Ucranizar?

Texto publicado aqui no facebook no dia 21 de abril de 2020.

Expoentes do setor ultraconservador religioso bolsonarista começaram a divulgar que é momento de “ucranizar”. Sara Winter chamou um acampamento em Brasília como “primeiro passo”. Bernardo Küster, youtuber que tem acesso direto ao núcleo duro de Bolsonaro, influenciado por Olavo de Carvalho, disseminou a ideia também.

No twitter, a divulgação do tema está sendo feita como se “ucranizar” significasse “colocar os políticos na lixeira”, literalmente, como ocorreu em alguma situação na Ucrânia. Isso é falso.

Ucranizar significa que a extrema-direita pega em armas e incentiva uma guerra civil, como aconteceu na Ucrânia em 2014. É disso que Sara Winter e Bernardo Küster estão falando e seus seguidores sabem disso.

Não dá pra dizer ainda qual a influência dessa proposta no conjunto do governo, é possível que seja baixíssima ou mesmo nula. Mas é importante saber que pessoas com grande influência nas redes sociais da extrema-direita estão fazendo essa aposta.

Sabem que Bolsonaro está cada vez mais isolado, que sua rejeição aumenta e que é provável que suba muito mais com o agravamento da pandemia do qual ele é responsável por atuar contra o isolamento. Temem sua queda e apostam no “tudo ou nada”.

O Leste da Ucrânia está em guerra até agora.

Impressões da Bolívia

Escrevemos muito sobre a situação social e política da Bolívia aqui. Nestas linhas, gostaria de registrar impressões mais gerais, elementos do cotidiano, daquilo que é o tecido com o qual se tece a vida real em seus momentos pequenos e mais breves. De alguma forma, aquilo que é a sensação de determinado lugar, seu clima, seu tempero, isto é, um vislumbre de sua alma. No entanto, sem perder de vista as devidas proporções, já que isso não passa de um fragmento, uma pequena seleção que foi possível abstrair em uma curta visita por algumas poucas cidades. Não há dúvidas de que um mergulho muito maior seria possível na Bolívia profunda, nem tampouco de quanto seria desejável.

A ordem dos pontos não significa nada além da velocidade com que assaltaram minha mente, em estado relaxado e reflexivo, durante um dos seis ônibus que tomamos de Copacabana até Florianópolis. Fator que não deve ser subestimado, pois promove uma disposição bastante única nos tempos acelerados em que vivemos – o ócio sem culpa, a quase completa incapacidade de fazer qualquer coisa produtiva. Sem internet, sem artigo para escrever, reunião para ir, louça para lavar, é finalmente possível optar livremente entre o que o corpo quiser: dormir, ler, contemplar, comer, dormir, contemplar. A experiência da mente à vontade durante 100 horas e 3 mil quilômetros.

  • O preço das coisas. Quase tudo é muito barato, o que possui um efeito imediato no humor. A rotina de conversão de preços a que uma pessoa viajante está submetida a cada momento costuma ser um frequente desprazer, um calo que machuca a cada passo dado em uma loja, restaurante ou meio de transporte. Não na Bolívia. Um almoço completo por seis reais na rua. Uma viagem no transporte público por R$1,20. Um casaco de estampa típica local, bonito e eficaz contra o frio das montanhas, por 40 reais. Quem quer viajar para comprar barato vai gostar, é claro, mas quem não gosta de comprar vai gostar também. É gente como eu, que gosta de não gastar.
  • Soroche, o “mal da montanha”. Quando vivi no frio e conheci a neve, não entendi por que seres humanos migraram e foram viver onde há neve. Nosso corpo tem muita dificuldade com o frio: é difícil produzir comida, é difícil ficar muitas horas acordado, é difícil se molhar, é difícil se esticar, é difícil manter uma temperatura que sustente a vida. Ainda assim, o ser humano saiu deliberadamente da África e caminhou rumo ao gelo e à neve, de onde nunca saiu. Vivenciar o efeito da altitude na Bolívia trouxe uma reflexão parecida sobre os alpinistas. Quem voluntariamente se coloca em altitudes onde, além do frio intenso, se sente tanto a dor de cabeça, o enjoo e a incapacidade física da falta de oxigênio? Vencer montanhas já me pareceu mais sedutor antes. Recomendo sentir a altitude dessas cidades de 4 mil metros de altura e paisagens de quase 5 mil pela experiência humana e corporal muito peculiar que ela é, mas é necessário saber onde se está metendo. Em mim, o efeito passou após uns 4 dias, mas imagino que na subida do Everest ele é permanente e cada vez pior. Eu, que preferi ficar no carro descansando a ver paisagens alucinantes, de tanta dor de cabeça e enjoo, saí com a certeza que não escalarei encostas tão altas – nem acho que teria fôlego para isso.
  • Um país indígena. Talvez não seja a melhor designação em termos sociológicos ou demográficos, mas é como pude sintetizar uma série de experiências com a cultura da Bolívia e sua gente. Penso na arquitetura, na forma de comer, de vender e comer a comida na rua, de vender qualquer coisa na rua, de estar pela rua por lazer. Nas roupas, penteados e acessórios que rejeitam o padrão hollywoodiano, mesmo que ele esteja inclusive em todos os canais de televisão, e mantêm as cores, os desenhos e as referências indígenas. Acima de tudo, as cores. Penso na forma de carregar as coisas nas costas, a forma de carregar as crianças nas costas, a forma de carregar as crianças por aí, penso na forma de ser das crianças, responsáveis e serenas de um jeito que eu só tinha visto em crianças indígenas brasileiras. Na forma de sorrir, de cumprimentar, de falar das pessoas. O trânsito pode ser caótico, mas parece que tem uma calma e um acolhimento no trato com as pessoas.
  • As ótimas recomendações turísticas que não seguimos. Tem coisa que todo mundo vai te falar antes de ir pra lá. Pra gente, a principal foi sobre a água e a comida dar diarreia e coisas do tipo. Supostamente, não se pode tomar água que não seja engarrafada e não se pode comer nada que seja na rua. Acontece que essa sugestão é totalmente impraticável: tudo na Bolívia se come na rua. O povo não gosta de parede, de loja, de pagar aluguel para vender, sei lá. Mas tudo se compra e se consome na rua, nas feiras, nas esquinas. E deu piriri sim, mas faz parte integral da experiência. Se você não colocou suas paredes estomacais em contato com a comida local (e seus microorganismos), você perdeu um acesso material à alma do lugar. Tem sempre a dica de ser cuidadoso com roubo, com gente colocando droga na sua mochila, com esquemas e mutretas de todo tipo que as pessoas fazem. No entanto, não vimos nenhum roubo e, sem exceção, todo mundo foi prestativo sem tentar passar a perna na gente, mesmo nas rodoviárias, mesmo nas cidades turísticas, mesmo nas periferias, mesmo quando demos a maior pinta de turista perdido. Outra dica desse tipo foi sobre o transporte público, que seria perigoso e desorganizado, então a gente deveria usar Uber. Em algumas cidades, o transporte era por vans, super baratas e que passavam em enorme quantidade na rua. Não precisava esperar cinco minutos pra ir pra qualquer direção! Na capital La Paz a experiência com o transporte foi ainda melhor: a cidade tem o maior sistema de teleféricos para transporte coletivo do mundo. É simplesmente incrível. Você vê a cidade toda lá de cima, mas está em cabines junto com as trabalhadoras e trabalhadores indo pro trabalho. Uber já é uma vergonha pela precarização do trabalho; usar em uma viagem, ainda por cima, é gastar dinheiro pra ficar mais longe do lugar que se diz querer conhecer.
  • Uma viagem no tempo. O estado das tecnologias na vida cotidiana é diferente. Na rua, ainda se pode comprar CDs e DVDs. Nas vans de transporte público, em geral, o pagamento é só em dinheiro. Aliás, cartão de crédito é uma coisa que não se vê muito. O celular pré-pago ainda carrega com uma tarjetinha que você raspa com a unha e usa um código por ligação. Não quer dizer que as tecnologias mais atuais estejam ausentes ou inacessíveis, também, porque há muita coisa de ponta, como os teleféricos de La Paz. Mas, na vida cotidiana, muita coisa lembra dez anos atrás, o que não foi um problema em nenhum momento, pelo contrário.
  • Na hora não soubemos o que dizer. Andando por uma praça turística, fomos abordados por jovens estudantes de Turismo de um curso do interior querendo fazer uma entrevista conosco. Aceitamos, mas acabamos entrando demais no papel dos turistas-padrão: que era tudo muito bonito, que fomos conhecer a cultura e as comidas, que recomendávamos outras pessoas a ir para lá. Bem conforme as expectativas deles. É claro que eles não perguntaram, mas nós também não dissemos que estávamos interessados e preocupados com o massacre aos manifestantes populares, o golpe de estado, o ataque aos direitos indígenas, o nível de organização das classes oprimidas. Também não falamos na entrevista sobre como era triste que os turistas (especialmente de fora da América Latina) só conviviam com outros turistas nas suas visitas enlatadas, com seus pacotes Macchu Picchu-Titicaca-Uyuni-Atacama, exatamente os locais onde você conhecerá menos gente boliviana e, em geral, menos Bolívia. Ou sobre como era tolo dedicar tanto esforço para ver pequenas ruínas dos antigos impérios indígenas quando toda a cultura contemporânea, viva, em qualquer cidade andina, é também indígena, mas não recebe atenção. A insatisfação com a entrevista piorou alguns dias depois, quando uma amiga brasileira relatou uma conversa com o dono de um pequeno restaurante, onde ele disse que o golpe de estado deu um enorme baque no turismo do país, e apenas alguns meses depois é que estavam se recuperando. A imagem de estabilidade, paz e prosperidade é fundamental para as elites brancas golpistas se legitimarem e para fazer girar o mercado do turismo.

  • As comidas marcantes. Comprar umas frutas frescas e descascadas na calçada, prontas para o consumo, de preferência tuna ou achachairú. Um pacote cheio de cuñapé por seis reais com o vendedor ambulante da rodoviária. Empanada frita feita com massa de milho ou de arroz, como se fosse polenta ou bolinho, servida na folha de bananeira. O milho gigante, o feijão gigante em forma de rim, a batata seca no sol. A folha de coca para mascar. O suco de mocochinchi na rua, com um pêssego dentro do copo. Cerveja Paceña e vinho Kohlberg, baratinho. A Bolívia é o país onde o McDonald’s investiu todo seu status, marketing e propaganda infantil, mas mesmo assim faliu. A sensação é que nossa comida no Brasil é “universal”, genérica, igual dos filmes dos EUA ou Europa, mas que os ingredientes lá são realmente locais, não se vê igual em outras partes.
  • Voar sobre as montanhas. Não usamos avião para viajar. Mas qualquer pessoa em La Paz, a 3800 metros de altitude, pega um teleférico de dois reais, se pendura em um cabo de 20 ou 30 metros e vai até El Alto, a 4100 metros de altitude. É ver de cima a grande cidade mais alta do mundo. Valeria a pena ir lá mesmo que fosse só por esse motivo.

  • Necessidade das águas. Em Corumbá, o imperdível é “descer o rio Paraguai cantando as canções que não se ouvem mais”, como essa mesmo, da Tetê Espíndola. Em Santa Cruz, o que salvou foi conhecer as cabañas no rio Piraí. Na pequena vila isolada entre Uyuni e o Atacama, marcou o banho, que só a Ana quis tomar, pelo preço e pelo frio, mas com a experiência do banho com o cheiro do carvão que aquecia a água. O inesquecível mergulho super gelado no lago Titicaca, na praia em quem mais ninguém quis estar. Por fim, a falta de banheiro para fazer xixi ou de água para lavar as mãos nos ônibus bolivianos. Água é vida.
  • Criando roteiros anti-turísticos. Algumas coisas que aprendemos a buscar nas viagens: as manifestações populares, os locais de organização dos movimentos sociais, as universidades, os bairros mais pobres. Lugares onde se conhecem as pessoas mais interessantes, os muros com os escritos mais significativos, onde se descobre a dinâmica real de qualquer território, que são seus conflitos sociais.
  • A falta que faz entender a natureza. Apesar de uma viagem de dois biólogos, uma das maiores ausências foi entender o meio natural, os bichos e plantas que vimos, os regimes de chuva e os efeitos da atmosfera no sol. Entender a história ambiental, os usos tradicionais da terra, a origem da água potável, as unidades de conservação, as catástrofes, os projetos de mineração e turismo predatório, enfim, a natureza do local e sua interdependência profunda com a situação social e política. Não é precisamente uma questão de formação, mas talvez do equilíbrio entre ler e sentir, teoria e realidade, que é a próxima reflexão.
  • Leituras das estradas. Coloca aí nas sugestões de viagem algum mergulho nos sebos e livrarias do país. Uma parte da interpretação de um território é a interpretação do que se lê aí (e o que se silencia). Na Bolívia, se escreve e se lê muito sobre a situação local, a história, a política, a estrutura da sociedade. Em algum lugar entre o tempo disponível, as datas de passagens, o dinheiro que sobra no bolso, a disposição de caminhar tantas horas e a curiosidade, existe um bom equilíbrio entre leitura e passeio. Com certeza o meio a meio não é um bom guia neste ponto, pois um livro pode ser lido pra sempre, mas uma conversa com a chola que vende o mocochinchi, assim como o gosto da bebida, só podem ser acessados naqueles dias da viagem. Por outro lado, às vezes a gente precisa saber como se formou o partido MAS-IPSP, como se carregava a prata de Potosí para a Europa, se as elites do período colonial eram espanholas ou nascidas na Bolívia, quando viveu Simon Bolívar e qual era a posição dele no exército. Olhar e sentir não é suficiente, ou melhor, faz apenas surgir cada vez mais dúvidas e curiosidades que exigem análise histórica e social, ou seja, exige livros. É possível ler antes de dormir, quando se chega cansado de tanto caminhar, quando se espera carregar o celular, quando se espera os próximos 500km dentro do ônibus, etc. Ou mesmo, como poderíamos ter feito, guardar um tempo específico para isso. Talvez dormir tão pouco e caminhar tanto nem seja a melhor forma de aproveitar a viagem.
  • Lazer, álcool e drogas. Uma coisa que marcou muito nossa experiência foi ver que praticamente não existem bares e botecos pela Bolívia. Só vimos coisas similares nos locais mais turísticos, embora dentro do bar que visitamos só tenhamos visto pessoas de lá. Não se vê quase ninguém bebendo em público nem em bares. Mesmo o povo da rua, que já era bem menor que nas cidades brasileiras, não parecia beber tanto, ainda que fosse tão frio. O mesmo podemos estender para cigarro ou maconha, que eram muito raros, independente de onde fôssemos. Uma dúvida que ficou é se o lazer da maioria das pessoas não depende tanto dessas substâncias ou se o consumo é mais restrito às casas, como uma pessoa de lá nos sugeriu.

  • O trânsito atento e feroz. Buzina, buzina, buzina o tempo todo. Sinal de trânsito e faixa certa da pista são acessórios optativos. A distância média entre os carros é menos da metade da nossa. Se você pede pra van para descer, ela vai parar, não importa onde, muitas vezes você vai ter que abrir a porta e descer do carro na segunda de uma via de três ou quatro pistas. Parece extremamente perigoso, mas aos poucos vimos que funciona. Não vimos acidentes acontecendo. Uma coisa que ajuda muito é a falta de motos; as poucas que existem trafegam como um carro, esperando na fila, ao invés de voar pelos corredores de carro. É o que mantém os pedestres a salvo. Uma das coisas que traumatiza quem não tá acostumado, como nós, é a viagem nas estradas. Muitos motoristas usam a contramão para fazer as curvas com o ângulo mais favorável, cortando a outra pista para não ter que fazer tanta força no volante – conhecemos um motorista de van que teve dificuldade de entender a graça que vimos quando ele sugeriu que eu tirasse a carteira de motorista lá ao invés de fazer no Brasil. As regras podem ser as mesmas, mas a cultura do trânsito é incompatível.
  • As gerações e as condições de trabalho. Algumas coisas foram difíceis de entender. Por um lado, as crianças que pareciam muito novas estavam trabalhando – e são muitas crianças por toda parte. Idosas e idosos também trabalham. Por outro, ninguém parecia muito jovem: as senhoras mais velhas ainda carregavam crianças pequenas e as pessoas mais novas que já tinham suas crianças sempre pareciam mais adultas do que nós. A interpretação da idade pelos rostos ou pelas roupas exige outras referências, diferentes das que estamos acostumadas. Talvez seja o efeito do sol e do trabalho pesado, que faz as pessoas parecem mais velhas do que elas são. Também chama atenção a corcunda das senhorinhas, que ainda carregam muito peso nas costas para um lado e para o outro. Além da postura, também voltei com a hipótese de que os níveis de obesidade devem ser maiores. Algo para se pesquisar. Ainda assim, todo mundo parece ser muito forte e trabalhar sempre.

  • A identidade chola. As cholas ou cholitas são as senhorinhas que usam os trajes típicos que todo mundo já viu em fotos. Não são apenas mulheres mais velhas, são também jovens e até adolescentes, cuja escolha de vestimenta e postura conforma uma identidade muito própria, objeto de estudo, mas também de estereótipos, piadas e racismo – pois são, em geral, as mulheres indígenas e mais pobres. São poucas as cholas em cargos de poder econômico ou político, embora elas estejam por toda parte. Na pousada, um trecho do Galeano estava pintado na parede, lembrando os turistas que os trajes tão visados por fotografias não são indígenas, mas foram impostos pelos colonizadores alguns séculos atrás – e que a cultura verdadeiramente inca de mascar a coca não recebe tanta atenção e curiosidade.
  • UPEA, universidade do povo e para o povo. Não é nada de outro mundo que uma universidade pública esteja repleta de murais saudando lutadoras populares que enfrentaram ditaduras ou com insignas revolucionárias. Mas a Universidad Pública de El Alto tem muito mais que isso. Ela surgiu como uma reivindicação de alguns dos movimentos populares mais organizados e combativos do país, no seio da cidade rebelde de El Alto, pobre mas digna, pairando no alto da Bolívia. Aqui, o espírito de reivindicação saiu da cultura estudantil e faz parte da instituição em si mesma. Em suas torres, flamula a bandeira indígena Wiphala e não a bandeira da Bolívia. Em suas placas institucionais, se lê que ela é universidade do povo e para o povo, e também que ela resistirá de pé e não de joelhos. Pouco conhecida, mas uma referência para quem pensa em transformar a universidade pública.

As fotos são de Ana Lara.

 

Bolívia: entre o golpe, a repressão e as eleições de maio

Artigo publicado em 10/02/2020 no Repórter Popular por Ana Lara e JG, militantes da Resistência Popular Estudantil – Floripa.


O ano de 2019 deixou marcas da instabilidade política na América Latina que seguem muito vivas até agora. Por um lado, estamos presenciando o fim de uma geração de governos ditos populares, mas que buscaram sempre algum nível de conciliação com elites locais e mantiveram, também em menor ou maior grau, nossa dependência colonialista de exploração da natureza e exportação de bens primários submetidas aos países centrais capitalistas.

São governos cujo fim – ou derrubada a força – deu lugar a uma direita e extrema-direita que reforçaram as políticas neoliberais de exploração de nossos recursos naturais e força de trabalho, política que vem junto com o aumento da repressão estatal e a aliança com ideologias conservadoras de face patriarcal, racista, colonial e/ou fundamentalista religiosa.

É em meio a esse cenário que presenciamos os levantes populares ou grandes mobilizações de 2019 no Equador, Peru, Haiti, Chile e Colômbia, que encheram as ruas contra os efeitos do neoliberalismo e seus governos, conquistando algumas vitórias contra medidas privatistas e contra o aumento do custo de vida – no Chile, em particular, as mobilizações continuam com força e fazem tremer o governo de Piñera. Vimos também em 2019 o retorno da centro-esquerda nas eleições da Argentina e, anteriormente, a vitória de López Obrador no México.

Nós, após três anos do golpe midiático-jurídico-parlamentar brasileiro, imersas na difícil conjuntura de um avanço da extrema-direita em nosso país e incapacidade dos movimentos populares em oferecer uma resposta à altura, fomos à Bolívia com interesse pela história e destino comuns de nossa latinoamérica. Entre 13 e 27 de janeiro de 2020, percorremos oito cidades bolivianas atentas aos muros, aos noticiários e aos locais que foram epicentro das lutas sociais e políticas do país, buscando entender como se moviam as peças da sociedade boliviana após o golpe de novembro de 2019 que derrubou Evo Morales. Mesmo que o reconhecimento latinoamericano e afroindígena ainda seja pequeno em nossa compreensão de Brasil, acreditamos com convicção que não existe caminho nacional que não se encontre, por fim, ligado à estrada de nosso subcontinente.

Os acontecimentos desde as eleições de outubro

As eleições bolivianas de 2019 aconteceram em 20 de outubro, colocando Evo à frente nos resultados, mas sob suspeitas de fraude. No dia 10 de novembro, após uma jornada de protestos, Evo renuncia e sai exilado do país. Desde então, esses episódios estão sob uma forte disputa de narrativas.

Aqueles que assumiram o governo relatam um levante cívico espontâneo e popular, motivado pela indignação com a corrupção e a fraude eleitoral, que conseguiu derrubar um governo ditatorial. Uma narrativa que deixa de lado as orquestradas ameaças e sequestros a altos quadros de órgãos do Estado e do MAS, partido de Evo, levadas a cabo por grupos armados, bem como a sucessão de censura e perseguição política desatada pós-renúncia; as nítidas influências diplomáticas e operativas de governos de direita e extrema-direita, como os EUA e o Brasil, por trás dos acontecimentos; e o ódio anti-indígena mobilizado por elites conservadores e fundamentalistas religiosas, em um contexto de avanço evangélico no país, sintetizados nos gestos de retirar a bandeira wiphala de símbolos oficiais e na frase da atual presidenta Jeanine de que “a Bíblia estava de volta ao palácio”.

A bandeira wiphala representa os povos indígenas dos Andes, em particular os aymara e quechua que formam a maior parte da população do país. Com a Constituição Plurinacional aprovada em 2009, ela foi alçada a símbolo nacional ao lado da bandeira tradicional da Bolívia. Nesta foto, ela está hasteada no alto da Universidad Pública de El Alto (UPEA).

Os setores vinculados ao MAS, por sua vez, relatam um golpe de Estado articulado apenas pelas elites brancas e os EUA, sob seus interesses de classe e geopolíticos, sem levar em conta a insatisfação popular com diversas medidas do governo de Evo, como o avanço de mega-obras em terras indígenas, a responsabilidade pelos enormes incêndios de 2019 na Amazônia boliviana e, principalmente, a escolha política de tentar manter-se no cargo em uma nova reeleição, que havia sido rechaçada em plebiscito popular em fevereiro de 2016. Assim, não foram apenas as elites que estiveram nas ruas pela sua renúncia, fato melhor sintetizado pelo pronunciamento da Central Operária da Bolívia (COB), principal central sindical do país – cujo histórico de lutas classistas é inegável – pedindo a Evo por sua renúncia antes das Forças Armadas fazerem o mesmo.

Evo e Linera buscam exílio no México após a renúncia. Em primeiro momento há grande instabilidade política, sem que um novo governo se formasse, enquanto as elites anti-indígenas buscavam tomar o poder em ofensiva. Setores populares radicalizados ameaçavam uma resistência armada – no dia 11 de novembro, a organização aymara Ponchos Rojos marchou a La Paz sob cantos de “agora sim, guerra civil!”. A situação chegou a um equilíbrio tenso entre golpistas e movimentos sociais com a posse da então vice-presidente do Senado, Jeanine Áñez, que assumiu o compromisso de que seriam convocadas novas eleições em breve e que haveria garantias mínimas de organização, com participação do MAS e dos movimentos populares.

As eleições gerais foram posteriormente marcadas para o dia 03 de maio, mas o governo em exercício é responsável pela militarização das ruas do país; por diversos episódios de perseguição judicial e política a políticos do MAS, movimentos sociais e mídias populares; bem como pode ser responsabilizado por fazer vista grossa à organização de grupos armados de extrema-direita que circulam nas ruas em algumas cidades e continuaram com ameaças e perseguição a personagens do governo anterior – como o ex-ministro Carlos Romero, que teve sua casa cercada por grupos de extrema-direita até sua internação hospitalar e posterior prisão em janeiro.

Um dos acessos à Praça Murillo cercado por policiais e militares na manhã do dia 22 de janeiro de 2020. No muro, um pixo contrário a Carlos Mesa, principal adversário de Evo nas eleições de 2019.

Um país rachado

Primeiramente, é preciso compreender que o rosto da Bolívia é indígena, assim como seus traços e seus sons. Diferente do Brasil, onde o genocídio promovido pelo colonizador nos faz hoje ter menos de 1% da população indígena, grande parte da população boliviana se considera indígena-originário ou mestiza (compreensão étnica usada na Bolívia, onde há uma conformação histórica diferente do contexto brasileiro e de seu mito da democracia racial). Em alguns dados populacionais, temos uma minúscula parcela de 3% da população que se considera branca, enquanto 59% é mestiza e 37% indígena. Estamos falando, então, de um dos países com maior população indígena do mundo, de maioria aymara e quechua – etnias que fizeram parte do Império Inca.

Por motivos geográficos, as primeiras cidades por onde passamos foram Puerto Quijarro, na fronteira, e Santa Cruz de la Sierra, a maior cidade da região leste da “meia-lua” na Bolívia, não-andina, marcada por um maior desenvolvimento econômico e maior parcela da população branca – sem ser, mesmo aqui, majoritária. É onde se concentra historicamente a oposição ao MAS, partido de Evo, e onde se fomentou nas últimas duas décadas um movimento separatista que guarda semelhanças com “O Sul é o meu país” no Brasil, mas com maior nível de inserção social. Tanto na arte de rua quanto nas instituições públicas é possível ver a promoção do nacionalismo camba (palavra que se refere à região), reforçando uma identidade à parte do resto da Bolívia.

Em uma caminhada rápida pelo centro de Santa Cruz, vimos uma exposição de fotos nas ruas, organizada pelo Manzana 1 Espacio de Arte, sobre os incêndios na Amazônia boliviana – que foram muito mobilizados discursivamente na região contra o governo de Evo. Visitamos também o acervo da Casa Municipal de la Cultura, cuja foco era ressaltar artistas da região e obras de arte que retratassem elementos culturais e históricos crucenhos. Pode ser uma leitura enviesada por nossas expectativas negativas, mas tudo na cidade parecia ressaltar a rejeição à identidade indígena boliviana. Ainda assim, sem que a narrativa branca consiga pará-lo, corre pela cidade o Rio Piraí, nome Guarani que também batiza alguns rios pelo Brasil.

Em azul, a chamada “meia lua”, os departamentos envolvidos nas reivindicações separatistas durante conflitos ocorridos em 2008. Chuquisaca, um departamento cuja maioria da população é indígena, nem sempre é incluído como parte da região.

Ao chegar nos Andes, seja na parte sul da Bolívia ou mais central, a sensação foi bastante diferente. Mesmo em cidades turísticas, como Uyuni ou Copacabana, era nítida a grande presença das bandeiras wiphala e de uma intensa campanha de agitação política nos muros realizada pelo MAS – embora sempre houvesse disputa nos muros com pixos contrários. Do lado do MAS, a consigna de que Evo representa o povo e que garante um futuro seguro. Em oposição, principalmente a denúncia da fraude eleitoral e da intenção autoritária de se manter no poder, assim como uma suposta ligação com o narcotráfico ou xingamentos genéricos (alguns dos quais racistas).

Diferentemente do Brasil, não há uma crise econômica para acusar e mesmo o pacote megaobras devastadoras e corrupção, plausível no contexto boliviano, parece ser pouco mobilizado nos muros. Cabe notar que há muitas pixações anti-Evo que explicitamente negam conjuntamente a oposição de direita, seja Mesa, Camacho ou Áñez. Também chama atenção como a grande capacidade de agitação do MAS é centrada no fortalecimento do ícone Evo Morales – um pixo do grupo feminista anarquista Mujeres Creando, que enche os muros das cidades com mensagens de luta, provoca: “não é embelezamento da cidade, é apenas campanha eleitoral”.

A hegemonia do MAS-IPSP e suas tensões

Algumas diferenças significativas para o processo brasileiro são a primazia do partido Movimento ao Socialismo – Instrumento Político pelo Soberania dos Povos (MAS-IPSP) como representante da esquerda. Primeiro, por não existir oposição de esquerda com expressão eleitoral; depois por se tratar de um modelo de governo que não se pauta explicitamente na coalizão com os partidos tradicionais, ainda que formas de conciliação de classe estivessem certamente presentes. Além da presidência entre 2005 e 2019, o MAS ainda tem, neste momento, a maioria do legislativo federal e de governadores do país.

A chapa Evo-Linera, chamada de união “poncho e gravata”, se formou como o resultado de um grande processo de unidade entre partidos de esquerda e movimentos sociais, incluindo bases sindicais de agricultores cocaleros, mineiros, organizações aymaras e quechuas, e setores da intelectualidade marxista, como o próprio vice-presidente Álvaro García Linera. Além da aposta eleitoral no MAS, esses setores compuseram o chamado Pacto de Unidade, uma coordenação de movimentos sociais que atua junto ao partido. É a partir da reivindicação histórica da coca como uso tradicional indígena e da participação nas guerras da água e do gás, no início dos anos 2000, que esse polo aglutina força para governar o país e conquistar as mudanças que se seguem (nacionalização dos hidrocarbonetos, nova constituição do Estado Plurinacional com direitos indígenas, queda da pobreza extrema a menos da metade dos padrões anteriores, fim do analfabetismo, sistema universal gratuito de saúde, lei da identidade de gênero, etc).

No entanto, essa hegemonia política também sofreu alguns baques relevantes no último período. O Pacto de Unidade sofreu baixas já em 2011, com a saída da Confederación de Pueblos Indígenas de Bolivia (CIDOB) e do Consejo Nacional de Ayllus y Markas del Qullasuyu (CONAMAQ), no contexto da luta contra uma grande estrada que Evo buscou construir sobre a território indígena de TIPNIS, parte do desenvolvimentista e predatório plano IIRSA que o governo executou, momento marcante de afastamento com alguns setores populares. Seu projeto de uma nova reeleição também não foi bem visto em parte de sua base organizada, o que impediu distintos setores de se levantar em defesa de seu mandato.

Antes mesmo da renúncia, após as eleições, sindicatos urbanos e camponeses buscavam aglutinar um campo de ação por fora do MAS, como pudemos ver em cartazes que continuam nos muros de La Paz. No entanto, com a dianteira no golpe assumida pela direita e a extrema-direita, implementando um regime de forte repressão aos protestos para legitimar o que chamam de “saída constitucional”, esses setores não parecem ter sido capazes de oferecer uma saída por fora do MAS. O partido de Evo, por sua vez, é quem mantém maior capacidade de denunciar o golpe de Estado, a repressão do novo governo ilegítimo e apontar caminhos de luta, ainda que estejam, nesse momento, voltados prioritariamente à disputa eleitoral – mesmo a COB, central sindical mais independente e que havia chamado pela renúncia, já declarou que está junto ao MAS para as eleições de maio.

Cartaz convocando encontro de organizações populares independentes em La Paz em novembro, dias antes da renúncia de Evo.

Independente disso, é visível que existe um campo aberto de crítica de esquerda aos governos do MAS. A Plural Editores, maior editora do país, que conta também com algumas lojas físicas, é especializada em temas de história, sociologia e política, publicando prioritariamente autoras e autores de esquerda, muitos dos quais bastante críticos. Temas como a formação social boliviana, a composição de classe, o racismo e o colonialismo, os limites da Constituição Plurinacional e o modelo de desenvolvimento subordinado e extrativista são frequentes nos títulos publicados, revelando um intenso processo de debate intelectual associado ao processo de mudanças sociais recentes.

Uma das autoras que se descata é Silvia Rivera Cusicanqui, que investigou as cosmovisões aymara e quechua, a teoria anarquista e a colonialidade, área onde elaborou o conceito ch’ixi como alternativa para superar as ideias de mestiçagem e multiculturalidade. No livro Mito y desarrollo en Bolivia: el giro colonial del gobierno del MAS, publicado pela Plural em 2014, Silvia Rivera defende que houve uma guinada colonial ao longo dos governos do MAS.

Nossas visitas a sebos e feiras de livros ainda revelaram autores clássicos da esquerda, como Che Guevara, Karl Marx, Eduardo Galeano e Fausto Reinaga, competindo nas mesmas prateleiras que Paulo Coelho e livros de auto-ajuda – algo difícil de imaginar no Brasil.

Outro ponto relevante de oposição de esquerda ao MAS se encontra no grupo feminista anarquista Mujeres Creando. Surgidas há cerca de 20 anos, atuando principalmente com propaganda de rua, elas alcançaram uma posição de grande inserção no debate público. Vimos María Galindo, um dos principais nomes do grupo, ser convidada como debatedora em um programa de auditório na grande mídia, dentro da discussão sobre uma reforma na lei do feminicídio do país. Ela também possuía a coluna semanal mais lida no influente jornal Página Siete que, não por acaso, foi tirada do ar na última semana, após alguns textos críticos à presidenta Jeanine Áñez – o mesmo não havia acontecido durante mais de 10 anos de críticas contínuas do grupo ao machismo de Evo Morales e de seu governo.

As Mujeres Creando ainda organizam atos e atividades com frequência, possuem uma sede-café em La Paz, uma estação de rádio e estão estruturando serviços de apoio a mulheres vítimas de violência, apoio jurídico para divórcios e um espaço de oferta de empregos para mulheres. Por outro lado, os setores próximos ao MAS acusam as Mujeres Creando de dourar a pílula do golpe de Estado e estar afastadas das camadas mais populares, indígenas e campesinas – na entrevista que vimos na televisão, Galindo apenas apontou timidamente que não viam “um ambiente democrático para as eleições de maio”; na capa de sua página de facebook, ainda está um dos posters do grupo acusando Evo Morales pelas queimadas na Amazônia; e em nossas duas visitas à sede-café do grupo, ele realmente parecia frequentado mais por uma juventude branca e urbana com bastante acesso, bastante diferente do perfil do país.

Mural na parede da sede das Mujeres Creando, em La Paz, anuncia o acolhimento às mulheres vítimas de violência e o apoio jurídico para realizar divórcios

Trópico de Cochabamba, centro da luta cocalera

Um relato de dezembro que circulou em algumas mídias populares brasileiras foi o texto do jornalista Ollie Vargas chamado “Chapare, território livre da Bolívia, expulsou o regime golpista”, que naturalmente nos fez incluir a região no roteiro. O jornalista que escreve para a teleSUR em inglês relata que essa região cocalera que envolve várias cidades e vilas havia expulsado a polícia e os militares por seu apoio ao golpe, instituindo uma polícia comunitária baseada nos sindicatos – consequência de um longo histórico de mobilização popular e auto-organização que dura décadas. Chapare possui a maior concentração de plantações de coca e foi, historicamente, o local mais ameaçado pela guerra às drogas promovida pelos EUA, que trouxeram à região a militarização e a perseguição ao sustento e costume indígena tradicional. O relato ainda contava como a população estava mobilizada para fortalecer a luta contra o golpe de Estado e apoiar a candidatura do MAS nas eleições de maio.

Frente a esse testemunho, nossa visita à cidade de Sacaba, capital do Trópico de Cochabamba (nome pelo qual Chapare é conhecida), foi um pouco frustrante. A pequena cidade parecia viver um dia bastante cotidiano, de calor, comércio vibrante nas ruas e conversas amenas entre a população. Vimos uma considerável presença policial nas ruas da cidade, principalmente da Guarda Municipal, mas também alguns militares, sem que parecesse haver hostilidade ou tensão. Mesmo os muros, testemunho recorrente das mobilizações e mensagens de luta, estavam bastante calmos – no máximo, eventuais pinturas eleitorais de “Evo 20-25”. Após a data em que estivemos lá, o mesmo jornalista postou outras notícias de mobilização na região de Chapare, incluindo vídeos de pessoas na entrada da cidade Villa Tunari para evitar o retorno das forças policiais, indicando que deveríamos ter buscado outras localidades para além da capital Sacaba.

Ainda assim, foi de lá que pudemos ir visitar a Puente Huayllani, onde havia um vivo memorial para as vítimas do episódio chamado de Massacre de Sacaba, quando oito manifestantes contra o golpe foram mortos em novembro, em um trancamento da via rápida que leva à entrada de Cochabamba. Mesmo após dois meses do massacre, o local ainda está bastante frequentado por familiares e amigos dos mortos, com dezenas de velas acesas, bandeiras wiphala e uma verdadeira montanha de flores recém-colocadas. Nossa intenção inicial, que era ir ao local para conversar com militantes mais envolvidos com a situação geral, foi abandonada – a cena era de choro e desolação pelas vidas perdidas, de forma que pareceu mais adequado apenas prestar nossa solidariedade e luto. Além do Massacre de Sacaba, as forças repressivas bolivianas são responsáveis por outro massacre durante as manifestações contrárias ao golpe, o Massacre de Senkata, na cidade de El Alto, ao lado da capital La Paz.

Local de luto e tributo aos mortos do Massacre de Sacaba. Segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, foram mortas 36 pessoas pelas forças policiais e militares nas manifestações após o golpe.

Papel da mídia e busca por informação

Mesmo para o padrão brasileiro de mídia empresarial, bastante marcada pela criminalização dos movimentos sociais e mesmo pela manipulação de debates presidenciais, como retrata o documentário Muito Além do Cidadão Kane, impressiona a situação da mídia boliviana.

Por um lado, o caráter racial. Em um país em que os rostos brancos nas ruas da cidade são quase exceção, os grandes canais de televisão parecem se situar na Noruega – além da quase totalidade de pessoas brancas, ainda se nota a objetificação das mulheres em todos os horários e programas. A linha editorial, por sua vez, vai além do clássico bloqueio midiático sobre o cotidiano dos pobres e as lutas populares. A vinculação dos territórios de mobilização indígena e cocalera com o crime organizado é constante, como no caso de Chapare. Compramos no dia 16 de janeiro o jornal impresso oficial do Estado boliviano: a foto de capa é a presidenta Jeanine Añez condecorando policiais da força de operações especiais (UTOP) por seu trabalho durante o golpe com a palavra democracia escrita em caixa alta – a polícia assassina, responsável pelo massacre de Sacaba, recebendo o prêmio pelo trabalho bem feito das mãos da elite do país. O jornal ainda não se refere ao presidente deposto e exilado, Evo Morales, por seu nome ou seu ex-cargo, apenas como “fugitivo” ou “cocalero”. Outras mídias ainda se referem a ele frequentemente como “índio”. Demonstrações de um verdadeiro ódio racial e de classe por trás da grande mídia.

Não é sem motivo, então, que a busca pela democratização da mídia é uma pauta frequente entre a esquerda boliviana e que as alternativas estejam mais desenvolvidas do que no Brasil. Um exemplo é o canal de televisão Abya Yala TV, que opera desde o final de 2012, com apoio do Governo do Irã e com grande afinidade ao governo de Morales. Seu jornal noticiário, ao contrário dos outros canais, é apresentado por uma jornalista indígena e as notícias são apresentadas também em aymara e quechua, além do espanhol. Em muitas bancas de jornal, principalmente pelas ruas de Santa Cruz, é possível encontrar por 5 bolivianos (3 reais) o Visión Z, um jornal impresso semanal explicitamente de esquerda, com muitas referências marxistas e indígenas, analisando geopolítica e notícias locais. A maior referência de rádios populares é a Kawsachun Coca, financiada por federações sindicais da região do Trópico de Cochabamba, que mantém sinal de rádio em diferentes localidades do país e atua também nas redes sociais com dezenas de notícias diárias de um alcance muito grande, mesmo em comparação com as maiores mídias independentes brasileiras. Por fim, algumas contas no Twitter foram bastante úteis para romper o cerco midiático em nossa estadia, em particular o perfil do jornalista Ollie Vargas (MintPressNews e teleSUR) e da Prensa Wiphala.

Ao mesmo tempo, são inúmeras as denúncias de censura e perseguição às mídias populares ou críticas à linha editorial da imprensa hegemônica desde novembro. Os canais teleSUR, fundado pelo governo venezuelano, e RT en Español, canal russo, foram retirados das TVs por assinatura. Dezenas de rádios comunitárias saíram do ar, algumas após terem seus equipamentos atacados – o mesmo pode acontecer com a Radio Kawsachun Coca, cujas torres de transmissão o Ministério da Comunicação pediu para serem tiradas do ar em janeiro. No canal Abya Yala, em novembro, houve ameaças de violência de grupos pró-golpe a suas trabalhadoras, que chegavam a portar dinamites. Na virada do ano para 2020, as trabalhadoras da Abya Yala tomaram a direção da empresa em defesa de seus empregos e liberdade de atuação, contra rumores de falência da empresa ou de revogação da licença que permite ao canal estar no ar. Na Bolívia, está mais nítido do que nunca que a comunicação é mais um campo de batalha na luta social.

O dia 22 de janeiro

A mídia boliviana acordou diferente no dia 22 de janeiro – feriado nacional da instituição do Estado Plurinacional da Bolívia. Um discurso público de Evo Morales era tradicionalmente televisionado e marcava as comemorações, o que não aconteceu pela primeira vez neste ano de 2020. Exilado na Argentina, Evo falou ao povo boliviano em um Ato Cultural comemorativo no país vizinho, mas sem transmissão ao vivo. Desde o final de 2019, o dia 22 de janeiro estava sendo divulgado como um dia de grandes marchas contrárias ao golpe de Estado, coincidindo com o dia final do mandato da senadora Jeanine Áñez, quando o MAS buscaria pressionar por sua saída

Foi em 22 de janeiro de 2010, através de um decreto presidencial, que foi instituído o Estado Plurinacional. Um ano antes, a nova constituição boliviana, a qual prevê o Estado plurinacional, assim como a autonomia e autodeterminação dos povos originários, havia sido aprovada, após ser aceita em referendo popular. A data também coincide com o início dos mandatos presidenciais, o que fez com que a contagem de tempo da refundação do Estado, embora formalizada em 2010, seja 2006 – dia em que Evo Morales assume, pela primeira vez, o cargo de presidente. Há uma vinculação enorme dos avanços em direitos sociais ou infraestrutura com a pessoa de Evo Morales: ele personifica as mudanças na Bolívia, inclusive com sua foto em todas as placas de obras públicas realizadas no país – cultura que foi proibida por decreto enquanto estávamos lá.

Nas ruas de La Paz, no dia anterior ao feriado, perguntamos para alguns jovens de Sucre o que eles achavam que aconteceria no dia 22: “Grupos vândalos armados que querem voltar ao governo vão tomar a Praça Murillo, tomem cuidado!”. Eram histórias desencontradas, mas cheias de medo, que pairavam sobre La Paz. Quando o dia 22 raiou, achamos que tudo pareceria luta ou festa, mas não pareceu nada. Andamos pelas ruas, bastante vazias, até chegar à Praça Murillo, local turístico onde se encontra a Catedral de La Paz e a sede do governo boliviano, totalmente cercada por policiais e pelo exército. Só funcionária pública entra na praça, foi a resposta do policial a uma senhorinha  vendedora ambulante. De alguma forma, os jovens de Sucre estavam certo: a praça havia sido tomada por um golpe, só que meses antes.

Sem conseguir entrar na praça, procuramos perto se havia alguma mobilização, grupo de pessoas, bandeiras do MAS. Não encontramos, infelizmente, nem nos pontos mais movimentados de La Paz, nem mesmo em El Alto, cidade vizinha que é referência de organização comunitária e base forte do MAS. A única intervenção política que vimos era um estande na rua onde um senhor quechua defendia a alternância do presidente do partido para uma liderança da etnia, visto que Evo Morales é aymara. Alguns panfletos e um pequeno cartaz, apenas isso.

Depois, lemos na internet que uma pequena marcha aconteceu em El Alto, sem que a tivéssemos encontrado – ao contrário do Brasil, em que as redes sociais tomaram um papel excessivo nas tentativas de mobilização, parece que as convocatórias circulam exclusivamente por outros meios, seja por cultura política ou por segurança. Também houve paros (fechamento de vias) e manifestações em algumas partes do país, incluindo um ato de tamanho expressivo em Cochabamba, com presença de lideranças do MAS. Semanas antes, Evo havia falado em formar milícias populares – logo seguido de uma retratação pública – e o jovem líder cocalero Andrónico deixara entender que a resistência pacífica se encerrava no dia 22. No entanto,o que percebemos, acompanhando as expectativas e notícias locais, foi a construção de uma narrativa de unidade do MAS para as eleições de maio, optando por estagnaras ações de rua, em um aceno à opinião pública de centro, para cavar a vitória da chapa abençoada por Evo, o ex-ministro da economia Luis Arce Catacora e o ex-chanceler David Choquehuanca – Andrónico, que havia sido nomeado pelos movimentos sociais como candidato a vice-presidente, foi escolhido por Evo apenas como candidato a senador, por sua linha política mais combativa e pela criminalização judicial que vem enfrentando do governo de Áñez.

À tarde, a Praça Murillo foi aberta à população e parecia festa, com crianças correndo e doces típicos. Ainda assim, o amargo da grande quantidade de policiais no local tirava um pouco o brilho dos olhos mais atentos. Janine Añez proferiu o discurso oficial do dia – sem ser capaz de mobilizar as massas, procurou se diferenciar do MAS ao liberar as emissoras de televisão da obrigação de transmiti-lo.

A luta dos povos frente a um futuro incerto

Nos dias que estivemos na Bolívia, foi possível mergulhar em elementos que tentamos costurar nesta escrita. Das eleições duvidosas, uma renúncia forçada por um golpe de Estado, à efervescência que tomou as ruas do país e foi brutalmente reprimida pela polícia. Tudo isso aliado a figura de Evo Morales, que por muitos anos construiu um governo fortemente popular. Mesmo depois de alguns meses de sua saída do país, o ex-presidente aymara ainda é a figura central no cenário político do país. No entanto, assim como é necessário assumir os avanços sociais da Bolívia nos anos de Evo, é preciso olhar também para o atual momento e seus dilemas como resultados da construção política e das escolhas tomadas por seu campo político.

O MAS teve 14 anos de governo na Bolívia e agora se vê fora do poder. Apesar da origem nos movimentos sociais e de um histórico de articulação entre as ruas e os parlamentos, a estratégia está focada nas eleições, terreno de disputa que o partido domina bem e onde se diz otimista. Uma apostana via eleitoral que segurou os ânimos das classes oprimidas da Bolívia e nos fez encontrar um país mais obediente do que esperávamos.

Neste momento, as frações da direita que efetivaram o golpe de Estado parecem se digladiar e enfraquecer para as eleições de maio, onde se fala em até cinco chapas distintas. O MAS, por sua vez, parece ter unificado suas bases no apoio à chapa Arce-Choquehuanca e caminha fortalecido às eleições, incluindo mesmo sindicatos e organizações que defenderam a renúncia de Evo – embora setores tenham demonstrado insatisfação pela escolha de um branco para a cabeça de chapa. No entanto, resta uma dúvida para o médio e longo prazo: essa linha apontada pelo MAS será capaz de ir além de uma pauta defensiva, cedendo cada vez mais à direita em troca de estabilidade, e avançar junto aos movimentos sociais para uma verdadeira libertação das classes populares bolivianas?

Em uma entrevista realizada na semana passada com uma mídia argentina, perguntado sobre a possibilidade do governo golpista não reconhecer uma vitória eleitoral do MAS, Evo responde paradoxalmente que acredita que isso acontecerá e exigirá um “plano B”. Analisando os rumos conturbados da geopolítica regional, parece implausível que os golpistas aceitem facilmente sair de cena. Isso nos traz outra grande questão para o próximo período: que preparação será feita para o momento em que a disputa política migrar, novamente, para meios mais diretos? E, principalmente, com que forças populares se poderá contar?

Para nós,  surgem algumas respostas do sentimento que pairava no ar de que os povos da Bolívia não ficarão de joelhos a nenhum opressor. A sete cores no ar, nos grandes centros e nas cidades do interior, estava a wiphala. Mais do que a derrubada de um governante, foram os ataques à wiphala que trouxeram os movimentos populares de volta às ruas durante o golpe. Dos Ponchos Rojos no campo às estudantes e trabalhadoras da Universidade Pública de El Alto (UPEA), universidade símbolo das lutas no país, ecoou o grito de que a wiphala se respeita. Porque, ao contrário do que considera o MAS ou a elite branca, a bandeira representa muito mais do que um partido, mas sim a afirmação da existência e dignidade das maiorias populares do país – unidade simbólica e concreta dos de baixo por um processo histórico de emancipação que precisa continuar, independente da liderança política que se disser representante dela.

A fachada da Universidade Pública de El Alto (UPEA), fundada a partir da reivindicação das entidades comunitárias da cidade, estampa bandeiras wiphala e a frase “UPEA de pé, nunca de joelhos”. Uma semana antes de nossa visita, uma grande quantidade de militares havia estado no local, em uma ação de intimidação.

As estradas na Bolívia nos fizeram pensar em um continente unido não só por sua história de massacre colonial, mas erguido na luta com as bandeiras indígenas que ainda seguem de pé: não só a wiphala, mas também a bandeira mapuche, que está presente na luta das ruas chilenas, e todas que representem os povos oprimidos originários e latinoamericanos. Povos também do nosso Brasil continental, nações indígenas que seguem firme de pé frente a todo o avanço desenvolvimentista de interesse capitalista e colonial. Território sem fronteira da América Latina, em que língua nenhuma nos une porque cabem todas dentro de nós. Território sem fronteira, mas marcado pelas linhas de luta pela terra, em uma guerra contra o latifúndio que nos afunda. Na Bolívia vimos como um país pode ser muitos e como isso ainda é pouco dentro dos sonhos que temos. A Bolívia nos faz lembrar das lutas que urgem em toda a América Latina, lugar em que não se respira outra coisa – desde os Andes até as quebradas do Brasil.

Cartaz colado próximo à Puente Huayllani, local do Massacre de Sacaba.

Wiphalas de pé!
Y la hoja de coca no es droga!

Rompiendo las barreiras, una sola bandera
América Latina en busca de una tierra sin guerra!
(Ukamau y Ke – AndinoAmérica)

Quem fez a ponte foi a classe trabalhadora

Hoje foi reinaugurada a Ponte Hercílio Luz, em Florianópolis. Seu nome inicial, infelizmente abandonado para homenagear um político oligárquico, era Ponte da Independência.

O ex-governador Colombo (PSD) e o governador bolsonarista Moisés (PSL) batem boca para ver quem leva o mérito pela obra. O primeiro diz que fez 90% da reforma, o segundo diz que foi o único governante capaz de terminar a obra.

Ambos igualmente mentirosos.

Nenhum dos dois mergulhou para instalar suas fundações, não pintaram uma torre ou soldaram uma peça sequer.

Talvez nem saibam que essa ponte, cuja construção entre 1922 e 1926 reuniu trabalhadores de toda a Ilha e de várias outras partes do Brasil, está marcada na história do movimento operário de Santa Catarina.

Por causa dela, se conheceram militantes como Álvaro Ventura e o Manoel Alves Ribeiro, o “Seu Mimo”.

Em seu livro autobiográfico, “Caminho”, Seu Mimo conta que entre os trabalhadores da ponte circulavam jornais operários e anarquistas como “A Plebe”, trazidos por marinheiros do navio Lloyd. Apesar da brutal pobreza, faziam um caixa solidário para enviar fundos para a Rússia, empolgados com a revolução operária. São esses trabalhadores que criaram o primeiro núcleo do Partido Comunista em Santa Catarina.

Hoje, infelizmente, a ponte é também um símbolo da sujeira capitalista, em que empresas privadas e grandes políticos fazem acordos para roubar ainda mais dinheiro do povo. Esse é o único legado que podem disputar as empresas estrangeiras junto com Colombo, Moisés ou qualquer outro grande político. É a marca registrada dos poderosos, dos de cima.

A beleza da ponte, a satisfação de vê-la aberta e funcionando, com tudo o que significa uma nova ligação entre dois territórios e suas gentes, isso não é de político nenhum. É uma demonstração da capacidade de criação dos de baixo.

Sobre o papel dos movimentos populares na queda de Evo Morales

Texto publicado em 10 de novembro no facebook, dia em que renunciou Evo Morales. Muita coisa aconteceu depois disso, mas a tese central do texto continuou atual: a maior parte da esquerda brasileira foi incapaz de ver ou considerar o papel dos movimentos populares na contestação que levou à queda de Evo.


A política é sempre correlação de forças e, no limite, a força das armas é sempre elemento decisivo. Assim, não é surpresa que quem dá o ultimato do golpe na Bolívia são as Forças Armadas e a Polícia. Nem deveria ser surpresa que transformação social de fundo, estrutural e sem prazo de validade, só se faz apoiada na capacidade de autodefesa popular, como mostram os zapatistas no México e o povo curdo.

Também não há dúvida de que há interesse e respaldo direto dos EUA e do Brasil no golpe levado a cabo hoje, imediatamente reconhecido e celebrado pelos respectivos governos.

No entanto, cabe um comentário crítico sobre o modelo de análise que predomina em nossa esquerda, seja por interesse eleitoral pragmático ou realmente por uma interpretação da estrutura social que é essencialmente voltada aos de cima, centrada no capital e no Estado.

Ontem, antes do pedido de renúncia feito pelas Forças Armadas a Evo, o mesmo já havia sido sugerido pela Central Obrera Boliviana (COB), como pode ser visto neste vídeo. A COB é a maior central sindical do país, se apresenta como anticapitalista e tem um histórico de atuação à esquerda, entre as quais se pode citar a luta pela nacionalização do gás e contra a privatização da água.

Seja arquitetado em La Paz ou em Washington, o golpe é também possibilitado pela perda de referência de Morales com as camadas populares organizadas. No mês passado, comunidades indígenas e rurais marcharam contra o governo de Morales após fortes queimadas em suas terras, ocorridas na sequência da aprovação de lei que amplia o uso de queimadas para as plantações de soja e gado. Lembramos, por fim, que no início do ano Morales entregou o companheiro Cesare Batistti como presente para o neofascismo brasileiro e italiano.

Não há nenhuma dúvida de que é fundamental rechaçar o golpe em curso e fazermos o possível para impedir que os militares e oligarquias tradicionais assumam o poder na Bolívia. Mas, enquanto análise, não podemos perder de vista o papel e o peso das classes oprimidas organizadas na correlação de forças.

A imagem pode conter: 5 pessoas, pessoas sorrindo, multidão e atividades ao ar livre

Entrevista ao podcast Bloco A

No episódio de abertura do podcast Bloco A: olhares anarquistas sobre o mundão, dei uma entrevista falando sobre Piotr Kropotkin, imprensa operária brasileira, sindicalismo revolucionário, ciência, anarquismo e também um pouco sobre mim mesmo.

O episódio pode ser acessado no youtube e no soundcloud.

Pra seguir o trabalho do Bloco A, é só ir atrás dele nas redes sociais (twitter, facebook, soundcloud e youtube).

Maio, de 1918 a 2019

O texto abaixo é uma leitura dramática apresentada no V Sarau 1º de Maio (Joinville, 2019). Ele partiu da adaptação do artigo Primeiro de Maio, escrito pela trabalhadora anarquista Maria Angelina Soares em 1918.


JOSÉ — Alguém aí lembra quem era o presidente em 1918, cento e um anos atrás? Alguém lembra? (…) E quais foram os grandes patrões que apoiaram ele para chegar lá? Quem financiou a campanha? Não? (…) Então vamos ouvir com atenção.

MARIA — Primeiro de Maio! Pesa sobre nós uma atmosfera asfixiante. Sente-se um mal estar indizível, causado por uma tirania estúpida e bárbara, cuja existência não acertamos a compreender, mas que nos dá uma sensação semelhante à sentida nesses dias de calmaria que precedem sempre as grandes tempestades.

JOSÉ — Uma tirania estúpida e bárbara… E não é isso o grande projeto prometido pelo ministro Sergio Moro, de repressão política e gatilho fácil na mão policial?

MARIA — A opressão procura esmagar-nos com o seu corpo informe de mastodonte, crava as garras impiedosamente nos cérebros e nos corações dos que se sentem homens, pretendendo arrancar deles ideias e sentimentos generosos, coisas estas grandes e sublimes, mas que não podem ser aceitas numa terra maldita como esta, terra de tiranias e baixezas.

JOSÉ — Arrancar dos cérebros e corações ideias generosas e sublimes… Isso não é aquela mordaça da Escola Sem Partido? Não é?

MARIA — Parece como que um imenso manto obscuro e espesso ocultasse o sol aos nossos olhos. Sufoca-se e sente-se um frio cortante que penetra até ao íntimo da nossa alma.

JOSÉ — “De madrugada eu senti um calafrio, não era do vento, não era do frio”. Diz aí, Mano Brown.

MARIA — É a revolta, a indignação comprimida que pugna por mostrar-se, por transbordar em correntes impetuosas, correntes que arrastam consigo leis tirânicas, instituições caducas.

JOSÉ — Correntes que arrastam tudo consigo… “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Diz aí Bertold Brecht.

MARIA — Maio veio alçar uma ponta deste tétrico manto que nos priva de sol. Maio é a lembrança de grandes ações, de sacrifícios que nos animam, de lutas que nos ensinam. Por isso, quando, oprimidos e escorraçados, começa o entusiasmo a arrefecer, Maio traz-nos alentos e esperanças, aquece-nos com o seu rubro manto, manto de dor e de martírio, mas também de glória e de justiça!

JOSÉ — Sacrifícios que nos animam, lutas que nos ensinam! Eu sei que “vértebras foram reduzidas a poeira no ar pra que eu tivesse o direito de me manifestar”. Fala tu, Eduardo Taddeo.

MARIA — A plutocracia paulista pode deportar e encarcerar trabalhadores, violar domicílios a altas horas da noite, impedir que o pensamento se manifeste livremente, violar as relativas liberdades adquiridas a custa de grandes sacrifícios, pode fazer muito no sentido de tornar o povo mais submisso e degradado, mas não poderá nunca impedir que os cérebros se desenvolvam e pensem, que os corações se dilatem a impulsos de nobres sentimentos.

JOSÉ — Engraçado. Essa é a plutocracia paulista? Ou de Brasília? Ou de Joinville? Ou é a elite de Washington? Parece que a elite é a mesma em qualquer lugar. Será que tem algum lugar em que ela não existe mais? Talvez Chiapas? Rojava?

MARIA — Maio e as recordações que ele nos traz vivem há muito no coração do povo. Porém sentimos uma necessidade imperiosa de afirmar que não esquecemos nossos mártires, de afirmar que as ideias que os levaram à morte são as mesmas que alentam as nossas almas, e que por elas, como eles, estamos prontos a enfrentar as perseguições, a calúnia, a própria morte. São Paulo comemorou também, apesar dos obstáculos que lhe opuseram, o dia 1º de Maio.

JOSÉ — Santa Catarina comemorou também, apesar dos obstáculos que lhe opuseram, o dia 1º de Maio.

MARIA — A comemoração deste ano limitou-se a uma vela de propaganda realizada na noite de 30 de abril, e que constou do seguinte programa:
1. Hino dos trabalhadores, pela orquestra.
2. Subiu à cena o esboceto dramático intitulado “Primeiro de Maio”.
3. Foi recitada a poesia “Fuerza” de Alberto Ghirlado, dedicada aos mártires da ideia.
4. A poesia “Jesú”, de Ovidio F. Rios.
5. Foi à cena a interessante farsa de crítica e propaganda “El acabóse”.
6. “Chicago!”, poesia de A. Ghiraldo.
7. “Donde está Diós?”, poesia de M. Rey.
8. “El león de bronze”, monólogo de Joaquim Dicenta.

JOSÉ — A comemoração deste ano constou do seguinte programa:
1. Peça com Coletivo Aflora
2. Leitura dramática, com Bárbara e JG
3. Cenas de teatro-fórum do curso do Centro de Teatro do Oprimido na Amorabi
4. Partilha de alimentos
5. Torneio de futebol rebelde
6. Show com David Lover
7. Slam com Endril e Marina
8. Peça “Não pense em trabalho: crise”, do Grupo Organizado de Teatro Aguacero

MARIA — Foi pois uma comemoração mais modesta que a dos outros anos, mas de uma modéstia que encerrava mais grandiosidade, pois era uma altiva resposta ao regime de terror que aqui impera, uma afirmação enérgica dos nossos princípios, e da confiança que no seu triunfo continuaremos a depositar. Muitos lutadores foram daqui retirados; outros surgiram. Correm boatos de que a polícia maquina novas infâmias, e é bem provável que as leve à prática. (…) No entanto, quando esses lutadores forem daqui afastados, outros ainda surgirão, inevitavelmente.

JOSÉ — Lembrei daquela que diz assim: “Não são os rebeldes que criam os problemas do mundo, são os problemas do mundo que criam os rebeldes”. Diz aí, Flores Magón.

MARIA — Os sentimentos, quanto mais reprimidos, mais se afirmam e crescem, até que enfim, transformados em paixão violenta, irrompem cegos, loucos e com força titânica arrastam consigo quanto a seu passo se opõe. Isto sucede sempre e com o povo paulista sucederá também.

JOSÉ — Isto sucede sempre e com o povo catarinense, brasileiro, latinoamericano, sucederá também.

MARIA — Maria A. Soares, São Paulo, maio de 1918.

JOSÉ — A elite, com seus presidentes, barões, industriais, seus juízes, milicos e polícias, foi esquecida. A companheira Maria Angelina Soares, trabalhadora, mulher, anarquista, é lembrada. Nosso povo tem memória, nosso povo é forte, nosso povo vai vencer.

Agitação e propaganda de rua na história de Florianópolis, por Seu Mimo

Os trechos abaixo foram retirados do livro autobiográfico “Caminho”, de Manoel Alves Ribeiro, o Seu Mimo, testemunha do início do movimento operário em Florianópolis, fundador do Partido Comunista Brasileiro em Santa Catarina e militante nessas terras por toda a vida. Entre diversos relatos interessantes sobre a história da cidade, seu povo e suas lutas, separei algumas a respeito das táticas de agitação e propaganda de rua do movimento operário em Meiembipe/Desterro/Florianópolis. As fotos são da Casa da Memória e foram disponibilizadas no facebook pela página Fotos Antigas da Grande Florianópolis, mas não possuem nenhuma relação direta com as citações, apenas que são fotos da primeira metade do século XX.


“O Partido Comunista continuava crescendo e já andava por uns trezentos militantes em todo o Estado. Nossa maior tarefa era ajudar, com os demais aliados anti-fascistas catarinenses, na luta pela derrota dos alemães e seus parceiros. Veio a campanha do ferro-velho para a Siderúrgica transformar em utilidades para a guerra. O povo, nas ruas, exigia de nosso governo que mandasse uma força militar para lutar na Europa contra o nazi-fascismo. (…) Os comunistas, de nossa parte, não deixamos um único muro na cidade sem um pichamento, exigindo o envio dessa força. Esses letreiros eram feitos à noite, pois em pleno Estado Novo, mesmo com milhões de comunistas morrendo na luta contra o nazismo lá na União Soviética, nossos companheiros aqui eram tidos como criminosos.” (Ribeiro, 1989, pp. 30-31)

 

“Os americanos pressionavam o nosso governo para que fornecêssemos soldados para lutar a favor da Coreia do Sul, onde eles tinham empossado testas de ferro que defendiam os seus interesses. (…) Foi lançada então a campanha para impedir o envio de soldados brasileiros para a Coreia. Como sempre, o governo desencadeou uma forte repressão contra tal campanha, prendendo, em primeiro lugar, os comunistas, e depois, todos os demais patriotas e democratas que participassem na campanha. (…) Em Florianópolis os companheiros também entraram na luta, e na calada da noite pichavam os muros com dizeres contra o envio de tropas. A repressão, por parte da polícia, era também muito forte. Criaram um batalhão especial para reprimir e prender os políticos. Comandados por um oficial de antecedentes arbitrários, recebiam diariamente doutrina anti-comunista. Como comunista eram, para eles, todos aqueles que não aceitavam a política reacionária e antinacional do governo, desciam o pau a valer, tornando difícil continuarmos a escrever nos muros e paredes, pois além dos soldados que vigiavam a noite inteira, havia também uma guarda noturna particular, que era ligada à polícia, e que foi depois dissolvida, pois começaram até a roubar galinhas nos quintais da cidade.” (Ribeiro, 1989, pp. 36-37)

“Estava programado um torneiro de futebol entre Florianópolis e Curitiba, e os clubes se preparavam para receber os vizinhos paranaenses. O muro do campo de futebol foi todo pintado juntamente com a arquibancada, pois ia-se realizar uma importante competição esportiva, com a colaboração e a presença dos governadores dos dois Estados. O campo, situado próximo ao bairro onde funcionava nossa organização, era o lugar indicado para executarmos ali um letreiro alusivo a nossa campanha contra o envio de soldados para a Coreia. Esse letreiro não podia ser feito por qualquer pessoa. Aquele muro bem pintado merecia uma coisa bem feita; por isso tinha que ser executado por artista competente. Nossa base era composta totalmente de operários, operários competentes, pois operários burros não procuram o seu caminho. Ficam a vida inteira servindo de lacaios e pelegos dos capitalistas. (…) Reunimo-nos e discutimos todas as dificuldades e aceitamos a tarefa de fazer o letreiro. Apresentaram-se os companheiros Verzola, Secura, Vagner e eu. Secura era operário mecânico e Vagner, pintor. Ambos mestres em suas profissões. Trabalhavam, juntos, na Diretoria de Obras Públicas do Estado. Em parceria, prepararam tintas e demais ferramentas para o trabalho. Osvaldo Moreira era o nome do Secura, e ele tinha esse apelido porque, quando jogava futebol, corria atrás da bola como um louco. A pedido de Vagner, Osvaldo preparou um tubo metálico, de uns trinta centímetros de comprimento, por cinco de diâmetro, que o nosso companheiro Vagner encheu de tinta especial, feita por ele, colocando, na ponta do tubo, uma esponja, também de sua fabricação, de estopa especial. A tinta era feita de forma que, no contato com o muro, fosse rapidamente absorvida para não borrar, e depois de seca, ficasse brilhosa.

O letreiro devia ser feito no máximo em 5 minutos, com letras de 50 centímetros de altura e 5 de largura. Deveria tomar o espaço entre quatro pilastras, com a extensão de 4 metros. Reunimo-nos mais uma vez e acertamos todos os detalhes, inclusive, os nossos pontos de encontro, pois não devíamos estar os quatro juntos, a não ser na hora do trabalho, porque se fôssemos presos, os quatro, não restaria ninguém para comunicar ao Partido. Cada um de nós tinha um itinerário; íamos por ruas diferentes, e em determinado momento encontrar-nos-íamos no local escolhido para a escalada do muro. Para isso tínhamos acertado nossos relógios, e não falhou. No momento exato, estávamos juntos, mas quando da escalada do muro tivemos que nos dispersar, porque o campo estava policiado, justamente no lugar escolhido, à sombra de dois eucaliptos. Ali estavam dois soldados da polícia. “Espero vocês no banco redondo”, disse Osvaldo. O banco redondo ficava na Praça Etelvina Luz, bem perto do campo. Assim, dentro de poucos minutos, estávamos os quatro no chamado branco redondo. Discutimos uma nova estratégia. Osvaldo, então, apresentou uma saída. “Tenho uma moça, conhecida, que mora na pensão da Libânia, lá na rua João Pinto; vocês esperam-me aqui, que eu vou falar com ela, para distrair os soldados”. “Como?” perguntou Vagner. Combinaremos com ela para trazer outra companheira sua, fingir que estão perdidas na cidade, e pedir para os soldados acompanhá-las até a pensão. Concordamos e Osvaldo, em menos de meia hora, estava de volta, acompanhado das duas moças. Descemos até a praia e ficamos esperando que ele aparecesse. Luci acercou-se dos soldados e contou-lhes que vinham de carona da Trindade, onde foram dançar, e como o cara que lhes deu carona começou com umas conversas bobas, elas ameaçaram pular do carro. Aí o motorista desistiu de levá-las até a pensão. Os soldados caíram na armadilha e foram levá-las até a pensão da dona Libânia. Com o sinal de Osvaldo, nos aproximamos do muro e, no local já escolhido, tentamos a escalada da muralha, que ali tinha mais de 2 metros de altura. O companheiro João Verzola, o mais forte da turma, encostou-se no muro para servir de escada. Vagner, munido do canudo metálico, que lhe servia de pincel, foi o primeiro a subir. Em seguida subiria o Osvaldo, que não conseguiu na primeira tentativa, pois Verzola era meio surdo e quando o Osvaldo pediu para ele esticar-se um pouco mais, Verzola não ouviu bem e fez o contrário; encolheu-se. Como seu companheiro ainda não tinha se segurado no muro, caiu por cima da escada improvisada, do Verzola. Entre risos e discussão, tentou a segunda vez e conseguiu pular. Nessa altura, Vagner já tinha começado o seu trabalho. Agora era eu que serviria de escada para que o companheiro Verzola se colocasse em cima do paredão, para no caso dos soldados voltarem, ao meu sinal, os companheiros saíssem pelo portão principal da outra rua, próximo à casa do zelador do campo, seu Valdemar, que àquela hora da madrugada já estava dormindo. Mas tudo correu bem. Dentro do previsto o letreiro ficou pronto e os dois voltaram pelo mesmo lugar em que haviam entrado.

Terminada a tarefa nos despedimos e cada qual tomou o rumo de casa. Na manhã seguinte, domingo, dia do torneio, seu Valdemar abriu cedo o portão que ficava bem defronte do letreiro e lá estava em letras vermelhas: NENHUM JOVEM PARA A COREIA. As letras de 50 centímetros de altura por 5 de largura, de cor vermelha, brilhavam como se tivessem sido feitas naquele instante, e eram perfeitas, e estavam corretamente equidistantes uma das outras, numa demonstração que haviam sido desenhadas por um grande artista. Seu Valdemar, ao ver o letreiro, telefonou para o presidente do clube, o Sr. Oliveira, que veio imediatamente ao campo. De volta à casa, seu Oliveira convocou o pessoal da diretoria para discutir o assunto. Se se raspava o muro ou se deixava o letreiro: ele já tinha sua opinião formada. Achava que deveria permanecer e assim ganhou toda a diretoria para sua proposta. E lá ficou por muito tempo aquele apelo, em defesa de nossa juventude. Seu Oliveira, esportista, filho de operário, democrata e nacionalista, na sua condição de patriota, ao ver aquela obra de arte, feita por operário como seu pai e seus irmãos, sensibilizou-se.

Mas, para levar a efeito essa tarefa talvez não seria possível sem a colaboração de Luci e sua companheira.” (Ribeiro, 1989, pp. 37-40)

“Nosso partido, já organizado em todo o Estado, nunca parou com suas lutas em defesa da soberania nacional. Em pleno Estado Novo, sob uma perseguição, desencadeada pelas forças de direita, sobre o movimento operário, não deixava passar um primeiro de maio sem um protesto. Quem passasse pelos morros e subúrbios da cidade, nas noites de véspera do primeiro de maio, ouvia o barulho de velhas máquinas de costura fabricando bandeirolas, de pano vermelho, algumas delas com a foice e o martelo, pesadelo da burguesia, desenhados no centro, que ao amanhecer do primeiro de maio, oscilavam garbosas e desafiadoras, penduradas às dezenas nos fios de alta tensão de energia elétrica, levando aos pobres e oprimidos a mensagem de esperança de dias melhores. Os reacionários e seus representantes no governo comentavam apavorados: Como podia ser colocadas bandeirolas nos fios de alta tensão a oito metros de altura, com a cidade fortemente policiada? Sendo que bem na frente do palácio do governo se encontrava uma com a foice e o martelo. Os bombeiros tiveram que usar escada “Marigus” para retirá-las, e este trabalho levou muitas horas. Essa burguesia que nunca acreditou no povo e muito menos na inteligência e capacidade da classe operária, esqueceu, que seu domínio não é eterno, que está condenado a desaparecer justamente pelo avanço de seu sistema, condicionado na exploração do homem pelo homem, e essa missão a história reservou ao proletariado, e , particularmente, à classe operária.” (Ribeiro, 1989, pp. 46-47)

“O governo e sua polícia, em todos os escalões, tachou de comunismo esse movimento, a ponto de considerar crime alguém dizer que o petróleo era nosso. Nosso partido mobilizou seus militantes, que na calada da noite pichavam muros e calçadas, com esse slogan. Usávamos um lápis, fabricado por nossos companheiros, que era muito difícil de apagar. Os entreguistas e a polícia, a seu serviço, pintavam por cima com cal as letras que fazíamos, procurando encobri-las, mas essas letras, imitando o exemplo de nosso solo, furavam a camada da tinta e apareciam sempre, como se estivessem dizendo: “foi um operário quem me desenhou, e só se derrubares o muro, pois de outra fora daqui não sairei”.

Os padres, na Igreja, os integralistas e a burguesia exploradora, exigiam do governo um maior policiamento, “pois esses diabos”, como diziam os padres, “ontem meteram as mãos na linha de alta tensão elétrica e, agora, fazem tinta mágica, que não se pode barrá-la”. (Ribeiro, 1989, pp. 49-50)

“Com quase todo o tempo tomado, sempre se conseguia reservar algo para as comemorações políticas, com primeiro de maio, aniversário de Prestes; aniversário da derrota do fascismo e outras. Divertíamo-nos com essas comemorações e dávamos um trabalhinho à polícia. Usavam muito o pelotão de cavalaria e um dia, em um de nossos comícios, na Praça Quinze de Novembro, eles tentaram impedir, mas nós já tínhamos um saco de rolhas e um de bolinhas de vidro, espalhamos na rua e o resultado, trinta cavaleiros no Hospital de Caridade. (…) O dia três de janeiro, aniversário de Prestes, era comemorado pela nossa base no morro do Ceu, que tinha o seu nome. Na véspera nos reuníamos e acertávamos os nossos relógios, marcávamos os pontos que eram mais de vinte. Comprávamos foguetes cabeça-de-negro, os maiores na época, e os companheiros que possuíam armas de caça poderiam usá-las. À meia-noite exata o morro era sacudido por um forte estrondo, e com pouca demora, lá aparecia o pelotão de cavalaria. Mas já era tarde, nosso companheiro já tinha sido homenageado. Os moradores do bairro gostavam e nunca reclamaram. Também, ali naquele bairro que se chama Morro do Ceu, onde outrora os escravos encontravam guarida com uma população na sua maioria de operários, cada casa tinha uma história de luta, cada pedaço de chão, cada árvore ali plantada, tinha a marca do sacrifício dos trabalhadores. (Ribeiro, 1989, pp. 88-89)

“Quantos companheiros precursores de tua luta deram a vida para tornar realidade a jornada de oito horas de trabalho! Quantas vezes na calada da noite escrevíamos a frase (Viva o 1º de maio!) nos muros e paredes de nossas cidades. Pela madrugada a polícia transformada em pintores, com tina branca procurava tapar essas inscrições, mas elas eram feitas por operários, com amor e com esperança e furavam a camada da tinta branca aparecendo ainda mais legível. Como a tua voz e o teu exemplo ninguém conseguia apagar, porque essas letras foram escritas por seus irmãos de classe que lutam pelo seu ideal, a ideia não se apaga.” (Ribeiro, 1989, p. 219)

Análise da experiência de diálogo com eleitores do Bolsonaro

Faz 12 dias que publiquei a seguinte postagem no facebook, convidando eleitores do Bolsonaro ao diálogo sem notícias falsas, sem acusações e sem julgamentos morais. Faço aqui alguns comentários sobre a experiência.

1. Em termos gerais, funcionou muito pouco para provocar diálogos. Apesar de 6 compartilhamentos, comentários de mais de 50 pessoas, mais de 80 reações, apenas uma pessoa se dispôs a discutir, ainda por cima um apoio crítico ao Bolsonaro. Pelos algoritmos do facebook, provavelmentemente centenas de eleitores do Bolsonaro viram o chamado. Muita gente que nunca interage com meu facebook apareceu aqui, o que também indica isso.

2. Eu acreditei que ia funcionar porque tem muita gente dedicada a fazer campanha. Se eu ofereci um espaço aberto e privilegiado para alguém fazer campanha do seu candidato, achei que iria aparecer muita gente. Não foi o caso.

3. É verdade que a quantidade enorme de pessoas contra Bolsonaro que colocaram pontinhos para assistir o debate intimidou. O fato da minha rede de amizades ser amplamente contra Bolsonaro também atrapalhou. Eu nunca saí excluindo eleitores do Bolsonaro do facebook, mas muita gente fez isso e acabou reforçando a tendência às bolhas que esse site já produz.

4. Como já falaram muitas pessoas antes de mim, essa eleição foi marcada muito fortemente pelos afetos, sentimentos e identidades. Houve pouca comparação e debate sobre propostas concretas para o país. Cada vez mais, os candidatos são produtos manufaturados pelo marketing para nos representar um conjunto de valores (que acreditamos ou não), mas também para produzir esses valores e sensações.

5. É certo que política não é razão. Como dizia um companheiro, ela está mais próxima da arte do que da matemática. A força que nos move para enfrentar a violência da polícia ou a mentira dos jornais, que nos permite levantar uma bandeira na rua, é sonho, desejo, fé. Ela não se demonstra factualmente porque se refere a um mundo que existe, por enquanto, apenas dentro de nós. Mas fazer política deveria ser uma tarefa orgânica, em que a gente mobiliza sonho junto com análise, valores junto com estratégia.

6. Esse exercício de diálogo aqui existiu porque eu sei que, entre parte dos apoiadores do Bolsonaro, a relação entre o sonho que essas pessoas têm e aquilo que o candidato delas pretende executar está muito dissonante. Com isso, não estou falando de quem vai lucrar com as privatizações, nem com a devastação da Amazônia, nem quem vai poder expulsar com armas os indígenas e quilombolas de suas terras, nem retirar o 13º salário de seus funcionários, nem quem quer estar na universidade sem conviver com pessoas negras, etc.

7. Essa experiência também existiu por outra hipótese, essa mais ousada. A possibilidade de que engajar eleitores ao debate público obrigaria transformar esses valores e sensações que os conquistaram em argumentos, para depois transformá-los em linguagem, e que realizar esse processo poderia revelar coisas novas para essas pessoas. Isto é, reconhecer que se está tomando uma decisão pelo medo, pelo ódio ou pelo nojo, que se está ignorando certas consequências, mas ver que é difícil justificar essa escolha porque não parece que ela vai atingir objetivos que são bem vistos socialmente ou mesmo os objetivos que a pessoa eleitora gostaria.

8. A experiência serviu, sim, como uma forma de mostrar que poucos eleitores de Bolsonaro estão dispostos a um debate público, assim como seu candidato não tem interesse algum em ir aos debates. Pra campanha eleitoral isso pode ser útil, mas não é o que eu queria.

9. Houve outra coisa para a qual ela serviu e isso foi importante. Algumas poucas pessoas que não têm nenhuma relação com a militância de esquerda vieram conversar comigo e parabenizar a iniciativa. Relataram a dificuldade que está conversar com as pessoas e defenderam a importância do diálogo. Acho que a esquerda tem que construir desde já e para além das urnas a rejeição e oposição ao Bolsonaro e aos militares, então é importante contar com as pessoas que identificaram em nós a disposição ao diálogo e podem se opor, em um futuro próximo, à perseguição violenta que vamos sofrer. Bolsonaro disse no último domingo que pretende nos mandar para a “ponta da praia”, uma referência a um local onde dezenas de pessoas foram mortas na ditadura que ele defende. Precisaremos muito dessas pessoas.

10. Surgiram vários modelos de “como conversar com eleitores do Bolsonaro” por aí que são bons. Queria ressaltar deles apenas um conselho: evitar a pretensão de superioridade moral ou intelectual. A esquerda tem seu conjunto de valores éticos, a direita tem outro. Acho que é possível e necessário discutir eles, mas política não é uma guerra do bem contra o mal, assim como não é uma guerra da inteligência contra a burrice ou contra a mentira. Tem muita gente que está contra a esquerda por ressentimento com essa tentativa de monopólio da moral e do conhecimento, que de fato é ridícula, prepotente e ainda elitista. Assim a gente só facilita a vida da extrema-direita.

11. Se Bolsonaro ou Mourão assumirem, vão entrar para gerenciar e aprofundar a crise econômica que já atinge o povo brasileiro, assim como outros países da América Latina. Existirá um campo fértil para a esquerda no seio do povo pobre, se ela ainda conseguir existir publicamente e souber organizar as lutas em defesa dos direitos sociais e da vida. Ano que vem, cada pessoa que disser “o povo merece o que tá acontecendo”, “eu avisei” ou “bem feito pra quem tá desempregado e votou Bolsonaro” vai estar destruindo o trabalho de cinco pessoas que estiverem falando “vamos juntos, é hora de fazer greve geral”, “é por isso que a direita quis acabar com os sindicatos” ou “não dá pra confiar nos militares, só na ação coletiva do povo”. Quem tá fazendo política para se sentir melhor que os outros, para depois lavar as mãos ou para ganhar status social, pode dar licença do caminho, porque tem a vida de muita gente em jogo antes das suas vaidades.


Postagem inicial do debate, no dia 14/10:

| ESPAÇO SEGURO PARA CONVERSAR COM ELEITORES DO BOLSONARO |

Faltam duas semanas para a escolha de quem vai entrar nessa casa aí, o Palácio da Alvorada.

Quase 50 milhões de pessoas votaram no Bolsonaro no primeiro turno. Sinceramente, eu não entendo elas. Mas acontece que algumas delas estão entre as pessoas que eu gosto e amo.

Então quero fazer um experimento aqui.

Nessa postagem, você tem espaço livre para explicar e defender seu voto no Bolsonaro.

Vou excluir qualquer comentário ofensivo e qualquer julgamento moral que for feito de você em cima da sua escolha de voto. Ninguém vai receber adjetivos aqui. Na verdade, não haverá outras pessoas contra Bolsonaro discutindo com você (apagarei se for necessário).

Apenas eu vou discutir com você. Sem ofensas, sem julgamento moral e sem notícias falsas.

Aqui é jogo aberto. Minha posição é pública, sou contra Bolsonaro, não sou petista (nem um pouco), mas sou de esquerda (muito).

Pode mandar estudos, referências, matérias, mandar outros textos, vídeos, etc, se for para subsidiar seu argumento. Mas não vou discutir com links soltos, apenas com pessoas que escreverem seus próprios argumentos. Quero entender você, não a pessoa ou texto que te convenceu.

Quem se equivocar e postar notícia falsa, basta reconhecer o erro, ou será apagado também. Independente do lado que a notícia falsa favorecer. Não quero facilitar a divulgação de notícias falsas.

Cada pessoa, apenas um comentário inicial e seguimos a discussão nas respostas. Por questão de organização, apenas.

Quem quiser, pode sair da discussão a hora que quiser. Não vou continuar a discussão fora desse espaço se você não quiser.

Então, por que votar no Bolsonaro?

Quem é contra o Bolsonaro, mas quer ajudar esse experimento, pode postar um “.” na discussão para receber notificações e ajudar a visibilidade.

A imagem pode conter: piscina, céu, nuvem e atividades ao ar livre

Amanhã é um dia decisivo para mudar a história do país

A escolha que você fizer amanhã pode ter impactos duradouros nos próximos anos e décadas. Pense bem. Estude as suas opções.

Amanhã, segunda-feira (08/10), começa mais uma semana de trabalho, estudo ou de procurar emprego. Ainda não sabemos os resultados do primeiro turno das eleições, mas temos certeza de uma coisa.

A exploração no local de trabalho continua e vai crescer muito pelos efeitos da reforma trabalhista e do desemprego. Todos os canais de televisão, rádio e jornais vão continuar nas mãos de poucas famílias de elite. Nossa comida vai continuar cheia de veneno, o mesmo veneno que adoece as pequenas agricultoras ou sem terra. O agronegócio vai continuar ameaçando e matando quilombolas e indígenas para impedir as demarcações e retomadas. O postinho de saúde do bairro continuará enfrentando a precarização. E assim por diante.

Por isso, a escolha de amanhã é muito séria.

A pergunta é uma só: vou participar de um movimento popular ou não vou?

Se não vou, o cenário acima vai continuar e tende a piorar cada vez mais. Se vou, estarei dando início à criação de um novo mundo.

Posso participar das atividades do meu sindicato e construir núcleos de base por local de trabalho. Posso entrar em um movimento social de luta por moradia, reforma agrária, direito à cidade ou transporte. Posso construir a mídia independente popular. Pode ser um coletivo ou movimento feminista, negro, ou LGBT. Posso entrar no movimento estudantil.

Não existe uma demanda mais importante, capaz de resolver todas as outras. As lutas são como um círculo, todas estão relacionadas, lado a lado, e assim que você entra elas não terminam nunca. Pelo menos é nisso que acredito.

Política é disputa de projetos através da correlação de forças. Nós não temos a mídia, as grandes propriedades, o dinheiro, as armas nem as leis ao nosso lado. Só podemos contar com a força do povo organizado.