Angela Davis: A esquerda mundial irá falhar se não entender a feminização da força de trabalho

A entrevista abaixo foi publicada em dezembro de 2016 no site The Wire, ela foi realizada por Sidharth Bhatia com Angela Davis antes de uma palestra que ela realizou na Índia. O original em inglês pode ser lido aqui.

 


O capitalismo global ataca principalmente as minorias étnicas¹, diz a renomada ativista

Angela Davis. Crédito: Oakland Local/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Angela Davis é uma intelectual excepcional. Ela é uma acadêmica, ativista e escritora. Richard Nixon a chamou de “terrorista” e o governador da Califórnia, Ronald Reagan, pediu que ela fosse barrada de lecionar na Universidade da Califórnia. Nos anos agitados e politizados de 1960 e 1970, Davis – com sua marca Afro – era um nome que recebia o mesmo nível de reconhecimento, admiração e condenação. Ela era uma militante radical, líder do Partido Comunista dos EUA, além de ser muito próxima dos Panteras Negras.

Davis foi condenada por conspiração, ao ser relacionada à invasão armada de um tribunal na Califórnia nos anos 1970, onde quatro pessoas foram mortas. Ela foi presa por 16 meses, período no qual uma campanha mundial foi realizada exigindo justiça em seu nome. Enfim, ela foi liberta sob fiança e posteriormente absolvida de todas as acusações.

Celebrada em filmes, músicas e nas artes, Davis esteve diretamente envolvida nas campanhas contra o racismo e o que ela chama de “complexo industrial-prisional”. Em Mumbai para palestrar no memorial anual Anuradha Ghandy, ela conversou com The Wire sobre os movimentos de esquerda, o capitalismo global e a vitória de Trump.

Desde o movimento Panteras Negras nos anos 1960 até agora, como você vê o progresso das relações raciais nos EUA?

É importante não ignorar o progresso que aconteceu. Em vários sentidos as coisas estão melhores, principalmente devido às lutas realizadas por movimentos radicais ou progressistas e pelos movimentos antirracismo. Mas, ao mesmo tempo, o racismo não mudou substancialmente. Isso está relacionado à força com que o racismo está imerso nas estruturas da sociedade estadunidense. Enquanto a ênfase geralmente tem sido nas expressões individuais ou atitudinais do racismo, as formas institucionais do racismo permanecem intocadas. Muitas pessoas têm a impressão de que, por tanta violência policial que vemos hoje, isso é um fenômeno novo, mas a verdade é que esse fenômeno está conosco desde a época da escravidão.

O Partidos dos Panteras Negras foi fundado exatamente sobre a premissa de que era importante combater a violência policial nas comunidades negras. Embora o impacto dos Panteras Negras tenha sido profundo, particularmente no que diz respeito à consciência do papel da política e das prisões na manutenção do racismo nos EUA, essas estruturas não mudaram substancialmente.

Por que isso aconteceu?

Em alguns casos elas até pioraram, particularmente por causa da emergência do capitalismo globalizado, que teve como impacto a deterioração da vida de minorias étnicas e pobres como resultado do processo de desindustrialização, a saída de corporações dos EUA para partes do mundo onde os trabalhadores não estão organizados, onde a força de trabalho pode ser comprada muito mais barato. Isso causa uma perda para as pessoas que precisam de empregos no setor produtivo e muitas vezes elas recorrem a mercados clandestinos, o que as torna vulneráveis à polícia e às prisões. Isso é um exemplo de como condições históricas são agravadas pelo desenvolvimento do capitalismo e das ideologias neoliberais.

Mas nada substantivo mudou, mesmo durante os oito anos de presidência do Obama?

Eu acho que é importante não subestimar o significado da eleição de Obama. Mas não estou falando tanto da conquista do indivíduo, mas dos movimentos que foram responsáveis por alcançar o que parecia impossível. De forma que, se mudamos a perspectiva, do indivíduo que foi o primeiro presidente negro a ocupar o posto mais alto dos EUA para os movimentos que possibilitaram que tal pessoa fosse eleita, podemos enxergar além da esperança de eleger tal presidente – que ainda é o presidente dos Estados Unidos da América capitalista – para ter a esperança de um futuro muito diferente. E me parece que, precisamente porque essa esperança não pode ser cumprida através da presidência, esses movimentos cresceram e se expandiram. Eu gosto de pensar em movimentos produzindo a mudança histórica, não o indivíduo.

Foto de arquivo de Angela Davis (esquerda) e a cosmonauta russa Valentina Tereshkova (direita). Créditos: RIAN Archive.

Como a esquerda estadunidense e a esquerda global responderam a essas mudanças na economia mundial?

A esquerda, da forma que a conhecemos, por mais importante que tenha sido, não pode manter a mesma força a não ser que lide adequadamente com esses desenvolvimentos. Portanto, é importante para a esquerda reconhecer que a constituição das classes trabalhadoras mundiais é muito diferente agora. De várias formas, a esquerda ainda está lidando com essa noção das classes trabalhadoras como brancas, ou de homens brancos, como no caso dos EUA. Acho que o feminismo, o feminismo radical², o feminismo antirracista e anticapitalista nos ajuda a fazer a reconceitualização que é necessária para produzir uma esquerda mais alinhada com as vastas mudanças ocorridas na era do capital global, reconhecendo a feminização da força de trabalho, as mudanças estruturais na economia mundial, o fato de que alguns ramos produtivos são amplamente compostos por mulheres, ramos baseados no trabalho reprodutivo, no trabalho de cuidado e criação das crianças, serviço doméstico, assistência de saúde, etc. Me parece que, de várias formas, centrais sindicais por todo o mundo não estão dispostas a reconhecer essas mudanças. Organizar o desorganizado, nesse momento, é organizar as mulheres.

Existe um argumento, muitas vezes dito, que classe é mais importante do que raça. Aqui na Índia, a esquerda se focou mais em classe do que em casta, por exemplo.

Se olharmos para a última campanha presidencial nos EUA, Bernie Sanders vocalizou uma importante mensagem, uma mensagem anticapitalista. Ao mesmo tempo, ele não falou necessariamente às pessoas que estão no que as feministas chamam de intersecções. O racismo não é só uma função da classe. Não se pode presumir que abolir o capitalismo é também abolir o racismo. É preciso abandonar essas análises reducionistas e desenvolver análises mais complexas que reconheçam a sobreposição, a inter-influência e a intersecção dessas questões.

Por todo o mundo estão crescendo forças de extrema-direita e ultranacionalistas. Isso combina com o capitalismo neoliberal e globalizado?

Sim, especialmente o racismo – e formas de racismo, discriminação, como a xenofobia, sentimentos anti-imigrantes, ou, na Índia, o sistema de castas. Infelizmente a esquerda sempre presumiu que se deve focar na classe trabalhadora e todas essas coisas serão resolvidas. Mas políticos de direita são capazes de criar bodes expiatórios e guiar a compreensão popular dos impactos do capitalismo globalizado para esses bodes expiatórios: imigrantes, muçulmanos, pessoas negras, dalits. Pense na conferência de Durban em 2001 sobre racismo, onde a Índia insistiu que as castas eram uma questão interna e portanto não faziam parte das agendas mundiais de estratégias para combater o racismo.

Quando se olha para os EUA, onde aconteceram os protestos de Ferguson no verão de 2014, antes disso, havia uma relutância esmagadora em se falar sobre raça e racismo. A premissa era, uma vez que Barack Obama foi eleito, então passamos a uma era pós-racial. Agora, em menos de dois anos, raça está bem no centro do debate político nos EUA. Isso nos mostra como protesto, organização e mobilização na luta de massas pode causar guinadas em um período muito curto de tempo.

Os EUA acabaram de ter eleições marcantes com um resultado chocante. A grande maioria esperava que Hillary Clinton vencesse. Em sua opinião, o que deu errado para ela e os Democratas? Para onde os EUA estão indo agora?

Pouquíssimas pessoas previram a eleição de Donald Trump. Havia uma presunção generalizada de que, independente de quais fossem as afinidades políticas das pessoas, Clinton iria ganhar. Acho que até mesmo Trump pensou que Clinton venceria (risos). Minha sensação, e estou acompanhada por muitos militantes radicais aqui, é de que nosso papel era exatamente evitar a vitória de Trump, por causa do impacto disso na história futura. A Suprema Corte, por exemplo, a possibilidade de que sua gestão possa desfazer muito do que aconteceu na gestão Obama e foi produtivo, como o esforço para garantir que jovens imigrantes, sonhadores, tivessem a possibilidade de se tornarem cidadãos, permanecer nas escolas e outras instituições. Ou o sistema de saúde pública, mesmo que não tenha sido aquilo que deveria.

Clinton era muito relacionada a Wall Street e raramente fez algum comentário sobre a necessidade de abordagens anticapitalistas; ela só começou a mudar timidamente sua abordagem após ver o apoio que Bernie Sanders estava recebendo. Algumas das pessoas que votaram em Trump argumentaram que foram totalmente esquecidas pelo Partido Democrata, que Clinton nunca mencionou a classe trabalhadora. Ela falou sobre os mineiros como se fossem dispensáveis – “ah, sim, você precisa de um novo emprego”. Então reconheci que o apelo deveria ter sido direcionado à classe trabalhadora, às pessoas pobres, às minorias étnicas, que é de onde pode surgir um futuro progressista naquela parte do mundo, a possibilidade de uma aliança. Infelizmente isso não aconteceu e Trump conseguiu apontar para os muçulmanos, aos imigrantes e às minorias étnicas como bodes expiatórios. Aqueles que historicamente votaram nos Democratas mudaram seu voto para Trump porque ele estava dizendo que sua situação era o resultado direto dos muçulmanos, de imigrantes, e que chutá-los do país, construir um muro em nossa fronteira, poderia magicamente trazer seus empregos de volta.

Trump também está falando sobre a perda de vagas de emprego para a Índia, China, Indonésia. Ele vai trazer esses empregos de volta?

Eu não acho que ele vai trazer esses empregos de volta. Ele tomou uma posição anti-globalização, a qual muita gente respondeu. Mas o próprio Trump se beneficiou enormemente; todos seus negócios são baseados no capitalismo global. Então ele pode se envolver em alguns esforços simbólicos, como ele fez a respeito dos empregos em Wisconsin, mas não vai reverter o impacto do capitalismo global. A forma em que se pode lidar com essas mudanças não é pedindo retorno a uma época passada, não é falar sobre como fazer a América grande novamente, mas falar sobre o que é necessário nesse contexto e como é possível criar centrais sindicais mundiais e unidade para que os capitalistas dos EUA não possam apenas se mudar para outra parte do mundo e encontrar força de trabalho mais barata.

Você trabalhou com o tema da reforma prisional e criou o grupo Critical Resistance³ [Resistência Crítica] nos anos 1980. Ele surgiu com o foco nas prisões privadas, o “complexo industrial-prisional”, mas isso logo se tornou maior e pior. Isso está baseado em mais e mais prisioneiros e, portanto, mais e mais lucros.

Absolutamente. E esse é um âmbito onde se pode ver como racismo é parte dramaticamente integrante da estrutura. Pense em punição – o racismo sempre carregou a punição nos EUA, desde a época da escravidão. Nos anos 1980, com o ascenso da globalização que levou à desindustrialização, ao desmonte da assistência social, ao crescimento do neoliberalismo, quando havia uma premissa de que bens públicos deveriam ser transformados em estruturas que gerassem lucro privado, vimos o declínio das corporações na metalurgia, automobilística, etc. As primeiras pessoas a perder empregos foram aquelas que haviam conseguido emprego por último e aconteceu de serem pessoas negras e minorias étnicas.

Quando elas não puderam continuar construindo a vida que tinham antes, acabaram buscando outros meios e vimos o crescimento dos mercados clandestinos, que foi seguido então pela demanda por lei e ordem. Ao mesmo tempo, houve um fortalecimento em instituições, prisões, que capturam aqueles que se tornam dispensáveis. Durante os anos 1980, vimos um incrível crescimento nas populações carcerárias, um aumento na construção de prisões, a emergência de um mercado das prisões privadas e a emergência da corporativização do processo punitivo.

Emprestamos o termo complexo industrial-prisional do acadêmico-ativista Mike Davis, que o usou para se referir primeiramente à situação da Califórnia. Nós usamos o termo para apontar a nova confluência de punição, corporações, mídia, políticos; nós o vemos como um conjunto de relações, não apenas como a construção de novos complexos prisionais. As ligações são econômicas, políticas, ligações midiáticas que são todas altamente lucrativas. Os EUA possui agora um quarto de toda a população encarcerada mundial e a maioria é de minorias étnicas. Vemos agora esse modelo ser exportado para a Europa, América do Sul e África. Esse modelo é, de fato, um fracasso em lidar os reais problemas sociais e econômicos, mas agora a própria punição se tornou rentável.

¹: Angela Davis usa o conceito de “people of color”, um termo em inglês que engloba pessoas negras, asiáticas, indígenas e latinas. O termo é geralmente reivindicado por militantes desses grupos, ao contrário de “colored people”, que geralmente é utilizado apenas para se referir a pessoas negras, com caráter preconceituoso. Nessa entrevista, “people of color” será traduzido por minorias étnicas, entendendo que esses grupos foram historicamente considerados como minorias políticas, mesmo quando são a maioria da população. (N. da T.)

²: Nos EUA, o termo “radical” é muito utilizado para caracterizar um campo político mais à esquerda, da forma como utilizamos “combativo” ou “revolucionário”, então Angela não se refere necessariamente à corrente do Feminismo Radical. (N. da T.)

³: http://criticalresistance.org/

Proposta de Congresso do Centro Acadêmico de Biologia UFSC

O texto abaixo foi publicado em 30 de junho de 2016 no grupo interno de facebook do Centro Acadêmico de Biologia – UFSC. Como gostei da proposta, coloco ela aqui publicamente, quem sabe interesse a outros Centros Acadêmicos, em especial aqueles autogestionados. Esse comentário surgiu após uma longa discussão sobre uma decisão que havia sido contestada por sobrepôr acordos prévios do CA a respeito do uso do espaço físico.



Oi gente. Só estou fazendo uma disciplina, vou uma vez por semana pra UFSC, não tenho como ir nas reuniões do CA nem construir nada que eu vou propôr. Só pra deixar isso claro.

Eu venho alimentando um sonho, desenvolvendo ele, agora acho que chegou a hora de sugerir. Vai ser só uma sugestão, porque é isso que eu consigo fazer. (Tem a ver com essa discussão aqui.)

1. Quem disputa eleições para DCE ou Centros Acadêmicos costuma justificar esse esforço com o argumento de que “é um bom momento para fazer discussão política”. Eu acho que esse argumento tem fundamento.

2. Nosso modelo de autogestão tem sido interpretado muitas vezes como “cada um faz o que quiser”. Eu não acho que seja isso, mas eu entendo que essa impressão não vem à toa. Durante muitos anos, participei do CA e me envolvi em coisas através do CA sem ter apoio ou mesmo acordo com outras pessoas que frequentavam as reuniões.

3. A situação “2” é positiva porque permite um CA amplo, onde junta vários interesses distintos: quem quer organizar Bio na Rua organiza, quem quer participar do Conselho participa, quem quer pensar a calourada pensa, quem quer ir pra Ponta do Coral vai, etc.

4. Porém, a situação “2” é ruim porque pode criar um CA sem identidade, sem posições coletivas e, consequentemente, um espaço de representação individual e não coletiva.

Exposto esse problema, surge a pergunta: de que forma o CA pode tomar decisões e expressar opiniões de forma mais legítima, representativa e confiável? E de que forma podemos discutir e aprender juntos para chegar nessas posições?

Eu pensei no seguinte modelo.

5. O CABio continua sendo uma autogestão, sem eleições, reuniões abertas, decisões em reunião (pra mim não deveria precisar de consenso, só maioria de votos, mas não quero comprar essa discussão agora).

6. Porém, periodicamente (sugiro uma vez por ano), se organize um “Congresso do CABio”, um espaço de assembleia amplamente divulgado, com antecedência, realizado num horário acessível, onde se votem TESES para o CA.

7. O que são teses? São propostas. “Por motivos A, B e C, o CA é favorável à terceirização do RU”. “Por motivos D, E, e F, o CA é contrário à presença da PM no Campus”. “Pelos motivos G, H, e I, o CA é contrário a emprestar o espaço para festas de outros cursos”. “Por motivos J, K e L, o CA defende a realização de avaliação docente independente feita por estudantes”. Etc, etc.

8. Algumas teses seriam contraditórias umas com as outras, se tudo der certo. Todas elas são apresentadas em site, grupo de facebook, etc, e existe um debate público. “Eu acho a tese 22 um absurdo, vamos lá no Congresso votar contra”, etc. Levamos tudo pro Congresso e votamos.

9. Ao final do processo, a gente teria algo similar a um “programa de chapa eleitoral”, mas discutido abertamente e aprovado pela maioria em assembleia. Isso iria reger as ações do Centro Acadêmico pelo período.

10. Seria necessário um prazo para construção das teses, depois um prazo para veicular essas teses e elas serem debatidas pelas pessoas, depois uma divulgação e registro das teses adotadas. Ou seja, isso envolve uma comissão organizadora do Congresso, que estabeleça datas, faça divulgação, organize a assembleia, etc.

11. É necessário também recuperar o Estatuto do CABio ou, melhor, escrever um Estatuto novo, que explique o funcionamento da entidade, que fale sobre instâncias de decisão, quórum, etc e que seja aprovado em Assembleia com muita gente. Poderia ser votado junto no primeiro Congresso.

Por que fazer tudo isso? Meu motivo principal para essa proposta é que eu acho que vai propiciar muito debate e discussão saudável e interessante no curso. Outros motivos são mobilizar mais pessoas pra participar do CA e dar mais legitimidade institucional pras nossas opiniões.

Que tal?

A reforma trabalhista passou

Texto publicado no facebook algumas horas depois da aprovação da reforma trabalhista no Senado, em 11/07/17.

A reforma trabalhista passou. Tem momento para o choro, o cansaço e a desilusão, sim, porque somos humanos.

Mas é necessário dizer para os milionários que apoiaram essa merda (e aos milionários que votaram nela) que não vai ter paz. Justamente porque somos humanos. Se vocês não conseguirem fugir para outro país, estejam preparados para o que é capaz de fazer quem passa fome, quem tá desempregado, quem está desesperado. Não vai ser bonito. Não vai ter segurança para nenhum de vocês aqui.

É necessário também falar às nossas e aos nossos. Companheira, companheiro, a luta não acabou. Justamente porque somos humanos. Nenhuma opressão vai passar impune para sempre. Quem vê os seus morrendo, passando fome, sendo explorado até a última gota, vai tremer de indignação, assim como você já sentiu muitas vezes.

Pode chamar de raiva, de dignidade, de rebeldia, de amor: é um pouco de tudo isso. É lei da ação e reação, é instinto de sobrevivência. Mas, principalmente, é a matéria-prima da resistência que vai ressurgir. Da mesma forma que surgiu em cada canto desse mundo, em cada episódio histórico onde pisaram nos de baixo. Nenhum império durou para sempre.

É nossa tarefa, a partir de hoje, a construção de respostas coletivas e libertárias às nossas necessidades. Tarefa de contribuir para a confluência das rebeldias que certamente virão.

Que essa resistência surja do sangue quente, como tem que ser, mas que surja também com o aprendizado dos erros que nos trouxeram a essa situação. Até agora, sobrou gente pensando nas eleições e nos acordões, mas faltou gente cerrando os punhos de verdade contra as reformas. Daqui pra frente, não pode mais ter conciliação. Seremos ingovernáveis.

Respeitem as conversas coloquiais

A fila já contava algo como meia hora. Foram 15 minutos tentando reconectar a wi-fi e o resto dividido entre o terrorismo deles no facebook e uma conferida no whatsapp, pra ver se não era hoje que o genocídio estatal no bairro do lado ia explodir o mundo cor de rosa dos grupos da família e dos funcionários do quarto andar. Só de praxe.

Você pediu licença, disse que estava atrasado, entrou comigo na fila e eu não soube o que responder (como sempre). Reclamou da chuva, pediu fogo, fingiu que as informações na tela do seu celular não eram tão medíocres quanto as que eu vi. Você cumprimentou umas meninas que passaram de skate e olhou o relógio. Eu perguntei se você tinha aula de tarde, você me perguntou se eu acreditava mesmo naquele altruísmo todo ou se estava só correndo atrás de status e conforto – e foi como me deixar pelado no pátio da escola, mas no caso a escola era só minha consciência mesmo e por isso doía muito mais.

Você nunca teve respeito nenhum pelas conversas coloquiais. Eu já tive certeza que não era de propósito, mas também não tenho dúvidas de que você se diverte com isso. Foi nesse ponto que eu não consegui mais fingir que não reparei no centímetro de barba a mais, no leve sotaque mineiro que você trouxe das últimas férias e nas meias que você ainda vestia com os pares trocados, seu preguiçoso.

A casa caiu e os escombros deixaram expostas aquelas noites de vento e vinho na terceira casa com a melhor vista do morro; aquela viagem de 38 horas de ônibus conversando sobre todas as (poucas) possibilidades de ganhar dinheiro sem vender nossa alegria; assim como os dois melhores sexos da vida – um na barraca, outro na coberta de microfibra novinha; não foi no mesmo ano, mas foi no mesmo dia e com a mesma pessoa.

Eu nunca mais fui feliz de verdade, nem triste de verdade, apenas distante. Porra, faz 4 anos e eu ainda cozinho todo dia as coisas que você me ensinou a comer.

É o quinto dia que eu não durmo – eu pesadelo – e a culpa é minha, como das outras vezes (mas eu direi que é sua). Se eu não fosse a única pessoa no planeta capaz de interpretar todas aquelas planilhas que eu escrevi nos últimos dois anos, eu já estaria despedido. Tenho certeza que o carrasco que se apresenta como meu chefe já pediu para o setor de TI resolver isso, sem saber que a função gerencial dele vai ser terceirizada antes que a minha, problema resolvido por um adolescente chinês escrevendo código em algum galpão – e isso não é consolo algum, é só mais uma justificativa para sonhar com pedras e gasolina.

Esse texto não vai sair em nenhum lugar, a última coisa que eu preciso é algum otimista vir me falar como é ótimo que eu voltei a escrever – porque a culpa é sua, como das outras vezes, e eu não terei coragem de dizer.

 

“Pint of science”? Ou uns gorós entre cientistas e o povo?

Em Florianópolis, SC, nos dias 15, 16 e 17 de maio, está acontecendo o evento mundial chamado “Pint of Science”, onde cientistas vão falar sobre seus trabalhos tomando cerveja com o público. A iniciativa se propõe a ser “um festival de divulgação científica sem fronteiras”. A divulgação das atividades pode ser vista aqui. Tentei publicar o seguinte texto no facebook do evento na cidade, mas a moderação não liberou a publicação até agora.

Mercado São Jorge? JACK & JACKS? Eu sou estudante de pós-graduação e nem eu consigo frequentar esses lugares! Queria saber quando os doutores vão divulgar ciência ali na pista de skate da Costeira, onde junta gente toda semana pra fazer umas rimas na Batalha Da Costeira. Quando vão falar lá no Coreto da Praça XV, onde o Mnpr/sc – Movimento Nacional População Rua – Santa Catarina se reúne com as irmãs e irmãos da rua? Quando vão levar os trabalhos lá no barracão da Ocupação Contestado, na Serraria (São José), onde tem mais de 100 crianças? Quando vão subir o Mont Serrat pra dar palestra lá no Colégio Marista?

Lá onde a Universidade não chega, onde o Neil deGrasse Tyson não chega, onde mal chega escola. Porque se ninguém for lá disputar o futuro dessa molecada, saibam que já tem gente lá com esse objetivo e não é pra dar uma perspectiva de vida nem de estudo, não.

Não é nem mesmo uma questão de alcançar o público. Minha hipótese é que a ciência brasileira precisa deixar um pouco de lado quem bebe cerveja artesanal gringa e tentar apresentar algo que interesse as pessoas que bebem Schin, quem toma energético Flying Horse, garrafão de vinho e destilado em garrafa de plástico, porque aí vai perceber o abismo entre a ciência produzida no país e as reais necessidades e interesses da maioria da população.

A gente não tá precisando de divulgação científica que só ensine o povo que o DNA é uma fita em dupla hélice, a gente também precisa que os cientistas aprendam com o povo o que é viver num país colonizado, na periferia do capitalismo; com 1/4 da população em moradias insalubres; com crescimento de doenças tratáveis há décadas, como tuberculose; com milhares de mortes por doenças tropicais pouco pesquisadas; com a maior taxa de uso de agrotóxico por pessoa do mundo; um país que não tem serviços públicos básicos, entre outros motivos, porque paga alguns bilhões anuais em licenças e royalties das tecnologias alheias. Existe uma ciência e tecnologia capaz de se comprometer com a longa tarefa de emancipação do nosso povo. Mas nunca vamos olhar para elas enquanto estivermos tomando chopp de 18 reais.

Eu não vou na manifestação de hoje (04/12) e quero te convidar para não ir também

Texto publicado no dia 04/12/2016 no facebook, comentando os atos de rua convocados por grupos como Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre, tratados como “atos contra a corrupção”. Cabe ressaltar que cada grupo propôs uma pauta própria e não houve acordo entre eles, mas as pautas incluíam “Fora Renan [Calheiros]” e principalmente a defesa do programa de “dez medidas contra a corrupção” formulado pelo Ministério Público Federal e encabeçado por Sérgio Moro.

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Eu não vou na manifestação de hoje (04/12) e quero te convidar para não ir também.

Não é só por causa das camisetas da CBF de quem organiza os atos, símbolo de escândalos no futebol. Não é só porque esses grupos, que agora chamam atos, nos deixaram sozinhos nas ruas enquanto o governo congela investimento em saúde e educação por 20 anos. Não é só porque eles estavam juntos com Eduardo Cunha seis meses atrás. Não é porque a Rede Globo, inimiga do povo, está convidando a ir pra rua. Não é nem só porque os defensores da ditadura militar vão ter espaço privilegiado na manifestação deles (http://ow.ly/Q77J306NihF), gente que gostaria que eu perdesse as unhas por minha visão política.

Todos os motivos acima são bons. Mas a verdade é que eu não vou, acima de tudo, porque não acredito que seja “contra a corrupção”. Todo mundo é contra a corrupção, mas a pergunta é: como? O resultado concreto desses atos é de apoio a Sérgio Moro e ao pacote de leis proposto pelo Ministério Público Federal sob o nome apelativo de “dez medidas anticorrupção”. Se você não sabe o que é esse pacote, não deveria ir para a rua, porque é isso que estará defendendo.

Quem tem analisado de forma crítica o pacote chamado “dez medidas” diz que ele faz aumentar o poder do Judiciário para ouvir menos, julgar mais e punir mais. Tira direito de habeas corpus, presunção de inocência, cria pagamento por delações, mais prisões preventivas. O Brasil já tem a quarta maior população carcerária do mundo e obviamente não são os chamados “corruptos” que estão atrás das grades. Sendo o Judiciário o que é, tudo indica que essas medidas vão servir também para colocar mais negros e pobres atrás das grades. O Judiciário quer mais poder, o Legislativo contra-ataca, mas nessa briga dos de cima nossos interesses não têm vez.

A Lava Jato já passou por cima de direitos democráticos de defesa, inclusive prendendo inocentes (http://ow.ly/v15x306Nita) e fazendo da sua investigação um espetáculo midiático com interesses político-eleitorais, blindando fortemente partidos como o PSDB. Mas o fato de que o PSDB foi quem articulou toda a ofensiva da classe política para mudar as leis do MPF (http://ow.ly/URbK306Niq1) não parece chamar atenção da Globo nem dos organizadores.

A corrupção não é um desvio de caráter de alguns degenerados que precisam ser presos. Ela é parte fundamental do funcionamento do capitalismo e de nossos instituições chamadas democráticas. Não se enfrenta com leis duras, se enfrenta transformando o sistema. Transformando o mesmo sistema que faz metade do dinheiro público inteiro ir para banqueiros e credores da dívida pública, ou que paga 224 bilhões anuais de “Bolsa Empresário” (http://ow.ly/B86I306Nivf), sem que nada disso seja corrupção. O maior roubo do nosso dinheiro é perfeitamente legal.

Enfim, por mais que eu esteja convidando para não ir hoje, tenho outro convite muito mais importante para fazer. Deixar de ir pra rua não resolve nada por si só. O que é fundamental, fundamental mesmo, é não ficar parado nesse momento tão sério. Precisamos muito de gente nas manifestações contra a PEC 55. Elas vão acontecer na próxima semana e são nossa única esperança de evitar o congelamento de investimento na saúde e educação por 20 anos. Tá na hora de lutar pelo nosso futuro! Não vai vir nenhuma solução de cima, nenhum juiz superpoderoso vai nos salvar, é nós por nós!

Relato do EREB Sul de 1836, em Manufaturé

Recentemente, estávamos lembrando de histórias do Movimento Estudantil da Biologia e resgatamos o texto abaixo. Na construção do Encontro Regional de Estudantes de Biologia Sul, que seria em Maquiné (RS), estava proposto um espaço para carnear um boi. Após algumas pessoas levantarem críticas ao ritual, porque não queriam financiar ou apoiar a morte do animal, respostas muito mal-educadas apareceram e motivaram a escrita dessa piada. Isso aconteceu no final de 2012 e pode ser conferido aqui.

O ano é 1836, um dos primeiros encontros de estudantes de biologia que se tem notícia na região sul, que ocorre na cidade de Manufaturé.

A maioria dos estudantes conseguira, junto a suas Universidades, charretes para chegar à cidade, mas um bravo grupo de algumas dezenas, partindo da cidade de Florianópolis, vai de bicicleta.

Os prestativos e amorosos organizadores do EREB mandam a todas as escolas, por barcos ou jegues, uma carta escrita à pena donde consta a programação do encontro. Uma nota de rodapé avisa: “Excelepmtíssymos Srs., inphormamos que não será necepssário si preocupar com os aphazeres, uma vez que seremos todos servidos por escravos da mais phina quallidade”.

Cerca de 2 meses após o envio da carta surge outra, desta vez trazida por um pombo correio que visita todas as cidades com cursos de Biologia, e questiona a presença dos escravos no encontro.

Após muitas discussões, a resposta é a seguinte: “Apóz muitas dyscussões, decipdimos manter tal posição, que poderá servvir para qüestionar em todos suas aptitudez. Além disso, i) os escravos phazem parte essensial de nossa cultura há séculos, ii) a mayoría dos estudantes também tem seus escravos, iii) não há ouptra maneyra de realizar o encontro, uma ves que várias phunções braçais são essenciais, iv) os escravos já eram escravos cuando os contrátamos para nosso evempto, e assim continuariam, e v) os que são contra a escravidão têm todo direyto de não usar delles, resppeitamos todos os caprichos, já que somos todos estudantes de Biologya”.

Naquele ano a decisão prevaleceu. No entanto, dentro de menos de uma geração de EREBs-sul, a escravidão foi abolida nos encontros, dando grande impulso à luta antiescravagista ainda no Brasil Imperial.

Referências Bibliográfica:

SAALFELD, K. O Movimento Estudantil da Biologia. 1894. EdUFSC. Florianópolis. In: Memórias de meus primeiros anos como professor.