3 modos pelos quais se organizar com amigos pode levar ao fracasso

Brandon Feld – Worker’s Solidarity Alliance / PDXSol

Sentar com um grupo de amigos do tempo da escola onde todos se vestem e falam da mesma maneira é uma cena recorrente no ativismo e em grupos organizados por todo o mundo. Em grande parte, se organizar toma a forma de poucas pessoas tentando reunir seus amigos em torno de uma causa. Essas práticas são contra-produtivas para criar espaços de organização convidativos.

Eu já estive em todos os tipos: organizações que começaram a partir de amizades, grupos de pessoas que se tornaram amigas após trabalharem juntas (o que é melhor), e mais recentemente um grupo onde eu tenho alguns amigos mas a maioria das pessoas com quem trabalho considero apenas camaradas. Isso significa que vez ou outra nós saímos para tomar algumas cervejas após uma reunião ou ação, mas a socialização não vai muito além disso. O último desses três funciona melhor para promover uma cultura organizativa saudável. Esse artigo irá analisar as razões pelas quais depender de nossos amigos para fazer parte de nossas organizações pode se tornar problemático.

1. Organizações onde a participação é baseada em um grupo de amigos não são convidativas. Em um grupo de amigos se desenvolve uma cultura: surgem piadas internas e os amigos começam a espelhar os estilos uns dos outros. Grupos de amigos tendem a ser homogêneos, pertencendo a uma subcultura específica. Isso é natural, porque nós queremos estar próximos de pessoas que validam nossas convicções e interesses. Isso significa que muitas vezes nós compartilhamos gosto musical, esportes, modo de se vestir, etc. Mas nosso objetivo de criar movimentos sociais mais amplos demanda que nós não apenas busquemos engajar pessoas fora de nossa esfera social, mas também que nós criemos espaços convidativos para pessoas que podem não ter nada em comum conosco fora o projeto no qual estamos todos interessados. É incrivelmente difícil criar esses espaços quando organizações começam como grupos de amigos. Uma pessoa nova interessada no projeto vai perceber rapidamente quem é amigo de quem e quem tem influência sobre quem. Essa pessoa nova se sentirá excluída ao perceber que a influência dessas amizades transborda e domina os processos de tomada de decisão e a dinâmica de poder na organização.

Esses tipos de organizações são identificados com o meio social ao qual seus membros fazem parte. Por exemplo, pode haver um grupo composto apenas por hipsters com a mesma idade de uma universidade específica, ou apenas de crust punks, ou apenas de torcedores fanáticos do Seahawks. Esses grupos não serão convidativos para pessoas que nunca poderiam ver a si mesmos como essas pessoas.

2. Outro problema é que o efeito das brigas entre amigos fica no caminho de se organizar de maneira efetiva. A cultura e a saúde desses grupos de ativistas/amigos são muito ligadas à saúde das amizades das pessoas envolvidas. Por exemplo, amigos têm relacionamentos, eles terminam, e amigos tomam lados. Espaços organizativos que não são dominados por grupos de amizade são menos suscetíveis ao efeito das brigas entre amigos porque outras pessoas dentro do grupo provavelmente não vão se distrair com isso. Também há uma chance menor de que isso cause com que os amigos envolvidos no conflito saiam da organização, porque a organização demonstra existir fora da esfera de amizades das pessoas envolvidas.

3. Muitos de nossos amigos que se consideram politizados simplesmente não estão tão dedicados a se organizar quanto nós. Muitas vezes, a participação nas reuniões é mais motivada pelo aspecto social do que por um desejo real de fazer a revolução. A força motivadora por trás de recrutar nossos amigos é a ideia de que acrescentar corpos ao nosso grupo irá nos fazer de alguma forma mais bem-sucedidos, e que focar em que essas pessoas participem das reuniões irá aumentar a capacidade e poder de nossos grupos. Essa linha de raciocínio não funciona. Um grupo repleto de amigos pode geralmente ocasionar membros pouco confiáveis que colocam pressão nos organizadores mais confiáveis para cuidar deles. Esse cuidado gera exaustão, e a exaustão dos organizadores mais sólidos leva ao fracasso do grupo. É melhor colocar esforço zero em manter essas pessoas pouco confiáveis. Um grupo de três pessoas confiáveis irá funcionar melhor e alcançar mais do que um grupo de 5 com dois ou três “de confiança” e o resto sendo furões.

Isso não quer dizer que pessoas que têm muita coisa acontecendo na sua vida não deveriam poder participar e se envolver. Níveis de envolvimento sempre irão variar e nós devemos dar espaço a pessoas com família, doenças, ou outras razões que as deixem com tempo mínimo para contribuir. Pessoas não-confiáveis são uma coisa totalmente diferente; elas são as pessoas que dizem que vão fazer alguma coisa e repetidamente não fazem o combinado, ou as que precisam de uma ligação para ao menos lembrar de ir na reunião. Acontece que muitas vezes essas pessoas são justamente as que têm mais tempo livre.

Por que grupos de amizade dominam com tanta fequência nossa organização? É porque essas são as pessoas que temos mais acesso. Sair de casa e ter alcance real, envolver pessoas que não conhecemos e que são diferentes de nós é assustador no começo. Isso demanda trabalho, então fazer isso em times é um bom modo de aliviar parte desse medo. A coisa mais simples que podemos fazer para mudar a cultura de amizade nos grupos ativistas é não depender de que nossos amigos entrem em nossos grupos e buscar ativamente outros organizadores dispostos que estejam interessados nos projetos que queremos tocar. Comece com duas ou três pessoas ao invés de cinco pouco confiáveis. Você terá resultados melhores.

[Texto original retirado de: http://feldbrandon.wordpress.com/2013/07/26/3-ways-organizing-with-friends-can-lead-to-failure/]

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