Anarquismo, Opressão & Exploração – Workers Solidarity Movement

O seguinte material foi publicado em outubro de 2014 como resultado do Congresso do Workers Solidarity Movement [Movimento de Solidariedade dos Trabalhadores], uma organização anarquista da Irlanda que existe há mais de 30 anos e faz parte do projeto internacional Anarkismo.net, que reúne organizações plataformistas e especifistas. O material foi divulgado pelo facebook aqui, onde abriram uma discussão para comentários e críticas ao texto.

Anarquismo, Opressão & Exploração – Material com a posição do WSM

1. O ponto central de unidade número 7 da Constituição do WSM diz:
“Nos opomos ativamente a todas as manifestações de preconceito dentro do movimento dos trabalhadores e na sociedade em geral, e trabalhamos juntos com aqueles que lutam contra o racismo, sexismo, sectarismo [religioso] e a homofobia como uma prioridade. Vemos o sucesso de uma revolução e a eliminação bem-sucedida dessas opressões após a revolução determinadas pela construção de tais lutas no período pré-revolucionário. Os métodos de luta que promovemos são uma preparação para fazer funcionar a sociedade nas linhas anarquista e comunista após a revolução”.

2. O ponto de unidade acima foi desenvolvido a partir de experiências individuais e coletivas de membros do WSM. Essas experiências embasaram nossa adaptação do anarquismo a nossos contextos locais, que incluem experiências específicas de opressão e experiências pessoas e históricas de luta anti-colonialista na Irlanda e em outros lugares.

3. O desenvolvimento deste material envolveu nossas próprias experiências, junto a nossas discussões sobre o amplo conjunto de escritos e observações que emergiram de estudos anarquistas e feministas sobre a relação entre gênero, classe e raça, em particular daquilo que se chama hoje de “Interseccionalidade”.

4. Esse desenvolvimento também contou com nossa experiência direta e com o estudo de lutas anti-colonialistas na Irlanda e outros lugares, lutas que foram muitas vezes similares ou que influenciaram o anarquismo.

5. O movimento histórico dos trabalhadores, do qual o anarquismo é parte, tradicionalmente viu seu papel como a auto-emancipação da classe trabalhadora da escravidão econômica e da exploração. Logo, é necessário entender como isso se relaciona às lutas por libertação da dominação e opressão.

6. Todas as sociedades não-livres da história foram baseadas em relações de dominação e opressão assim como de exploração. Relações que são sociais e não apenas pessoais. Em sociedades pré-capitalistas, as relações de produção eram tais que a exploração era imposta de fora, através das estruturas de dominação. Nessas sociedades as relações de dominação e exploração são efetivamente as mesmas. Na sociedade capitalista a exploração se torna integrada às relações de produção. A coerção se mostra como uma força anônima (pobreza) e as relações sociais são cada vez mais separadas entre esferas políticas e econômicas.

7. Essa separação relativa significa que a sociedade liberal se torna possível. A sociedade liberal é especificamente a sociedade capitalista, não-livre, onde os explorados são politicamente livres da escravidão de algum dono em particular, mas permanecem economicamente não-livres. Isso abre a possibilidade para libertação a opressões de categorias de identidade cuja dominação é um legado do sistema social recentemente substituído pelo capitalismo. Mas isso também possibilita a proliferação de novas categorias de identidade, já que identidade é dissociada das relações de produção e exploração específicas do capitalismo. Isso pode permitir a liberdade positiva de explorar novas relações pessoas e maneiras de ser. Mas também pode fornecer uma maneira de criar novas opressões, específicas à atual fase da necessidade da sociedade capitalista em estratificar, hierarquizar e dividir a classe trabalhadora. Consciência de classe deve, portanto, transcender – sem suprimir – qualquer identidade particular. Mas isso não pode acontecer na ausência de solidariedade nas lutas para superar as opressões que dividem a classe.

8. Historicamente, existe uma tensão na esquerda (incluindo muito de nosso trabalho prévio) entre reconhecer o que foi delineado acima e ainda continuar a ver estrategicamente a unidade como uma questão de identificar a principal contradição na sociedade e se alinhar atrás de uma única identidade unificadora, geralmente aquela do homem branco trabalhador industrial. Uma abordagem “Unidade é Força”, então, muito frequentemente significou o silenciamento ou a minimização de vozes que não cabem facilmente nessa identidade.

9. Em contraste a essa abordagem, argumentamos que existe necessidade de dar voz a todas as opressões, mesmo aquelas que podem não afetar grandes grupos, ao invés de silenciar tais vozes por trás de uma única imagem representativa. Reconhecemos que, dependendo de suas circunstâncias de vida, as pesoas experienciam opressões de formas diferentes.

10. Também não encontramos o caminho para a solidariedade competindo para identificar quem é “mais oprimido”, para que fosse feito de “imagem representativa” alternativa cuja voz poderia, então, sobrepôr a dos “menos oprimidos”. A ideia de tentar criar uma hierarquia de opressões, por níveis de severidade, é fútil e contra-produtiva. A solidariedade requer aceitar que a diferença não pode ser subordinada a nenhuma imagem representativa específica, seja a suposta mais comum ou a mais oprimida.

11. Nós buscamos “unir os pontos” – isto é, olhar para como as opressões e as intersecções de opressões se relacionam uma com a outra e impactam as relações daquelas pessoas na luta. É através de tal entendimento e ao garantir que todas as vozes serão ouvidas que uma unidade significativa na luta será forjada e mantida.

12. No entanto, nós entendemos a necessidade de reconhecer que as pessoas possuem múltiplas identidades e nosso desafio é criar um movimento revolucionário capaz de derrubar todas as opressões e criar coletivamente uma sociedade livre.

13. Se acreditamos que nossos movimentos devem ser baseados em nossas experiências, isso significa que movimentos, incluindo o WSM, são moldados por aqueles que os compõem. Essa composição vai determinar que lutas são vistas como prioridade, o que é negligenciado e mesmo a metodologia que será trazida para as lutas. Nós buscamos estar conscientes disso e desenvolver meios para contrabalançar essas tendências em nossas organizações e outras onde trabalhamos.

14. Esse reconhecimento teórico requer um esforço coletivo para minimizar os efeitos da marginalização e dos privilégios na cultura interna do WSM, através do desenvolvimento de processos de facilitação e também programas de treinamento e conscientização contra opressões, tanto para membros quanto apoiadores.

15. Nosso papel é colaborar com o cultivo de espaços onde as pessoas historicamente marginalizadas por sua opressão possam falar e se auto-organizar. Enquanto organização, somos solidários com tais esforços organizativos, que certamente também contarão com alguns de nossos membros. Nós vamos coletivamente apoiar tais trabalhos e ampliar a agência dos oprimidos.

Acordado em outubro de 2014.

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