O que significa viajar?

¿Tiene corazón este camino?. Si tiene, el camino es bueno; si no, de nada sirve.
Ningún camino lleva a ninguna parte, pero uno tiene corazón y el otro no.
Uno hace gozoso el viaje; mientras lo sigas, eres uno con él. El otro te hará maldecir tu vida.
Uno te hace fuerte; el otro te debilita
.”
(“Las enseñanzas de Don Juan”, Carlos Castaneda)

Turismo é uma atividade de bando. O discurso que sustenta o capitalismo o iguala à liberdade, como se reinasse nas sociedades atuais plena escolha individual. A liberdade de circulação do dinheiro é comparada com a liberdade das pessoas, quando na verdade ela é exatamente o que prende a maioria das pessoas. Existe muito a se dizer para demonstrar que a grande maioria da população vive confinada, presa, completamente alheia de todas as decisões que dizem respeito à sua vida, incluindo aí onde ela vive, que lugares ela conhece e o que ela pode fazer no seu tempo livre – se é que ela o tem. São razões culturais (xenofobia, racismo, sexismo, homo e transfobia); razões econômicas (desigualdade social, pobreza); razões políticas (fronteiras, leis anti-imigração, aprisionamento), entre muitas outras que eu não escrevi. Mas não é disso que eu estou falando agora, e sim algo desde a perspectiva privilegiada de quem pôde passar por essas barreiras e efetivamente viajar para um lugar distante.

O turismo é uma atividade de bando porque todo mundo faz a mesma coisa. Os mesmos lugares, as mesmas estadias, os mesmos guias. Pior, as pessoas conversam sobre suas viagens como quem conversa sobre um álbum de figurinhas. “Você já foi a Paris? Pois eu também, é muito bom, não é mesmo?”. Como se fosse uma experiência só, como se uma mesma cidade com dezenas de milhares de esquinas oferecesse sempre as mesmas sensações, dificuldades, pessoas e histórias. Viagens pré-programadas, embaladas a vácuo, moldadas em série. Pois bem, isso não é liberdade. Isso é o turismo enlatado e amarrado da sociedade onde o dinheiro viaja livre. Turismo capitalista. Uma indústria alimentada por propaganda, por um marketing que constrói desejos e vontades na medida do que o pacote de viagens pode oferecer.

Me faz pensar em por quê, no fim das contas, as pessoas gostam de viajar. O que está além de preencher esse álbum de figurinhas que dá status? Eu tenho caminhado pelas ruas e pontes de Budapeste sozinho há dias, olhando tudo. Falta olho pra tanto prédio-sinal-ponte-monte-estátua-metrôamarelo-faixadepedestre-nyitvaakció-gentegentegentegente. Falta ouvido pra tanta buzina-rádio-criança-pontetrepidandopelotrem-inglêsalemãofrancêsárabe. Com certeza, falta ouvido pra tanto húngaro, pra tanto grunhido, tanto resmungo, tanto Harminckettesek teré (não é, Charles?). Absorver a cidade sozinho é interessante, é bem diferente de andar em bando. Mesmo assim, não é uma atividade individual. Viver a cidade não nos serve em um vácuo, não nos serve sem ter ninguém pra contar. Se suceder à humanidade como ocorre nos filmes, um apocalipse que só deixa uma ou outra pessoa de pé sobre a terra, essa pessoa vai ter o mundo inteiro pra si e não vai adiantar pra nada. Quando eu chego em casa de noite, eu estou angustiado para falar tudo que eu vi. Eu quero mostrar as fotos. Aliás, é pra isso que a gente tira fotos, pra mostrar pros outros onde nós estivemos. A gente tira foto da vista antes de olhar pra vista. Eu tenho tentado olhar antes, mas não sei se realmente serve pra alguma coisa, porque é artificial da minha parte.

Eu tenho pensado naquele jovem que foi viver sozinho na natureza selvagem. Não sei se ele realmente disse isso, mas no filme o personagem se dá conta do seguinte: “Happiness is only real when shared”. A felicidade só é real quando é compartilhada. Uma viagem solitária ainda é uma viagem real, mas não sei quanta satisfação ela pode trazer. A questão não é sair de casa com gente do lado, você pode fazer uma viagem sozinho e criar a sua companhia no caminho, conhecer e conviver com novas pessoas. É que dizer que conheceu um lugar significa pouca coisa quando você não conheceu pessoas lá. Nossas memórias significativas estão sempre relacionadas com outras pessoas com quem vivemos. Nosso processo de transformação pessoal e crescimento também. Nossa diversão também.

Viajar tem esse potencial para transformação pessoal, mas não dá de esperar que esteja garantido no pacote. Novos lugares hospedam pessoas diferentes, ideias diferentes, experiências diferentes, mas tudo depende da gente ir atrás dessas coisas. Aliás, com a nossa cidade natal acontece a mesma coisa, mas basicamente a rotina nos prende nos mesmos trajetos e pessoas. Ainda assim, visitar Araranguá pode ser muito mais rico que Paris, dependendo da nossa disposição e atitude lá. Eu sei que eu já estive em algumas capitais do nordeste brasileiro, mas eu sinceramente não sei dizer quais. Já fiz viagens que simplesmente passaram em branco. Nenhuma recordação, nenhum aprendizado que eu possa apontar.

É claro que a gente leva muito mais de uma viagem do que transparece ou do que a gente pode apontar. Eu vejo sempre pessoas que viveram grandes experiências no exterior voltar pra sua cidade e ter uma grande frustação por achar que não mudou nada. Não só as pessoas continuaram a mesma vida, mas a gente volta e também continua a mesma vida, sem que as pessoas percebam tudo que nós vivemos e que deveríamos ter mudado. Eventualmente você tem algum comentário diferente a fazer sobre a comida de lugar X, sobre um costume do lugar Y, sobre a pessoa que você conheceu e fazia Z, mas não é lá grande coisa. Pois bem, a mudança é interna. Ela está lá em algum lugar dentro da gente e vai se mostrar se precisar, mas geralmente não precisa. O nosso mundo já muda quando a gente olha pra ele de um jeito diferente. Muda para si.

O turismo comercial pode girar bilhões de dólares anualmente no mundo todo, mas ele é pobre. Aliás, está falido. Ele pode vender milhares de fotos do mesmo lugar, passeios guiados pela mesma narração, festas curtidas no mesmo pub. Mas como vender uma memória só nossa, uma experiência pessoal, um relato único? Como vender uma amizade?

Aqui eu tenho alguns compromissos durante a semana, mas estou morando no centro da Europa, então com alguma programação e disposição de procurar os melhores preços, eu poderia ir a uma cidade nova por fim de semana. Um país novo por fim de semana. Meu álbum de figurinhas daria um status espetacular, mas eu provavelmente não teria muitas experiências significativas. Eu não teria laços. Do jeito que eu vejo hoje, só esses laços valem a pena. Eu só quero viajar para criar vínculo, pra deixar uma parte de mim e pra levar partes embora. Viagens com substância.

Pensando nisso tudo me faz refletir sobre que tipo de anfitrião a gente deve ser, também. Eu venho de uma cidade turística, com experiências tão enlatadas que chegam nos outdoors de Budapeste, na Hungria, sem estragar. O que eu poderia oferecer daquela ilha onde eu vivo que fugisse do padrão? O que entraria para a memória e coração da pessoa visitante, e só no dela? Me parece óbvio que não pode ter fórmula pronta, mas tem certos elementos que a gente tem que buscar. Tem que ter pessoas pra conviver, tem que ter experiências pra viver com essas pessoas e tem que ter a realidade do cotidiano também. Eu sempre gostei de levar quem me visita no restaurante barato onde eu sempre como, na linha de ônibus que eu pego, no boteco perto de casa onde o garçom sabe meu nome. Conhecer realidades e não cartões postais. É isso que eu quero fazer nos próximos 350 dias.

Por fim, eu queria aproveitar pra dizer pra vocês que aqui as pessoas comem semente de girassol como se fosse salgadinho. Que elas não atravessam o sinal fechado mesmo se dá de ver que não vem absolutamente nenhum carro. Que os jovens intercambistas da Alemanha sentem necessidade constante de dizer que eles não são nazistas e que o seu povo também não é mais. Que aqui se come “szilva”, parece muito ameixa mas custa R$1,50 o kilo e eu já comi mais de 100 em 15 dias. Que a cerveja é quente, barata, e o mercado não vende bebida depois das 22h. Que o moço da loja me olhou atônito quando eu perguntei se tinha desconto pagando à vista. Que vendem sabugo de milho nas estações de metrô por 80 centavos. Cru. Que aqui não se tem vergonha de falar publicamente coisas horríveis do povo romani (cigano). Que aqui tem gente morando na rua, gente pedindo moeda, gente procurando comida no lixo, porque ainda é aquele sistema em que o dinheiro flui com a mesma facilidade com que se nega um prato de comida ou uma moradia abandonada. As vítimas são parte integrante e indispensável desse sistema, na Europa assim como na América Latina. Eu também queria dizer que as pessoas com quem eu vivia no Brasil são especiais, mesmo para o padrão internacional, e que eu tenho uma saudade gigante delas. Cada pessoa chata que eu conheço aqui me faz pensar mais nisso. Hoje é meu aniversário e eu passei ele escrevendo essas linhas.

2 comentários sobre “O que significa viajar?

  1. se serve de alguma coisa (bonita) te dizer isso, a primeira vez que tive essa consciência de que beleza que existe nas viagens que fazemos são na verdade os vínculos que criamos, o que levamos e deixamos, foi quando fui à floripa, há quase três anos atrás. e você foi uma das pessoas que me ensinou isso. obrigada, lindo :)

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