A Conferência do Bicentenário de Mikhail Bakunin na vila de Premukhino

Por Ana Lara Schlindwein e JG

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Casa da família Bakunin, em péssimo estado de conservação.

A pequena vila de Premukhino, localizada 280km de Moscou, recebeu durante os dias 12 e 13 de julho de 2014 a Conferência Internacional do Bicentenário de Mikhail Bakunin. O evento contou com a participação de aproximadamente cem pessoas, vindas de várias regiões da Rússia e também de outros países, como Japão, Itália, Estados Unidos, França, Brasil e Bélgica.

A escolha da pequena vila como sede do evento não foi acidental: trata-se do local onde a aristocrata família Bakunin viveu por mais de um século, do fim dos anos 1700 até a Revolução Russa de 1917, quando os descendentes migraram para a Europa. É no seio desse ambiente rural e aristocrático que nasceu o revolucionário anarquista Mikhail Bakunin, em 1814, e também onde ele passou sua infância e juventude, até se mudar aos 14 anos para iniciar estudos em uma escola militar em São Petersburgo. Ainda assim, Bakunin retornou algumas vezes à propriedade da família nos anos subsequentes.

Atualmente, a região é habitada predominantemente por agricultores, muitos descendentes dos cerca de quinhentos servos que a família Bakunin governava no século XIX. A vila ainda mantém muito da estrutura criada pelos Bakunin durante seus anos de influência no local, como o parque e a igreja, construção imponente no meio da singela cidade e provavelmente projetada pelo arquiteto russo Nicolai Lvov, amigo da família. Entretanto, todas as construções encontram-se basicamente abandonadas pelo governo russo, apesar de serem considerados monumentos históricos e propriedade do Estado.

Dentre os membros da família Bakunin, não é só o nome de Mikhail que tem destaque. Além da influência que a família possuía na região, o envolvimento político geraria embates com o então Império Russo: três tios de Mikhail tomaram parte no grupo anti-absolutista conhecido como dezembristas, em 1825. Por outro lado, uma prima de Mikhail, Ekaterina Bakunina, liderou um grupo de enfermeiras na Guerra da Criméia e tornou-se figura querida dos russos por sua participação ativa nesse episódio da história. Dada a importância da família Bakunin, o escritor e professor estadounidense John Randouph escreveu o livro “The House in the Garden” (em uma tradução livre “A Casa no Jardim”), narrando a chegada da família em Priamukhino e sua história ali até meados de 1830.

Embora a memória da família aristocrata, assim como da figura de Mikhail Bakunin, tenham sido em grande parte ignoradas durante o período soviético, cada uma com seu respectivo motivo, há significativos esforços durante as últimas duas décadas para resgatar a história dos Bakunin e principalmente de Mikhail.

Desde o final da década de 90, foi criada uma Fundação Bakunin para restaurar a antiga casa e o parque pertencentes à família. Esse grupo heterogêneo foi formado por moradores da região e pessoas interessadas na história dos Bakunin e do anarquismo em geral. No entanto, entre o resgate histórico de toda a tradicional família Bakunin ou somente da trajetória pessoal e política de Mikhail Bakunin, criou-se divergências sobre o papel deste grupo, resultando assim em uma eventual separação que deu origem a diferentes iniciativas.

Dentre os interessados em manter viva a memória de Mikhail Bakunin, estão anarquistas e outras pessoas que mantém um museu sobre o revolucionário, sua família e sua vida em Premukhino desde 2003. O local, localizado nas dependências da única escola da vila, contém uma réplica da casa em que Mikhail cresceu, livros que o influenciaram, mapa de sua trajetória revolucionária, fotos pessoais e árvore genealógica da família Bakunin. A manutenção do museu, assim como de todas as estruturas ligadas a história de Mikhail, só é possível graças a um grande esforço de voluntários que acreditam na importância da preservação esse espaço.

Além do museu, a partir do ano de 2001 são organizadas as Leituras de Premukhino. Esse encontro anual, que acontece na pequena cidade de Bakunin, reúne pesquisadores e militantes a fim de apresentar palestras ou outras atividades, criando fluxo de informações e ideais, tendo o debate e a interação de diferentes grupos como uma forma de consolidar a teoria e a ação.

Destaca-se entre os organizadores do encontro, o diretor de teatro e escritor russo Sergey Kornilov. Morador de Premukhino e importante figura na manutenção e recuperação das estruturas históricas da cidade, Sergey já escreveu três peças teatrais sobre diferentes momentos da vida de Mikhail Bakunin, que estão sendo traduzidas do russo para o inglês.

Sobre o tema de cada encontro anual, este é escolhido pelo grupo, com propostas no âmbito da vida de Bakunin e da ideologia anarquista em geral ou assuntos relacionados ao anarquismo e ao contexto político e social da Rússia de hoje. Em 2014, ano que marca o bicentenário de Bakunin, optou-se pela organização de uma conferência internacional no local, com esforços de divulgação em várias línguas, também com o objetivo de trazer visibilidade para o pequeno vilarejo de Premukhino.


Conferência

A Conferência Internacional do Bicentenário de Mikhail Bakunin foi sediada na escola da cidade, local que também serviu como alojamento para os convidados, assim como a casa de organizadores do evento. Uma estrutura bastante simples, mas certamente acolhedora.

Os dois dias de evento foram repletos de palestras sobre diversos temas envolvendo a vida e o pensamento de Bakunin: seu impacto na filosofia do século XX, suas posições sobre educação e sobre arte, aspectos históricos de sua aproximação e consolidação como anarquista, e também sobre a relação entre a destruição da velha sociedade e a construção de um mundo novo – tema onde uma caricatura de Bakunin é comumente apresentada, como alguém interessado na mera destruição e no caos.

Outras leituras analisaram historicamente a penetração das ideias de Bakunin no movimento operário de outros países, como sua influência no Japão e a importância do trabalho de Gregori Maximoff em divulgar seus textos nos EUA, em palestras dos pesquisadores Hikaru Tanaka e James Goodwin, respectivamente. A concepção de classe de Bakunin e suas diferenças com a análise marxista também foi um dos temas apresentados, em uma palestra proferida pelo anarquista francês Jean-Christophe Ango.

Saindo um pouco do eixo vida e obra de Bakunin, uma das intervenções procurou avisar aos participantes sobre a inauguração do Museu de Piotr Kropotkin. Localizado em Dmitrov, cidade próxima a Moscou e lugar onde Kropotkin viveu os três últimos anos da sua vida, o museu buscará resgatar a memória do anarco-comunista russo. A iniciativa está localizada na mesma casa onde um museu Kropotkin foi fundado ainda na década de 20, por um trabalho de Sofia Kropotkin, na época viúva do militante, mas que fora fechado anos mais tarde.

A única palestrante mulher da conferência, entre mais de quinze intervenções, foi Tatiana Bakunina, presença garantida pela sua relação de parentesco com Mikhail – seu avô ainda morava na propriedade da família em 1917. Em uma fala intitulada “O que Mikhail Bakunin representa para mim?”, ela discorreu sobre suas memórias de infância e a relação da família com o legado do revolucionário russo.

Importante destacar essa discrepância entre o número de palestrantes homens e mulheres, a mesma que podia ser observada no grupo de pessoas participando da conferência: uma maioria masculina, dominando o espaço de debate e momentos de socialização, repetindo no evento o modelo da nossa sociedade patriarcal.

Por sua vez, a conferência conseguiu reunir diferentes gerações de pessoas interessadas, desde velhos militantes a jovens interessados, assim como distintos grupos anarquistas do país, como o grupo Avtonom e a Cruz Negra Anarquista de Moscou, além de uma maioria de independentes.

Além das palestras, a organização promoveu um interessante tour histórico pela vila. Na caminhada, os participantes puderam conhecer o pequeno cemitério, reconstruído após o fim da URSS e que abriga alguns membros da família, entre eles os pais de Mikhail; andar pela grande área verde, preservada desde a época que os Bakunin ali residiam; visitar o remanescente da casa e ainda ouvir histórias sobre o local. Dentre as várias histórias sobre visitas que a nobre família recebia, destaca-se a possível passagem do escritor russo Leon Tolstói pela vila. Ele teria passado pela residência dos Bakunin durante uma visita a um vilarejo de camponeses nas proximidades, que o interessavam pelo estilo de vida frugal e comunitário, próximos dos quais ele se tornaria um influente defensor no futuro, com seus ideias pacifistas, anti-estatistas e de vida ascética.

Quando se pensa na realização de uma conferência com o foco em um único teórico, pode-se temer uma super valorização do autor ou até criar um culto a sua personalidade. Entretanto, é importante ressaltar que as leituras anuais, assim como este evento, não buscaram apenas relembrar uma história, mas também se envolveram com temas da atualidade e de importância para as lutas sociais. Acima de tudo, é preciso que manter uma coerência e ligação entre a figura de Bakunin e sua história de militância, particularmente com o anarquismo, sob o risco de criar um ícone popular mas sem aprofundar e difundir sua luta, algo que infelizmente parece acontecer com a figura de Che Guevara.

Há também razões conjunturais para saudar o esforço da Conferência: a situação política na Rússia é de forte autoritarismo, com supressão das lutas sociais autônomas e uma cultura de pouco respeito pela memória histórica, que hoje é instrumentalizada e contorcida para favorecer as visões nacionalistas e belicistas do governo Putin. Resgatar a história de pensadores e militantes revolucionários e libertários, nesse contexto, é também uma estratégia para criar enraizamento da ideologia anarquista na sociedade e enfrentar o monopólio da mídia estatista e da tradição autoritária estabelecida na esfera cultural do país.

As Leituras de Premukhino vão prosseguir anualmente, buscando agregar mais pesquisadores e militantes para visitar o local e contribuir com sua revitalização e memória. Elas vão continuar, também, para manter viva a chama do anarquismo nesse território, onde ela já queimou com força suficiente para espalhar faíscas em todo o mundo.

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