O guia belga e sua auto-absolvição dos pecados do colonialismo no Congo

Semana passada eu fiz um tour gratuito em Bruxelas, na Bélgica. São caminhadas pelas áreas históricas das cidades, geralmente com um guia jovem munido de piadas, pílulas condensadas de história em 5 minutos, lendas urbanas e explicações sobre monumentos e locais. Não deixa de ser um pouco de “turismo enlatado”, pois são os mesmos passeios todo dia com dezenas ou centenas de pessoas. Porém, é um bom jeito de conhecer um pouco de história e do lado mais escondido de uma cidade, principalmente quando não se conhece gente do local ou quando se tem pouco tempo lá.

Nesse tour um guia belga, filho de missionários belgas na África, achou importante falar sobre o período colonial. Ele falou sobre o Rei Leopoldo II da Bélgica, personagem um tanto esquecido pela historiografia. Disse com pesar que é um momento delicado da história belga, porque o Rei Leopoldo foi “um homem cruel”, que “cometeu muitas atrocidades”. Pra ser mais específico, ele chegou a falar sobre “algumas mãos decepadas”. Logo depois, disse que “não foi muito diferente do que a Inglaterra fez”, mencionando uma longa lista de colônias inglesas. Era uma piada, porque o Congo foi a única colônia que a Bélgica conseguiu dominar, ao contrário de outras potências europeias.

Pouca gente conhece a história do domínio belga sobre o Congo. Leopoldo II escravizou a população do Congo e transformou o país todo em uma gigantesca plantação pessoal, roubou recursos naturais, impôs sua religião e no processo matou mais de 10 milhões de pessoas. Manteve seu reinado através de um exército pessoal, execuções, mutilações e tortura. O guia do meu passeio, após falar sobre o Congo, trouxe à tona Ruanda. Perguntou quem já havia assistido “Hotel Ruanda”, onde um personagem fala que a divisão entre as tribos que causa conflitos até hoje foi uma criação da Bélgica. Segundo meu guia, dizer isso é “um crime”. Ele disse que ninguém tem o direito de insinuar que seu povo é culpado pela situação atual de Ruanda, que isso é um absurdo. Ele estava claramente exaltado.

Eu preciso ser sincero, eu sei como ele se sente. Ele acha que nunca apoiou ou reforçou o colonialismo, o imperialismo ou o racismo, então ele se sente ofendido por receber parte da culpa. Aliás, é de culpa e de julgamento que se trata na cabeça do guia. Eu já fui a pessoa branca que não quer encarar o racismo porque achei que não tinha papel nisso, já que me oponho ao racismo. Também já fui o homem que não quer encarar o sexismo porque achei que já estava fazendo a minha parte e não merecia ter dedos apontados pra mim. O que ele queria era absolvição dos pecados, saber que “fez a sua parte”.

Isso é uma concepção individualista e que nega a história. Uma ideia liberal, de que aquilo que somos é fruto apenas de nossa história pessoal, como se o mundo fosse um lugar neutro quando chegamos nele. Como se nós não pegássemos o bonde da história andando ao nascer, caindo num planeta repleto de ideias, leis, valores e instituições que vão moldar o modo como somos vistos e influenciar nossos passos.

Ser europeu, ser branco, assim como ser homem, é mais que um adjetivo pessoal; essas são categorias sociais. Essas categorias carregam uma longa história que desemboca no mundo atual, histórias que efetivamente construíram o mundo tal qual ele é. As categorias onde estamos influenciam diretamente quem somos no mundo, nos fornecem privilégios ou opressões, nos abrem certas portas e fecham outras.

Por isso, reconhecer o papel do imperialismo e do colonialismo não tem nada a ver com culpa. Fazer parte das categorias com privilégios geralmente nem é uma escolha pessoal. Porém, acontece que o funcionamento regular da nossa sociedade é pautado na história dessas opressões. A Europa é o que é pelos séculos de pilhagem, de escravidão, de roubo, invisibilização histórica, silenciamento. O ouro que enfeita as catedrais que os guias mostram para turistas latino-americanos, asiáticos e africanos é o ouro que foi tirado de nós. O prestígio das universidades e museus da Europa também vem do roubo e, principalmente, do apagamento (por vezes violento) da nossa arte, nossa cultura e nossa ciência. Até hoje não se pensa que a colônia pode superar a metrópole. Esse eurocentrismo, o mesmo que fez o governo brasileiro investir dinheiro pra mandar estudantes pra cá, é que constroi os privilégios do meu guia.

Ele não fez as coisas serem assim. Mas esses privilégios e opressões são estruturais e são também estruturantes: eles não só fizeram a sociedade que temos, como continuam a mantê-la assim, e ainda continuarão fazendo isso, porque já está no funcionamento natural de nossas instituições e seus valores. Não existe absolvição pessoal, ninguém está livre disso, porque não é uma questão individual. Pra superar essa situação, é preciso enxergar, encarar, apontar, fazer barulho sobre as circunstâncias e os momentos onde essas opressões se reproduzem. Não há como ser neutro em um trem em movimento.

Mesmo que nós não tenhamos escolhido nossos privilégios, nós escolhemos o que fazer sobre eles. É sempre mais fácil ignorar que existem ou achar que já estamos fazendo o suficiente ao não defendê-los em voz alta ou com nossos gestos. A Bélgica, que meu guia tanto quis defender, só pode ser o que é por causa dessa história que ele não quer contar ou nem mesmo quer saber. Esse silêncio é fundamental pra Bélgica e a Europa continuar sendo o que são, e os povos do terceiro-mundo continuarem também o que são hoje. A Europa é um continente que arrecada milhões nas campanhas humanitárias para o terceiro-mundo, mas que continua silenciando sua história, ignorando as vozes que saberiam dizer muito bem qual o papel exercido pelo colonialismo, porque viveram isso na pele e continuam vivendo.

As conquistas das quais o guia belga se orgulha tiveram um preço, que foi pago pelos povos que eles oprimiram brutalmente. Mas o guia belga só não quer ser responsabilizado por isso. Ele se opõe tanto ao colonialismo e ao racismo que não quer nem falar muito sobre isso. Ele só quis conceder ele próprio a absolvição do povo belga atual; pra variar, não foi necessário perguntar o que o povo congolês acha disso. Se isso basta para se considerar um belga amigo do povo do Congo, me pergunto se eles ainda precisam de inimigos.

A verdade é que eu fiquei quase paralizado de raiva. Pensei em mil maneiras de confrontar ele durante o tour, mas por uma série de razões não consegui fazer isso direito. Aliás, até tentei, mas provavelmente não me fiz entender ao resto dos turistas que estavam maravilhados com tudo e provavelmente nunca haviam ouvido nada sobre a história colonial do Congo. Um dia depois, tendo mastigado a raiva, resolvi postar uma avaliação do tour (em inglês) na página da internet onde os turistas encontram esse tipo de passeio. O dono da empresa me contatou no mesmo dia, muito preocupado com a exposição pública que eu tinha feito, e aparentemente bastante incomodado com a história no nível pessoal também. Aparentemente, vai servir pra alguma coisa ter feito auê sobre isso.

Aproveitei pra traduzir um artigo curto, mas informativo, sobre o Rei Leopoldo II e o silenciamento das décadas de genocídio e opressão que ele levou a cabo no Congo:

https://muitoalemdoceu.wordpress.com/2014/01/13/quando-voce-mata-dez-milhoes-de-africanos-voce-nao-e-chamado-de-hitler/

Quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de “Hitler”

O seguinte texto foi escrito por Liam O’Ceallaigh para a página Diary of a Walking Butterfly, em dezembro de 2010. O original pode ser acessado aqui.

Leopoldo II foi Rei da Bélgica de 1865 a 1909, data de sua morte. Ele comandou o Congo de 1885 a 1908, quando cedeu o controle do país ao parlamento belga, após pressões internas e internacionais.

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Olhe para essa foto. Você sabe quem é?

A maioria das pessoas não ouviu falar dele.

Mas você deveria. Quando você vê seu rosto ou ouve seu nome, você deveria sentir um enjoo no estômago assim como quando você lê sobre Mussolini ou Hitler, ou vê uma de suas fotos. Sabe, ele matou mais de 10 milhões de pessoas no Congo.

Seu nome é Rei Leopoldo II da Bélgica.

Ele foi “dono” do Congo durante seu reinado como monarca constitucional da Bélgica. Após várias tentativas coloniais frustradas na Ásia e na África, ele se instalou no Congo. Ele o “comprou” e escravizou seu povo, transformando o país inteiro em sua plantação pessoal com escravos. Ele disfarçou suas transações comerciais como medidas “filantrópicas” e “científicas” sob o nome da Associação Internacional Africana. Ele usou o trabalho escravo para extrair recursos e serviços congoleses. Seu reinado foi mantido através de campos de trabalho, mutilações corporais, torturas, execuções e de seu próprio exército privado.

A maioria de nós não é ensinada sobre ele na escola. Não ouvimos sobre ele na mídia. Ele não é parte da narrativa de opressão repetida amplamente (que inclui coisas como o Holocausto durante a Segunda Guerra Mundial). Ele é parte da longa história de colonialismo, imperialismo, escravidão e genocídio na África que se chocaria com a construção social da narrativa de supremacia branca em nossas escolas. Isso não se encaixa bem nos currículos escolares em uma sociedade capitalista. Fazer comentários fortemente racistas recebe (geralmente) um olhar de reprovação na sociedade “educada”; mas não falar sobre genocídios na África cometidos por monarcas capitalistas europeus está tudo bem.

Mark Twain escreveu uma sátira sobre Leopoldo chamada “King Leopold’s Soliloquy; A Defense of His Congo Rule” [Solilóquio do Rei Leopoldo; Uma defesa de seu mando no Congo], onde ele ridiculariza a defesa do Rei sobre seu reinado de terror, principalmente através das próprias palavras de Leopoldo. É uma leitura simples de 49 páginas e Mark Twain é um autor popular nas escolas públicas americanas. Mas como acontece com a maioria dos autores politizados, nós geralmente lemos alguns de seus escritos menos políticos ou os lemos sem aprender por que é que o autor os escreveu. A Revolução dos Bichos de Orwell, por exemplo, serve para reforçar a propaganda anti-socialista americana de que sociedades igualitárias estão fadadas a se tornar o seu oposto distópico. Mas Orwell era um revolucionário anti-capitalista de outro tipo – um defensor da democracia operária desde baixo – e isso nunca é lembrado. Nós podemos ler sobre Huck Finn e Tom Sawyer, mas King Leopold’s Soliloquy não faz parte da lista de leituras. Isso não é por acidente. Listas de leitura são criadas por conselhos de educação para preparar estudantes a seguir ordens e suportar o tédio. Do ponto de vista do Departamento de Educação, os africanos não têm história.

Quando aprendemos sobre a África, aprendemos sobre um Egito caricatural, sobre a epidemia de HIV (mas nunca suas causas), sobre os efeitos superficiais do tráfico de escravos, e talvez sobre o apartheid sul-africano (cujos efeitos, nos ensinam, há muito estão superados). Nós também vemos muitas fotos de crianças famintas nos comerciais dos Missionários Cistãos, nós vemos safáris em programas de animais, e vemos imagens de desertos em filmes. Mas nós não aprendemos sobre a Grande Guerra Africana ou o reinado de terror de Leopoldo durante do Genocídio Congolês. Tampouco aprendemos sobre o que os Estados Unidos fizeram no Iraque e Afeganistão, matando milhões de pessoas através de bombas, sanções, doença e fome. Números de mortos são importantes. Mas o governo dos Estados Unidos não conta as pessoas afegãs, iraquianas ou congolesas.

Embora o Genocídio Congolês não esteja incluído na página “Genocídios da História” na Wikipédia, ela ainda menciona o Congo. O que é hoje chamado de República Democrática do Congo é listado em referência à Segunda Guerra do Congo (também chamada de Guerra Mundial Africana e Grande Guerra da África), onde ambos os lados do conflito regional caçaram o povo Bambenga – um grupo étnico local – e os escravizaram e canibalizaram. Canibalismo e escravidão são males terríveis que certamente devem entrar para a história, mas eu não pude deixar de pensar sobre que interesses foram atendidos quando a única menção ao Congo na página era em referência a incidentes regionais, onde uma pequena minoria das pessoas na África estava comendo umas às outras (completamente desprovida das condições que criaram o conflito, e das pessoas e instituições que são responsáveis por essas condições). Histórias que sustentam a narrativa de supremacia branca, sobre a inumanidade das pessoas na África, são permitidas a entrar nos registros históricos. O homem branco que transformou o Congo em sua plantação pessoal, campo de concentração e ministério cristão – matando de 10 a 15 milhões de pessoas congolesas no processo – não entra na seleção.

Sabe, quando você mata dez milhões de africanos, você não é chamado de “Hitler”. Isto é, seu nome não passa a simbolizar a encarnação viva do mal. Seu nome e sua imagem não produzem medo, ódio ou remorso. Não se fala sobre suas vítimas e seu nome não é lembrado.

Leopoldo foi apenas uma das milhares de coisas que ajudaram a construir a supremacia branca, tanto como uma narrativa ideológica quanto como uma realidade material. Eu não pretendo dizer que ele foi a fonte de todo o mal no Congo. Ele teve generais, soldados rasos e gerentes que fizeram sua vontade e reforçaram suas leis. Ele era a cabeça de um sistema. Mas isso não nega a necessidade de falar sobre os indivíduos que são simbólicos do sistema. Mas nós nem mesmo chegamos a isso. E como isso não é mencionado, o que o capitalismo fez à África e todo o privilégio que as pessoas brancas ricas receberam do genocídio congolês permanecem escondidos. As vítimas do imperialismo, como costuma acontecer, são invizibilizadas.