Comentários sobre a condenação de Lula

Texto publicado no facebook em 25 de janeiro, escrito algumas horas depois da condenação de Lula no STF.

Vou arriscar umas opiniões aqui em cima da hora. Como toda análise apressada, pode se mostrar equivocada em pouco tempo, mas achei importante compartilhar.

1. Simpatizo com quem tá cobrando o PT por não ter mobilizado tanto nas greves e demais lutas contra os retrocessos (ou mesmo por tantas vezes ter boicotado e puxado o freio de mão das mobilizações). Mas acho que, nesse momento, esse argumento dá um poder pro PT que ele não tem mais.

Com meses de antecedência para a mobilização, gente vindo do País todo, em uma cidade e Estado de histórico do petismo, as fotos dificilmente mostram atos com mais de poucas dezenas de milhares. Para quem tá lutando pela sobrevivência política do maior ícone da esquerda brasileira das últimas décadas e seu partido de massas, é uma miséria. Como foi dito em outro lugar, “1/3 das intenções de voto é uma coisa, amplas camadas da população se mobilizarem em torno ao slogan ‘Eleição sem Lula é fraude’ é outra, bem diferente” (http://bit.ly/2rytBI4).

Fora a repercussão na bolha de facebook Mídia Ninja / MST / Brasil de Fato / Jean Wyllys, a verdade é que a movimentação foi fraca. Nos dias que antecederam o julgamento, o tema foi menos comentado no conjunto das redes sociais do que a pré-candidatura de Collor ou a (não)posse da nova Ministra do Trabalho (http://bit.ly/2BsgHe9).

2. Nem mesmo no período pré-eleitoral, nos discursos para animar a militância, Lula se posicionou de forma convincente de que iria desfazer os retrocessos do Governo Temer (http://bit.ly/2DyCGC1). Pelo contrário, se empenhou em refazer o arco de alianças com o MDB e afastar a imagem de “radical” (http://bit.ly/2wlq5Sd).

Como já vimos em 2014, é tático para o PT dar um discurso bem à esquerda daquele que tenta colocar em prática. Então não tem sustentação alguma achar que sua eleição era uma arma confiável ou estratégica para combater os retrocessos. Tudo indica um governo ainda mais subserviente às elites, caso ele aconteça (e ainda pode acontecer). Política não se faz só com vontade, muito menos com promessa, se faz com correlação de forças.

A arma para barrar os retrocessos é a única, a mesma que sempre foi: organização popular e luta nas ruas, nas greves e nas ocupações. É ela que faz a diferença, ela que transforma o impossível em alcançável, depois em vitória, é ela que nos oferece horizontes respiráveis. Independente de quem esteja lá em cima.

3. Do ponto de vista das elites, o julgamento fechava posição se era mais útil ter Lula dentro ou fora do jogo. Se a mobilização em sua defesa fosse forte, combativa, impactante, tudo que isso conquistaria era o lugar do PT novamente dentro do pacto de conciliação de classes junto com nossos inimigos.

Esse pacto se sustentou durante mais de 10 anos porque o PT prometeu e cumpriu acalmar os ânimos populares, desarmar as lutas combativas e dar estabilidade à exploração capitalista. Se mais gente tivesse ido às ruas em defesa de Lula, talvez esse papel voltasse a ser necessário às elites, mas não foi.

Quem tá fazendo memes do “acordão nacional, com Supremo, com tudo” nesse momento, tá esquecendo que o Sergio Machado disse assim pro Romero Jucá: “O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais”. É nesse acordo nacional que as mobilizações iriam colocar o Lula de volta, se conseguissem.

Agora, para quem não quer dar estabilidade e vida fácil para quem nos explora e humilha, para quem não tem horizonte de conciliação de classes, Lula lá de volta não seria uma vitória, assim como Lula impedido de concorrer também não é.

4. Sobre o significado dessa condenação para o fortalecimento da repressão, é preciso responder que o Estado Democrático de Direito e a Constituição não foram rasgados agora. Pra uma parcela enorme da população, eles nunca existiram. Antes de ser vítima, o PT é um dos responsáveis por isso. Durante os anos de governo PT, o encarceramento da população negra e pobre explodiu, cresceu mais de 200%. O PT criou a Força de Segurança Nacional, a Lei Antiterrotismo, defendeu as UPPs, militarizou as cidades na Copa do Mundo, só para dar alguns exemplos.

A judicialização da política foi uma tática central dos setores golpistas desde o início da sua ofensiva, como a CAB e outros já apontaram no início de 2016 (http://bit.ly/2DAXWeG). Mas ela dependeu da conivência do PT, que não buscou democratizar o Judiciário durante todos seus anos de governo. Pior que isso, o golpe parlamentar foi facilitado pelo poder intocado das grandes corporações de mídia, servidas com concessões irrestritas e amplas remessas de dinheiro público pelo PT durante todos os anos de governo.

Por fim, a repressão e criminalização das lutas sociais foi também marca dos governos do PT, sentidas por todas e todos lutadores combativos nos últimos anos, com militarização, prisões, processos, invasões, que vieram do próprio PT ou que foram ignoradas por ele. O fortalecimento do Estado repressor e punitivo não depende do PT para seguir, isso está nítido. O que é difícil de acreditar é que seu retorno iria frear essa tendência.

Não vejo nenhum sentido de justiça, muito menos vingança, em ver Lula ser condenado. Mas é preciso que seja analisado o trajeto que nos trouxe até esse ponto e o papel do PT em cavar essa cova, porque precisamos aprender com os erros cometidos.

5. Apesar do esforço de tantas e tantos de nós, a esquerda não tem força hoje para puxar mobilizações de massa capazes de reverter os ataques sofridos pelo conjunto dos oprimidos, como a Reforma Trabalhista demonstrou. Superar essa incapacidade coletiva precisa ser prioridade.

A estratégia que o PT articulou durante décadas se demonstrou insuficiente desde sempre e desastrosa em seu fim. O que quiser se propôr a alternativa precisa passar por fora do PT, no mínimo, porque precisa passar por fora da conciliação de classes com empresariado, grande mídia e partidos burgueses, assim como precisa passar por fora da militarização e repressão política e por fora do aparelhamento e desarme dos movimentos sociais e das lutas combativas. Senão não é alternativa, é tragédia.

Essa é uma tarefa em construção, aberta a todas e todos dispostos. Nós, anarquistas especifistas da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB, temos apontado a estratégia de construir um povo forte, ou seja, um conjunto das classes oprimidas capaz de se defender e avançar através de seus próprios instrumentos de luta, acumulando força social a partir da organização popular, ação direta e solidariedade de classe. Sem vender nossos princípios, sem descanso, sem desistir, continuaremos.

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Mochileiros pedindo dinheiro em ano sabático deveriam ter vergonha de si mesmos

O texto abaixo foi publicado por Radhika Sanghani em 12 de abril de 2017 aqui no site inglês Telegraph.


Mochileiros vendendo postais na Tailândia. Créditos: Twitter

Mochileiros vendendo postais na Tailândia. Créditos: Twitter

Dê uma volta pela Khao San Road em Bangkok e você verá pessoas fazendo fila nas ruas pedindo dinheiro. Só que não são locais sem teto lutando para alimentar suas famílias; são mochileiros “gap yah” [1] que excederam seu orçamento semanal com drinks no bar do hostel #fail #YOLO.

Há um recente crescimento de “begpackers” – isto é, mochileiros pedintes – em alguns dos países mais pobres do mundo. Sua tentativa de financiar suas viagens através da mendicância, de apresentações nas ruas e, ocasionalmente, da venda de suas fotos de férias tem sido capturada e compartilhada nas redes sociais por viajantes com mais consciência social – e por locais enojados.

A maioria dos “begpackers” tem sido avistada no Sudeste Asiático, pela rota turística bastante trilhada entre Tailândia, Camboja, Laos, Vietnã e Malásia. Uma mulher da Cingapura, Maisarah Abu Samah, ficou chocada de ver dois casais brancos vendendo postais e tocando música por dinheiro.

“Nós achamos muito estranho pedir dinheiro para que outras pessoas te ajudem a viajar”, ela disse The Observers no France 24. “Vender coisas nas ruas ou pedir dinheiro não é considerado respeitável. As pessoas que fazem isso estão realmente necessitadas: elas pedem para comprar comida, pagar pela escola de suas crianças ou pagar dívidas. Mas não para fazer algo visto como um luxo”.

Viajar pelo mundo – mesmo em hostels baratos com um orçamento de 5 euros por dia – não é um direito concedido por Deus; é um luxo que milhões nunca terão. Mochileiros podem até justificar seu comportamento para si mesmos dizendo que não estão forçando ninguém, que realmente não conseguem pagar seu próximo vôo ou que estão se apresentando por dinheiro ao invés de pedir, mas no fundo certamente sabem que isso que estão fazendo é errado.

Não há como passar tempo em algumas das áreas mais empobrecidas do mundo e não ver a diferença entre ter seu smartphone roubado e não ter o que comer. Mesmo se você está viajando exclusivamente para usar a hashtag #peregrinação e ir a uma festa rave, é impossível ignorar a realidade da pobreza.

Mochileiros não podem – e não devem – nunca sentir que merecem os trocados de alguém quando estão se apresentando ao lado de outra pessoa que não comeu uma refeição adequada há dias.

Pessoas que não reconhecem isso são o ápice do privilégio branco. Elas acham que vender postais por alguns dólares é “hilário” e uma ótima história de viagem, enquanto estão potencialmente roubando clientes de alguma pessoa local que precisa desse dinheiro mais do que elas podem imaginar.

Um amigo, atualmente viajando no Sudeste Asiático, me disse: “As pessoas escolhem torrar dinheiro com bebidas, refeições e atividades caras, depois se perguntam por que ficaram sem grana. Viajantes em ano sabático podem gastar o salário mensal de um local em apenas um dia. Eles não têm nenhum direito a reclamar ou pedir. É nojento e sem noção. Se estão realmente sem dinheiro, não tenho dúvida de que podem vender seus iPads”.

Há inúmeras alternativas para mochileiros que ficaram sem dinheiro, como trabalhar em hostels ou participar de programas onde eles podem trabalhar em troca de acomodação. Não há necessidade alguma de sentar com suas sandálias Birkenstock e calças de yoga com placas onde se lê: “Estou viajando pela Ásia sem dinheiro. Por favor apoie minha viagem” – um cartaz real com o qual um homem foi fotografado.

Em anos recentes, houve também um crescimento em pessoas fazendo financiamento coletivo de suas viagens. Não é mais surpreendente ver um casal pedir doações para sua 5ª lua de mel em vez de presentes de casamento, ou ver alguém abrir um Kickstarter pedindo ajuda para financiar seu programa de voluntariado no exterior.

É o equivalente moderno das pessoas pedindo para seus amigos assinar seu formulário de patrocínio na escola – e está passando do limite.

Mochileiros estão tão convencidos de que estão “retribuindo” ou “vivendo uma importante experiência cultural” que perdem de vista o que estão realmente fazendo: pedindo para as pessoas por uma injeção de dinheiro em seu feriado. Já é ruim quando turistas vão em “tours na favela” em países subdesenvolvidos e tiram fotos dos pedintes, mas quando se juntam a eles para poder pagar por seu rafting radical, eles levaram seu sentimento de direito e merecimento longe demais.


[1] “Gap yah” é uma expressão criada por uma série de vídeos britânicos no YouTube que você pode acompanhar aqui. Ela se refere a estudantes britânicos de classe média-alta que tiram um ano sabático para viajar antes de entrar na Universidade e escolhem locais de terceiro mundo com uma atitude de fetiche sobre a pobreza e a colonização. Nota da tradução.

Polícia e escola junto não dá, a lógica é incompatível

Texto publicado aqui no facebook em 18/11/2017.


Por motivos de trabalho, frequentei alguns anos atrás uma escola pública de outro Estado que atende principalmente juventude de periferia. Em uma visita, tirei essa foto da parede de uma turma de primeiro ano do ensino médio. No canto, borrei o nome e o símbolo de uma facção da região, pois não importa nesse momento qual é.

As outras trabalhadoras que estavam visitando a escola logo repararam esses escritos, pois o nome da facção estava pixado por toda a sala. Soubemos que a Polícia Militar tinha entrado nessa sala de aula algumas semanas antes. Juntando com algumas informações sobre comportamento de estudantes, logo chegamos na hipótese de que aquela turma era “difícil”, que vários desses jovens estavam nas mãos do tráfico e que frequentavam a escola apenas para desafiá-la.

Mas ao conviver um pouco mais com eles, essa explicação se tornou cada vez mais insuficiente.

Um dia, perguntei para um dos professores da escola por que a PM entrou naquela sala. O que ele me disse é que não houve nenhuma denúncia específica naquela turma, apenas uma visita de rotina da polícia dentro da escola, onde entraram em várias turmas. O professor me disse que aqueles jovens não eram do tráfico, só pixaram a sala por indignação com a abordagem da PM na sala. Segundo ele, foi uma atitude de “revolta”.

Isso aqui é Brasil. Quem trabalha no serviço público ganha mal e precisa fazer do possível e impossível para cumprir suas tarefas sem a estrutura mínima necessária. A gente atende essa enorme parcela da população sem oportunidade nem direitos mínimos, das quais muitas vezes nós próprios fazemos parte.

Tem uma massa de jovens que não enxerga qualquer horizonte profissional, sua forma de cantar e dançar é criminalizada, sua pipa ou a pelada resistem em uma cidade que não reservou espaço nenhum para eles. Sua família adoece e sofre nas filas ou nos recibos dos remédios. Nossa escola, ainda que precarizada, é a migalha que o Estado oferece a essa juventude. A escola precisa reconhecer essa realidade para pensar qual estratégia é capaz de disputar um horizonte junto a esses jovens.

Mas aí vem a PM com outra estratégia. A nossa polícia é militar porque ela é uma estrutura de guerra. É por isso que ela trata a população negra e pobre como inimiga, por isso que ela mata tantos dos nossos e nossas. A polícia entra em uma escola de periferia como os EUA invadindo um país estrangeiro: busca controlar o território demonstrando sua presença e seu domínio pela força.

A consequência disso é previsível. Muito mais do que a escola, a PM é o símbolo do Estado, é o sistema. Mas o sistema só oprime, então a juventude é jogada para a força que se insurge contra esse sistema, infelizmente a única força que eles têm acesso cotidiano e que mostra capacidade de enfrentar esse sistema, as facções.

Tem quem acredite que esse é o único caminho possível para essa juventude periférica. Nós, que acreditamos na escola pública, não achamos. Temos outro plano para essa juventude, mas a invasão da PM em nosso espaço de trabalho é um obstáculo para nossa estratégia. A PM implementa uma lógica oposta à lógica da escola.

Essa juventude também acredita em outro caminho possível. Quem olhar a foto novamente, com mais atenção, vai ver outro escrito, feito a caneta, muito sutil: “Em vez de me prender, por que não voa comigo?” Fazer essa juventude voar é tarefa nossa, que a polícia fique longe disso.

Onde estão os “professores legais”?

O texto abaixo foi escrito em 20 de agosto de 2015, por Flora, Samantha e eu, que publicamos ele aqui no portal UFSC à Esquerda. Em outubro daquele ano escrevi uma avaliação dos impactos desse texto, junto a uma interpretação sobre a greve estudantil, que está aqui.


Não posso ser professor se não percebo cada vez melhor que, por não poder ser neutra, minha prática exige de mim uma definição. Uma tomada de posição. Decisão. Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo.​” – Paulo Freire

Sinceramente? Cansamos dos “professores legais” da Biologia. Cansamos daqueles que se dizem “críticos”, daqueles que falam sobre “outras cosmovisões”, que falam sobre a realidade de “outros sujeitos”, sobre “comunidades tradicionais e povos originários”, cansamos especialmente daqueles no campo da educação que se dizem “freireanos”. Não é que essas ideias não sejam fundamentais para o curso, pelo contrário, nem que esperamos só desses docentes que tomem ações. O problema é o abismo que vem separando o discurso da prática.

A Universidade Pública Brasileira vive um verdadeiro desmonte. Não se trata apenas de uma crise orçamentária, mas de um projeto deliberado de ataque à educação pública. Senão, como explicar que os R$12 bilhões de reais em verbas cortadas nesse ano coexista com um novo investimento de R$5 bilhões no Fundo de Financiamento Estudantil (FIES), programa que financia indiretamente as Universidades Privadas?

Como explicar a criação da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (EBSERH), uma empresa pública de direito privado para gerir os Hospitais Universitários na lógica de mercado? Ainda, como explicar a aprovação pelo Supremo Tribunal Federal da contratação através de Organizações Sociais (OSs) em toda a Administração Pública, incluindo Universidades, Hospitais e Institutos? Com isso, não será mais necessário haver concurso público para a contratação de servidores e docentes, uma forma clara de precarização das condições de trabalho. As políticas para a educação no país caminham a passos rápidos para formas privatistas e mercadológicas.

Não se trata apenas da necessária luta em defesa da educação pública, como isso já não fosse o bastante. Os mesmos professores que falam sobre educação popular, sobre outra forma de extensão universitária e sobre valorizar os conhecimentos tradicionais têm se mostrado incapazes de olhar para as condições de acesso e permanência de estudantes.

Existe uma transformação clara no perfil do estudante na UFSC, após quase dez anos de aumento progressivo de vagas e da criação e fortalecimento das políticas de ações afirmativas. Uma enorme leva de estudantes das classes populares agora ingressa na Universidade, mas estão sendo recebidos com total descaso sem Restaurante Universitário, sem novos editais na PRAE, sem vagas na Moradia Estudantil, com corte de bolsas de pesquisa e extensão, com cortes anunciados no auxílio­moradia. Estudantes pobres, negros, estudantes com filhos e estudantes indígenas serão os primeiros a abandonar a Universidade caso a Reitoria e docentes continuem fingindo que há condições para manter esse semestre. Na verdade, isso já está acontecendo.

Em que pese todas as dificuldades de permanência para estudantes, nos mobilizamos para uma Assembleia Estudantil da Biologia nessa quinta (20), parte de um esforço de unidade na luta pela Universidade Pública firmado na Assembleia Comunitária da UFSC na semana passada, onde servidores docentes, servidores técnicos e estudantes dialogaram e tiraram encaminhamentos juntos.

Para nós, é essencial reconhecer a coragem e disposição de vários docentes e TAEs que estão na luta e construíram essa mobilização conosco através do Comando Unificado de Greve, discutindo lado a lado a conjuntura da UFSC, escrevendo panfletos e até preparando os almoços do ato que chamou a Assembleia Comunitária, dando um exemplo real de uma educação crítica, dialógica e transformadora. Será que podemos contar com os docentes do CCB nessa luta?

Impressões do ENEB 2012 – a ENEBio e o movimento estudantil

O texto abaixo foi enviado como e-mail na lista da Entidade Nacional de Estudantes de Biologia (ENEBio) e na lista do Encontro Regional de Estudantes de Biologia Sul (EREB Sul) no segundo semestre de 2012, após a participação de uma delegação da UFSC no encontro nacional daquele ano.


Salve pessoal,

não são de agora as críticas ao modelo de organização da ENEBio e a várias práticas do movimento estudantil da Biologia, assim como duras críticas ao encontro nacional, junto a uma polarização entre propostas de encontro bastante distintas. No entanto, essas críticas têm estado nos corredores, em conversas pessoais, mas sem alcançar propostas tangíveis para um novo modelo ou mudanças específicas. Não está delineada a discordância que parece afetar muitos de nós, inclusive dos que constróem a entidade. Estou longe da pretensão de estabelecer que crítica é essa; de fato, acho que não há consenso nem clareza sobre ela, e que precisa ser muito mais conversada e debatida, senão para alcançar alguma conclusão, pelo menos para propiciar o intercâmbio de ideias, opiniões e propostas. Esse texto é uma tentativa inicial de estabelecer esse diálogo crítico, e gostaria muito de ler considerações e respostas a ele, seja dos estudantes que não constroem a entidade quanto daqueles que participam, alguns mesmo compartilhando muitas dessas discordâncias. Conheci nos ENEBs pessoas com lindos sonhos e verdadeira disposição de mudar o mundo, e é em homenagem a eles que escrevo uma crítica fraterna, com intenção de avanço em nossas lutas.

Como todo ponto de vista é a vista de determinado ponto, e conhecendo esse ponto nós podemos compreender melhor as concepções dos outros, me apresento. Não quero com isso dar credenciais para legitimar minhas opiniões, assim como espero não estar dando motivos para que outros nem queiram lê-las por sectarismo ou incapacidade de diálogo. Eu estou no quarto ano de Biologia na UFSC e participo do CA há pelo menos um ano. Nosso CA não constrói a ENEBio, mas participa ativamente dos EREBsul, além de compartilhar com eles a proposta da autogestão, que funciona na UFSC há mais de dez anos. Também milito em um movimento social urbano, já participei de vivências com os movimentos camponeses e faço parte de uma organização política anarquista. Eu não falo aqui em nome do CABio da UFSC nem tenho o EREBsul como modelo de encontro ideal, e não tô me propondo a passar as contribuições do EREBsul para a entidade nem a fazer uma síntese das duas propostas. A crítica e autocrítica do MEBio é essencial, e tá faltando tanto no sul quanto na ENEBio, mas restrinjo esse texto às impressões sobre a ENEBio e o ENEB.

Além disso, as ideias aqui apresentadas foram muito discutidas com a delegação da UFSC que participou do ENEB em 2012, então muitas contribuições são coletivas, embora a responsabilidade pelo texto seja minha individual, com todas suas possíveis falhas.

Impressões do ENEB 2012 – a ENEBio e o movimento estudantil

A existência de uma entidade que represente os estudantes de Biologia nacionalmente levanta uma série de questões.

A primeira é sobre a representação em si, mas não pretendo me alongar nesse tema, que já está saturado e é onde as críticas costumam parar. Sobre isso, apenas gostaria de pontuar sobre a ideia de que a força política da entidade (ou ao menos parte dela) é devida ao grupo que ela representa, o que é um equívoco. Primeiro porque ela é construída por um contingente ínfimo de estudantes, e é acessível a um público ainda bem restrito. Para colocar isso em números, basta constatar a presença de cerca de 450 estudantes no encontro desde ano, que vieram basicamente de 20 ou 30 escolas. Se formos contar as delegações expressivas, com mais de 3 pessoas, esse número ainda cai mais um pouco. Isso não representa nem 5% dos cursos de Biologia do país, assim como 450 estudantes não são nem 0,1% dos estudantes de Biologia do Brasil. Por certo que a ENEBio é construída por mais pessoas do que as que vão ao encontro, mas mesmo assim ainda é pouquíssima gente.

Ainda que isso seja um fato incômodo para uma entidade representativa, não deveria ser um empecilho para um espaço de atuação política, desde que ele não seja construído de cima para baixo e não tire sua força de ter um nome, uma bandeira ou um estatuto que mencione sua legitimidade. Uma entidade ou movimento só se constitui em força social mobilizando gente para ir às ruas, aos debates, aos espaços de formação e de tomada de decisão da sociedade. Seu potencial de acirrar a luta de classes não está na radicalidade de seu discurso nem na representação auto-intitulada de um número enorme de pessoas, mas na atuação real de estudantes conscientes do que buscam, seja apoiar a reforma agrária, reformar os currículos ou lutar pela educação pública gratuita e de qualidade.

A radicalidade do discurso, inclusive, tem sido marca constante nos ENEBs, e tem servido basicamente a dois propósitos, que são i) afastar os estudantes que não se consideram revolucionários (garanto aos incrédulos que eles existem e têm contribuições importantíssimas a dar, para além do fato de que podem também virar revolucionários); e ii) acalmar a consciência daqueles que tanto querem a mudança social e não têm conseguido implementá-la na prática.

Esses dois fatores somados explicam a triste constatação de que a entidade está fortemente separada da maioria dos estudantes, e pode dar os discursos mais radicais em seu nome pelo simples motivo de que eles não estão presentes para opinar. Assim se cria uma ilusão de transformação que fica explícita nos cartazes colados pelo encontro: “Se a revolução é um jardim, a ENEBio é uma flor”. Mas se a revolução é um jardim de flores como a ENEBio, só podemos imaginar o tamanho da floresta que se encontra fora dos limites desse espaço cultivado artificialmente!

Ao invés de perceber na baixa participação nos grupos de base (centros e diretórios acadêmicos) e na Entidade como sintomas de que as pautas estão deslocadas da realidade dos estudantes, que as metodologias e modelo organizativo são hostis à aproximação, surgem explicações simplistas e que fogem ao problema: os estudantes são burgueses, os estudantes são alienados, ou “faltou trabalho de base”. A própria separação no discurso entre os auto-intitulados “militantes” e “a base” (outros estudantes como você) é sintomática de uma prepotência em não considerar como política a atuação e vivência de cada pessoa em sala de aula, em sua comunidade, espaços familiares, na vida afetiva, em sua alimentação, etc., monopolizando os grupos de base e determinados movimentos sociais como únicos espaços legítimos de atuação política, onde apenas algumas atividades são consideradas militância.

Outra questão é o esforço necessário para constituir uma entidade nacional, respeitar seu estatuto e fazer cumprir sua estrutura organizativa nos âmbitos regionais e nacionais, pois isso representa uma série de custos e precioso tempo perdido de atuação nos grupos de base, organizando atividades que agreguem os estudantes e caminhem na direção das mudanças desejadas. Perdendo o foco na atuação na realidade local, imediata, se perde o contato com as necessidades e anseios estudantis. Ao invés de fortalecer a fundação, que é a mobilização dos estudantes na base, se constrói a casa pelo telhado, com a ilusão de um enorme edifício que abrangeria todo o país, mas que abriga uma minoria que deixou de atuar nas questões importantes de seu entorno.

Há uma frase que diz que a revolução não é o momento onde todos os problemas serão resolvidos, mas sim aquele em que nós poderemos resolver todos os problemas. A diferença é o papel ativo no processo de transformação – a mudança que queremos não depende de esperarmos a revolução ou prepará-la discursivamente criticando o capitalismo, e sim na atuação prática nas questões que queremos transformar, forjando dentro da sociedade desigual as condições para resolvermos os problemas que ela nos traz. Nesse sentido, uma mobilização por uma reforma curricular popular é no mínimo tão importante quanto uma palestra (ou um CFPBio) sobre economia política. No final das contas, nada é mais pedagógico que a própria prática, a percepção e a superação das contradições que surgem no caminho trilhado em busca das mudanças que desejamos.

Outro ponto não questionado é uma ausência de escolha decorrente da própria existência da entidade: ela foi criada antes da maioria dos estudantes atuais terem entrado em seu curso, de modo que não tivemos opção por tê-la ou não. Mas dado que ela existe, há um espaço de poder representativo e nos restam apenas duas opções: disputá-la internamente para garantir que ela inclua nossas opiniões; ou ignorá-la. Para aqueles de nós que não estão satisfeitos com a separação social entre dirigentes e dirigidos – fruto da mesma distinção entre exploradores e explorados – fica então a necessidade de dedicar tempo e esforços para ter a visão contemplada pela entidade. Se antes o estudante poderia militar onde quiser, assim como optar (politicamente) por não atuar em nenhum espaço específico, agora tempo de militância é exigido pelo movimento estudantil, que poderia ser dedicado em outras frentes de luta, como os movimentos sociais que tanto queremos apoiar.

Por fim, mas não menos importante, sobre a dinâmica do encontro. O primeiro ponto que deveria estar claro para todos é que o Encontro Nacional dos Estudantes de Biologia não é o encontro dos estudantes de biologia, embora digam que já foi. Hoje ele é basicamente o Congresso da Entidade Nacional dos Estudantes de Biologia, e se ele não é assim chamado, talvez seja por motivos já aludidos no texto. Todo o encontro é pensado com a finalidade exclusiva de formar a entidade e seus militantes: mesas de formação cuja presença é obrigatória para conseguir comprovantes; grupos de discussão e trabalho com temas pré-definidos a partir das necessidades de se tirar diretrizes para a entidade; e toda a dinâmica dos mutirões dedicada a avaliar os espaços segundo os princípios e objetivos da entidade. O mais sintomático de todo esse processo é a ausência das vivências, características dos encontros de estudantes. As viências eram o principal momento de relação dos estudantes com a sociedade que os cerca, possibilitando inúmeros contatos formativos e fortemente sensibilizadores sobre questões sociais e ambientais, mas que foram tirados do encontro por preferência a uma pedagogia do discurso ao invés da prática – novamente.

As decisões sobre o encontro deixaram de ser dos estudantes que participam dele, e deixam mesmo de ser da escola que se propõe a organizá-lo, mas passaram à mão da entidade, que no final das contas é um grupo seleto de delegados das escolas que participam ativamente. A separação entre a Entidade e os militantes é, na verdade, uma separação entre estudantes da direção e estudantes da base, que reproduz a divisão em classes da sociedade em que vivemos, pois o que a Entidade faz é o que os militantes que ocupam os espaços decisórios decidem. Assim, a gestão da entidade e dos encontros é alienada, i.e., as decisões sobre o fruto do esforço dos militantes da base não cabe a eles inteiramente, mas é apropriada por quem decide. Como reflexo disso surge uma programação com grade fechada e temas pré-definidos, com disciplinamento de horários e da participação, e um processo quase fabril de formação de militantes – que, na prática, se tornou a formação de reprodutores do discurso da Entidade ao invés de preparar as pessoas ao diálogo, à análise crítica do movimento estudantil da Biologia e à atuação política efetiva.

Isso não é uma opção entre organização frente a desorganização, mas sim uma escolha por um modelo centralizador e verticalizado de organização, que restringe a autonomia e poder decisório dos grupos de base. O movimento estudantil pode possuir outras ferramentas e metodologias, organização de baixo pra cima, horizontal, em rede, fedaralista, autogerida, etc., nas quais concepções e práticas diferentes possam confluir, garantindo a participação de um grupo amplo de estudantes, que se sintam participantes ativos, peças-chave de construção, e que possam atuar politicamente com a força de suas vozes e de seus sonhos, e não falando em nome de uma maioria calada.

JG
Graduando em Ciências Biológicas – UFSC

EREB Sul 2002: Declaração de Independência do Lami

O texto abaixo foi encontrado nos arquivos do Centro Acadêmico de Biologia da UFSC; a versão original está linkada ao fim. A declaração foi escrita no Encontro Regional de Estudantes de Biologia Sul de 2002, que aconteceu no bairro do Lami, em Porto Alegre (RS). Há mais informações e fotos sobre esse encontro aqui.


Não lutaremos contra um modelo mas sim a favor de outro.
Não teremos forças armadas, nem bandeira, nem fronteira, por que não queremos um Estado.
Desta forma não teremos direita, por que não teremos esquerda.
Falaremos todas as línguas que pudermos aprender e respeitaremos todas as religiões.
Lutaremos para viver em harmonia com o meio ambiente e para resolver nossos conflitos internos pacificamente, construindo consensos.
A prioridade das prioridade será a educação. Criaremos escolas abertas e a Universidade Autônoma do Lami, onde não será precisa prestar vestibular e os pescadores artesanais, agricultores ecologistas e erveiras é que serão os professores.
Não teremos políticos porque nunca haverá uma eleição.
Não teremos guerras, porque não teremos armas.
Não teremos pobres, porque não haverá ricos.
Não teremos desempregados, porque ninguém será empregado.
Não teremos carros, porque andaremos de bicicleta, de barco, de ônibus…
Não teremos celulares porque não queremos antenas nos nossos morros.
Não teremos farmácias, porque usaremos as ervas e a alimentação orgânica.
Não teremos bancos porque nossa economia se baseará em trocas e quase não usaremos o dinheiro.
Não teremos presídios porque não haverá nem leis, nem criminosos (construiremos acordos por consenso, que serão compreendidos e cumpridos por todos).
Não teremos hospícios porque somos todos loucos.
Não teremos lixão porque reduziremos, reutilizaremos e reciclaremos nosso “lixo”.
Não teremos televisores porque assistiremos as fogueiras e as estrelas.
Não teremos crianças abandonadas porque teremos muito amor.
Não teremos pressa porque queremos apreciar a vida.
Não teremos velório porque morreremos de rir.

Declaração de Independência do Lami, 1º de abril de 2002.

Documento original

Carta a Patrícia

homenagem a uma desconhecida #1


te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía
(mario benedetti)

É tempo de Escola Sem Partido (Escola do Partido Único), de Psicologia da sexualidade única (heterossexual), de consenso neoliberal na economia, de uma esquerda que insiste em uma estratégia única de vitória eleitoral através da conciliação com o poder. A gente precisa desesperadamente de dissenso. Precisamos das pessoas do contra.

Mas não é isso que temos construído.

Além da bomba, além da algema, além do processo judicial, além da violência patriarcal, além da ameaça de fome, da corda no pescoço, tem mecanismos mais sutis de manufaturar consentimento, normatizar, disciplinar os corpos, domesticar as ideias.

Quem aguenta ser, o tempo todo, a pessoa “radical”? Quando acaba a reunião, a assembleia, a aula, o almoço de família, quem permanece com o peso de ter trazido a discórdia, de ter levantando a crítica, quem segura o peso da responsabilidade pelo conflito? O que garante promoção de salário, nome em artigo, fim de semana na casa de praia, festinha open bar e open food, o que garante acordar de conchinha no domingo de manhã, é ser conveniente. Conivente. Congruente.

Taxar as pessoas “polêmicas”, “revoltadas”, construir seus muros de segurança e conforto com elas para fora, são escolhas políticas. Queimação implicitamente orientada por um projeto de sociedade que não é nosso.

É tarefa cotidiana, agora mais que nunca, produzir corpos, sujeitos e valores incômodos. Isso começa com a base material, estrutural, socialização dos meios de produção da crítica, mas está também na subjetividade. Precisamos agradecer, vibrar, acolher Pagu e seu crime sagrado de ser divergente. Vai ser desastroso estigmatizar a diferença, repelir o desassossego, afastar a pessoa que incomoda, porque incomodar está cada vez mais difícil.