezes na calada da noite escrevíamos a frase (Viva o 1º de maio!) nos muros e paredes de nossas cidades. Pela madrugada a polícia transformada em pintores, com tina branca procurava tapar essas inscrições, mas elas eram feitas por operários, com amor e com esperança e furavam a camada da tinta branca aparecendo ainda mais legível. Como a tua voz e o teu exemplo ninguém conseguia apagar, porque essas letras foram escritas por seus irmãos de classe que lutam pelo seu ideal, a ideia não se apaga.” (Ribeiro, 1989, p. 219)

Análise da experiência de diálogo com eleitores do Bolsonaro

Faz 12 dias que publiquei a seguinte postagem no facebook, convidando eleitores do Bolsonaro ao diálogo sem notícias falsas, sem acusações e sem julgamentos morais. Faço aqui alguns comentários sobre a experiência.

1. Em termos gerais, funcionou muito pouco para provocar diálogos. Apesar de 6 compartilhamentos, comentários de mais de 50 pessoas, mais de 80 reações, apenas uma pessoa se dispôs a discutir, ainda por cima um apoio crítico ao Bolsonaro. Pelos algoritmos do facebook, provavelmentemente centenas de eleitores do Bolsonaro viram o chamado. Muita gente que nunca interage com meu facebook apareceu aqui, o que também indica isso.

2. Eu acreditei que ia funcionar porque tem muita gente dedicada a fazer campanha. Se eu ofereci um espaço aberto e privilegiado para alguém fazer campanha do seu candidato, achei que iria aparecer muita gente. Não foi o caso.

3. É verdade que a quantidade enorme de pessoas contra Bolsonaro que colocaram pontinhos para assistir o debate intimidou. O fato da minha rede de amizades ser amplamente contra Bolsonaro também atrapalhou. Eu nunca saí excluindo eleitores do Bolsonaro do facebook, mas muita gente fez isso e acabou reforçando a tendência às bolhas que esse site já produz.

4. Como já falaram muitas pessoas antes de mim, essa eleição foi marcada muito fortemente pelos afetos, sentimentos e identidades. Houve pouca comparação e debate sobre propostas concretas para o país. Cada vez mais, os candidatos são produtos manufaturados pelo marketing para nos representar um conjunto de valores (que acreditamos ou não), mas também para produzir esses valores e sensações.

5. É certo que política não é razão. Como dizia um companheiro, ela está mais próxima da arte do que da matemática. A força que nos move para enfrentar a violência da polícia ou a mentira dos jornais, que nos permite levantar uma bandeira na rua, é sonho, desejo, fé. Ela não se demonstra factualmente porque se refere a um mundo que existe, por enquanto, apenas dentro de nós. Mas fazer política deveria ser uma tarefa orgânica, em que a gente mobiliza sonho junto com análise, valores junto com estratégia.

6. Esse exercício de diálogo aqui existiu porque eu sei que, entre parte dos apoiadores do Bolsonaro, a relação entre o sonho que essas pessoas têm e aquilo que o candidato delas pretende executar está muito dissonante. Com isso, não estou falando de quem vai lucrar com as privatizações, nem com a devastação da Amazônia, nem quem vai poder expulsar com armas os indígenas e quilombolas de suas terras, nem retirar o 13º salário de seus funcionários, nem quem quer estar na universidade sem conviver com pessoas negras, etc.

7. Essa experiência também existiu por outra hipótese, essa mais ousada. A possibilidade de que engajar eleitores ao debate público obrigaria transformar esses valores e sensações que os conquistaram em argumentos, para depois transformá-los em linguagem, e que realizar esse processo poderia revelar coisas novas para essas pessoas. Isto é, reconhecer que se está tomando uma decisão pelo medo, pelo ódio ou pelo nojo, que se está ignorando certas consequências, mas ver que é difícil justificar essa escolha porque não parece que ela vai atingir objetivos que são bem vistos socialmente ou mesmo os objetivos que a pessoa eleitora gostaria.

8. A experiência serviu, sim, como uma forma de mostrar que poucos eleitores de Bolsonaro estão dispostos a um debate público, assim como seu candidato não tem interesse algum em ir aos debates. Pra campanha eleitoral isso pode ser útil, mas não é o que eu queria.

9. Houve outra coisa para a qual ela serviu e isso foi importante. Algumas poucas pessoas que não têm nenhuma relação com a militância de esquerda vieram conversar comigo e parabenizar a iniciativa. Relataram a dificuldade que está conversar com as pessoas e defenderam a importância do diálogo. Acho que a esquerda tem que construir desde já e para além das urnas a rejeição e oposição ao Bolsonaro e aos militares, então é importante contar com as pessoas que identificaram em nós a disposição ao diálogo e podem se opor, em um futuro próximo, à perseguição violenta que vamos sofrer. Bolsonaro disse no último domingo que pretende nos mandar para a “ponta da praia”, uma referência a um local onde dezenas de pessoas foram mortas na ditadura que ele defende. Precisaremos muito dessas pessoas.

10. Surgiram vários modelos de “como conversar com eleitores do Bolsonaro” por aí que são bons. Queria ressaltar deles apenas um conselho: evitar a pretensão de superioridade moral ou intelectual. A esquerda tem seu conjunto de valores éticos, a direita tem outro. Acho que é possível e necessário discutir eles, mas política não é uma guerra do bem contra o mal, assim como não é uma guerra da inteligência contra a burrice ou contra a mentira. Tem muita gente que está contra a esquerda por ressentimento com essa tentativa de monopólio da moral e do conhecimento, que de fato é ridícula, prepotente e ainda elitista. Assim a gente só facilita a vida da extrema-direita.

11. Se Bolsonaro ou Mourão assumirem, vão entrar para gerenciar e aprofundar a crise econômica que já atinge o povo brasileiro, assim como outros países da América Latina. Existirá um campo fértil para a esquerda no seio do povo pobre, se ela ainda conseguir existir publicamente e souber organizar as lutas em defesa dos direitos sociais e da vida. Ano que vem, cada pessoa que disser “o povo merece o que tá acontecendo”, “eu avisei” ou “bem feito pra quem tá desempregado e votou Bolsonaro” vai estar destruindo o trabalho de cinco pessoas que estiverem falando “vamos juntos, é hora de fazer greve geral”, “é por isso que a direita quis acabar com os sindicatos” ou “não dá pra confiar nos militares, só na ação coletiva do povo”. Quem tá fazendo política para se sentir melhor que os outros, para depois lavar as mãos ou para ganhar status social, pode dar licença do caminho, porque tem a vida de muita gente em jogo antes das suas vaidades.


Postagem inicial do debate, no dia 14/10:

| ESPAÇO SEGURO PARA CONVERSAR COM ELEITORES DO BOLSONARO |

Faltam duas semanas para a escolha de quem vai entrar nessa casa aí, o Palácio da Alvorada.

Quase 50 milhões de pessoas votaram no Bolsonaro no primeiro turno. Sinceramente, eu não entendo elas. Mas acontece que algumas delas estão entre as pessoas que eu gosto e amo.

Então quero fazer um experimento aqui.

Nessa postagem, você tem espaço livre para explicar e defender seu voto no Bolsonaro.

Vou excluir qualquer comentário ofensivo e qualquer julgamento moral que for feito de você em cima da sua escolha de voto. Ninguém vai receber adjetivos aqui. Na verdade, não haverá outras pessoas contra Bolsonaro discutindo com você (apagarei se for necessário).

Apenas eu vou discutir com você. Sem ofensas, sem julgamento moral e sem notícias falsas.

Aqui é jogo aberto. Minha posição é pública, sou contra Bolsonaro, não sou petista (nem um pouco), mas sou de esquerda (muito).

Pode mandar estudos, referências, matérias, mandar outros textos, vídeos, etc, se for para subsidiar seu argumento. Mas não vou discutir com links soltos, apenas com pessoas que escreverem seus próprios argumentos. Quero entender você, não a pessoa ou texto que te convenceu.

Quem se equivocar e postar notícia falsa, basta reconhecer o erro, ou será apagado também. Independente do lado que a notícia falsa favorecer. Não quero facilitar a divulgação de notícias falsas.

Cada pessoa, apenas um comentário inicial e seguimos a discussão nas respostas. Por questão de organização, apenas.

Quem quiser, pode sair da discussão a hora que quiser. Não vou continuar a discussão fora desse espaço se você não quiser.

Então, por que votar no Bolsonaro?

Quem é contra o Bolsonaro, mas quer ajudar esse experimento, pode postar um “.” na discussão para receber notificações e ajudar a visibilidade.

A imagem pode conter: piscina, céu, nuvem e atividades ao ar livre

Amanhã é um dia decisivo para mudar a história do país

A escolha que você fizer amanhã pode ter impactos duradouros nos próximos anos e décadas. Pense bem. Estude as suas opções.

Amanhã, segunda-feira (08/10), começa mais uma semana de trabalho, estudo ou de procurar emprego. Ainda não sabemos os resultados do primeiro turno das eleições, mas temos certeza de uma coisa.

A exploração no local de trabalho continua e vai crescer muito pelos efeitos da reforma trabalhista e do desemprego. Todos os canais de televisão, rádio e jornais vão continuar nas mãos de poucas famílias de elite. Nossa comida vai continuar cheia de veneno, o mesmo veneno que adoece as pequenas agricultoras ou sem terra. O agronegócio vai continuar ameaçando e matando quilombolas e indígenas para impedir as demarcações e retomadas. O postinho de saúde do bairro continuará enfrentando a precarização. E assim por diante.

Por isso, a escolha de amanhã é muito séria.

A pergunta é uma só: vou participar de um movimento popular ou não vou?

Se não vou, o cenário acima vai continuar e tende a piorar cada vez mais. Se vou, estarei dando início à criação de um novo mundo.

Posso participar das atividades do meu sindicato e construir núcleos de base por local de trabalho. Posso entrar em um movimento social de luta por moradia, reforma agrária, direito à cidade ou transporte. Posso construir a mídia independente popular. Pode ser um coletivo ou movimento feminista, negro, ou LGBT. Posso entrar no movimento estudantil.

Não existe uma demanda mais importante, capaz de resolver todas as outras. As lutas são como um círculo, todas estão relacionadas, lado a lado, e assim que você entra elas não terminam nunca. Pelo menos é nisso que acredito.

Política é disputa de projetos através da correlação de forças. Nós não temos a mídia, as grandes propriedades, o dinheiro, as armas nem as leis ao nosso lado. Só podemos contar com a força do povo organizado.

Ato contra o Bolsonaro está entre os três maiores da história do país

Ainda não vi um esforço sério da mídia nem da academia em buscar representar com dados o tamanho da gigantesca onda feminista e popular que aconteceu ontem contra o candidato da extrema-direita. Juntando informações que encontrei por aí, acredito que esteja entre as três maiores mobilizações da história do país.

O dado mais impressionante é a quantidade de cidades com atos, embora as cidades pequenas estejam sendo ignoradas na maioria das análises. Levantamentos informais mostram que houve pelo menos 12 atos em Santa Catarina, um estado pequeno e com eleitorado conservador enorme. No RS, também parte do Sul conservador, foram pelo menos 25. A grande maioria das cidades listadas aí não aparecem em nenhuma das notícias, seja da grande mídia ou da alternativa. No Sudeste, Centro-Oeste, Nordeste e Norte, também houve em atos em todas as grandes cidades e dezenas de cidades pequenas de cada Estado.

Estimativas conservadoras indicam mais de 50 mil pessoas em Porto Alegre, mais de 30 mil em Florianópolis, mais de 30 mil em Curitiba, epicentro da onda conservadora. Cidades como Rio de Janeiro e São Paulo tiveram multidões de pelo menos 200 mil pessoas na rua. No exterior, dezenas de cidades fizeram atos em solidariedade. Por isso, uma estimativa conservadora indica que houve milhões de pessoas nas ruas, em centenas de cidades.

Não chegou ao tamanho das mobilizações de Junho de 2013, é verdade, quando a revolta contra o preço dos ônibus e a violência policial em São Paulo gerou atos simultâneos em mais de 300 cidades. Talvez também não tenha alcançado o tamanho da maior mobilização feita em defesa do impeachment, em 2016. Mas as marchas do impeachment recebiam uma cobertura imensa da mídia, que passava o dia inteiro transmitindo ao vivo os acontecimentos por todo o país e os serviços de transporte público chegaram a funcionar gratuitamente para levar as pessoas para as ruas.

Ao contrário delas, a mobilização das mulheres não tem apoio da grande mídia nem dos serviços públicos porque é um ato de rebeldia contra o sistema. Contra Bolsonaro, sim, mas na verdade contra toda a onda conservadora, ultraliberal, racista, misógina e LGBTfóbica que domina o Estado brasileiro e nossa elite. O ato das mulheres de ontem foi, sem sombra de dúvidas, uma manifestação de esquerda, contra os poderes vigentes. Não terá espaço na mídia, mas caberá a nós fazer com que ela ressoe, se multiplique e vença. Faremos registro vivo de ontem nas próximas lutas que virão, cada vez mais fortes.

Voto de protesto, voto programático e voto tático

Muito tem sido falado sobre que abordagem adotar na escolha do voto às eleições para os cargos executivos e legislativos no Estado – estou especificando porque esse guia vale para essa disputa, não às eleições em sindicatos, entidades comunitárias ou estudantis de luta.

Enquanto anarquista, apresento aqui minha sugestão de voto nas diferentes abordagens.

1. Para fazer um voto de protesto, vote nulo. Se você discorda do atual modelo de sociedade, em que a propriedade privada vale mais do que a vida dos despossuídos; e se você discorda da estrutura de dominação que mantém essa injustiça, em que políticos têm o poder de decidir as leis que as pessoas pobres devem seguir, em que juízes aplicam as leis em benefício próprio e dos mais ricos, em que a polícia e o Exército possuem o monopólio da violência e da morte para fazer todo mundo obedecer as regras criadas pela elite, então você discorda do Estado. Embora você não possa decidir nas eleições por nenhuma mudança significativa na forma do Estado, a escolha eleitoral confere legitimidade a ele.

No entanto, apesar de simbolizar e ecoar a sua oposição, o voto nulo de protesto não vai derrubar esse sistema. Por isso, vamos analisar as próximas opções.

2. O voto programático é aquele em que você escolhe um representante e um conjunto de propostas em que você realmente acredita e se identifica. O programa que o anarquismo defende envolve a coletivização das terras, indústrias e comércio; o trabalho coletivo sem patrões; a gestão política de toda a sociedade por meio de assembleias abertas; o fim das heranças e do acúmulo de riquezas; e a utilização das tecnologias para facilitar e reduzir ao máximo o trabalho necessário para garantir a todas as pessoas alimentação, moradia, saúde, educação, arte e cultura. Se o Estado é a estrutura de dominação que impede a implementação desse programa através da força, o voto programático é nulo.

Mas, ainda assim, esse voto é incapaz de efetivar esse programa. Vamos, então, analisar o voto tático (ou “voto útil”).

3. O voto tático/útil é, teoricamente, aquele que faz uma escolha dentro das possibilidades imediatas de vitória, para impedir um resultado muito pior. Mas o que é tática?

Como disse recentemente o Bruno Lima Rocha, só tem tática quem tem estratégia e um objetivo finalista, um horizonte de sociedade, que só pode ser construído coletivamente. Ou sua tática é um passo adiante em uma caminhada coletiva, que se aproxima de onde queremos chegar, ou a sua tática na verdade é um passo dentro de outra estratégia, formulada por outros interesses.

O Estado não pode servir a qualquer tipo de interesse, porque sua natureza é o domínio de uma elite sobre o povo, pela lei, pelo controle e pela força. Quem comanda o Estado tem interesses de classe que nunca serão os nossos, aqui embaixo. Agora, como podemos utilizar uma tática/estratégia que depende do instrumento dos nossos adversários? Se nossa estratégia envolve a independência de classe (incluindo a independência ao Estado), o único voto útil é nulo.

O voto nulo faz parte da tática porque defendê-lo no seio de nossos instrumentos (movimentos sociais) e de nossa classe reforça o princípio indispensável da independência de classe na nossa estratégia. Quem pode efetivar esse programa com os nossos interesses somos nós, o conjunto das classes oprimidas, e nós estaremos melhor preparadas para isso quanto menos nós dependermos dos políticos profissionais, dos juízes, dos militares e dos tecnocratas no Estado, incluindo aqueles que vieram do seio do povo.

Votamos 00 por protesto, programa, tática, estratégia e objetivo finalista.