[Entrevista] A Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne e a atuação libertária na cidade

A seguinte entrevista foi realizada no dia 22 de setembro de 2013, ao fim da Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne, com Johnny, militante do Collective Communiste Libertaire (CCLB), organização anarco-comunista da Suíça. Johnny também foi um dos organizadores da Feira do Livro e falou comigo no infoshop “Chat Noir” [Gato Preto], local onde funciona uma biblioteca, um arquivo de memória e correspondência do movimento anarquista e operário, e também local de reuniões para grupos e coletivos da cidade.

IMG_20130921_105328

Na entrevista, ele me falou sobre as Feiras do Livro Anarquista de Biel/Bienne, as iniciativas do campo libertário na cidade, as lutas em que eles estiveram envolvidos nos últimos tempos e as discussões que têm travado para pensar sua atuação social.

Quando começou a Feira do Livro Anarquista aqui em Biel/Bienne?

Começou em 2010, eu não estive muito envolvido na organização dessa primeira edição, mas foi organizada principalmente por pessoas de um grupo comunista libertário de Winterthur chamado Libertäre Aktion – Winterthur, por squatters daqui e acho que uma ou duas pessoas do grupo anarcossindicalista FAU [Freie Arbeiterinnen und Arbeiter Union, União das Trabalhadoras e Trabalhadores Livres], de Bern, e mais alguns indivíduos. A primeira edição, do meu ponto de vista, foi realmente boa, acho que tivemos muitos visitantes. Talvez o que não foi tão bom é que não houve muitos estandes de livros em francês, e se me lembro bem, apenas conferências em alemão.

E, desde então, elas estão acontecendo todo ano?

Sim, desde 2010. Ela aconteceu em 2011 no mesmo local e período do ano, e então em 2010 houve o Encontro Anarquista Internacional em Saint Imier, nós decidimos não organizar um grande evento anarquista antes do verão, então organizamos a feira do livro lá em St. Imier durante o encontro. Essa edição não foi organizada pela mesma equipe, foi principalmente organizada pelo grupo de Winterthur, nós, pessoas da FAU e também alguns indivíduos, mas os squatters não estiveram na organização desse evento. Se me lembro bem foi porque eles tiveram que sair de suas casas e havia muitas pessoas se mudando, com outras coisas para resolver, e alguns não quiseram participar no grande encontro de St. Imier. Acho que é certo dizer que não somos todos das mesmas tendências e o encontro em St. Imier pareceu algo muito oficial, com as maiores organizações anarquistas e tudo mais, e alguns deles não estavam muito confortáveis com isso.

Então no último ano houve St. Imier, e esse ano vocês tiveram a feira do livro novamente. Quem participou nesse ano, quem esteve nos estandes e tudo mais?

Esse ano foi um tanto particular, porque algumas pessoas estavam envolvidas em seus estudos, ou tiveram crianças e coisas desse tipo, então o grupo de Winterthur não pode participar da organização esse ano, mas tivemos novamente um companheiro da FAU, nosso grupo local aqui, uma companheira de Lausanne, acho que envolvida na cena alternativa, e novamente os squatters daqui não estiveram muito envolvidos. Mas tivemos um squat que organizou um show para a feira na sexta-feira, então podemos dizer que eles também participaram.

E você tem ideia de quantas pessoas participaram e se envolveram, nas conferências e visitando a feira?

Esse ano nós fizemos um esforço especial para misturar as línguas, era para termos três conferências em alemão, três em francês e duas em italiano, mas infelizmente uma em alemão e outra em italiano foram canceladas. Acho que os estandes de livros estavam mais divididos entre as línguas, havia mais livros e apresentações em francês, mas menos estandes que nas últimas três edições e muito menos público. Estivemos conversando entre nós, talvez seja porque fizemos a feira no meio de setembro, geralmente a fazemos no fim de maio, e havia muita coisa acontecendo esse fim de semana.

Quanto às correntes que participaram dos estandes, havia anarco-comunistas, anarcossindicalistas, algumas pessoas da cena autonomista e insurrecionalista, e também uma distro punk e algumas editoras e bibliotecas; acho que foi bastante diverso em termos de correntes esse ano.

E havia pessoas de que países aqui?

Tinha gente da Suíça, obviamente, mas também França, Alemanha, Áustria, era para termos a presença de alguns italianos, mas que tiveram que cancelar. Ainda assim, acho que tivemos uma boa representação da região da Suíça onde se fala italiano. Esses são os lugares de onde a maioria das pessoas veio.

IMG_20130921_195355 (copy)

Ok, e falando um pouco sobre o local, Biel/Bienne é uma cidade pequena, mas ao mesmo tempo parece ter uma grande cena libertária ou anarquista e muitas atividades. Você pode falar um pouco sobre o que realmente tem acontecido aqui? Talvez por causa de sua história, porque estamos logo ao lado das montanhas do Jura, que foram particularmente importantes na história do anarquismo.

Sim, absolutamente. É verdade que é uma cidade pequena, tem pouco mais de 50 mil habitantes, mas ao mesmo tempo, para a Suíça não é enorme mas também não é uma cidade muito pequena. Biel/Bienne tem uma atmosfera particular, eu diria, comparada com o resto da Suíça. Acho que faz dois séculos que tivemos muitas indústrias aqui, principalmente de relógios, e trouxeram muitos trabalhadores do Jura para cá, porque eles tinham conhecimento sobre como fazer relógios. Então acho que temos um pouco de influência da história do Jura e da classe trabalhadora de lá.

É engraçado você dizer que parece que temos uma grande cena anarquista aqui, porque na realidade isso não é bem verdade. Se você pensar em nossa tendência, a tendência organizacionista, temos apenas um grupo muito pequeno aqui, e então temos algumas pessoas da cena squatter que se reivindicam anarquistas, mas nem todas se consideram anarquistas ou de alguma linha política. É verdade que estamos em uma cidade de esquerda – ela era chamada de “Bienne la rouge”, Bienne vermelha – então tem essa atmosfera. E, claro, não somos muitos aqui mas acho que somos bem ativos, e acho que é uma cidade onde – naturalmente às vezes temos conflitos, ou melhor tensões, entre as correntes, mas geralmente as relações são bem amigáveis, nós nos conhecemos e mesmo que não concordemos em tudo, geralmente achamos formas de trabalhar juntos, dar uma mão quando fazemos algo. Você viu que durante a feira muita gente veio ajudar, mesmo se nós discordamos politicamente sobre anarquismo ou algo do tipo. Quando eles organizam algo, se temos capacidade nós damos uma mão, nos ajudamos, então talvez seja por isso que parece que somos tão ativos. Por outro lado, tirando os anarquistas não há nenhum outro grupo de extrema-esquerda na cidade. Aqueles que eram comunistas entraram no partido social-democrata ou no partido verde, construindo tendências internas de esquerda, mas acho que somos o único grupo na extrema-esquerda, então talvez isso também faça diferença, porque é como se não tivéssemos concorrência.

Há lutas ou atos de particular importância na cidade nos últimos anos, ou atividades e trabalho social que vocês estejam planejando?

Não sei se podemos chamar de importante, mas em nosso grupo local aqui estamos envolvidos desde o ano passado, quando de certa forma decidimos colocar toda nossa atividade em um setor, um tema, focar nessa frente e construí-la com paciência. Começamos, ano passado, uma reação ao novo regulamento policial da cidade. Eles chamam de “regulamento policial”, mas ele basicamente regula o uso do espaço público, ainda que tenha outras coisas envolvidas. Então, eles queriam reformar esse regulamento de uma maneira bastante agressiva. Mesmo para organizar uma festa privada na sua casa você teria que pedir permissão ao Estado, e eles queriam reforçar o horário em que não se pode fazer barulho – acho que no país todo após as 22h você não pode fazer barulho e eles criaram uma zona entre as 20 e 22h onde você só poderia fazer um pouquinho de barulho, era um pré-horário de silêncio. E muitas coisas desse tipo, você não poderia beber álcool na rua…

Isso está acontecendo em todo o mundo, inclusive no Brasil.

Sim, muitas coisas desse tipo. Sabe, em qualquer cidade do mundo eles querem controlar mais e mais o espaço público. No início havia algumas pessoas de um centro social dos jovens que estavam acompanhando isso e certa vez eles vieram aqui em nosso infoshop para uma reunião e nós decidimos construir uma oposição a isso [o grupo se chama “Bienne Vivante”, Bienne viva]. Houve alguma discussão sobre se opor legalmente, sabe, nós temos aqui o direito a um referendo e então a questão precisa ser votada, mas muitas pessoas não estavam confortáveis com isso porque se entrasse para a agenda política de algum partido político forte nós perderíamos muita energia nisso. E nós também começamos a discutir que não é apenas a reforma, nós temos problemas com o regulamento atual, e o interessante é que nessa discussão tínhamos bastante gente – éramos 10 ou 12 – mas a maioria não era envolvida em grupos políticos, mesmo que fossem politizados em maior ou menor grau, e eles concordaram e defenderam até mais do que nós esse argumento, de que deveriam ser os habitantes da cidade a decidir como manejar o espaço público, que nós poderíamos ter acordos entre comunidades da cidade para chegar a alguns consensos sobre o uso, o barulho e esse tipo de coisa. Até mesmo que nós podemos ter algo como uma mediação popular em caso de conflitos entre as comunidades, e que podemos fazer isso sem as autoridades, sem o Estado. Então decidimos entre a maioria do grupo que não iríamos apenas nos opôr a essa reforma, mas que continuaríamos em duas frentes, uma especificamente contra essa reforma e outra questionando o espaço público, áreas públicas, e criando ideias sobre como poderíamos estar.

Então, começamos e mantivemos essa oposição à reforma e, bem, era período pré-eleitoral, então muitos partidos políticos quiseram se juntar a nós e fazer alianças, até mesmo a extrema direita que se juntar a nós nessa oposição, então decidimos escrever um comunicado dizendo que não queríamos nada com partidos políticos, ainda que ativistas de partidos pudessem se juntar. Os únicos que não poderiam participar eram os que participaram da elaboração dessa reforma e também proibimos a participação de pessoas envolvidas ou membros de partidos com uma agenda que posso chamar de monolítica, um programa discriminatório e monolítico de socidade. Foi muito engraçado porque o partido de extrema-direita reagiu dizendo que “aqueles que falam sobre tolerância são intolerantes contra nós” (risos).

Então continuamos, fizemos algumas ações bem-sucedidas e acho que todo o cenário político institucional ficou como, “nossa, o que está acontecendo?”. Houve manifestações na cidade, não muito grandes, com 100, 150, talvez 200 pessoas nos melhores momentos, mas foi o suficiente para assustar alguns políticos. Nós continuamos a pressionar e então chegou ao parlamento da cidade, eles tinham que votar artigo por artigo e antes disso nós havíamos escrito comentários sobre cada artigo. Na verdade, foi engraçado, porque quando você tem uma reforma desse tipo há uma comissão responsável, e cada vez que tínhamos um comentário, eles faziam um paralelo para discutir conosco nos comentários, então acho que isso demonstrou que tivemos algum poder de pressão, já que eles se sentiram obrigados a nos responder cada vez que falamos sobre alguma coisa. E alguns políticos foram, eu acho, oportunistas, eles consideraram que tinham que fazer algumas moções na nossa direção, para tentar nos cooptar.

Então o pior da reforma foi suprimido, talvez um ou dois artigos foram modificados para melhor. E houve algumas propostas que considero progressistas que foram adicionadas à reforma. Então acho que podemos dizer que foi uma vitória parcial, claro que pequena, mas é sempre alguma coisa. E depois disso o grupo continuou a existir, o que é muito difícil, porque geralmente após uma mobilização que acaba, o grupo desaparece.

E nesse verão estivemos muito ativos com um bar privado e impopular que é instalado todo ano na praia, tomando o espaço público e o privatizando, então você não tem direito de fazer seu piquenique, tomar uma bebida, esse tipo de coisa. Estivemos todo o verão mobilizados contra isso. No fim não conseguimos fazê-lo sumir, mas as autoridades da cidade reagiram de uma forma muito nervosa, do tipo “são eles novamente”, e tentaram acalmar as coisas. Nós tivemos muito apoio das pessoas nas ruas, fizemos uma coletiva de imprensa e debates na televisão local, e você tinha pessoas nos parando na rua para dizer “ei, eu vi vocês, li o artigo, continuem o trabalho, estamos com vocês”. Eu fiquei bastante impressionado com o tanto de pessoas, mas era apenas apoio. Nós nunca chegamos no ponto em que os apoiadores se tornam ativos.

Então fazendo um balanço final, nós começamos a discutir como podíamos ter tantos apoiadores, centenas e talvez milhares, e quando fazemos uma ação, somos sempre apenas o grupo, amigos e alguns apoiadores mais ativos. Então começamos a discutir como poderíamos trazer os moradores da cidade, pessoais normais como a gente, para nosso grupo e nossas atividades, qualquer que fosse o nível de envolvimento.

Decidimos tentar uma coisa, fizemos uma divisão de diferentes áreas da cidade. Alguns vão cobrir as lojinhas, alguém ficou com os bares, alguém vai falar com os skatistas e os grafiteiros, então alguém vai chegar a essas comunidades e a ideia é perguntar se estão interessados em organizar conosco uma festa, ou um encontro, onde pudéssemos comer algo juntos, nos conhecer, talvez ouvir música. Não como uma ação, apenas algo para nos encontrar. Está tomando tempo, estamos indo com calma, mas acho que não precisamos nos desgastar com isso, o importante é tentarmos como um primeiro passo para entrar em contato com as pessoas. Se isso não der certo, então tentamos outra coisa.

Ao mesmo tempo, estamos agora analisando um enorme projeto urbanístico que está começando na cidade, um dos piores projetos urbanísticos que a cidade já conheceu. Sabemos que para enfrentar isso precisaremos de muita participação, nós somos um grupo pequeno de pessoas, temos que nos tornar – talvez não um movimento de massas – mas algo no meio-termo. Então é realmente uma necessidade entender como nos relacionamos com não-ativistas. Além disso, ouvir deles como estão vivendo a cidade, quais são suas preocupações, para aprendermos uns com os outros.

E em nosso grupo político local, decidimos que essa é nossa principal atividade e nossas energias e prioridade vão para isso. Se temos mais capacidade para fazer uma feira do livro, nós fazemos, mas a prioridade é para isso.

Ok, acho que está ótimo. Se você quiser dizer algo para finalizar…

Bem, não sei, o que podemos dizer para concluir é que não temos muitas certezas sobre nós, sobre como fazer nossas coisas; queríamos sair da cena ativista que estava nos desgastando muito, onde nós nunca conseguíamos criar algo durável. Começamos a ficar cansados disso e decidimos tentar uma outra coisa. Devo dizer que estou bem feliz que decidimos isso, porque tenho a sensação de que tudo funciona melhor. É claro que não é uma situação perfeita, não é muito grande, as coisas estão tomando seu tempo, mas tenho a impressão que de passo em passo algo está surgindo de nossa atividade. Estou otimista e entusiasmado novamente com a atuação política, desde que decidimos trabalhar dessa forma. O mais importante para nós é que agora temos tempo para entender o sentido do que estamos fazendo. Acho que é uma iniciativa muito modesta que temos aqui. Tem muita gente que está completamente exausta com sua atividade política e perdendo a ênfase no que está fazendo, e talvez essas pessoas pudessem tentar o mesmo que nós e encontrar um caminho para trazer algo concreto e real novamente.

Um comentário sobre “[Entrevista] A Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne e a atuação libertária na cidade

  1. Pingback: No pé das montanhas do Jura, a Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne | Muito além do céu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s