23 de outubro na Hungria de 2013

Em 1956, no dia 23 de outubro, começa a Revolução Húngara. Foi uma revolta de relativa espontaneidade, iniciada a partir de um grupo de estudantes universitários que convocaram uma manifestação em solidariedade à Polônia, que havia substituído o goveno estalinista por um governo comunista reformador. Distintas perspectivas tomaram parte na revolta, desde socialistas e comunistas anti-soviéticos a nacionalistas de direita. No entanto, a força das ruas colocou no poder Imre Nagy – também comunista, ex-membro do partido bolchevique, mas crítico do estalinismo. A revolução foi bem-sucedida, após alguns dias de fortes enfrentamentos com a polícia onde muitos foram mortos. Houve uma greve geral, ocupação de fábricas e a organização de grupos armados para defender a revolução, até que o primeiro-ministro ligado à URSS renuncia e Imre Nagy assume o poder, dando lugar a um regime multipartidário, onde defendia uma via nacional e democrática ao socialismo. No entanto, pouco depois que Nagy declara neutralidade e rompe com o Pacto de Varsóvia, a URSS volta atrás e ocupa o país com grande poderio militar, matando milhares de pessoas e retomando o controle do país.

Eu espero pesquisar mais sobre esse momento para poder escrever melhor outra hora. Uma fonte interessante parece ser o trabalho de Andy Anderson, um relato completo na perspectiva socialista libertária sobre a Revolução, republicado pela AKpress. Outra fonte mais curta, em português, é esse artigo. Por agora, queria apenas relatar as comemorações da data em 2013.

Desde que o país voltou a ser independente da URSS, há 24 anos, o dia 23 de outubro foi decretado feriado nacional. Nem mesmo os mercados abrem, quase ninguém trabalha. As ruas se enchem de bandeiras nacionais e há festividades e manifestações durante o dia. Em 2006, quando um governo de esquerda estava no poder, houve fortes protestos na data por causa de declarações impopulares do presidente. Grupos nacionalistas e de direita ocasionaram fortes conflitos com a polícia e invasão de prédios públicos. Talvez por isso, recebi uma recomendação de uma professora de que era “melhor não sairmos de casa” (se ela quisesse me convencer a ir, não teria jeito melhor que esse).

Uma rápida pesquisa na internet e uma consulta aos amigos húngaros fornecem a programação do dia.

O grupo A Város Mindenkié (“A Cidade é de Todos”), uma ONG / movimento social dos moradores de rua, convocou um encontro com leituras e apresentações para lembrar a data da Revolução (fotos aqui). Esse grupo é bem ativo politicamente no país, uma reação ao governo que está criminalizando a pobreza e os moradores de rua, cada vez mais numerosos por conta da crise econômica e da falta de políticas sociais. Infelizmente, não cheguei a encontrá-los.

Andando pela rua, encontrei uma ação organizada por dois partidos de esquerda do país, que também contava com a presença de alguns anarquistas. Eles estavam distribuindo comida gratuitamente, o que atraiu uma enorme fila de moradores de rua. Segundo um dos organizadores, a iniciativa era pra expôr a crise no país, onde mais de 4 milhões estão vivendo abaixo da linha de pobreza, em um país de 10 milhões de pessoas. Segundo esse representante socialista, é um momento de necessária união entre as forças de esquerda do país.
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Porém, essas foram iniciativas isoladas. Enquanto isso, em outra parte da cidade, o partido fascista Jobbik convocava um ato a todos “que se sentem enganados por todos os governos anteriores, de esquerda e direita”. Isso é um discurso muito interessante para um partido fascista, especialmente em um momento de crise como vive o país. Na falta de soluções institucionais, o Jobbik busca se colocar fortemente contra todos os políticos para ganhar popularidade em cima da frustração generalizada. O porta-voz do grupo disse no palanque que todos os governantes dos últimos 24 anos deveriam estar presos. Não é uma estratégia inovadora para partidos de extrema-direita, mas é uma que parece funcionar: momentos de crise costumam fortalecer as visões políticas mais radicais, seja à direita ou à esquerda – na Hungria, ao que parece, só a extrema-direita tem conseguido se aproveitar disso. O Jobbik foi o terceiro partido mais votado nas últimas eleições. No ato, quase mil pessoas, muitas bandeiras do partido e muitos símbolos nacionalistas, xenófobos, símbolos nazistas e de supremacia branca. Em diversos pontos da Deák Ferenc ter, uma das principais praças de Budapeste, caminhavam grupos de 20 homens fardados de preto com cara de poucos amigos – o Jobbik anda na linha entre a legalidade e a ilegalidade, organizando milícias que aterrorizam ciganos, judeus, moradores de rua e imigrantes.

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Por fim, havia as cerimônias oficiais, que encheram as ruas. Estimei cerca de 30 mil pessoas na maior passeata, que contava com representantes de dezenas de cidades da Hungria, músicas nacionais e muitas, muitas bandeiras do país. Algumas pessoas empunhavam bandeiras com um círculo recortado no meio, símbolo do momento em que se retirou o emblema soviético. No entanto, a caminhada era majoritariamente silenciosa, sem pautas ou reivindicações próprias. Por baixo das bandeiras da Hungria, desfilavam visões muito distintas, que se encontravam ali mais para celebrar o feriado que é importante para a cultura do país. No fim da tarde, o discurso do presidente Viktor Órban na praça Hősök tere foi transmitido em telões nas ruas e microfones nos postes da cidade, dando um sinistro clima de Big Brother pela onipresença da voz do líder máximo da nação.

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Em frente ao Museu do Terror, que relembra o período da ocupação nazista e da ditadura soviética, centenas de húngaros acenderam velas para relembrar os mortos. A data era pra ser uma festividade, mas o luto estava presente lado a lado com o orgulho da Revolução que fracassou. Se por um lado o passado foi sombrio, o futuro tampouco parece animador para o povo húngaro.

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No pé das montanhas do Jura, a Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne

Um dos meus objetivos quando vim morar aqui era entrar em contato com as iniciativas e organizações anarquistas que estivessem ao meu alcance. Conhecer os trabalhos e teorias sendo feitos e discutidos em cada lugar, estabelecer contatos, trocar experiências, e também divulgar um pouco das nossas vivências no Brasil e na América Latina. Por isso, quando soube da Feira do Livro Anarquista em Biel/Bienne, entrei em contato com companheiros de lá para sondar como seria e resolvi ir. Naturalmente, conhecer a Suíça foi também um atrativo.

A cidade

Biel/Bienne é uma cidade que realmente tem esse nome duplo. São 50 mil habitantes na fronteira entre a parte francesa e alemã da Suíça, então tudo lá é bilíngue, incluindo o nome. Ruas com amplos calçadões, poucos carros e muitas bicicletas, tudo organizado e limpo, as lojas e vitrines preparadas para os turistas, as baladas à noite também. Os espaços públicos costumam estar cheios de moradores e turistas; pela manhã vi uma enorme feira de rua onde se vendia de tudo: roupas, livros, vidrarias, frutas e verduras, relíquias, mapas, potes, panelas, moedas antigas, e até mesmo trincos usados e parafusos. Não sei dizer se fazem isso pelo dinheiro, para tirar as velharias de casa ou apenas pelo ritual de ir às ruas e encontrar vizinhos e outros moradores. O fato é que em uma época de individualização extrema, onde os momentos de lazer foram deslocados para a solidão do lar e as relações humanas estão cada vez mais mediadas pela tecnologia, é revigorante ver aglomerações voluntárias como uma feira de rua. De noite vi o povo na rua também, com apresentações musicais e artísticas na parte velha da cidade, onde o chão é de pedra e os pequenos prédios parecem centenários. Acho que quem tem invernos rigorosos sabe aproveitar melhor do que nós um dia quente de sol e uma noite fresca.

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Por trás da atmosfera pacata e ordeira da cidade, existe um passado de lutas e organização operária que deixou marcas indeléveis na história de nossa classe, e que reverberam até hoje nos cinco continentes do mundo. Em 1872, após a expulsão dos anarquistas da Associação Internacional dos Trabalhadores, foi realizado em Saint Imier, povoado do Jura bernês ao lado de Biel/Bienne, um encontro que fundou a efêmera Internacional Anti-autoritária. A região, onde se destacavam os trabalhadores das indústrias de relógios, foi um dos focos mais ativos na formação da corrente anarquista no movimento operário europeu da segunda metade do século XIX. Biel/Bienne também teve uma forte presença do anarcossindicalismo no início do século XX, que protagonizou grandes greves. Na década de 30, foi uma das primeiras cidades a eleger um prefeito socialista, que fez alguns experimentos arquitetônicos e comunitários, época em que surge o apelido “Biel la rouge [Biel vermelha]”. No entanto, hoje ela atrai turistas pelas marcas de relógio de luxo, pelas regiões históricas e pelos belos lagos de Bienne e de Neuchâtel – pouco ou nada dessa rica história da classe trabalhadora está visível ou cristalizado na cidade.

Por baixo do que é imediatamente visível, porém, se encontra uma agitada cena libertária: casas ocupadas (squats) onde moram anarquistas, punks e artistas; grupos políticos e de propaganda libertária; bibliotecas e arquivos de memória da esquerda, etc. Em grande parte, isso é vinculado aos jovens da cidade, que de certa forma parecem constituir um grupo à parte, co-habitando na cidade junto aos outros moradores. Ainda assim, como os squats são importantes. O custo de vida em toda a Suíça é exorbitante, o aluguel médio de um quarto em um apartamento é 500 ou 600 euros (~1500 reais), então as casas ocupadas são uma alternativa para garantir moradia, além de funcionar como espaços políticos para realizar atividades, debates, shows, etc. Eu visitei o squat LaBiu, onde moram cerca de 10 pessoas; eles organizaram um show com uma banda de punk para uma das noites culturais da feira. Conversando com o pessoal de lá, me contaram que nos últimos anos eles travaram acirradas batalhas para manter o espaço, pois estavam enfrentando uma onda de repressão e despejos não só em Biel/Bienne. Nos anos 90, a cultura dos squats era muito forte em toda a Europa, mas hoje foi bastante enfraquecida pela repressão na maioria dos países.

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A Feira

A Feira consistia em um salão aberto com os estandes dos livros, uma exposição de fotos, e também fazia parte da programação algumas apresentações e debates em outras partes da cidade. A organização e o espaço foram compartilhados por diferentes perspectivas anarquistas: grupos anarcossindicalistas, organizações políticas de síntese e plataformistas, além de grupos autonomistas, ecoanarquistas e punks. Não deixa de ser impressionante e motivante perceber que, tão longe de casa, existem pessoas dedicando suas vidas e desenvolvendo iniciativas sob a mesma ideologia, simbologia, e sob a mesma história que nos incentiva na América Latina – a luta por uma socedade sem classes e opressões, o anseio pela verdadeira liberdade.

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Tanto os livros quanto as apresentações (e as pessoas) eram em francês, alemão ou italiano, 3 das 4 línguas oficiais da Suíça. Participei de uma apresentação sobre o livro Anarquismo Social e Organização, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, que acabou de ser publicado em francês por companheiros da Suíça e da CGA francesa. Infelizmente a apresentação foi bastante esvaziada, como a maioria das atividades da feira, mas o livro vendeu várias cópias durante a feira. Também assisti a uma apresentação de um livro francês sobre a dominação masculina e o sexismo dentro do meio de esquerda e anarquista, que comprei mas ainda não li. Além disso, uma interessante exposição de imagens e textos no espaço da feira também chamava a atenção para o tema da violência de gênero.

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A feira em si, junto aos contatos que fiz por lá, me deixaram algumas impressões gerais, mas que podem ser particulares desse evento e circunstâncias. O movimento anarquista na Europa está muito mais avançado na publicação de livros, traduções e outros materiais, assim como possuem muitas editoras, grupos de tradução e bibliotecas libertárias. Por outro lado – e esse é um enorme porém – existe um grande descompasso entre a quantidade de atividades de propaganda que eles desenvolvem e as iniciativas de movimentos sociais ou luta prática em que estão envolvidos. Até mesmo conversando com companheiros anarcossindicalistas da FAU suíça, que tinham um grande estande com livros e camisetas, me disseram que hoje eles não têm capacidade de atuar como uma central sindical e se restringiram majoritariamente a fazer agitação e propaganda.

Nos países que não foram atingidos pela crise econômica, como a Suíça, parece haver um certo consenso de que a classe trabalhadora está satisfeita e a conjuntura é desfavorável para se construir lutas no nível de massas. Com isso, se reforçam os esforços nas atividades de propaganda e também se voltam os olhos para o exterior. A América Latina, por exemplo, é vista por muitos anarquistas europeus com interesse e esperança, pelo desenvolvimento do anarquismo e sua inserção nos movimentos de massa que têm acontecido. Os levantes do Oriente Médio, e recentemente na Turquia, também são bastante discutidos e despertam muito interesse.

A tradução do livro da FARJ e outras iniciativas de divulgação da corrente anarquista especifista são também um reflexo desse momento. A ênfase na necessidade dos anarquistas construírem mobilização e movimentos de massa é um dos motivos que têm despertado interesse e debates entre algumas organizações anarquistas europeias, junto ao crescimento da corrente em nosso país e continente. Foi curioso ouvir de um anarquista europeu que estavam satisfeitos por ler e estudar trabalhos anarquistas vindos do terceiro mundo, que sempre foram considerados restritos a suas conjunturas e momentos distintos, enquanto os trabalhos teóricos e históricos produzidos na Europa (e EUA) sempre se pretendem universais. De fato, a historiografia e teoria anarquista sempre foram estudados com um viés muito eurocêntrico: basta analisar os mais famosos livros de apresentação do anarquismo, inclusive os publicados no Brasil. Conforme compilou o sul-africano Lucien van der Walt sobre alguns dos principais trabalhos de estudo do anarquismo:

Woodcock (1975) dedicou à América Latina três páginas, ignorou a África, a Ásia, a Austrália e a maior parte do Leste Europeu; Joll (1964) dedicou ao resto do mundo nove páginas; Marshall (1998) dedicou dois dos 41 capítulos (33 de 706 páginas) de seu livro à Ásia e à América Latina.”

De fato, a partir do início do século XX o anarquismo foi tão presente em países como México, Cuba, Argentina, Brasil, Coreia, Japão, África do Sul, como foi na Europa. Ainda mais, muitos lugares foram pouquíssimo estudados para mesmo sabermos da presença anarquista, sua incidência histórica e seu desenvolvimento teórico. Hoje em dia, o anarquismo continua vivo e atuante em todos os continentes, com maior ou menor grau, como mostram trabalhos recentes feitos por fora do viés eurocêntrico, como dos sul-africanos van der Walt e Schmidt ou do brasileiro Felipe Corrêa.

Por fim, a visita à feira rendeu alguns bons contatos para próximas viagens, alguns livros para treinar o francês, muitos jornais e materiais anarquistas para um futuro acervo e uma interessante primeira análise da situação do movimento anarquista europeu. Fiz também uma entrevista com Johnny, militante anarco-comunista e organizador da feira, que pode ser conferida aqui.

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[Entrevista] A Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne e a atuação libertária na cidade

A seguinte entrevista foi realizada no dia 22 de setembro de 2013, ao fim da Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne, com Johnny, militante do Collective Communiste Libertaire (CCLB), organização anarco-comunista da Suíça. Johnny também foi um dos organizadores da Feira do Livro e falou comigo no infoshop “Chat Noir” [Gato Preto], local onde funciona uma biblioteca, um arquivo de memória e correspondência do movimento anarquista e operário, e também local de reuniões para grupos e coletivos da cidade.

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Na entrevista, ele me falou sobre as Feiras do Livro Anarquista de Biel/Bienne, as iniciativas do campo libertário na cidade, as lutas em que eles estiveram envolvidos nos últimos tempos e as discussões que têm travado para pensar sua atuação social.

Quando começou a Feira do Livro Anarquista aqui em Biel/Bienne?

Começou em 2010, eu não estive muito envolvido na organização dessa primeira edição, mas foi organizada principalmente por pessoas de um grupo comunista libertário de Winterthur chamado Libertäre Aktion – Winterthur, por squatters daqui e acho que uma ou duas pessoas do grupo anarcossindicalista FAU [Freie Arbeiterinnen und Arbeiter Union, União das Trabalhadoras e Trabalhadores Livres], de Bern, e mais alguns indivíduos. A primeira edição, do meu ponto de vista, foi realmente boa, acho que tivemos muitos visitantes. Talvez o que não foi tão bom é que não houve muitos estandes de livros em francês, e se me lembro bem, apenas conferências em alemão.

E, desde então, elas estão acontecendo todo ano?

Sim, desde 2010. Ela aconteceu em 2011 no mesmo local e período do ano, e então em 2010 houve o Encontro Anarquista Internacional em Saint Imier, nós decidimos não organizar um grande evento anarquista antes do verão, então organizamos a feira do livro lá em St. Imier durante o encontro. Essa edição não foi organizada pela mesma equipe, foi principalmente organizada pelo grupo de Winterthur, nós, pessoas da FAU e também alguns indivíduos, mas os squatters não estiveram na organização desse evento. Se me lembro bem foi porque eles tiveram que sair de suas casas e havia muitas pessoas se mudando, com outras coisas para resolver, e alguns não quiseram participar no grande encontro de St. Imier. Acho que é certo dizer que não somos todos das mesmas tendências e o encontro em St. Imier pareceu algo muito oficial, com as maiores organizações anarquistas e tudo mais, e alguns deles não estavam muito confortáveis com isso.

Então no último ano houve St. Imier, e esse ano vocês tiveram a feira do livro novamente. Quem participou nesse ano, quem esteve nos estandes e tudo mais?

Esse ano foi um tanto particular, porque algumas pessoas estavam envolvidas em seus estudos, ou tiveram crianças e coisas desse tipo, então o grupo de Winterthur não pode participar da organização esse ano, mas tivemos novamente um companheiro da FAU, nosso grupo local aqui, uma companheira de Lausanne, acho que envolvida na cena alternativa, e novamente os squatters daqui não estiveram muito envolvidos. Mas tivemos um squat que organizou um show para a feira na sexta-feira, então podemos dizer que eles também participaram.

E você tem ideia de quantas pessoas participaram e se envolveram, nas conferências e visitando a feira?

Esse ano nós fizemos um esforço especial para misturar as línguas, era para termos três conferências em alemão, três em francês e duas em italiano, mas infelizmente uma em alemão e outra em italiano foram canceladas. Acho que os estandes de livros estavam mais divididos entre as línguas, havia mais livros e apresentações em francês, mas menos estandes que nas últimas três edições e muito menos público. Estivemos conversando entre nós, talvez seja porque fizemos a feira no meio de setembro, geralmente a fazemos no fim de maio, e havia muita coisa acontecendo esse fim de semana.

Quanto às correntes que participaram dos estandes, havia anarco-comunistas, anarcossindicalistas, algumas pessoas da cena autonomista e insurrecionalista, e também uma distro punk e algumas editoras e bibliotecas; acho que foi bastante diverso em termos de correntes esse ano.

E havia pessoas de que países aqui?

Tinha gente da Suíça, obviamente, mas também França, Alemanha, Áustria, era para termos a presença de alguns italianos, mas que tiveram que cancelar. Ainda assim, acho que tivemos uma boa representação da região da Suíça onde se fala italiano. Esses são os lugares de onde a maioria das pessoas veio.

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Ok, e falando um pouco sobre o local, Biel/Bienne é uma cidade pequena, mas ao mesmo tempo parece ter uma grande cena libertária ou anarquista e muitas atividades. Você pode falar um pouco sobre o que realmente tem acontecido aqui? Talvez por causa de sua história, porque estamos logo ao lado das montanhas do Jura, que foram particularmente importantes na história do anarquismo.

Sim, absolutamente. É verdade que é uma cidade pequena, tem pouco mais de 50 mil habitantes, mas ao mesmo tempo, para a Suíça não é enorme mas também não é uma cidade muito pequena. Biel/Bienne tem uma atmosfera particular, eu diria, comparada com o resto da Suíça. Acho que faz dois séculos que tivemos muitas indústrias aqui, principalmente de relógios, e trouxeram muitos trabalhadores do Jura para cá, porque eles tinham conhecimento sobre como fazer relógios. Então acho que temos um pouco de influência da história do Jura e da classe trabalhadora de lá.

É engraçado você dizer que parece que temos uma grande cena anarquista aqui, porque na realidade isso não é bem verdade. Se você pensar em nossa tendência, a tendência organizacionista, temos apenas um grupo muito pequeno aqui, e então temos algumas pessoas da cena squatter que se reivindicam anarquistas, mas nem todas se consideram anarquistas ou de alguma linha política. É verdade que estamos em uma cidade de esquerda – ela era chamada de “Bienne la rouge”, Bienne vermelha – então tem essa atmosfera. E, claro, não somos muitos aqui mas acho que somos bem ativos, e acho que é uma cidade onde – naturalmente às vezes temos conflitos, ou melhor tensões, entre as correntes, mas geralmente as relações são bem amigáveis, nós nos conhecemos e mesmo que não concordemos em tudo, geralmente achamos formas de trabalhar juntos, dar uma mão quando fazemos algo. Você viu que durante a feira muita gente veio ajudar, mesmo se nós discordamos politicamente sobre anarquismo ou algo do tipo. Quando eles organizam algo, se temos capacidade nós damos uma mão, nos ajudamos, então talvez seja por isso que parece que somos tão ativos. Por outro lado, tirando os anarquistas não há nenhum outro grupo de extrema-esquerda na cidade. Aqueles que eram comunistas entraram no partido social-democrata ou no partido verde, construindo tendências internas de esquerda, mas acho que somos o único grupo na extrema-esquerda, então talvez isso também faça diferença, porque é como se não tivéssemos concorrência.

Há lutas ou atos de particular importância na cidade nos últimos anos, ou atividades e trabalho social que vocês estejam planejando?

Não sei se podemos chamar de importante, mas em nosso grupo local aqui estamos envolvidos desde o ano passado, quando de certa forma decidimos colocar toda nossa atividade em um setor, um tema, focar nessa frente e construí-la com paciência. Começamos, ano passado, uma reação ao novo regulamento policial da cidade. Eles chamam de “regulamento policial”, mas ele basicamente regula o uso do espaço público, ainda que tenha outras coisas envolvidas. Então, eles queriam reformar esse regulamento de uma maneira bastante agressiva. Mesmo para organizar uma festa privada na sua casa você teria que pedir permissão ao Estado, e eles queriam reforçar o horário em que não se pode fazer barulho – acho que no país todo após as 22h você não pode fazer barulho e eles criaram uma zona entre as 20 e 22h onde você só poderia fazer um pouquinho de barulho, era um pré-horário de silêncio. E muitas coisas desse tipo, você não poderia beber álcool na rua…

Isso está acontecendo em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Sim, muitas coisas desse tipo. Sabe, em qualquer cidade do mundo eles querem controlar mais e mais o espaço público. No início havia algumas pessoas de um centro social dos jovens que estavam acompanhando isso e certa vez eles vieram aqui em nosso infoshop para uma reunião e nós decidimos construir uma oposição a isso [o grupo se chama “Bienne Vivante”, Bienne viva]. Houve alguma discussão sobre se opor legalmente, sabe, nós temos aqui o direito a um referendo e então a questão precisa ser votada, mas muitas pessoas não estavam confortáveis com isso porque se entrasse para a agenda política de algum partido político forte nós perderíamos muita energia nisso. E nós também começamos a discutir que não é apenas a reforma, nós temos problemas com o regulamento atual, e o interessante é que nessa discussão tínhamos bastante gente – éramos 10 ou 12 – mas a maioria não era envolvida em grupos políticos, mesmo que fossem politizados em maior ou menor grau, e eles concordaram e defenderam até mais do que nós esse argumento, de que deveriam ser os habitantes da cidade a decidir como manejar o espaço público, que nós poderíamos ter acordos entre comunidades da cidade para chegar a alguns consensos sobre o uso, o barulho e esse tipo de coisa. Até mesmo que nós podemos ter algo como uma mediação popular em caso de conflitos entre as comunidades, e que podemos fazer isso sem as autoridades, sem o Estado. Então decidimos entre a maioria do grupo que não iríamos apenas nos opôr a essa reforma, mas que continuaríamos em duas frentes, uma especificamente contra essa reforma e outra questionando o espaço público, áreas públicas, e criando ideias sobre como poderíamos estar.

Então, começamos e mantivemos essa oposição à reforma e, bem, era período pré-eleitoral, então muitos partidos políticos quiseram se juntar a nós e fazer alianças, até mesmo a extrema direita que se juntar a nós nessa oposição, então decidimos escrever um comunicado dizendo que não queríamos nada com partidos políticos, ainda que ativistas de partidos pudessem se juntar. Os únicos que não poderiam participar eram os que participaram da elaboração dessa reforma e também proibimos a participação de pessoas envolvidas ou membros de partidos com uma agenda que posso chamar de monolítica, um programa discriminatório e monolítico de socidade. Foi muito engraçado porque o partido de extrema-direita reagiu dizendo que “aqueles que falam sobre tolerância são intolerantes contra nós” (risos).

Então continuamos, fizemos algumas ações bem-sucedidas e acho que todo o cenário político institucional ficou como, “nossa, o que está acontecendo?”. Houve manifestações na cidade, não muito grandes, com 100, 150, talvez 200 pessoas nos melhores momentos, mas foi o suficiente para assustar alguns políticos. Nós continuamos a pressionar e então chegou ao parlamento da cidade, eles tinham que votar artigo por artigo e antes disso nós havíamos escrito comentários sobre cada artigo. Na verdade, foi engraçado, porque quando você tem uma reforma desse tipo há uma comissão responsável, e cada vez que tínhamos um comentário, eles faziam um paralelo para discutir conosco nos comentários, então acho que isso demonstrou que tivemos algum poder de pressão, já que eles se sentiram obrigados a nos responder cada vez que falamos sobre alguma coisa. E alguns políticos foram, eu acho, oportunistas, eles consideraram que tinham que fazer algumas moções na nossa direção, para tentar nos cooptar.

Então o pior da reforma foi suprimido, talvez um ou dois artigos foram modificados para melhor. E houve algumas propostas que considero progressistas que foram adicionadas à reforma. Então acho que podemos dizer que foi uma vitória parcial, claro que pequena, mas é sempre alguma coisa. E depois disso o grupo continuou a existir, o que é muito difícil, porque geralmente após uma mobilização que acaba, o grupo desaparece.

E nesse verão estivemos muito ativos com um bar privado e impopular que é instalado todo ano na praia, tomando o espaço público e o privatizando, então você não tem direito de fazer seu piquenique, tomar uma bebida, esse tipo de coisa. Estivemos todo o verão mobilizados contra isso. No fim não conseguimos fazê-lo sumir, mas as autoridades da cidade reagiram de uma forma muito nervosa, do tipo “são eles novamente”, e tentaram acalmar as coisas. Nós tivemos muito apoio das pessoas nas ruas, fizemos uma coletiva de imprensa e debates na televisão local, e você tinha pessoas nos parando na rua para dizer “ei, eu vi vocês, li o artigo, continuem o trabalho, estamos com vocês”. Eu fiquei bastante impressionado com o tanto de pessoas, mas era apenas apoio. Nós nunca chegamos no ponto em que os apoiadores se tornam ativos.

Então fazendo um balanço final, nós começamos a discutir como podíamos ter tantos apoiadores, centenas e talvez milhares, e quando fazemos uma ação, somos sempre apenas o grupo, amigos e alguns apoiadores mais ativos. Então começamos a discutir como poderíamos trazer os moradores da cidade, pessoais normais como a gente, para nosso grupo e nossas atividades, qualquer que fosse o nível de envolvimento.

Decidimos tentar uma coisa, fizemos uma divisão de diferentes áreas da cidade. Alguns vão cobrir as lojinhas, alguém ficou com os bares, alguém vai falar com os skatistas e os grafiteiros, então alguém vai chegar a essas comunidades e a ideia é perguntar se estão interessados em organizar conosco uma festa, ou um encontro, onde pudéssemos comer algo juntos, nos conhecer, talvez ouvir música. Não como uma ação, apenas algo para nos encontrar. Está tomando tempo, estamos indo com calma, mas acho que não precisamos nos desgastar com isso, o importante é tentarmos como um primeiro passo para entrar em contato com as pessoas. Se isso não der certo, então tentamos outra coisa.

Ao mesmo tempo, estamos agora analisando um enorme projeto urbanístico que está começando na cidade, um dos piores projetos urbanísticos que a cidade já conheceu. Sabemos que para enfrentar isso precisaremos de muita participação, nós somos um grupo pequeno de pessoas, temos que nos tornar – talvez não um movimento de massas – mas algo no meio-termo. Então é realmente uma necessidade entender como nos relacionamos com não-ativistas. Além disso, ouvir deles como estão vivendo a cidade, quais são suas preocupações, para aprendermos uns com os outros.

E em nosso grupo político local, decidimos que essa é nossa principal atividade e nossas energias e prioridade vão para isso. Se temos mais capacidade para fazer uma feira do livro, nós fazemos, mas a prioridade é para isso.

Ok, acho que está ótimo. Se você quiser dizer algo para finalizar…

Bem, não sei, o que podemos dizer para concluir é que não temos muitas certezas sobre nós, sobre como fazer nossas coisas; queríamos sair da cena ativista que estava nos desgastando muito, onde nós nunca conseguíamos criar algo durável. Começamos a ficar cansados disso e decidimos tentar uma outra coisa. Devo dizer que estou bem feliz que decidimos isso, porque tenho a sensação de que tudo funciona melhor. É claro que não é uma situação perfeita, não é muito grande, as coisas estão tomando seu tempo, mas tenho a impressão que de passo em passo algo está surgindo de nossa atividade. Estou otimista e entusiasmado novamente com a atuação política, desde que decidimos trabalhar dessa forma. O mais importante para nós é que agora temos tempo para entender o sentido do que estamos fazendo. Acho que é uma iniciativa muito modesta que temos aqui. Tem muita gente que está completamente exausta com sua atividade política e perdendo a ênfase no que está fazendo, e talvez essas pessoas pudessem tentar o mesmo que nós e encontrar um caminho para trazer algo concreto e real novamente.

A criminalização dos sem-teto na Hungria

O seguinte texto é do grupo de direitos humanos Human Rights Watch, foi escrito por Lydia Gall e publicado em 1º de outubro aqui. Os links originais foram mantidos.

hungaryhomeless266_n“A pobreza não é crime” – manifestantes em frente
ao parlamento húngaro no dia 30 de setembro.

Fiel a sua palavra, o governo húngaro se moveu para transformar os sem-teto em criminosos. Com 245 votos a favor e apenas 45 contra, o governo usou sua maioria absoluta no parlamento ontem para adotar uma lei que permite às autoridades locais criminalizar os sem-teto por viver em espaços públicos e vasculhar lixeiras.

Municípios em todo o país agora têm sinal verde para impôr multas, serviço comunitário e até mesmo prisão (se condenados duas vezes em seis meses) aos sem-teto. E é direto pra cadeia para aqueles condenados por levantar abrigos improvisados. Isso é ainda pior que o decreto local emitido por um distrito de Budapeste nesse verão, que estipula a prisão para quem não puder pagar as multas; essa lei nacional permite aos governos locais colocar pessoas na cadeia apenas por serem sem-teto.

A Corte Constitucional havia derrubado, em novembro de 2012, uma lei anterior que criminalizava os sem-teto, com a base de que violava o direito à dignidade humana. Ao invés de respeitar a decisão da corte, o governo, através de sua maioria absoluta, respondeu incluindo em março um dispositivo na Constituição que permitia a criminalização dos sem-teto, uma ação que mostrou menosprezo pelo Estado de direito.

Pessoas sem-teto estiveram entre as centenas que se juntaram em frente ao parlamento enquanto ele estava passando essa terrível lei. As pessoas sem-teto com quem conversei se perguntavam por que o governo está chutando pessoas que já estão no chão. Eles insistiram que não queriam moradia de graça como todos parecem pensar, apenas as mesmas chances que todo mundo de serem produtivos e contribuir pra sociedade.

As autoridades húngaras deveriam lidar com a questão dos sem-teto com políticas sociais, não com polícia. Hoje, os direitos de 30 mil pessoas sem-teto no país estão ainda mais em risco.