No pé das montanhas do Jura, a Feira do Livro Anarquista de Biel/Bienne

Um dos meus objetivos quando vim morar aqui era entrar em contato com as iniciativas e organizações anarquistas que estivessem ao meu alcance. Conhecer os trabalhos e teorias sendo feitos e discutidos em cada lugar, estabelecer contatos, trocar experiências, e também divulgar um pouco das nossas vivências no Brasil e na América Latina. Por isso, quando soube da Feira do Livro Anarquista em Biel/Bienne, entrei em contato com companheiros de lá para sondar como seria e resolvi ir. Naturalmente, conhecer a Suíça foi também um atrativo.

A cidade

Biel/Bienne é uma cidade que realmente tem esse nome duplo. São 50 mil habitantes na fronteira entre a parte francesa e alemã da Suíça, então tudo lá é bilíngue, incluindo o nome. Ruas com amplos calçadões, poucos carros e muitas bicicletas, tudo organizado e limpo, as lojas e vitrines preparadas para os turistas, as baladas à noite também. Os espaços públicos costumam estar cheios de moradores e turistas; pela manhã vi uma enorme feira de rua onde se vendia de tudo: roupas, livros, vidrarias, frutas e verduras, relíquias, mapas, potes, panelas, moedas antigas, e até mesmo trincos usados e parafusos. Não sei dizer se fazem isso pelo dinheiro, para tirar as velharias de casa ou apenas pelo ritual de ir às ruas e encontrar vizinhos e outros moradores. O fato é que em uma época de individualização extrema, onde os momentos de lazer foram deslocados para a solidão do lar e as relações humanas estão cada vez mais mediadas pela tecnologia, é revigorante ver aglomerações voluntárias como uma feira de rua. De noite vi o povo na rua também, com apresentações musicais e artísticas na parte velha da cidade, onde o chão é de pedra e os pequenos prédios parecem centenários. Acho que quem tem invernos rigorosos sabe aproveitar melhor do que nós um dia quente de sol e uma noite fresca.

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Por trás da atmosfera pacata e ordeira da cidade, existe um passado de lutas e organização operária que deixou marcas indeléveis na história de nossa classe, e que reverberam até hoje nos cinco continentes do mundo. Em 1872, após a expulsão dos anarquistas da Associação Internacional dos Trabalhadores, foi realizado em Saint Imier, povoado do Jura bernês ao lado de Biel/Bienne, um encontro que fundou a efêmera Internacional Anti-autoritária. A região, onde se destacavam os trabalhadores das indústrias de relógios, foi um dos focos mais ativos na formação da corrente anarquista no movimento operário europeu da segunda metade do século XIX. Biel/Bienne também teve uma forte presença do anarcossindicalismo no início do século XX, que protagonizou grandes greves. Na década de 30, foi uma das primeiras cidades a eleger um prefeito socialista, que fez alguns experimentos arquitetônicos e comunitários, época em que surge o apelido “Biel la rouge [Biel vermelha]”. No entanto, hoje ela atrai turistas pelas marcas de relógio de luxo, pelas regiões históricas e pelos belos lagos de Bienne e de Neuchâtel – pouco ou nada dessa rica história da classe trabalhadora está visível ou cristalizado na cidade.

Por baixo do que é imediatamente visível, porém, se encontra uma agitada cena libertária: casas ocupadas (squats) onde moram anarquistas, punks e artistas; grupos políticos e de propaganda libertária; bibliotecas e arquivos de memória da esquerda, etc. Em grande parte, isso é vinculado aos jovens da cidade, que de certa forma parecem constituir um grupo à parte, co-habitando na cidade junto aos outros moradores. Ainda assim, como os squats são importantes. O custo de vida em toda a Suíça é exorbitante, o aluguel médio de um quarto em um apartamento é 500 ou 600 euros (~1500 reais), então as casas ocupadas são uma alternativa para garantir moradia, além de funcionar como espaços políticos para realizar atividades, debates, shows, etc. Eu visitei o squat LaBiu, onde moram cerca de 10 pessoas; eles organizaram um show com uma banda de punk para uma das noites culturais da feira. Conversando com o pessoal de lá, me contaram que nos últimos anos eles travaram acirradas batalhas para manter o espaço, pois estavam enfrentando uma onda de repressão e despejos não só em Biel/Bienne. Nos anos 90, a cultura dos squats era muito forte em toda a Europa, mas hoje foi bastante enfraquecida pela repressão na maioria dos países.

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A Feira

A Feira consistia em um salão aberto com os estandes dos livros, uma exposição de fotos, e também fazia parte da programação algumas apresentações e debates em outras partes da cidade. A organização e o espaço foram compartilhados por diferentes perspectivas anarquistas: grupos anarcossindicalistas, organizações políticas de síntese e plataformistas, além de grupos autonomistas, ecoanarquistas e punks. Não deixa de ser impressionante e motivante perceber que, tão longe de casa, existem pessoas dedicando suas vidas e desenvolvendo iniciativas sob a mesma ideologia, simbologia, e sob a mesma história que nos incentiva na América Latina – a luta por uma socedade sem classes e opressões, o anseio pela verdadeira liberdade.

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Tanto os livros quanto as apresentações (e as pessoas) eram em francês, alemão ou italiano, 3 das 4 línguas oficiais da Suíça. Participei de uma apresentação sobre o livro Anarquismo Social e Organização, da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, que acabou de ser publicado em francês por companheiros da Suíça e da CGA francesa. Infelizmente a apresentação foi bastante esvaziada, como a maioria das atividades da feira, mas o livro vendeu várias cópias durante a feira. Também assisti a uma apresentação de um livro francês sobre a dominação masculina e o sexismo dentro do meio de esquerda e anarquista, que comprei mas ainda não li. Além disso, uma interessante exposição de imagens e textos no espaço da feira também chamava a atenção para o tema da violência de gênero.

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A feira em si, junto aos contatos que fiz por lá, me deixaram algumas impressões gerais, mas que podem ser particulares desse evento e circunstâncias. O movimento anarquista na Europa está muito mais avançado na publicação de livros, traduções e outros materiais, assim como possuem muitas editoras, grupos de tradução e bibliotecas libertárias. Por outro lado – e esse é um enorme porém – existe um grande descompasso entre a quantidade de atividades de propaganda que eles desenvolvem e as iniciativas de movimentos sociais ou luta prática em que estão envolvidos. Até mesmo conversando com companheiros anarcossindicalistas da FAU suíça, que tinham um grande estande com livros e camisetas, me disseram que hoje eles não têm capacidade de atuar como uma central sindical e se restringiram majoritariamente a fazer agitação e propaganda.

Nos países que não foram atingidos pela crise econômica, como a Suíça, parece haver um certo consenso de que a classe trabalhadora está satisfeita e a conjuntura é desfavorável para se construir lutas no nível de massas. Com isso, se reforçam os esforços nas atividades de propaganda e também se voltam os olhos para o exterior. A América Latina, por exemplo, é vista por muitos anarquistas europeus com interesse e esperança, pelo desenvolvimento do anarquismo e sua inserção nos movimentos de massa que têm acontecido. Os levantes do Oriente Médio, e recentemente na Turquia, também são bastante discutidos e despertam muito interesse.

A tradução do livro da FARJ e outras iniciativas de divulgação da corrente anarquista especifista são também um reflexo desse momento. A ênfase na necessidade dos anarquistas construírem mobilização e movimentos de massa é um dos motivos que têm despertado interesse e debates entre algumas organizações anarquistas europeias, junto ao crescimento da corrente em nosso país e continente. Foi curioso ouvir de um anarquista europeu que estavam satisfeitos por ler e estudar trabalhos anarquistas vindos do terceiro mundo, que sempre foram considerados restritos a suas conjunturas e momentos distintos, enquanto os trabalhos teóricos e históricos produzidos na Europa (e EUA) sempre se pretendem universais. De fato, a historiografia e teoria anarquista sempre foram estudados com um viés muito eurocêntrico: basta analisar os mais famosos livros de apresentação do anarquismo, inclusive os publicados no Brasil. Conforme compilou o sul-africano Lucien van der Walt sobre alguns dos principais trabalhos de estudo do anarquismo:

Woodcock (1975) dedicou à América Latina três páginas, ignorou a África, a Ásia, a Austrália e a maior parte do Leste Europeu; Joll (1964) dedicou ao resto do mundo nove páginas; Marshall (1998) dedicou dois dos 41 capítulos (33 de 706 páginas) de seu livro à Ásia e à América Latina.”

De fato, a partir do início do século XX o anarquismo foi tão presente em países como México, Cuba, Argentina, Brasil, Coreia, Japão, África do Sul, como foi na Europa. Ainda mais, muitos lugares foram pouquíssimo estudados para mesmo sabermos da presença anarquista, sua incidência histórica e seu desenvolvimento teórico. Hoje em dia, o anarquismo continua vivo e atuante em todos os continentes, com maior ou menor grau, como mostram trabalhos recentes feitos por fora do viés eurocêntrico, como dos sul-africanos van der Walt e Schmidt ou do brasileiro Felipe Corrêa.

Por fim, a visita à feira rendeu alguns bons contatos para próximas viagens, alguns livros para treinar o francês, muitos jornais e materiais anarquistas para um futuro acervo e uma interessante primeira análise da situação do movimento anarquista europeu. Fiz também uma entrevista com Johnny, militante anarco-comunista e organizador da feira, que pode ser conferida aqui.

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