Declaração da AWU [União dos Trabalhadores Autônomos] sobre a situação na Ucrânia

O texto original foi publicado no dia 19 de fevereiro aqui. Uma tradução para o inglês foi publicada no dia 20 no portal Anarkismo.net, que pode ser lida aqui.

A guerra civil começou na Ucrânia ontem. Uma manifestação pouco pacífica entrou em confronto com as forças de defesa e as divisões formadas por apoiadores do atual governo, perto do Vekhovna Rada (Parlamento).

Em 18 de fevereiro a polícia, junto aos paramilitares, realizou um banho de sangue nos quarteirões governamentais, onde inúmeros manifestantes foram mortos. Sanguinários das divisões especiais terminavam com detidos. Deputados do Partido das Regiões, no poder, e seus lacaios burgueses do Partido “Comunista” da Ucrânia fugiram do Parlamento por um túnel subterrâneo. A votação por emendas constitucionais, que visavam limitar o poder presidencial, por fim não aconteceu.

Após sua derrota nos quarteirões governamentais, manifestantes voltaram ao Maidan[1]. Às 18h, o Ministro de Assuntos Internos e o Escritório de Segurança Interna (SBU) declararam um ultimato aos manifestantes, exigindo sua dispersão. Às 20h, forças da polícia especial e os paramilitares, equipados com canhões de água e veículos blindados, começaram sua investida nas barricadas.

A polícia, as divisões especiais do SBU, assim como soldados pró-governo, fizeram uso de suas armas de fogo. Porém, os manifestantes conseguiram tacar fogo em um dos veículos blindados da polícia, e no fim as forças governamentais não eram as únicas em posse de armas.

De acordo com as informações divulgadas pela polícia (no dia 19 de fevereiro, às 16h), 24 pessoas foram mortas: 14 manifestantes e 10 policiais. Trinta e um policiais foram alvejados.

Mesmo se sua estimativa de mortes no lado policial estiver correta, o número de vítimas entre os manifestantes foi certamente diminuído. Os médicos do Maidan contabilizam pelo menos 30 mortos.

Tem-se a impressão de que o Presidente Yanukovich estava certo de que pela manhã a resistência estaria arrasada, e então convocou uma reunião com as lideranças da Oposição às 11h, no dia 19 de fevereiro. Como as negociações não aconteceram, podemos concluir que os planos do governo falharam.

Durante a operação mal-sucedida de esvaziar o Maidan, cidadãos de várias regiões ao oeste do país ocuparam prédios administrativos e rechaçaram a polícia.

Nesse momento a polícia, enquanto instituição, não existe em Lviv[2]. De acordo com o SBU, manifestantes capturaram 1500 armas de fogo. Em menos de 24 horas, o governo central perdeu controle de uma região do país.

Agora, a única solução pode ser a renúncia do Presidente, porém isso significaria que ele, sua família e seus muitos seguidores e dependentes, que formam um grande grupo no poder, perderiam sua fonte de lucro. É provável que eles não vão aceitar isso.

Caso Yanukovich vença, ele vai se tornar mandante vitalício e os restantes estarão fadados a uma vida onde enfrentarão pobreza, corrupção e a abolição de seus direitos e liberdades. Regiões rebeldes estão agora passando massivamente por restaurações da “ordem constitucional”.

Não é improvável que a supressão de tais “grupos terroristas” na Galícia tenha a forma de uma limpeza étnica. Radicais Ortodoxos do Partido das Regiões têm visto os conservadores grego-católicos, há muito tempo, como a AIDS da “Eurosodoma”. Tal operação “antiterrorista” seria realizada com a ajuda do exército, como já foi anunciado pelo Ministro da Defesa, Levedev.

Hoje, a Ucrânia vive uma tragédia, mas o verdadeiro horror irá começar quando o governo derrubar a oposição e “estabilizar” a situação.

Sinais de preparação para uma operação de limpeza social massiva já estavam visíveis no início de fevereiro, quando processos criminais foram abertos contra as divisões de auto-defesa do Maidan, julgadas como formações militares ilegais. De acordo com o Artigo 260 do Código Criminal, membros de tais divisões podem enfrentar prisão de 2 a 15 anos. Isso significa que o governo estava planejando colocar mais de 10 mil cidadãos atrás das grades.

Em outras regiões, assim como na capital, “divisões da morte” especiais estão atuando como um suplemento das forças policiais usuais. A responsabilidade por queimar viva uma pessoa ativista do Maidan de Zaporozhye, por exemplo, foi reivindicada por uma dessas “divisões da morte”, que se autodenomina como “Fantasmas de Sebastopol”. Eles anunciaram que estão prontos para submeter participantes do Maidan no leste a um tratamento similar.

Caso haja uma vitória da Oposição a vida também estaria longe da perfeição.

Embora fascistas sejam minoria entre os manifestantes, eles são bastante ativos e não são os caras mais inteligentes do pedaço. No meio de fevereiro, alguns dias de trégua levaram a conflitos entre os grupos de direita, resultando em vários confrontos violentos e sem sentido, assim como ataques aos ideologicamente “heréticos”.

Além dos fascistas, Oposicionistas velhos e experientes também tentarão tomar o poder. Muitos deles já têm alguma experiência de trabalho no governo e não são estranhos ao mundo da corrupção, do favoritismo e do uso de fundos públicos para interesses pessoais.

As “concessões” que a Oposição está exigindo agora no Parlamento são lamentáveis. Mesmo a Constituição de 2004, que eles estão tentando restaurar, dá poder excessivo ao Presidente (o controle sobre a polícia de conflitos e as forças especiais é um exemplo), e o sistema eleitoral proporcional, com listas fechadas, entrega o Parlamento ao controle de líderes que agem como ditadores, que podem ser contados nos dedos de uma mão. Junto com o Presidente eles vão governar sem obstruções.

Sua segunda exigência – a nomeação de um Gabinete de Ministros compostos por líderes da Oposição – é completamente vergonhosa. As pessoas estão arriscando sua saúde, liberdade e suas vidas para que alguém se torne primeiro-ministro, e que alguém tenha a oportunidade de controlar o fluxo de dinheiro sujo? Esse é o resultado lógico de se optar por conversações sobre “a nação” dirigidas pelo pathos, e de se focar em estruturas verticais amarradas aos mesmos políticos odiados, ao invés de desenvolver organizações de baixo pra cima, em torno de interesses materiais e financeiros.

Essa é a principal lição que o Maidan ainda está por aprender.

Porém, nós estaremos aptos a colocar essa lição em prática apenas se o governo atual perder a batalha.

A Oposição dentro e fora do Parlamento está rachada em múltiplas facções hostis que competem entre si. Se vencer, o governo subsequente será instável e desprovido de coerência. Ele será tão burguês e repressivo como era o Partido das Regiões antes de sua primeira demonstração de força contra os manifestantes em novembro.

A culpa pelo sangue derramado é parcialmente da União Europeia, que recebe alegremente o dinheiro dos canalhas corruptos da Ucrânia, Rússia e vários países africanos, enquanto negligencia sempre checar a origem destes “investimentos”. É apenas após ver os corpos das vítimas de tais “investidores” que a UE se torna tão sentimental e repleta do pathos humanitário.

Essa não é a nossa guerra, mas a vitória do governo significará uma derrota dos trabalhadores. A vitória da Oposição também não garante nada de bom. Nós não podemos convocar o proletariado a se sacrificar pela Oposição e seus interesses. Achamos que o nível de participação nesse conflito é uma questão de escolha pessoal. Porém, encorajamos todas as pessoas a evitar a convocação das forças militares internas controladas por Yanukovich, e a sabotar as ações do governo usando todos os meios possíveis.

Sem deuses, sem amos, sem nações, sem fronteiras!

AWU [União dos Trabalhadores Autônomos], organização de Kiev

[1] Maidan é um nome para manifestações que acontecem na Praça da Independência, em Kiev. O movimento para a associação da Ucrânia com a União Europeia e pela renúncia de Yanukovych também é chamado de Euromaidan. (Nota da tradução)

[2] Lviv é uma das maiores cidade da Ucrânia, localizada no oeste do país, na região da Galícia. (N. da T.)

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