23 de outubro na Hungria de 2013

Em 1956, no dia 23 de outubro, começa a Revolução Húngara. Foi uma revolta de relativa espontaneidade, iniciada a partir de um grupo de estudantes universitários que convocaram uma manifestação em solidariedade à Polônia, que havia substituído o goveno estalinista por um governo comunista reformador. Distintas perspectivas tomaram parte na revolta, desde socialistas e comunistas anti-soviéticos a nacionalistas de direita. No entanto, a força das ruas colocou no poder Imre Nagy – também comunista, ex-membro do partido bolchevique, mas crítico do estalinismo. A revolução foi bem-sucedida, após alguns dias de fortes enfrentamentos com a polícia onde muitos foram mortos. Houve uma greve geral, ocupação de fábricas e a organização de grupos armados para defender a revolução, até que o primeiro-ministro ligado à URSS renuncia e Imre Nagy assume o poder, dando lugar a um regime multipartidário, onde defendia uma via nacional e democrática ao socialismo. No entanto, pouco depois que Nagy declara neutralidade e rompe com o Pacto de Varsóvia, a URSS volta atrás e ocupa o país com grande poderio militar, matando milhares de pessoas e retomando o controle do país.

Eu espero pesquisar mais sobre esse momento para poder escrever melhor outra hora. Uma fonte interessante parece ser o trabalho de Andy Anderson, um relato completo na perspectiva socialista libertária sobre a Revolução, republicado pela AKpress. Outra fonte mais curta, em português, é esse artigo. Por agora, queria apenas relatar as comemorações da data em 2013.

Desde que o país voltou a ser independente da URSS, há 24 anos, o dia 23 de outubro foi decretado feriado nacional. Nem mesmo os mercados abrem, quase ninguém trabalha. As ruas se enchem de bandeiras nacionais e há festividades e manifestações durante o dia. Em 2006, quando um governo de esquerda estava no poder, houve fortes protestos na data por causa de declarações impopulares do presidente. Grupos nacionalistas e de direita ocasionaram fortes conflitos com a polícia e invasão de prédios públicos. Talvez por isso, recebi uma recomendação de uma professora de que era “melhor não sairmos de casa” (se ela quisesse me convencer a ir, não teria jeito melhor que esse).

Uma rápida pesquisa na internet e uma consulta aos amigos húngaros fornecem a programação do dia.

O grupo A Város Mindenkié (“A Cidade é de Todos”), uma ONG / movimento social dos moradores de rua, convocou um encontro com leituras e apresentações para lembrar a data da Revolução (fotos aqui). Esse grupo é bem ativo politicamente no país, uma reação ao governo que está criminalizando a pobreza e os moradores de rua, cada vez mais numerosos por conta da crise econômica e da falta de políticas sociais. Infelizmente, não cheguei a encontrá-los.

Andando pela rua, encontrei uma ação organizada por dois partidos de esquerda do país, que também contava com a presença de alguns anarquistas. Eles estavam distribuindo comida gratuitamente, o que atraiu uma enorme fila de moradores de rua. Segundo um dos organizadores, a iniciativa era pra expôr a crise no país, onde mais de 4 milhões estão vivendo abaixo da linha de pobreza, em um país de 10 milhões de pessoas. Segundo esse representante socialista, é um momento de necessária união entre as forças de esquerda do país.
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Porém, essas foram iniciativas isoladas. Enquanto isso, em outra parte da cidade, o partido fascista Jobbik convocava um ato a todos “que se sentem enganados por todos os governos anteriores, de esquerda e direita”. Isso é um discurso muito interessante para um partido fascista, especialmente em um momento de crise como vive o país. Na falta de soluções institucionais, o Jobbik busca se colocar fortemente contra todos os políticos para ganhar popularidade em cima da frustração generalizada. O porta-voz do grupo disse no palanque que todos os governantes dos últimos 24 anos deveriam estar presos. Não é uma estratégia inovadora para partidos de extrema-direita, mas é uma que parece funcionar: momentos de crise costumam fortalecer as visões políticas mais radicais, seja à direita ou à esquerda – na Hungria, ao que parece, só a extrema-direita tem conseguido se aproveitar disso. O Jobbik foi o terceiro partido mais votado nas últimas eleições. No ato, quase mil pessoas, muitas bandeiras do partido e muitos símbolos nacionalistas, xenófobos, símbolos nazistas e de supremacia branca. Em diversos pontos da Deák Ferenc ter, uma das principais praças de Budapeste, caminhavam grupos de 20 homens fardados de preto com cara de poucos amigos – o Jobbik anda na linha entre a legalidade e a ilegalidade, organizando milícias que aterrorizam ciganos, judeus, moradores de rua e imigrantes.

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Por fim, havia as cerimônias oficiais, que encheram as ruas. Estimei cerca de 30 mil pessoas na maior passeata, que contava com representantes de dezenas de cidades da Hungria, músicas nacionais e muitas, muitas bandeiras do país. Algumas pessoas empunhavam bandeiras com um círculo recortado no meio, símbolo do momento em que se retirou o emblema soviético. No entanto, a caminhada era majoritariamente silenciosa, sem pautas ou reivindicações próprias. Por baixo das bandeiras da Hungria, desfilavam visões muito distintas, que se encontravam ali mais para celebrar o feriado que é importante para a cultura do país. No fim da tarde, o discurso do presidente Viktor Órban na praça Hősök tere foi transmitido em telões nas ruas e microfones nos postes da cidade, dando um sinistro clima de Big Brother pela onipresença da voz do líder máximo da nação.

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Em frente ao Museu do Terror, que relembra o período da ocupação nazista e da ditadura soviética, centenas de húngaros acenderam velas para relembrar os mortos. A data era pra ser uma festividade, mas o luto estava presente lado a lado com o orgulho da Revolução que fracassou. Se por um lado o passado foi sombrio, o futuro tampouco parece animador para o povo húngaro.

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