3 modos pelos quais se organizar com amigos pode levar ao fracasso

Brandon Feld – Worker’s Solidarity Alliance / PDXSol

Sentar com um grupo de amigos do tempo da escola onde todos se vestem e falam da mesma maneira é uma cena recorrente no ativismo e em grupos organizados por todo o mundo. Em grande parte, se organizar toma a forma de poucas pessoas tentando reunir seus amigos em torno de uma causa. Essas práticas são contra-produtivas para criar espaços de organização convidativos.

Eu já estive em todos os tipos: organizações que começaram a partir de amizades, grupos de pessoas que se tornaram amigas após trabalharem juntas (o que é melhor), e mais recentemente um grupo onde eu tenho alguns amigos mas a maioria das pessoas com quem trabalho considero apenas camaradas. Isso significa que vez ou outra nós saímos para tomar algumas cervejas após uma reunião ou ação, mas a socialização não vai muito além disso. O último desses três funciona melhor para promover uma cultura organizativa saudável. Esse artigo irá analisar as razões pelas quais depender de nossos amigos para fazer parte de nossas organizações pode se tornar problemático.

1. Organizações onde a participação é baseada em um grupo de amigos não são convidativas. Em um grupo de amigos se desenvolve uma cultura: surgem piadas internas e os amigos começam a espelhar os estilos uns dos outros. Grupos de amigos tendem a ser homogêneos, pertencendo a uma subcultura específica. Isso é natural, porque nós queremos estar próximos de pessoas que validam nossas convicções e interesses. Isso significa que muitas vezes nós compartilhamos gosto musical, esportes, modo de se vestir, etc. Mas nosso objetivo de criar movimentos sociais mais amplos demanda que nós não apenas busquemos engajar pessoas fora de nossa esfera social, mas também que nós criemos espaços convidativos para pessoas que podem não ter nada em comum conosco fora o projeto no qual estamos todos interessados. É incrivelmente difícil criar esses espaços quando organizações começam como grupos de amigos. Uma pessoa nova interessada no projeto vai perceber rapidamente quem é amigo de quem e quem tem influência sobre quem. Essa pessoa nova se sentirá excluída ao perceber que a influência dessas amizades transborda e domina os processos de tomada de decisão e a dinâmica de poder na organização.

Esses tipos de organizações são identificados com o meio social ao qual seus membros fazem parte. Por exemplo, pode haver um grupo composto apenas por hipsters com a mesma idade de uma universidade específica, ou apenas de crust punks, ou apenas de torcedores fanáticos do Seahawks. Esses grupos não serão convidativos para pessoas que nunca poderiam ver a si mesmos como essas pessoas.

2. Outro problema é que o efeito das brigas entre amigos fica no caminho de se organizar de maneira efetiva. A cultura e a saúde desses grupos de ativistas/amigos são muito ligadas à saúde das amizades das pessoas envolvidas. Por exemplo, amigos têm relacionamentos, eles terminam, e amigos tomam lados. Espaços organizativos que não são dominados por grupos de amizade são menos suscetíveis ao efeito das brigas entre amigos porque outras pessoas dentro do grupo provavelmente não vão se distrair com isso. Também há uma chance menor de que isso cause com que os amigos envolvidos no conflito saiam da organização, porque a organização demonstra existir fora da esfera de amizades das pessoas envolvidas.

3. Muitos de nossos amigos que se consideram politizados simplesmente não estão tão dedicados a se organizar quanto nós. Muitas vezes, a participação nas reuniões é mais motivada pelo aspecto social do que por um desejo real de fazer a revolução. A força motivadora por trás de recrutar nossos amigos é a ideia de que acrescentar corpos ao nosso grupo irá nos fazer de alguma forma mais bem-sucedidos, e que focar em que essas pessoas participem das reuniões irá aumentar a capacidade e poder de nossos grupos. Essa linha de raciocínio não funciona. Um grupo repleto de amigos pode geralmente ocasionar membros pouco confiáveis que colocam pressão nos organizadores mais confiáveis para cuidar deles. Esse cuidado gera exaustão, e a exaustão dos organizadores mais sólidos leva ao fracasso do grupo. É melhor colocar esforço zero em manter essas pessoas pouco confiáveis. Um grupo de três pessoas confiáveis irá funcionar melhor e alcançar mais do que um grupo de 5 com dois ou três “de confiança” e o resto sendo furões.

Isso não quer dizer que pessoas que têm muita coisa acontecendo na sua vida não deveriam poder participar e se envolver. Níveis de envolvimento sempre irão variar e nós devemos dar espaço a pessoas com família, doenças, ou outras razões que as deixem com tempo mínimo para contribuir. Pessoas não-confiáveis são uma coisa totalmente diferente; elas são as pessoas que dizem que vão fazer alguma coisa e repetidamente não fazem o combinado, ou as que precisam de uma ligação para ao menos lembrar de ir na reunião. Acontece que muitas vezes essas pessoas são justamente as que têm mais tempo livre.

Por que grupos de amizade dominam com tanta fequência nossa organização? É porque essas são as pessoas que temos mais acesso. Sair de casa e ter alcance real, envolver pessoas que não conhecemos e que são diferentes de nós é assustador no começo. Isso demanda trabalho, então fazer isso em times é um bom modo de aliviar parte desse medo. A coisa mais simples que podemos fazer para mudar a cultura de amizade nos grupos ativistas é não depender de que nossos amigos entrem em nossos grupos e buscar ativamente outros organizadores dispostos que estejam interessados nos projetos que queremos tocar. Comece com duas ou três pessoas ao invés de cinco pouco confiáveis. Você terá resultados melhores.

[Texto original retirado de: http://feldbrandon.wordpress.com/2013/07/26/3-ways-organizing-with-friends-can-lead-to-failure/]

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Recusando Esperar: Anarquismo e Interseccionalidade

Recusando Esperar: Anarquismo e Interseccionalidade

Deric Shannon (WSA/NEFAC) e J. Rogue (WSA/Common Action)

“Sem justiça não pode haver amor” – bell hooks

O anarquismo pode aprender muito com o movimento feminista. Em vários aspectos, ele já o fez. Anarcafeministas têm desenvolvido análises do patriarcado que o ligaram à forma do Estado. Nós aprendemos com o slogan que “o pessoal é político” (p. ex. homens que defendem a igualdade entre todos os gêneros devem tratar as mulheres em suas vidas com dignidade e respeito). Nós aprendemos que nenhum projeto revolucionário pode estar completo enquanto homens sistematicamente dominarem e explorarem mulheres; que o socialismo é um objetivo consideravelmente vazio – mesmo se for “sem Estado” – se a dominação da mulher pelo homem é mantida intacta.

Esse artigo defende que anarquistas também podem aprender com a teoria da “interseccionalidade” que emergiu do movimento feminista. De fato, as concepções anarquistas de luta de classes se ampliaram como resultado da ascensão dos movimentos feministas, movimentos por direitos civis, movimentos de libertação gay e lésbica (e, talvez mais contemporaneamente, os movimentos queer), movimentos pelos direitos dos deficientes, etc. Mas como nos posicionamos frente a essas lutas? Qual é sua relação com a luta de classes que fortalece a luta pelo socialismo? Nós as desmerecemos como “apenas lutas identitárias” que obscurecem mais do que clareiam a tarefa histórica da classe trabalhadora? Se não, como anarquistas podem incluir essas questões em nossa teoria e atuação política?

Por que Interseccionalidade? Como Chegamos Aqui

Muitas pessoas situam o início do movimento feminista nos EUA com a luta das mulheres pelo voto. Esse foco no eleitoralismo foi criticado por sua estreiteza por muitas mulheres radicais da virada do século. Afinal de contas, o que o voto ofereceu às mulheres da classe trabalhadora? Como que votar por um novo conjunto de governantes poderia colocar comida no seu prato e no de suas famílias? Na verdade, muitas mulheres radicais desse período recusaram se identificar como “feministas”, já que viam o feminismo como um movimento de mulheres burguesas sem preocupação com a luta de classes (pra uma interessante discussão disso no contexto do anarcossindicalismo espanhol do início do século XX, veja Ackelsberg 2005: 118-119 e 123-124). De fato, muitas mulheres da classe trabalhadora viam suas contemporâneas “feministas” como aliadas a “todas as forças que têm sido os mais determinados inimigos do povo trabalhador, dos(as) pobres e deserdados(as)” – isto é, elas viam o iniciante movimento feminista como um movimento puramente burguês que não tinha soluções para a pobreza generalizada e a exploração inerente à experiência da classe trabalhadora em uma sociedade de classes (Parker 2001: 125).

Anarquistas desse período, por outro lado, anteciparam alguns dos argumentos que emergiriam do movimento feminista acerca da intersecionalidade. Nós argumentamos contra o reducionismo de classe que frequentemente ocorria dentro do amplo campo socialista. Os primeiros anarquistas estavam escrevendo sobre temas como a prostituição e o tráfico sexual (Goldman 2001), esterilização forçada (Kropotkin 2001), e casamento (de Cleyre 2004 e 2001) para ampliar a crítica anarquista da hierarquia para oferecer uma preocupação crítica às questões das mulheres por si próprias, enquanto também articulavam uma visão socialista de uma futura sociedade cooperativa e sem classes. Muito desse trabalho inicial demonstrou conexões entre a opressão das mulheres e a exploração da classe trabalhadora. A recusa de muitas mulheres trabalhadoras em se juntar a suas contemporâneas “feministas” também demonstrou alguns dos problemas de um feminismo baseado em uma identidade universal que via a opressão das mulheres como uma hierarquia que podia ser enfrentada sem enfrentar junto o capitalismo.

Isso não é sugerir que anarquistas não foram reducionistas às vezes. Infelizmente, muitos homens anarquistas desmereceram as questões das mulheres. Parte da razão pela qual a Mujeres Libres viu necessidade de uma organização separada de mulheres durante a época da Guerra Civil Espanhola foi porque “muitos anarquistas tratavam a questão da subordinação das mulheres, quando muito, como secundária à emancipação dos trabalhadores, um problema que seria resolvido ‘depois da revolução’” (Ackelsberg 2005: 38). Infelizmente, em alguns contextos, essa atitude não foi apenas uma singularidade histórica, embora devesse ser. E foram esses tipos de pressupostos que se tornaram um importante pano de fundo teórico para o feminismo de “Segunda Onda”.

Visões em Disputa na “Segunda Onda”

Do fim dos anos 60 até o início dos anos 80, novas formas de feminismo começaram a surgir. Muitas feministas tendiam a gravitar em torno de quatro teorias em disputa com explicações muito diferentes para a opressão da mulher.

Assim como suas históricas predecessoras burguesas, feministas liberais não viram necessidade de uma ruptura revolucionária com a sociedade existente. Seu foco era quebrar o “teto de vidro”, colocando mais mulheres em posições de poder político e econômico. Feministas liberais presumiam que as disposições institucionais existentes não eram fundamentalmente problemáticas. Seu papel era ter a igualdade das mulheres acomodada dentro do capitalismo.

Outra teoria, às vezes chamada de feminismo radical, argumentava pelo abandono da “Esquerda masculina”, que era vista como irremediavelmente reducionista. De fato, muitas mulheres vindas do movimento de direitos civis e movimento contra a guerra reclamaram do persistente sexismo nesses movimentos, em que eram relegadas a tarefas secretariais, a líderes masculinos mulherengos, e uma alienação generalizada da política de Esquerda. De acordo com muitas feministas radicais da época, isso se dava pela primazia do sistema do patriarcado – ou a dominação sistemática e institucionalizada das mulheres pelos homens. Para essas feministas, a batalha contra o patriarcado era a principal luta para criar uma sociedade livre, já que o gênero era nossa hierarquia mais antiga e arraigada (ver especialmente Firestone 1970).

Feministas Marxistas, por outro lado, tenderam a localizar a opressão das mulheres na esfera econômica. A luta contra o capitalismo era vista como a batalha “primária”, já que “A história de toda sociedade até os nossos dias é a história da luta de classes” – isto é, a história humana poderia ser reduzida à classe (Marx e Engels 1967). Além disso, feministas Marxistas tendiam a acreditar que a “base” econômica da sociedade tem um efeito determinante em sua “superestrutura” cultural. Assim, o único modo de alcançar igualdade entre mulheres e homens seria destruir o capitalismo – já que novas disposições econômicas igualitárias dariam vida a uma nova e igualitária superestrutura. Essa era a natureza determinante da base econômica.

Do diálogo entre o feminismo radical e o feminismo Marxista emergiu uma nova abordagem chamada “teoria dual de sistemas” (ver, p ex. Hartmann 1981; Young 1981). Um produto do que viria a ser chamado de feminismo socialista, a teoria dual dos sistemas argumentava que as feministas precisavam desenvolver “uma abordagem teórica que desse tanto peso ao sistema patriarcal quanto ao sistema capitalista” (Young 1981: 44). Ainda que essa abordagem tenha feito muito pra resolver alguns dos argumentos sobre qual luta era “prioritária” (i.e. a luta contra o capitalismo ou contra o patriarcado), ela ainda deixou muito a desejar. Por exemplo, feministas negras argumentaram que essa perspectiva deixava de fora uma análise estrutural da raça (Joseph 1981). Além do mais, onde ficava a opressão baseada na sexualidade, capacidade, idade, etc. nessa análise? Todas essas coisas podiam ser reduzidas ao patriarcado capitalista?

É dentro desse pano de fundo teórico que emergiu a intersecionalidade. Mas não foi apenas abstração e teoria que levaram a esses insights. Como mencionado anteriormente, parte da razão pela qual as feministas viram necessidade de uma análise à parte sobre o patriarcado como uma forma sistêmica de opressão era por suas experiências com a Esquerda mais ampla. Sem uma análise do patriarcado que o colocasse em pé de igualdade com o capitalismo enquanto um sistema organizador de nossas vidas, não havia resposta adequada para líderes masculinos que sugeriam que lidássemos com a opressão das mulheres depois de lidar com a “primária” ou “mais importante” luta de classes.

Mas essas tensões não eram apenas da Esquerda, elas também existiram dentro do movimento feminista. Talvez um dos melhores exemplos disso na prática seja no movimento pró-escolha nos Estados Unidos. Antes de Roe vs. Wade em 1973, a lei do aborto era considerada um assunto para ser lidado de Estado em Estado. Feministas se mobilizaram em torno do caso Roe vs. Wade para fazer com que o aborto legal fosse garantido em todo o país. Por fim a decisão ofereceu garantias legais ao aborto até o segundo trimestre, mas a retórica de “escolha” e “legalização” deixou de atender a demasiadas questões para muitas feministas.

E essa experiência preparou o campo para repensar como a política identitária tradicional geralmente exprime a experiência de “ser mulher” de maneira universalizada e monolítica. Feministas e mulheristas negras, por exemplo, argumentaram que focar apenas no aborto legal escondia a forma com que mulheres negras nos Estados Unidos sofriam esterelizações forçadas e tinham seu direito de ter crianças muitas vezes negado (ver Roberts 1997). Além disso, mulheres da classe trabalhadora argumentaram que “escolha” legalizada é basicamente desprovido de sentido sem socialismo, já que ter aborto legal, mas financeiramente inacessível, não constituía exatamente uma “escolha”. Verdadeira liberdade reprodutiva significava algo mais que apenas aborto legal para as mulheres da classe trabalhadora. Muitas queriam ter crianças mas simplesmente não podiam sustentar criá-las; algumas buscavam uma mudança nas normas e costumes culturais de uma sociedade que julgava as decisões que as mulheres tomavam sobre seus corpos; outras queriam proximidade a clínicas de saúde reprodutiva – resumindo, uma abordagem de “liberdade reprodutiva” levaria em conta os interesses de todas as mulheres, não seria estruturada apenas em volta dos interesses de mulheres brancas, heterossexuais, de classe média (posição que parecia predominar no movimento “pró-escolha”).

Intersecções

Essas experiências dentro do movimento feminista e da Esquerda em geral levantaram muitas questões às feministas. Como criamos um movimento que não é focado no interesse de seus elementos mais privilegiados? Como mantemos nosso compromisso socialista sem cair em uma política que vê os problemas das mulheres como “secundários”? Como poderia ser a organização política baseada em um compromisso comum de acabar com a dominação, ao invés de presumir uma experiência comum baseada em uma identidade única? Essas questões começaram a ser respondidas principalmente por feministas de cor, queers, e pró-sexo com a teoria da interseccionalidade – uma teoria que era crítica às tradicionais políticas de classe e identitárias (ver especialmente, p. ex., hooks 200; Collins 2000).

A interseccionalidade propõe que nossas posições sociais em termos de raça, classe, gênero, sexualidade, país de origem, capacidade, idade, etc. não são facilmente analisadas uma fora da outra. Falar de uma experiência universal como “mulher”, por exemplo, é problemático porque “ser mulher” é experienciado de formas bastante diferentes dependendo de raça, classe, sexualidade – um sem número de fatores. Então, um movimento feminista sem reflexão, centrado ostensivamente nas questões das “mulheres”, tenderia a refletir os interesses dos membros mais privilegiados dessa categoria social.

Da mesma forma, nossas variadas posições sociais e as hierarquias que elas formam se cruzam de formas complexas e não são separáveis facilmente. As pessoas não existem como “mulheres”, “homens”, “brancas”, “da classe trabalhadora”, etc. em um vácuo desprovido de outras relações sociais padronizadas. Além disso, esses sistemas de exploração e opressão funcionam de formas específicas. Pra citar dois exemplos óbvios, classe é uma relação social baseada na exploração do trabalho. Enquanto socialistas, nós buscamos a abolição das classes, não o fim do elitismo de classe dentro do capitalismo. Isso faz da classe única. De maneira similar, a ideia de “orientação sexual” foi desenvolvida nos anos 1800 com a invenção do “homossexual” como uma forma de pessoa. Isso efetivamente criou uma identidade a partir do gênero dos parceiros sexuais preferenciais, ignorando de certa forma a miríade de outras maneiras pelas quais as pessoas organizam sua sexualidade (p. ex. número de parceiros, atos sexuais preferidos, etc). Isso também efetivamente limitou a identidade sexual a três categorias: hétero, homo e bi – como se não pudesse haver um amplo leque de atrações e variedade dentro da humanidade. Parte da libertação na questão da sexualidade é problematizar essas categorias para oferecer uma existência social e sexual viável para todos. Isso faz da sexualidade também única.

Essas desigualdades estruturadas e hierarquias se comunicam e mantêm umas às outras. Por exemplo, o trabalho das mulheres de criar e cuidar das crianças fornece novos corpos para a ampla fábrica social que permite ao capitalismo continuar. A supremacia branca e o racismo permite aos capitalistas controlar um segmento do mercado de trabalho que pode servir como estoque de mão-de-obra barata. A heterossexualidade compulsória permite o policiamento da forma familiar patriarcal, fortalecendo o patriarcado e a dominância masculina. E todas as formas estruturadas de desigualdade somam à crença niilista de que a hierarquia institucionalizada é inevitável e que movimentos de libertação são baseados em sonhos utópicos.

Os proponentes da intersecionalidade argumentam, então, que todas as lutas contra a dominação são componentes necessários da criação de uma sociedade liberada. É desnecessário criar um totem de importância das lutas sociais e sugerir que algumas são “principais” enquanto outras são “secundárias” ou “periféricas” por causa das maneiras com que elas se interseccionam e se comunicam por completo. Além disso, a história vem nos mostrando que esse método de classificar opressões é divisionista e desnecessário – pior, ele debilita a solidariedade. Assim também, quando nos organizamos e desenvolvemos prática política, nós podemos voluntariamente mover as margens para o centro de nossas análises, para evitar o viés de privilégio que historicamente levou a tantas divisões no feminismo e na Esquerda.

Um bom exemplo contemporâneo de interseccionalidade no contexto da prática de um movimento social é a Incite! Women of Color Against Violence. Incite! “é uma organização ativista nacional de feministas radicais de cor avançando um movimento para acabar com a violência às mulheres de cor e a nossas comunidades através da ação direta, diálogo crítico e organização pela base” (Incite! 2009). Um motivo que faz Incite! se diferenciar de outras organizações anti-violência é sua análise sistêmica. Elas vêem as mulheres de cor que sofreram violência como vivendo nas “perigosas intersecções” entre supremacia branca, patriarcado, capitalismo e outras estruturas e instituições opressivas. Ao invés de apenas reduzir as experiências para o individual, elas reconhecem os sistemas que oprimem e exploram as pessoas, e estruturaram sua abordagem de tal forma que leva a “recentralizar” os setores marginalizados, em oposição a um método de “inclusão” baseado em uma única identidade ou posição social. Incite! argumenta que “inclusão” apenas adiciona um componente multicultural às práticas organizativas individualistas e dominadas pelos brancos, tão comuns nos Estados Unidos. Ao contrário, elas buscam recolocar o foco sobre as pessoas mais marginalizadas. Esse impulso é para garantir que sua organização leve em conta as necessidades daquelas historicamente negligenciadas pelo feminismo, com o entendimento de que todas as pessoas se beneficiam da libertação de seus pares mais marginalizados – enquanto focar nos elementos mais privilegiados de determinada categoria social deixa outros para trás (como nos exemplos que demos na luta pelo voto e a legalização do aborto). Incite! faz questão de focar nas necessidades da classe trabalhadora que foi geralmente negligenciada (p. ex. trabalhadoras do sexo, encarceradas, pessoas trans e usuárias de drogas). Ao centralizar essas pessoas na sua organização, elas estão focando nas pessoas colocadas nas intersecções mais perigosas de opressão e exploração, de tal forma que enfrentam a totalidade do sistema e não apenas seus aspectos mais visíveis ou favorecidos. Adicionalmente, Incite! vê o Estado como um grande perpetrador de violência contra as mulheres de cor e busca construir organização de base independente e contra ele. Anarquistas poderiam aprender muito com o Incite! sobre a importância de tratar das necessidades de TODOS os setores da classe trabalhadora e de sua tentativa de lidar com a tendêcia da Esquerda de ignorar ou esquecer as preocupações, necessidades, ideias e a liderança das pessoas vivendo nas perigosas intersecções entre capitalismo, supremacia branca, patriarcado, etc.

E o Que o Anarquismo Pode Oferecer à Teoria da Interseccionalidade?

Nós acreditamos fortemente que esse processo de aprendizado é uma via de mão dupla. Isto é, quando sintetizamos nossa prática para incluir essas questões levantadas por feministas, o feminismo também pode se beneficiar de aprender com o anarquismo. Nós vemos as contribuições dos anarquistas à intersecionalidade em duas áreas principais. Primeiro, o anarquismo pode fornecer uma base radical para criticar interpretações liberais da interseccionalidade. Segundo, anarquistas podem oferecer uma análise crítica do Estado.

Muito frequentemente pessoas usando uma análise interseccional ignoram as especificidades de vários sistemas de dominação. Uma forma em que isso é feito é articulando uma oposição geral ao classismo. Enquanto nós acreditamos que elitismo de classe exista, geralmente essa oposição ao “classismo” não reconhece as características específicas do capitalismo e pode levar a uma posição que essencialmente defende o fim do elitismo de classe dentro do capitalismo. Como anarquistas, nós não nos opomos apenas ao elitismo de classe, nós nos opomos à própria sociedade de classes. Nós não queremos que as classes dominantes nos tratem melhor dentro de um sistema baseado na desigualdade e exploração (i.e. capitalismo). Nós queremos esmagar o capitalismo em pedaços e construir uma nova sociedade em que não existam mais classes – isto é, nós lutamos pelo socialismo. Anarquistas, como parte do movimento socialista, estão bem posicionados para criticar essa interpretação liberal da interseccionalidade (ver especialmente Schmidt e van der Walt 2009).

Da mesma forma, como anarquistas, nós estamos bem posicionados para elaborar nossas críticas ao Estado. O Estado, além de ser um conjunto de instituições específicas (como os tribunais, a polícia, entidades políticas como senados, presidentes, etc.) é uma relação social. E o Estado possui influência sobre nossas vidas de uma miríade de formas. Por exemplo, ex-prisioneiros(as) frequentemente estão desempregados(as), particularmente se cometeram crimes. Basta uma olhada rápida na constituição racial e de classe das prisões americanas para ver como a interseccionalidade pode ser colocada em uso aqui. Ex-prisioneiros(as), trabalhadores(as) que são alvo por greves ou participar em ação direta e/ou desobediência civil, etc., todos(as) têm necessidades específicas como sujeitos em uma sociedade que presume governantes políticos e sujeitos passivos, governados. E o Estado tende a marcar grupos específicos de trabalhadores(as) baseado em suas existências dentro das interseções perigosas que mencionamos antes. Anarquistas podem oferecer à teoria da intersecionalidade uma análise das formas pelas quais o Estado surgiu para governar sobre nossas vidas tanto quanto qualquer outro sistema institucionalizado de dominação. E nós podemos, é claro, argumentar pela destruição de tal arranjo social e sua substituição por formas sociais não-hierárquicas.

Recusando Esperar

De várias formas, anarquistas historicamente anteciparam algumas das ideias da interseccionalidade. Além disso, o anarquismo como uma filosofia política – e como um movimento contra todas as formas estruturadas de dominação, coerção e controle – parece bem situado para uma prática interseccional. Infelizmente, nós ainda temos argumentos debilitantes sobre qual hierarquia é “primária” e deveria ser priorizada sobre as outras. Como em tempos passados, isso leva a divisões e falta de solidariedade (imagine ouvir que você deve desistir de alguma luta que envolve diretamente VOCÊ em prol da luta “principal” ou “correta”!). Além disso, a destruição de qualquer hierarquia estruturada pode ter um efeito desestabilizante nas demais, já que a simples existência de alguma dessas divisões sociais serve para naturalizar a existência de todas as outras hierarquias.

Nós tentamos aqui explicar a ascensão da teoria da interseccionalidade dentro do feminismo e descrever seus contornos. Talvez mais importante, tentamos relacioná-la ao longo do artigo à prática política e às lutas dos movimentos sociais para evitar abstrações completas e teorização separada da prática. Nós esperamos que mais anarquistas se familiarizem com a interseccionalidade e façam um uso positivo dela em nosso trabalho político. Finalmente, esperamos que mais pessoas de grupos marginalizados se recusem a esperar, que nós reconheçamos o valor de todas as lutas contra a injustiça e a hierarquia no aqui e no agora – e que nós construamos uma prática refletida, baseada na solidariedade e na ajuda mútua, invés de prescrições divisionistas sobre quais lutas são “principais” e quais, por extensão, são “secundárias” ou “periféricas”. Ao contrário, elas estão todas ligadas e nós temos bons motivos para se recusar a esperar até depois “da revolução” para tratar delas!

Bibliografia

Ackelsberg, Martha A. 2005. The Free Women of Spain: Anarchism and the Struggle for the Emancipation of Women. Oakland: AK Press.

Collins, Patricia Hill. 2000. Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment. New York: Routledge.

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Kropotkin, Peter. 2001. “The Sterilization of the Unfit”. Pp. 120-123 in Anarchy!: An Anthology of Emma Goldman’s Mother Earth, edited by Peter Glassgold. Washington, D.C.: Counterpoint.

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Schmidt, M. & van der Walt, L. 2009. Black Flame: The revolutionary class politics of anarchism and syndicalism. Oakland: AK Press.

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Tradução: JG — jg@riseup.net

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[Texto original retirado de: http://anarkismo.net/article/14923]

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Sexo não é a droga de uma performance

Sexo não é a droga de uma performance.

Sexo deveria ser natural como tomar água.

Não deveria exigir confiança.

Sexo deveria acontecer, porque o momento pede.

Boca pedindo, lábios pedindo, pau pedindo, pupilas pedindo, estado de espírito pedindo. Pedindo e aumentado e entumecido. Sua energia vai para seu coração batendo, e então para cada nervo externo, e então para os alheios, pegando fogo.

Você se deleita, rola, brinca. Você suspira, geme, gargalha.

Não é sobre “ser bom na cama”.

É sobre ser feliz.

Ninguém deve se preocupar com fazer isso “do jeito certo”. Sexo não é factual. Eu não quero seu sexo enlatado, eu não quero sua trepada forjada meticulosamente, calculada, à prova de erros. Eu não quero um show. Eu quero você. Deixe seus instintos, vontades e caprichos definirem isso. É o bastante.

O que a maioria das garotas gosta? Esqueça isso. Estatísticas não significam nada quando se tem só uma pessoa. Olá, aqui estou eu. Aqui está você.

Não se preocupe em ir devagar demais. Nós temos tempo. Nós temos infinitos ritmos, combinações, possibilidades. Explore cada transa. Tome nosso tempo. Nós podemos fazer diferente depois.

Não se preocupe em me fazer chegar lá. Eu estou aqui. Exatamente onde eu quero estar.

Eu estou tomado pelo desejo; você não precisa me convencer. Eu te quero porque eu gosto de você. Então não precisa fingir. Não corrompa isso.

Estou frustrado – é apenas autenticidade que quero.

É originalidade.

É paixão.

É prazer.

Não diga que algo que eu gosto é feio. Não se compare com o resto. Você vai viver e morrer com e das suas experiências, como todo mundo. Se alguém acha que você é surpreendente, não está errado. Seu universo é tão real quanto qualquer outro; é forjado pela percepção.

Eu não me importo se você acidentalmente bateu minha cabeça na parede, se você escorregou, se meu braço estralou, se a deliciosa pressão de seus lábios úmidos em qualquer coisa minha fez um barulho engraçado. Não existe jeito certo nem jeito errado.

“Bom na cama”, que nada.

Você é bom na minha cama. Estou contente que você está aqui. Eu sinto que te cai bem.

Jogue sua técnica. Deixe sua memória digerir isso. Transe comigo do jeito que você transaria comigo, transe comigo do jeito que você sentir.

Isso não é um teste.

[Texto original retirado de: http://nikolaiolivier.tumblr.com/post/26967738681/sex-is-not-a-goddamn-performance-sex-should]