Ofensiva ao Aurora Dourada

O seguinte texto foi publicado em inglês por Thrasybulus no site libcom.org, no dia 28 de setembro. Os links originais foram mantidos.

1380561_10153297818790296_1738861568_n299Com a prisão de várias lideranças, o governo grego iniciou uma
ofensiva ao partido de extrema-direita Aurora
Dourada
na esteira do assassinato de Pavlos Fyssas.

Uma ofensiva ao partido de extrema-direita Aurora Dourada (AD) está acontecendo na Grécia. O líder do partido, Nikolaos Michaloliakos, vários deputados e membros do partido foram presos essa manhã, com mais prisões previstas. Eles são acusados de participar de uma organização criminosa e serão levados a tribunal. A ofensiva tem dois alvos principais. O primeiro é o próprio partido político e o segundo alvo são seus cúmplices nos serviços de segurança. Tudo isso acontece após o assassinato de Pavlos Fyssas há pouco mais de uma semana.

Junto à prisão de Michaloliakos vieram a do porta-voz do partido Ilias Kasidaiaris e de Giorgos Patelis, que chefiava a seção de Nikaia do Aurora Dourada, a mesma região onde aconteceu o assassinato. É dito que os documentos apresentados aos tribunais consistem em 33 acusações, dentre as quais constam 10 assassinatos ou tentativas de homicídio. A investigação dentro dos serviços de segurança já levou à renúncia de diversos generais da polícia, o afastamento do chefe do serviço de inteligência e de membros das unidades Dias¹. O chefe das unidades de polícia anti-protesto, cujos homens foram vistos lutando ao lado de membros do AD nos protestos do dia 18, também foi afastado.

É a primeira vez desde 1974 que o líder de um partido é preso na Grécia e, de certa forma, a repressão veio como uma surpresa. Apenas duas semanas atrás, a mídia hegemônica estava discutindo uma possível inclusão do AD na coalisão de governo. Na esteira do assassinato na noite do dia 17, a mídia e o governo fizeram uma guinada completa e decidiram atacar o AD de frente. Essa não é a primeira vez que membros do AD mataram alguém e a natureza violenta do grupo já era evidente há anos. Muitos dos incidentes pelos quais o AD e os serviços de segurança estão sendo investigados datam de muito mais tempo do que das últimas duas semanas e a velocidade com que o caso foi preparado e apresentado sugere que as evidências já eram conhecidas há muito nos círculos jurídicos e políticos. A questão é por que o governo decidiu agir agora, quando fez tão pouco para evitar o crescimento do AD por tanto tempo?

Uma resposta é que dessa vez o governo simplesmente teve que agir. O assassinato causou muita raiva na Grécia, que rapidamente se transformou em fúria nas ruas. Nos últimos dez dias sedes do AD por todo o país sofreram ataques e os protestos antifascistas têm sido constantes. Na noite do dia 25, novamente houve protestos em todas as maiores cidades da Grécia, ao ponto de 50 mil pessoas marcharem a uma sede do AD em Atenas. Tentativas iniciais da mídia de retratar o homicídio como o resultado de uma rixa após uma partida de futebol falharam, então não houve maneira de que ele fosse minimizado. Não tomar nenhuma ação apenas colocaria o frágil governo de coalisão na berlinda. Ao atacar o AD, o governo tem uma chance de aparecer como o defensor da democracia.

Outra razão possível para a ofensiva pode ser o medo. O AD recentemente cresceu a ponto de se tornar o terceiro partido mais popular na Grécia e até os últimos dias nada parecia poder abalar essa popularidade. Muitos dos eleitores que recentemente apoiaram o AD seriam no passado apoiadores naturais do direitista Nova Democracia (ND), atual líder do governo de coalisão. Como muito do apelo do AD é baseado numa retórica anti-sistema, o ND pode ter desistido de conseguir trabalhar com o AD e decidiu que algo devia ser feito antes que eles perdessem mais votos.

O governo também pode ter estado de olho no exército. A colaboração entre o AD e as forças de segurança são conhecidas há tempo. Parte da atual investigação alega que membros das forças especiais estiveram dando treinamento militar para membros do AD. Alguns dias atrás um pronunciamento de um grupo de reservistas das forças especiais pediu que o governo renunciasse e abrisse caminho para um governo de unidade nacional tendo o exército como seu protetor; em resumo foi um chamado para um golpe. Temendo que se não agissem logo eles pudessem perder completamente o controle dos serviços de segurança, o governo optou por agir primeiro.

Após um período tão longo onde o governo ignorou as ações do AD é difícil acreditar em suas atuais alegações de serem os bastiões da democracia e da justiça. Mais provável é que o ND esteja se aproveitando da ira causada pelo assassinato de Pavlos Fyssas para frear um rival político. Com milhares de pessoas nas ruas e a primeira queda de popularidade do AD, o governo aproveitou a chance e espera que ao prender seus líderes e possivelmente banir o partido eles possam ganhar de volta alguns de seus eleitores perdidos. Com a criminalização do partido, todos aqueles nacionalistas mas que dificilmente seriam fascistas comprometidos e foram para o AD podem voltar ao ND. Quando os fascistas estavam atacando os manifestantes junto com a polícia eles eram assistentes úteis, mas assim que começaram a se tornar uma ameaça ao próprio partido no poder eles tinham que ser freados.

Mesmo com os líderes do AD na prisão e os principais simpatizantes nas forças de segurança afastados, o fim da extrema-direita na Grécia está muito longe. Ainda que o governo possa obter algum tipo de vitória política disso, o fascismo que eles incentivaram e permitiram crescer penetrou muito fundo para sumir em poucos dias. Qualquer investigação da polícia provavelmente vai deixar intocada a maior parte dos 50% das forças de seguranças que votaram no AD. De forma alguma todas as centenas de ataques racistas ocorridos na Grécia foram cometidos por membros de carteirinha do AD. A influência que a extrema-direita tem sobre os jovens dificilmente vai evaporar por si só; de fato, essa ofensiva pode apenas aumentar isso.

Se o partido é banido imediatamente sua posição anti-sistema vai crescer, com seu líder incentivando os apoiadores a continuar lutando por detrás das grades. Liberados da pretensão de ser um partido respeitável, os esquadrões do AD podem receber permissão para aumentar a violência. Aqueles que atacam imigrantes e esquerdistas ainda terão muitos simpatizantes nas forças de segurança e na população em geral. Em vez de marcar o fim do crescimento do fascismo, o homicídio e a repressão podem nos levar a uma situação muito sinistra. No fundo da mente de muita gente está a possibilidade de que podemos estar a caminho de uma guerra civil. A ideia parece extrema e certamente há um longo caminho a percorrer antes disso acontecer, mas tal catástrofe já não é mais impensável.

Quaisquer que sejam os resultados dessa manobra política, a luta contra o fascismo na Grécia ainda vai continuar por um longo tempo.

  1. Dias é a unidade de polícia motorizada grega. (Nota do tradutor)

Tradução: JG

Realidades Cotidianas Complexas: Mulheres e Classe, por Hana Plant

O seguinte texto foi escrito por Hana Plant, militante do Beyond Resistance da Nova Zelândia, e publicado originalmente em inglês aqui. A tradução é de Alexandre Lemke.

Eu escrevo essa história para criar cone­xões entre luta de classes e femi­nismo, para que as vidas das mulheres traba­lha­doras sejam real­çadas, façam parte da estru­tura polí­tica. Para isso, eu preciso escrever de uma pers­pec­tiva pessoal/política. Para mim, o famoso ditado femi­nista “o pessoal é o polí­tico” não é tanto sobre mudar nossas próprias vidas para mudar o mundo, mas uma base teórica que reafirma o valor de nossas histó­rias e usa os padrões entre elas como base para soli­da­ri­e­dade. Isso cabe a muitas mulheres (não todas), porque muitas de nós fomos soci­a­li­zadas para focar no mundo do “privado”: o lar, as emoções, as rela­ções próximas. Ao mesmo tempo, porque nossos problemas não são vistos como válidos, eles são consi­de­rados da esfera privada. Então, histó­rias pessoais, quando combi­nadas, nos permitem, sem nos enver­go­nharmos, declarar a natu­reza cole­tiva de algo outrora consi­de­rado indi­vi­dual: o abuso domés­tico e a violência sexual são bons exem­plos. A beleza do caráter pessoal é que ele respeita nossa reali­dade única: nenhuma história é exata­mente igual a outra. Pelo que eu vejo, a maior parte da teori­zação de luta de classes não procura superar a divisão entre pessoal e polí­tico. Geral­mente, a lite­ra­tura e as discus­sões focadas na classe descrevem o domínio “público”: atua­li­dades, governo e economia mone­tária. Apesar de eu acre­ditar que essas coisas são impor­tantes, eu quero espaço para textos que reflitam as reali­dades das mulheres: o tipo de coisa que nos afeta, assim como nossa(s) formas(s) de rela­ci­o­na­mento. Então esta sou eu olhando duas das várias formas de rela­ções de poder — patri­ar­cado e capi­ta­lismo — de uma pers­pec­tiva pessoal/política.

No começo deste ano, algo acon­teceu que inter­rompeu a possi­bi­li­dade de me manter na luta de classes de uma forma direta. Meu pai e minha irmã de 10 anos vieram me visitar e eu vi, nova­mente, que ela estava sofrendo abuso. Minha irmã teve um começo difícil, foi reti­rada de sua mãe extre­ma­mente abusiva pelo CYFS1 posta sob a guarda do nosso pai. Ele, claro, também é abusivo, mas o CYFS, vendo que ela não está com marcas roxas no corpo, quer o caso encer­rado. Eu sei o que o meu pai faz há tempos. Estando longe, eu sei que não está sob meu controle. Mas quando eu vi ela na minha frente, o cabelo cheio de piolho, usando botas vulgares2 e aquele olhar ríspido e enrai­ve­cido nos olhos dela, eu queria salvar ela mais do que qual­quer outra cosia. Eu queria fazer ela usar sapatos de criança, para que o olhar burguês, o olhar mascu­lino, não a machu­casse. Eu queria catar os piolhos da cabeça dela para que ela não fosse caçoada na escola. Eu queria ter a força do vento para me colocar entre ela e ele. Esta é uma história do patri­ar­cado capi­ta­lista e do motivo de eu querer cons­truir a soli­da­ri­e­dade para mudá-lo.

Meu pai — que durante toda sua vida recebeu auxílio do governo — está próximo do fundo do poço do capi­ta­lismo. Ele também é um perpe­tu­ador do abuso (geral­mente físico e emoci­onal). Então a contra­dição entre femi­nismo e luta de classes é algo na qual eu fui criada: simpatia pela situ­ação de classe do meu pai, medo e ódio de sua miso­ginia. A ideia de que classe é mais impor­tante do que o femi­nismo ou vice-versa nunca me pareceu correta, apesar de ter seguido a prio­ri­dade dos outros de vez em quando. Entre os anar­quistas, essa prio­ri­zação ocorre mais na prática do que na teoria. Eu já fui isolada por falar de classe em círculos anarco-feministas onde o enten­di­mento comum era que toda opressão é inter­co­nec­tada. Da mesma forma, eu já fui silen­ciada em contextos de luta de classes onde o femi­nismo era posto como da maior impor­tância. Como nós vivemos em uma soci­e­dade capi­ta­lista patri­arcal, as contra­di­ções entre femi­nismo e luta de classes estão presentes nas vidas de todas as mulheres traba­lha­doras, de formas vari­adas. Eu conto uma história da classe baixa rural, onde a colisão de inte­resses entre homens e mulheres traba­lha­doras é dramática.

Meu Pai é um Pakeha3 de primeira geração filho de imigrantes, que, como a maioria da sua geração, sofreram com os traumas da Segunda Guerra Mundial. Como a maioria das mulheres de classe baixa, a Vó teve que traba­lhar tanto dentro quanto fora de casa. Ao contrário da maioria dos traba­lha­dores da época, essa família não deixou o rincão (Coro­mandel) para se juntar à migração urbana. Talvez por esse motivo o Pai não foi para a univer­si­dade gratuita para ter um trabalho de classe média como muitos de sua geração. Nem pegou algum dos poucos empregos para a classe traba­lha­dora que existem em Coro­mandel, onde você pode detonar as costas na fazenda de mexi­lhões ou sorrir para turistas em uma cafe­teria por um salário mínimo. Ao invés disso, ele se uniu a aqueles que foram deixados muito para trás vivendo de auxílio do governo, do apoio mútuo, da mata e do mar. O Pai é astuto o sufi­ci­ente pra saber que ser da força de trabalho local é uma porcaria para os traba­lha­dores “não quali­fi­cados”, que ele recebe o bene­fício não porque ele é pregui­çoso mas porque ele não quer ser esma­gado. Mas ele não aplica este conhe­ci­mento dentro de um contexto polí­tico onde ele pode resistir com os outros que estão no mesmo barco pois ele não tem acesso a um movi­mento que luta contra o capi­ta­lismo. Ao invés disso, ele se refugia numa comu­ni­dade de classe baixa onde existe uma cultura do faça você mesmo, resis­tência contra a polícia, e uma cultura de contação de histó­rias desen­vol­vida através de anos de fumo, pesca e bebendo xícaras de chá, tudo junto. Soa bem legal, né?

Essa comu­ni­dade está com raiva. Eles estão com raiva porque eles foram criados por pais e mães que estavam com raiva por causa da guerra. Eles estão com raiva porque eles não foram criados, como o restante dos baby boomers, para um estilo de vida acon­che­gante e um ambi­ente de pres­tígio. Eles estão com raiva porque apesar de traba­lharem o dia todo conser­tando carros, cozi­nhando, cuidando dos filhos e pescando, eles não são pagos. Eles estão com raiva porque eles pagam aluguel o ano todo e têm que se mudar no verão para que os propri­e­tá­rios hippies possam ter o lugar de volta para o Natal. Eles estão com raiva porque os únicos empregos dispo­ní­veis para eles são aqueles em que eles são pisados por aqueles que estão num lugar mais alto na hierar­quia, a mais-valia do trabalho deles expro­priada. Eles estão com raiva porque as outras únicas opções são o auxílio do governo e/ou o tráfico de drogas, para então eles serem criti­cados. Eles estão com raiva porque eles estão posi­ci­o­nados na beira da “soci­e­dade”, onde eles são evitados, igno­rados ou tratados com condescendência.

Esta é a história do patri­ar­cado. O patri­ar­cado diz aos homens dessa comu­ni­dade que receber auxílio é ser castrado, e não há nada pior que isso. O patri­ar­cado diz que uma boa forma dos homens sentirem sua mascu­li­ni­dade é contro­lando mulheres, que as mulheres existem para serem contro­ladas quando você não pode controlar mais nada. Então, comu­ni­dades como a do meu pai veem as mulheres e as crianças como cano de escape para sua dor e frus­tração. Essas comu­ni­dades empurram sua raiva para dentro de nossos corpos. Então, quando esses homens choram de culpa depois, o patri­ar­cado diz que as mulheres devem estar ali para compre­ender. O patri­ar­cado diz que nós temos que segurar a raiva deles e a nossa raiva em nossos corpos até nós entrarmos em colapso mental: e quando entramos em colapso o capi­ta­lismo patri­arcal nos chama de loucas (e não há nada pior que isso). O patri­ar­cado diz que os homens devem apoiar uns aos outros. Então, a soli­da­ri­e­dade é prati­cada somente entre homens. Eles ficam dizendo um para o outro que fizeram a coisa certa, que a mulher é uma puta, que a criança é uma pirralha mimada. Eles ficam dizendo um para o outro que eles fazem tudo: pegam o peixe, trazem o dinheiro extra, arrumam o carro, que as mulheres e as crianças deve­riam apenas ficar agradecidas.

Enquanto o capi­ta­lismo cria uma soci­e­dade que causa raiva e dor, a ideo­logia capi­ta­lista nos diz que são esses homens que criaram todos estes problemas, que esses homens são os piores homens. Seus crimes devem ser tornados públicos, virar motivo de piadas e conde­nados, enquanto os crimes das classes domi­nante e média são mantidos em segredo. E o capi­ta­lismo patri­arcal nos diz que as mulheres são ainda piores. Elas não são mulheres de verdade porque elas não protegem suas crianças. Elas são estú­pidas por esco­lherem estar com homens como esse quando há muito mais peixes no mar, mas elas nunca pode­riam arranjar um bom homem porque a aparência delas é um lixo. Elas estão com raiva porque de vez em quando elas entram em colapso.

Apesar de ser fácil para homens de esquerda dizerem que a classe domi­nante causa todos os problemas, a maioria das mulheres sabe que isso não é verdade. A classe domi­nante mexe os pauzi­nhos, mas ela não nos toca. Eu ainda não ouvi as pala­vras deles partirem meu coração, nem senti seus punhos no meu corpo nem os vi chutarem o cachorro pra caralho. A classe domi­nante é parte do problema, mas ela não é a única que ganha algo do patriarcado.

Apesar de ser fácil para femi­nistas e pró-feministas dizerem que esses homens deve­riam ser mandados à merda, a maioria de nós que esti­vemos à mercê deles não acha assim tão fácil. Para nós, não há tanto peixe no mar, porque nós temos cica­trizes que espanta a maioria dos “caras (ou garotas) legais”. A maioria de nós ama nossas comu­ni­dades e nos senti­ríamos abso­lu­ta­mente deslo­cadas se partís­semos. Nós talvez tenhamos que ir embora para estarmos seguras, talvez quei­ramos nos armar com uma análise do patri­ar­cado, mas isso não signi­fica que nós queremos que estes homens sejam chamados de irre­me­diá­veis, estú­pidos ou malvados (a não ser que sejamos nós a nomear eles assim). Nós compar­ti­lhamos inte­resses de classe não somente com meu pai, eu também me iden­ti­fico com aqueles que ele abusa: mulheres, crianças, cachorros. Se eu me afasto dele, não é somente violência domés­tica que deixo para trás.

Quando olho para os olhos da minha irmã, eu quero deses­pe­ra­da­mente salvá-la. Então, eu fiz um acordo com meu pai. Eu disse que ela poderia ficar comigo enquanto ele procu­rasse uma casa por perto. Ele ficou feliz. Eu poderia fazer todo o trabalho enquanto ele ainda tinha todo o controle, por isso, ele não foi real­mente procurar uma casa. Claro, foi uma grande chance de ele fazer da minha vida um inferno. Eu me tornei como uma ex para as crianças: uma mulher para ferir ao ferir a criança. Ele vinha quase toda tarde para me provocar, sabendo que eu não mandaria ele se ferrar porque ele faria um escân­dalo que culmi­naria na minha irmã sendo levada embora como um prêmio. Então eu me mantive calada até não poder mais dormir ou estudar ou escrever o artigo sobre mulheres e classe que eu plane­java para a revista AWSM. Quando eu final­mente mandei ele se foder, sabia que ele a levaria embora. Ele tinha que mostrar que estava no controle. Ele não encon­trou uma casa por perto, ao invés disso ele a levou de volta para o inte­rior (Mataura, desta vez), onde ela sofre bullying na escola e sofre em casa, onde não há uma irmã mais velha com quem conversar. Enquanto isso, a pressão atinge os que recebem auxílio do governo, há corte de verbas para apoio peda­gó­gico nas escolas, há menos dinheiro para abrigos femi­ninos e propa­gandas gover­na­men­tais dizem para os homens manterem o controle que só um homem pode ter4.

Foi somente agora, depois de seis meses, que eu me pergunto por que esta expe­ri­ência, um ótimo exemplo do patri­ar­cado capi­ta­lista, me pareceu tão irre­le­vante para minha prática polí­tica. A resposta é que esse tipo de coisa é muito pessoal para um movi­mento de luta de classes que reflete majo­ri­ta­ri­a­mente a reali­dade dos homens e muito intensa para círculos femi­nistas que refletem majo­ri­ta­ri­a­mente a reali­dade das mulheres de classe média. Se os dois movi­mentos fossem mais bem ligados, seria mais fácil para pessoas como eu, que precisam tanto da luta de classes quanto do femi­nismo para enfrentar a vida, lutarem. Eu gostaria com paixão que exis­tisse comu­ni­dades de resis­tência que tivessem tanto a luta de classes e o femi­nismo no coração. Tais comu­ni­dades enten­de­riam meu pai não como o pior tipo de homem nem como um herói da classe traba­lha­dora. Ao invés disso, eles o olha­riam como um sobre­vi­vente do pior do capi­ta­lismo, para quem é mais fácil aliviar sua dor em mulheres e crianças. Em comu­ni­dades como essas, nós pode­ríamos manter uma análise de poder que permi­tisse comple­xi­dade. Não haveria neces­si­dade de escolher.

Para irmos nessa direção, penso que a luta de classes e o femi­nismo devem se conhecer melhor do que nunca (eles vêm se tocando nos últimos séculos). Eu não digo que todas as mulheres devem se juntar ao grupo de luta de classes local, apesar de pensar que preci­samos de orga­ni­za­ções femi­nistas onde há compro­me­ti­mento e estra­tégia. Eu penso que nós (espe­ci­al­mente femi­nistas anar­quistas que são teori­ca­mente anti­ca­pi­ta­listas) preci­samos olhar para como a classe nos afeta a todas, e nos afeta de formas dife­rentes. Nós preci­samos parti­lhar nossa miríade de expe­ri­ên­cias e não dimi­nuir, excluir ou temer umas às outras. Existe uma tendência entre mulheres anar­quistas a se conten­tarem a estar em reação à luta de classes. Ainda assim as mulheres são majo­ri­ta­ri­a­mente afetadas pela classe e, se nós nos impor­tamos com nós mesmas e com as outras, então nós temos que ter uma estra­tégia que reflita este fato. Final­mente, nós preci­samos parar com o critério indi­vi­dual para ser uma anarquista-feminista propri­a­mente dita, como, por exemplo, ter que ser vegana, queer ou saber falar algum tipo de linguagem “radical”. E que tal se ao invés disso nós medirmos auten­ti­ci­dade pelo nosso desejo de solidariedade?

Grupos de luta de classes precisam olhar para o pessoal com mais atenção. O pessoal é um jeito dinâ­mico e aces­sível de testar teoria de luta de classes em nossa vida coti­diana: no local de trabalho, na casa, na comu­ni­dade. Nós não deve­ríamos nos contentar em sermos uma reação a “polí­tica de iden­ti­dade” ou em sermos pessoas que têm um “olhar para o íntimo”. Quando usamos estas pala­vras, o que nós dizemos? Nós estamos criti­cando a ideia de que é possível mudar o poder estru­tural ao atingir pureza em nós mesmos? Ou estamos dizendo que luta de classes apenas é a única forma de mudar alguma coisa? Nós fazemos crítica para abrir diálogos ou para fechá-los? Parte do problema é que a práxis da luta de classes é muito divor­ciada das formas holís­ticas de teori­zação e, portanto, não aceita os múlti­plos níveis em que o patri­ar­cado (ou classe, no caso) precisa ser enfren­tado. Classe, como gênero, é mantido por uma série de meca­nismos, desde estru­turas econô­micas nas quais estamos imersos, passando pela soci­a­li­zação e pela exclusão social. Há muitas histó­rias que precisam ser contadas. Logo, vamos deixar de criar uma cultura de macho onde nós olhamos apenas para o que o status quo define como público ou mate­rial, o que nos leva a deixarmos de lado as expe­ri­ên­cias das mulheres, que são geral­mente consi­de­radas como assuntos privados ou “cultu­rais”. Vamos dar forma e voz ao femi­nismo, não apenas no sentido de “não faça mal”, mas ativa­mente conec­tando classe e gênero e nesse processo refle­tindo os inte­resses das mulheres da classe trabalhadora.

Meu pai e minha irmã apare­ceram nova­mente outro dia. De vez em quando ele a deixa comigo quando vem para a cidade, não porque é bom para ela ver a irmã mais velha, mas porque ele a quer longe dele. Eu tento vê-la nos olhos mesmo que não possa salvá-la. Eu a ouço contando que sofre bullying (e comete bullying) na escola, e também mais caute­lo­sa­mente que sofre bullying em casa. Eu faço com que ela entenda que eu sei como é receber a raiva do nosso pai, e amá-lo mesmo assim. Eu faço com que ela entenda que não é ok, que não é culpa dela. Nós falamos dos cachorros, como está o carro e qual dos amigos sujos do Pai ela mais odeia. Repe­tindo as pala­vras de uma mulher sábia quando eu era uma garo­tinha, eu a faço lembrar de que ela é forte, que ela tem que ouvir sua intuição. Eu me lembro que minha preo­cu­pação com as botas vulgares numa menina de 10 anos é majo­ri­ta­ri­a­mente clas­si­cismo inter­na­li­zado: foda-se o olhar patri­arcal! Foda-se o olhar burguês! Eu cato os piolhos do cabelo dela e leio uma história de dormir para ela. Eu me faço lembrar que isto faz diferença.

Quando meu pai e minha irmã aparecem na minha porta eles repre­sentam uma mudança política/pessoal. Como eu lido com a reali­dade do patri­ar­cado e do capi­ta­lismo sem deixar que eles me destruam? Como nós lidamos como rela­ções complexas de soli­da­ri­e­dade e conflito? Geral­mente, a natu­reza “intensa” e “privada” das minhas expe­ri­ên­cias signi­fica que eu tenho que me afastar do polí­tico porque a natu­reza cole­tiva das lutas da mulher traba­lha­dora ainda não foi publi­ca­mente reivin­di­cada. Nós temos muitas histó­rias pra contar antes disso ser possível. Então, eu olho para o íntimo: eu procuro amigas que têm histó­rias pare­cidas, eu releio livros de mulheres que não estão cagando e andando para classe e femi­nismo. Eu faço isso para lembrar que nós (eu e ela) não estamos sozi­nhas, mas somos parte de um padrão de resis­tência. Ser traba­lha­dora e mulher signi­fica, neces­sa­ri­a­mente, que nós toca­remos em lutas que são consi­de­radas como “problema seu”5 e essa priva­ti­zação do que é na verdade uma expe­ri­ência cole­tiva nos faz pensar que estamos sozi­nhas e inde­fesas e portanto não temos outra opção que não seja nos render. Daí, nós temos que nos lembrar que nossas histó­rias não são desvios do polí­tico, mas mais mate­rial para o padrão de soli­da­ri­e­dade e resis­tência que estamos criando.

  1. Corres­pon­dente ao conselho tutelar na Nova Zelândia.
  2. “[F]uck-me boots” no original.
  3. Pakeha, adje­tivo não-pejorativo usado para designar brancos que nasceram na Nova Zelândia.
  4. Mantrol, no original, é um neolo­gismo criado em uma campanha do governo da Nova Zelândia contra acidentes no trân­sito. É uma amál­gama das pala­vras man, homem, e control, controle. A ideia é que ter auto­con­trole é uma carac­te­rís­tica “de macho”.
  5. “[T]oo much infor­ma­tion”, no original.

Anarquista sírio desafia a visão binária rebeldes/regime da resistência

A seguinte entrevista com Nader Atassi foi publicada no site Truthout, no dia 6 de setembro de 2013. O texto original, em inglês, pode ser encontrado aqui: http://www.truth-out.org/news/item/18617-syrian

Enquanto os EUA intensificam sua pressão para uma intervenção militar na Síria, virtualmente a única narrativa disponível oscila entre o regime brutal de Bashar al-Assad e o papel dos elementos islâmicos dentro da resistência. Além disso, onde há dissenso com a posição dos EUA, boa parte gira em torno da contradição de oferecer suporte às entidades ligadas à Al Qaeda que buscam derrubar o regime, como se elas representassem a única força em oposição à existente ditadura. Mas como escreveu recentemente Jay Cassano para a revista tech Fast Company, a rede democrática e desarmada de resistência ao regime de Assad é rica e variada, representando uma vasta teia de iniciativas políticas locais, coalizões de artistas, organizações de direitos humanos, grupos de não-violência, entre outros. (O Movimento Sírio da Não-violência[1] criou um mapa interativo online[2] para demonstrar essa intricada rede de conexões.)

Enquanto isso, os escritos e contribuições de anarquistas sírios têm sido enormemente influentes em outras lutas árabes, com a tortura até a morte de anarquistas nas prisões de Assad imortalizada nos escritos de palestinos, e em atos por presos políticos palestinos acontecidos em Israel. Dois fatores-chave desse desdobramento exigem grande atenção: a maneira com que os anarquistas no mundo árabe estão fazendo cada vez mais críticas e intervenções que desmentem as contradições usadas como justificativa pela política externa americana, e as conversas em andamento entre movimentos anti-autoritários no mundo árabe que ignoram e se mantêm sem mediação dos pontos de referência do Ocidente. Se a insistência dos anarquistas sírios na auto-determinação como um princípio organizativo central pode suportar a realidade imediata de violência ou a influência dos interesses externos se mantém como uma questão em aberto.

Nader Atassi é um pesquisador político e escritor sírio originalmente de Homs, que mora atualmente entre os Estados Unidos e Beirute. Ele mantém o blog Darth Nader, refletindo sobre eventos da revolução síria. Eu conversei com ele sobre os traços anarquistas da revolução e a possibilidade da intervenção dos EUA.

Joshua Stephens para o Truthout: Anarquistas estiveram tanto participando ativamente quanto escrevendo sobre a revolução síria desde seu começo. Você tem alguma noção de que tipo de atividade estava acontecendo antes? Havia ligações influentes que gerassem uma articulação do anarquismo sírio?

Nader Atassi: Devido à natureza autoritária do regime sírio, sempre houve muito pouco espaço para atuar antes da revolução começar. No entanto, em termos de anarquismo no mundo árabe, muitas das vozes mais proeminentes eram sírias. Apesar de não haver organizações que fossem explicitamente “anarquistas”, escritores e blogs sírios com influências anarquistas estavam se tornando cada vez mais proeminentes na “cena” por volta da última década. Mazen Kamalmaz é um anarquista sírio que escreveu muito durante os últimos anos. Seus escritos contêm muita teoria anarquista aplicada a situações contemporâneas, e ele era uma voz proeminente no anarquismo árabe muito antes das revoltas começarem. Ele escreveu um bocado em árabe, e recentemente deu uma palestra em um café intitulada “O que é o anarquismo?”.

Em termos de organização, no entanto, a situação era diferente. No duro cenário político de um regime autoritário, muitos tiveram que ser criativos e explorar as aberturas que viam para organizar qualquer tipo de movimento, e isso levou a um modo de organização descentralizado de fato. Por exemplo, movimentos de estudantes irromperam nas universidades sírias durante a Segunda Intifada palestina e a Guerra do Iraque. Esse era o tipo de descontentamento popular que o regime tolerava. Marchas foram organizadas para protestar contra a Guerra do Iraque, ou em solidariedade à Intifada palestina. Embora muitos membros da mukhabarat[3] se infiltrassem nesses movimentos e os monitorasse de perto, essas eram irrupções puramente espontâneas por parte dos estudantes. E, embora os estudantes estivessem bem cientes do quanto estavam sendo vigiados de perto (aparentemente, a mukhabarat costumava seguir as marchas com um caderno, anotando os slogans que eram cantados e escritos nas faixas), eles usaram esse pequeno espaço político que recebiam para operar buscando gradualmente tocar em questões domésticas dentro dos protestos permitidos pelo regime, sobre assuntos externos.

Um dos episódios mais audazes que ouvi foi quando estudantes da Aleppo University, em um protesto contra a Guerra do Iraque, levantaram faixas com o slogan “Não à Lei de Emergência” (A Síria está sob a Lei de Emergência desde 1963). Esse tipo de ação não era visto nessa época. Muitos dos estudantes que espontaneamente emergiram desses protestos como organizadores carismáticos antes do levante começaram a desaparecer muito no começo do levante atual. O regime estava atento a essas redes de ativistas que foram criadas como resultado dos movimentos anteriores e então imediatamente reprimiu aqueles ativistas pacíficos que sabia que poderiam ser uma ameaça para ele (e ao mesmo tempo, se tornou mais brando com as redes jihadistas, soltando centenas deles da prisão no fim de 2011). A Aleppo University, como costuma acontecer, tem um movimento muito conhecido de estudantes em favor do levante, tanto que foi cunhada de “Universidade da Revolução”. O regime iria posteriormente mirar na universidade, matando muitos estudantes na Escola de Arquitetura.

Você escreveu recentemente no seu blog sobre a possível intervenção dos EUA como uma espécie de corolário da intervenção russa e iraniana em defesa de Assad, e da intervenção islâmica nos movimentos revolucionários. Assim como aconteceu com o Egito recentemente, anarquistas parecem algo como uma voz signatária contra dois polos insatisfatórios dentro da cobertura hegemônica – uma voz preocupada com auto-determinação. Esse é um entendimento correto?

Sim, eu acredito que é, mas eu também gostaria de clarear algumas coisas. No caso da Síria, há muitos que cabem nessa descrição; não apenas anarquistas, mas trotskistas, marxistas, esquerdistas, e até mesmo alguns liberais. Outra, essa defesa da auto-determinação é baseada na autonomia e descentralização, não em noções wilsonianas de “um povo” com algum tipo de auto-determinação centralizada e nacionalista. Ela é sobre os sírios serem capazes de determinar seus próprios destinos não em um sentido nacionalista, mas no sentido micro-político. Então, por exemplo, a auto-determinação síria não significa um caminho que todos os sírios seguem, mas cada pessoa determinando seu próprio caminho, sem a interferência dos outros. Então os curdos sírios, por exemplo, também têm o direito à completa auto-determinação nessa concepção, ao invés de forçá-los dentro de uma identidade síria arbitrária e dizer que todas as pessoas que estão dentro dessa identidade possuem um mesmo destino.

E quando falamos sobre partidos, como o regime, mas também seus aliados externos, e os jihadistas que estão contra a auto-determinação síria – isso não é porque existe uma única narrativa da auto-determinação síria e os jihadistas são contra. Na verdade, eles querem impôr sua própria narrativa sobre todo mundo. O regime trabalha e sempre trabalhou contra a auto-determinação síria porque mantém todo o poder político e se nega a compartilhá-lo. Os islâmicos trabalham contra a auto-determinação síria não porque são islâmicos (que é o motivo de muitos liberais se oporem a eles), mas porque eles têm uma visão de como a sociedade deveria funcionar, e querem impôr isso à força aos outros, com ou sem o consentimento das pessoas. Isso também é contra a auto-determinação síria. Os aliados do regime de Assad, Irã, Rússia e várias milícias estrangeiras, são contra a auto-determinação síria porque eles estão determinados a sustentar esse regime devido ao fato de que eles decidiram que seus interesses geopolíticos passam por cima dos sírios decidirem seu destino por si mesmos.

Então sim, a cobertura hegemônica sempre tenta representar as pessoas como pertencendo a algum tipo de binário. Mas a revolução síria irrompeu com as pessoas reivindicando auto-determinação do partido que estava realmente negando isso a elas: o regime de Bashar al-Assad. Com o passar do tempo, outros atores entram em cena que também negam aos sírios sua auto-determinação, mesmo alguns que lutaram contra o regime. Mas a posição nunca foi apenas ser contra o regime por ser contra o regime, assim como eu presumo que no Egito, a posição de nossos camaradas não é ser contra a Irmandade Muçulmana só por ser contra a Irmandade. O regime tirou a auto-determinação das pessoas, e qualquer remoção do regime que resulte em trocá-lo por outro que irá dominar os sírios não deveria ser vista como um sucesso. Como no Egito, quando a Irmandade tomou o poder, aqueles que os consideravam uma ameaça à revolução, mesmo se não fossem felool [apoiadores de Mubarak], ficaram repetindo o slogan “al thawra mustamera” [“a revolução continua”]. O mesmo vai acontecer na Síria se, depois que o regime se for, tome poder um partido que também nega aos sírios seu direito de determinar seu próprio destino.

Quando eu entrevistei Mohammed Bamyeh esse ano, ele falou da Síria como um exemplo muito interessante do anarquismo funcionando como uma metodologia na base. Ele apontou que quando se ouve sobre organização dentro da revolução síria, se ouve sobre comitês e formas que são consideravelmente horizontais e autônomas. Sua sugestão parece corroborada pelo que tem sido trazido à luz por pessoas como Budour Hassan, que documentou a vida e trabalho de Omar Aziz. Você vê essa influência no que seus camaradas estão fazendo e relatando?

Sim, isso nos remete a como o anarquismo deveria ser visto como um conjunto de práticas ao invés de uma ideologia. Muito da organização dentro do levante sírio teve uma abordagem anarquista, mesmo que não explicitamente. Há o trabalho para o qual o mártir Omar Aziz contribuiu, para a emergência de conselhos locais, que Tahrir-ICN e Budour Hassan documentaram muito bem. Essencialmente, esses conselhos foram concebidos por Aziz como organizações onde o auto-governo e a ajuda mútua pudessem florescer. Eu acredito que a visão de Omar deu vida ao modo como os conselhos locais operam, embora seja digno de nota que os conselhos abandonaram o auto-governo, optando por se focar em esforços de mídia e auxílio. Mas eles ainda operam baseados em princípios de ajuda mútua, cooperação e consenso.

A cidade de Yabroud, entre Damasco e Homs, é a comuna do levante sírio. Também um modelo de coexistência sectária, com uma grande população cristã vivendo na cidade, Yabroud se tornou um modelo de autonomia e auto-governo na Síria. Após as forças de segurança do regime terem deixado Yabroud por ordem de Assad para se concentrar em outro lugar, moradores interviram para preencher o vácuo, declarando “nós agora estamos organizando todos os aspectos da vida da cidade por nós mesmos [sic]”. Desde decorar a cidade até renomear a escola de “Escola da Liberdade”, Yabroud é certamente o que muitos sírios, incluindo eu, esperam que a vida se pareça após Assad. Outras áreas controladas por jihadistas reacionários desenham um cenário potencialmente mais sinistro do futuro, mas mesmo assim, é importante reconhecer que há alternativas. Existe também uma rede radical de ativistas localizados por todo o país, mas principalmente em Damasco, chamada “Juventude Revolucionária Síria”[4]. Eles são uma organização secreta, e fazem protestos extremamente ousados, muitas vezes no centro da Damasco controlada pelo regime, usando máscaras e carregando faixas e bandeiras da revolução síria – muitas vezes acompanhadas por bandeiras curdas (outro tabu na Síria).

Na cidade de Darayya, no subúrbio de Damasco, onde o regime tem encampado uma perversa batalha desde que ela caiu nas mãos dos rebeldes em novembro de 2012, alguns moradores decidiram se juntar e criar um jornal no meio de toda a guerra, chamado Enab Baladi (significa Uvas Locais, já que Darayya é famosa por suas uvas). Seu jornal é focado tanto no que acontece localmente em Darayya quanto no que acontece no resto da Síria. É impresso e distribuído gratuitamente por toda a cidade. [Os] princípios [de] auto-governo, autonomia, ajuda mútua e cooperação estão presentes em muitas das organizações dentro do levante. As organizações que operam de acordo com esses princípios obviamente não compõem a totalidade do levante. Há elementos reacionários, elementos sectários, elementos imperialistas. Mas nós ouvimos falar muito sobre isso, não é? Tem pessoas fazendo um grande trabalho baseado em sólidos princípios que merecem nosso apoio.

Como você acha que a intervenção dos EUA iria afetar o processo ou a dinâmica da revolução?

Eu acho que, em geral, intervenções têm afetado o levante muito negativamente, e acho que a intervenção dos EUA não será diferente. Mas eu acho que como essa intervenção específica vai afetar o processo ou dinâmica da revolução depende do escopo específico dos ataques americanos. Se os EUA atacarem da forma que estão dizendo que vão, isto é, ataques “punitivos”, “limitados”, “cirúrgicos”, “simbólicos”, então isso não vai surtir nenhuma mudança significativa no campo de batalha. Porém, isso pode dar ao regime de Assad uma vitória de propaganda, já que então poderá alegar que “se manteve firme contra o imperialismo dos EUA”. Ditadores que sobreviveram a guerras têm uma tendência a declarar vitórias baseados em mera sobrevivência, mesmo se na realidade eles estivessem no lado perdedor. Depois que Saddam Hussein foi retirado do Kuwait por EUA, Arábia Saudita e outros, ele se manteve no poder por mais 12 anos, doze anos que foram repletos de propaganda sobre como Saddam se manteve firme durante “a mãe de todas as batalhas”.

Se os ataques acabarem sendo mais duros do que está sendo discutido nesse momento, por qualquer razão, e eles produzirem uma mudança significativa no campo de batalha, ou enfraquecerem significativamente o regime de Assad, então acho que os potenciais efeitos negativos serão diferentes. Eu acho que isso vai levar a um futuro onde os sírios não têm voz para decidir. Os EUA podem não gostar de Assad, mas eles exprimiram muitas vezes que acreditam que as instituições do regime devem ser mantidas intactas para garantir estabilidade numa futura Síria. Resumindo, como muitos apontaram, os EUA querem “Assadismo sem Assad”. Eles querem o regime sem a figura de Assad, do mesmo modo que eles conseguiram no Egito, quando Mubarak saiu mas o “núcleo duro” dos militares permaneceu, e assim como aconteceu no Yêmen, onde os EUA negociaram para o presidente sair mas tudo se manter predominantemente igual. O problema com isso é que os sírios cantaram “O povo exige a derrubada do regime”, não só de Assad. Existe um consenso geral, dos EUA à Rússia ao Irã, de que não importa o que acontecer na Síria, as instituições do regime devem permanecer intactas. As mesmas instituições que foram construídas pela ditadura. As mesmas instituições que pilharam a Síria e provocaram o descontentamento popular que começou esse levante. As mesmas instituições que são meramente os resquícios do colonialismo francês. Todos na Síria sabem que os candidatos preferidos pelos EUA para os cargos de liderança na Síria são aqueles sírios que fizeram parte do regime e então desertaram: burocratas ba’athistas que viraram tecnocratas neoliberais que viraram “desertores”. Essas são as pessoas que os EUA colocariam para governar a Síria.

Os sírios já sacrificaram tanta coisa. Eles pagaram o preço mais alto por suas demandas. Eu não quero que tudo isso sirva pra nada. No afã de se livrar de Assad, o símbolo do regime, eu espero que o regime não seja preservado. A Síria merece mais do que um monte de instituições desprezíveis e uma burocracia criada por ditadores que queriam manter o povo sírio sob controle e pacificado. Não deveria haver razões para preservar instituições que participaram na pilhagem do país e na matança de pessoas. E sabendo que é isso que os EUA desejam para a Síria, eu rejeito qualquer envolvimento direto americano. Se os EUA querem ajudar, podem começar usando diplomacia para falar com a Rússia e Irã e convencê-los a parar a guerra, para que os próprios sírios possam determinar qual a próxima ação a se tomar. Mas a intervenção direta dos EUA significa estrangeiros determinando o próximo estágio para os sírios, algo que eu acredito que deve ser rejeitado.

O que as pessoas fora da Síria podem fazer para oferecer apoio?

Para pessoas de fora, é difícil. Em termos de suporte material, há muito pouco que possa ser feito. A única coisa que eu penso que é possível em larga escala é suporte discursivo/intelectual. A esquerda tem sido muito hostil com o levante sírio, tratando os piores elementos da atividade anti-regime como se fossem os únicos elementos, e aceitando as narrativas do regime sem questionar. O que eu pediria para as pessoas fazerem é ajudar a corrigir essa história e mostrar que existem elementos do levante sírio que valem a pena apoiar. Ajudar a quebrar esse binário prejudicial de que a decisão é entre Assad ou a Al Qaeda, ou Assad e o imperialismo dos EUA. Ser justo com a história e os sacrifícios do povo sírio através de um relato acurado. Talvez seja tarde demais, e as narrativas hegemônicas sejam poderosas demais nesse momento para serem superadas. Mas se as pessoas começarem agora, talvez os livros de história possam pelo menos ser justos.

[1] “Syrian Nonviolence Movement”, no original em inglês.

[2] Os links da matéria original foram mantidos, sem tradução.

[3] Mukhabarat é um termo árabe para os serviços de inteligência.

[4] “Syrian  Revolutionary Youth”, no original em inglês.

Tradução: JG

O que significa viajar?

¿Tiene corazón este camino?. Si tiene, el camino es bueno; si no, de nada sirve.
Ningún camino lleva a ninguna parte, pero uno tiene corazón y el otro no.
Uno hace gozoso el viaje; mientras lo sigas, eres uno con él. El otro te hará maldecir tu vida.
Uno te hace fuerte; el otro te debilita
.”
(“Las enseñanzas de Don Juan”, Carlos Castaneda)

Turismo é uma atividade de bando. O discurso que sustenta o capitalismo o iguala à liberdade, como se reinasse nas sociedades atuais plena escolha individual. A liberdade de circulação do dinheiro é comparada com a liberdade das pessoas, quando na verdade ela é exatamente o que prende a maioria das pessoas. Existe muito a se dizer para demonstrar que a grande maioria da população vive confinada, presa, completamente alheia de todas as decisões que dizem respeito à sua vida, incluindo aí onde ela vive, que lugares ela conhece e o que ela pode fazer no seu tempo livre – se é que ela o tem. São razões culturais (xenofobia, racismo, sexismo, homo e transfobia); razões econômicas (desigualdade social, pobreza); razões políticas (fronteiras, leis anti-imigração, aprisionamento), entre muitas outras que eu não escrevi. Mas não é disso que eu estou falando agora, e sim algo desde a perspectiva privilegiada de quem pôde passar por essas barreiras e efetivamente viajar para um lugar distante.

O turismo é uma atividade de bando porque todo mundo faz a mesma coisa. Os mesmos lugares, as mesmas estadias, os mesmos guias. Pior, as pessoas conversam sobre suas viagens como quem conversa sobre um álbum de figurinhas. “Você já foi a Paris? Pois eu também, é muito bom, não é mesmo?”. Como se fosse uma experiência só, como se uma mesma cidade com dezenas de milhares de esquinas oferecesse sempre as mesmas sensações, dificuldades, pessoas e histórias. Viagens pré-programadas, embaladas a vácuo, moldadas em série. Pois bem, isso não é liberdade. Isso é o turismo enlatado e amarrado da sociedade onde o dinheiro viaja livre. Turismo capitalista. Uma indústria alimentada por propaganda, por um marketing que constrói desejos e vontades na medida do que o pacote de viagens pode oferecer.

Me faz pensar em por quê, no fim das contas, as pessoas gostam de viajar. O que está além de preencher esse álbum de figurinhas que dá status? Eu tenho caminhado pelas ruas e pontes de Budapeste sozinho há dias, olhando tudo. Falta olho pra tanto prédio-sinal-ponte-monte-estátua-metrôamarelo-faixadepedestre-nyitvaakció-gentegentegentegente. Falta ouvido pra tanta buzina-rádio-criança-pontetrepidandopelotrem-inglêsalemãofrancêsárabe. Com certeza, falta ouvido pra tanto húngaro, pra tanto grunhido, tanto resmungo, tanto Harminckettesek teré (não é, Charles?). Absorver a cidade sozinho é interessante, é bem diferente de andar em bando. Mesmo assim, não é uma atividade individual. Viver a cidade não nos serve em um vácuo, não nos serve sem ter ninguém pra contar. Se suceder à humanidade como ocorre nos filmes, um apocalipse que só deixa uma ou outra pessoa de pé sobre a terra, essa pessoa vai ter o mundo inteiro pra si e não vai adiantar pra nada. Quando eu chego em casa de noite, eu estou angustiado para falar tudo que eu vi. Eu quero mostrar as fotos. Aliás, é pra isso que a gente tira fotos, pra mostrar pros outros onde nós estivemos. A gente tira foto da vista antes de olhar pra vista. Eu tenho tentado olhar antes, mas não sei se realmente serve pra alguma coisa, porque é artificial da minha parte.

Eu tenho pensado naquele jovem que foi viver sozinho na natureza selvagem. Não sei se ele realmente disse isso, mas no filme o personagem se dá conta do seguinte: “Happiness is only real when shared”. A felicidade só é real quando é compartilhada. Uma viagem solitária ainda é uma viagem real, mas não sei quanta satisfação ela pode trazer. A questão não é sair de casa com gente do lado, você pode fazer uma viagem sozinho e criar a sua companhia no caminho, conhecer e conviver com novas pessoas. É que dizer que conheceu um lugar significa pouca coisa quando você não conheceu pessoas lá. Nossas memórias significativas estão sempre relacionadas com outras pessoas com quem vivemos. Nosso processo de transformação pessoal e crescimento também. Nossa diversão também.

Viajar tem esse potencial para transformação pessoal, mas não dá de esperar que esteja garantido no pacote. Novos lugares hospedam pessoas diferentes, ideias diferentes, experiências diferentes, mas tudo depende da gente ir atrás dessas coisas. Aliás, com a nossa cidade natal acontece a mesma coisa, mas basicamente a rotina nos prende nos mesmos trajetos e pessoas. Ainda assim, visitar Araranguá pode ser muito mais rico que Paris, dependendo da nossa disposição e atitude lá. Eu sei que eu já estive em algumas capitais do nordeste brasileiro, mas eu sinceramente não sei dizer quais. Já fiz viagens que simplesmente passaram em branco. Nenhuma recordação, nenhum aprendizado que eu possa apontar.

É claro que a gente leva muito mais de uma viagem do que transparece ou do que a gente pode apontar. Eu vejo sempre pessoas que viveram grandes experiências no exterior voltar pra sua cidade e ter uma grande frustação por achar que não mudou nada. Não só as pessoas continuaram a mesma vida, mas a gente volta e também continua a mesma vida, sem que as pessoas percebam tudo que nós vivemos e que deveríamos ter mudado. Eventualmente você tem algum comentário diferente a fazer sobre a comida de lugar X, sobre um costume do lugar Y, sobre a pessoa que você conheceu e fazia Z, mas não é lá grande coisa. Pois bem, a mudança é interna. Ela está lá em algum lugar dentro da gente e vai se mostrar se precisar, mas geralmente não precisa. O nosso mundo já muda quando a gente olha pra ele de um jeito diferente. Muda para si.

O turismo comercial pode girar bilhões de dólares anualmente no mundo todo, mas ele é pobre. Aliás, está falido. Ele pode vender milhares de fotos do mesmo lugar, passeios guiados pela mesma narração, festas curtidas no mesmo pub. Mas como vender uma memória só nossa, uma experiência pessoal, um relato único? Como vender uma amizade?

Aqui eu tenho alguns compromissos durante a semana, mas estou morando no centro da Europa, então com alguma programação e disposição de procurar os melhores preços, eu poderia ir a uma cidade nova por fim de semana. Um país novo por fim de semana. Meu álbum de figurinhas daria um status espetacular, mas eu provavelmente não teria muitas experiências significativas. Eu não teria laços. Do jeito que eu vejo hoje, só esses laços valem a pena. Eu só quero viajar para criar vínculo, pra deixar uma parte de mim e pra levar partes embora. Viagens com substância.

Pensando nisso tudo me faz refletir sobre que tipo de anfitrião a gente deve ser, também. Eu venho de uma cidade turística, com experiências tão enlatadas que chegam nos outdoors de Budapeste, na Hungria, sem estragar. O que eu poderia oferecer daquela ilha onde eu vivo que fugisse do padrão? O que entraria para a memória e coração da pessoa visitante, e só no dela? Me parece óbvio que não pode ter fórmula pronta, mas tem certos elementos que a gente tem que buscar. Tem que ter pessoas pra conviver, tem que ter experiências pra viver com essas pessoas e tem que ter a realidade do cotidiano também. Eu sempre gostei de levar quem me visita no restaurante barato onde eu sempre como, na linha de ônibus que eu pego, no boteco perto de casa onde o garçom sabe meu nome. Conhecer realidades e não cartões postais. É isso que eu quero fazer nos próximos 350 dias.

Por fim, eu queria aproveitar pra dizer pra vocês que aqui as pessoas comem semente de girassol como se fosse salgadinho. Que elas não atravessam o sinal fechado mesmo se dá de ver que não vem absolutamente nenhum carro. Que os jovens intercambistas da Alemanha sentem necessidade constante de dizer que eles não são nazistas e que o seu povo também não é mais. Que aqui se come “szilva”, parece muito ameixa mas custa R$1,50 o kilo e eu já comi mais de 100 em 15 dias. Que a cerveja é quente, barata, e o mercado não vende bebida depois das 22h. Que o moço da loja me olhou atônito quando eu perguntei se tinha desconto pagando à vista. Que vendem sabugo de milho nas estações de metrô por 80 centavos. Cru. Que aqui não se tem vergonha de falar publicamente coisas horríveis do povo romani (cigano). Que aqui tem gente morando na rua, gente pedindo moeda, gente procurando comida no lixo, porque ainda é aquele sistema em que o dinheiro flui com a mesma facilidade com que se nega um prato de comida ou uma moradia abandonada. As vítimas são parte integrante e indispensável desse sistema, na Europa assim como na América Latina. Eu também queria dizer que as pessoas com quem eu vivia no Brasil são especiais, mesmo para o padrão internacional, e que eu tenho uma saudade gigante delas. Cada pessoa chata que eu conheço aqui me faz pensar mais nisso. Hoje é meu aniversário e eu passei ele escrevendo essas linhas.