Ofensiva ao Aurora Dourada

O seguinte texto foi publicado em inglês por Thrasybulus no site libcom.org, no dia 28 de setembro. Os links originais foram mantidos.

1380561_10153297818790296_1738861568_n299Com a prisão de várias lideranças, o governo grego iniciou uma
ofensiva ao partido de extrema-direita Aurora
Dourada
na esteira do assassinato de Pavlos Fyssas.

Uma ofensiva ao partido de extrema-direita Aurora Dourada (AD) está acontecendo na Grécia. O líder do partido, Nikolaos Michaloliakos, vários deputados e membros do partido foram presos essa manhã, com mais prisões previstas. Eles são acusados de participar de uma organização criminosa e serão levados a tribunal. A ofensiva tem dois alvos principais. O primeiro é o próprio partido político e o segundo alvo são seus cúmplices nos serviços de segurança. Tudo isso acontece após o assassinato de Pavlos Fyssas há pouco mais de uma semana.

Junto à prisão de Michaloliakos vieram a do porta-voz do partido Ilias Kasidaiaris e de Giorgos Patelis, que chefiava a seção de Nikaia do Aurora Dourada, a mesma região onde aconteceu o assassinato. É dito que os documentos apresentados aos tribunais consistem em 33 acusações, dentre as quais constam 10 assassinatos ou tentativas de homicídio. A investigação dentro dos serviços de segurança já levou à renúncia de diversos generais da polícia, o afastamento do chefe do serviço de inteligência e de membros das unidades Dias¹. O chefe das unidades de polícia anti-protesto, cujos homens foram vistos lutando ao lado de membros do AD nos protestos do dia 18, também foi afastado.

É a primeira vez desde 1974 que o líder de um partido é preso na Grécia e, de certa forma, a repressão veio como uma surpresa. Apenas duas semanas atrás, a mídia hegemônica estava discutindo uma possível inclusão do AD na coalisão de governo. Na esteira do assassinato na noite do dia 17, a mídia e o governo fizeram uma guinada completa e decidiram atacar o AD de frente. Essa não é a primeira vez que membros do AD mataram alguém e a natureza violenta do grupo já era evidente há anos. Muitos dos incidentes pelos quais o AD e os serviços de segurança estão sendo investigados datam de muito mais tempo do que das últimas duas semanas e a velocidade com que o caso foi preparado e apresentado sugere que as evidências já eram conhecidas há muito nos círculos jurídicos e políticos. A questão é por que o governo decidiu agir agora, quando fez tão pouco para evitar o crescimento do AD por tanto tempo?

Uma resposta é que dessa vez o governo simplesmente teve que agir. O assassinato causou muita raiva na Grécia, que rapidamente se transformou em fúria nas ruas. Nos últimos dez dias sedes do AD por todo o país sofreram ataques e os protestos antifascistas têm sido constantes. Na noite do dia 25, novamente houve protestos em todas as maiores cidades da Grécia, ao ponto de 50 mil pessoas marcharem a uma sede do AD em Atenas. Tentativas iniciais da mídia de retratar o homicídio como o resultado de uma rixa após uma partida de futebol falharam, então não houve maneira de que ele fosse minimizado. Não tomar nenhuma ação apenas colocaria o frágil governo de coalisão na berlinda. Ao atacar o AD, o governo tem uma chance de aparecer como o defensor da democracia.

Outra razão possível para a ofensiva pode ser o medo. O AD recentemente cresceu a ponto de se tornar o terceiro partido mais popular na Grécia e até os últimos dias nada parecia poder abalar essa popularidade. Muitos dos eleitores que recentemente apoiaram o AD seriam no passado apoiadores naturais do direitista Nova Democracia (ND), atual líder do governo de coalisão. Como muito do apelo do AD é baseado numa retórica anti-sistema, o ND pode ter desistido de conseguir trabalhar com o AD e decidiu que algo devia ser feito antes que eles perdessem mais votos.

O governo também pode ter estado de olho no exército. A colaboração entre o AD e as forças de segurança são conhecidas há tempo. Parte da atual investigação alega que membros das forças especiais estiveram dando treinamento militar para membros do AD. Alguns dias atrás um pronunciamento de um grupo de reservistas das forças especiais pediu que o governo renunciasse e abrisse caminho para um governo de unidade nacional tendo o exército como seu protetor; em resumo foi um chamado para um golpe. Temendo que se não agissem logo eles pudessem perder completamente o controle dos serviços de segurança, o governo optou por agir primeiro.

Após um período tão longo onde o governo ignorou as ações do AD é difícil acreditar em suas atuais alegações de serem os bastiões da democracia e da justiça. Mais provável é que o ND esteja se aproveitando da ira causada pelo assassinato de Pavlos Fyssas para frear um rival político. Com milhares de pessoas nas ruas e a primeira queda de popularidade do AD, o governo aproveitou a chance e espera que ao prender seus líderes e possivelmente banir o partido eles possam ganhar de volta alguns de seus eleitores perdidos. Com a criminalização do partido, todos aqueles nacionalistas mas que dificilmente seriam fascistas comprometidos e foram para o AD podem voltar ao ND. Quando os fascistas estavam atacando os manifestantes junto com a polícia eles eram assistentes úteis, mas assim que começaram a se tornar uma ameaça ao próprio partido no poder eles tinham que ser freados.

Mesmo com os líderes do AD na prisão e os principais simpatizantes nas forças de segurança afastados, o fim da extrema-direita na Grécia está muito longe. Ainda que o governo possa obter algum tipo de vitória política disso, o fascismo que eles incentivaram e permitiram crescer penetrou muito fundo para sumir em poucos dias. Qualquer investigação da polícia provavelmente vai deixar intocada a maior parte dos 50% das forças de seguranças que votaram no AD. De forma alguma todas as centenas de ataques racistas ocorridos na Grécia foram cometidos por membros de carteirinha do AD. A influência que a extrema-direita tem sobre os jovens dificilmente vai evaporar por si só; de fato, essa ofensiva pode apenas aumentar isso.

Se o partido é banido imediatamente sua posição anti-sistema vai crescer, com seu líder incentivando os apoiadores a continuar lutando por detrás das grades. Liberados da pretensão de ser um partido respeitável, os esquadrões do AD podem receber permissão para aumentar a violência. Aqueles que atacam imigrantes e esquerdistas ainda terão muitos simpatizantes nas forças de segurança e na população em geral. Em vez de marcar o fim do crescimento do fascismo, o homicídio e a repressão podem nos levar a uma situação muito sinistra. No fundo da mente de muita gente está a possibilidade de que podemos estar a caminho de uma guerra civil. A ideia parece extrema e certamente há um longo caminho a percorrer antes disso acontecer, mas tal catástrofe já não é mais impensável.

Quaisquer que sejam os resultados dessa manobra política, a luta contra o fascismo na Grécia ainda vai continuar por um longo tempo.

  1. Dias é a unidade de polícia motorizada grega. (Nota do tradutor)

Tradução: JG

3 comentários sobre “Ofensiva ao Aurora Dourada

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  2. Isso só demonstra a capacidade de articulação do Aurora Dourada. Embora eu discorde completamente do programa partidário do mesmo, digo, sob o risco de ser duramente criticado, que a posição anti-sistema do AD vai muito além da retórica. Caso contrário, o governo atual não teria tomado tal atitude. Eles não ligam para o assassinato de Pavlos, como já é óbvio. Também não ligam para os protestos, pois o AD, em conjunto com as forças armadas, certamente revidariam em dobro contra os Antifascistas e partidos de esquerda. O que os colocou em xeque foi o crescimento rápido e estrondoso do AD, junto com o fato de que este não desejava negociar. A reação ao assassinato de Pavlos (não o assassinato em si, que foi acobertado para tentar “agradar” o AD) foi a desculpa perfeita para apaziguar a esquerda revolucionária e atacar a extrema-direita. Não obstante, acredito que as lideranças do AD não serão presas, pois isso provocaria um cenário de instabilidade que o governo não conseguiria conter, no qual MUITOS membros das forças armadas, militantes do AD e uma parcela dos civis gregos, levantar-se-iam contra o regime vigente, mergulhando a Grécia em uma guerra civil oficialmente.

    Afirmo novamente que NÃO SIMPATIZO COM O AURORA DOURADA, só estou observando a situação de um ponto de vista prático.

    • Eles têm um programa político para além da retórica? Provavelmente. É esse programa que mobilizou o apoio ao partido? Em grande parte, acho que não, principalmente pelo contexto de crise que facilita o interesse em alternativas radicais (à esquerda e à direita) e por eles ganharem muita visibilidade e apoio em questões pontuais: a xenofobia, o nacionalismo, etc.

      Isso não é dizer que eles não têm planejamento ou ferramentas para além do discurso: como a própria matéria sugere, eles estavam se preparando para o enfrentamento, inclusive fazendo treinamento com auxílio das forças armadas.

      A força dos antifascistas nas ruas não vem apenas da quantidade de pedras e molotovs que eles têm pra jogar: existe muito interesse (econômico, político) em evitar uma guerra civil e a piora da crise, por parte dos capitalistas gregos e do governo de coalisão. Isso envolve mediar os conflitos e ceder a algumas reivindicações, para não agudizar a guerra entre fascistas e antifas.

      Por fim, as lideranças do Aurora Dourada já estão presas. A resposta dos fascistas provavelmente vai aparecer quando as manifestações de esquerda pararem, e quando o partido conseguir se reestruturar após o ataque sofrido.

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