Reflexões sobre o papel da esquerda universitária e a atual conjuntura – UFSC, março de 2015

Esse texto busca elaborar algumas questões não-levantadas numa plenária do Movimento Estudantil da UFSC, um espaço chamado pelas organizações políticas de esquerda que atuam na Universidade para construir unidade. Saí de lá com várias inquietações e frustrações, como acredito que sucedeu com a maioria desse setor sem forma definida que recebe o nome de “independentes” – ainda que eu construa uma organização política, ela não atua diretamente na Universidade.

O objetivo não é avaliar o espaço em si, mas aproveito pra lançar rápidas considerações sobre ele, pois são sintomáticas de alguns problemas gerais do movimento estudantil universitário. A plenária foi convocada por organizações políticas após uma reunião entre as forças e tentou apressadamente conseguir apoio de centros acadêmicos. Um grupo razoável de pessoas apareceu na reunião, mas praticamente só gente das organizações falou.

Uma pauta inicial de avaliação de conjuntura recebeu dezenas de inscrições, com muitas repetições e muito jargão de esquerda – basicamente foram apresentadas e re-apresentadas as análises que as organizações já publicaram por aí e que foram lidas por quem tinha interesse. O tema era geral, mas as falas avaliaram quase exclusivamente a economia mundial e nacional; as lutas sindicais e estudantis; e a disputa política sobre as manifestações de Junho de 2013, 13 de março e 15 de março desse ano.

Ao final desse momento, a plenária já estava esvaziada quase à metade. Apesar de não haver polêmica entre as falas das organizações, o clima já estava saturado e sem ânimo para encaminhar propostas sobre como unificar as lutas da Universidade e sob que critérios. A proposta da plenária estava em aberto pra receber contribuição de independentes, mas como essa participação não veio, a reunião apenas tomou rumo para um próximo encontro, ainda que de maneira desconfortável. Enquanto estudantes independentes iam embora, as falas das organizações louvavam a “vitória” que significava elas mesmas conseguir fazer uma reunião juntas apontando para a unidade. Um consenso apático, já costurado previamente – o saldo é de uma plenária sem uma ideia nova sequer.

Mas enfim, que análise de conjuntura geral foi feita e o que ela silenciou? E mais, o que essas ausências nos dizem sobre os rumos do movimento estundantil na Universidade?

A começar, já sobre o que é alvo das análises: nações imperialistas, órgãos econômicos internacionais e nosso governo. Por certo que é necessário esmiuçar as tendências e estratégias de nossos inimigos, mas isso basta para pensarmos a nossa estratégia? Onde está a análise do ânimo de nossa classe trabalhadora, de seu ideário e de suas resistências? Nossa estratégia visa os centros de poder ou visa as bases, para criar força periférica às estruturas de poder?

É claro, foram citadas várias vezes as importantes greves do último período, mas elas são representativas da classe? O Brasil possui quase metade de sua população trabalhadora em situação de informalidade. Menos de 20% da classe é sindicalizada e, mesmo assim, a grande maioria dos sindicatos não funciona hoje como espaço de luta e resistência, se assemelhando mais a um mecanismo de conciliação entre patrões, governo e trabalhadores através de atividades despolitizantes, da burocracia e da apatia.

Enquanto uma enorme massa precarizada vive as piores mazelas do capitalismo nas periferias, a esquerda governista jogou todas suas forças para disputar cargos de poder. Quem está à esquerda do governo, salvo honrosas exceções, constroi sua estratégia a partir de outros aparelhos de representação: sindicatos e entidades estudantis. Na sedutora ilusão de que ser eleito pela maioria dos votos significa a politização da maioria, essa esquerda deixa escapar a maior parte da juventude e da classe, que não encontra espaços de participação de base.

Sem apontar a realidade dos setores populares, não podemos pensar a melhor atuação com o povo. Isso significa considerar fatores como a descrença generalizada na classe política, seja à esquerda ou à direita, mas que diz muito sobre as estratégias parlamentares e institucionais de transformação social. Até que ponto essa descrença se estende a toda participação e atuação reivindicativa? Acho que apenas parcialmente, novamente com honrosas exceções e exemplos de luta de movimentos sociais e comunitários.

É preciso apontar também o medo e a insegurança na classe: medo da instabilidade financeira, de ficar sem trabalho, de perder a moradia e da falta de segurança que são cotidianos para esse setor; assim como o medo mais que legítimo das mãos do Estado através da polícia e da Justiça, que tratam a população pobre como inimiga e são feitas para sustentar a desigualdade.

Junto a isso, a progressiva atomização das pessoas, a perda de laços comunitários e por locais de trabalho, onde se forjava redes de solidariedade e apoio da classe. A precarização do mundo de trabalho, sua competição e alta rotatividade, assim como a falta de tempo e espaços de lazer coletivos, dilaceraram o tecido social: a malha de relações pela qual um conjunto de pessoas se tece um povo. Sem tecido social e sem pensarmos na cultura que emerge dela, sem uma mística popular, não existe identidade de classe nem ação classista. Vale notar, quem fornece espaços de sociabilidade na periferia hoje e, por isso, consegue organizar esse setor, são principalmente igrejas neopentecostais, políticos assistencialistas e ONGs (às vezes todos juntos).

É importante também o aumento dos níveis de consumo e acesso, mas sem contrapartida no aumento da qualidade de vida pra fora da porta de casa: no que diz respeito aos serviços públicos e à convivência na cidade, a insatisfação só cresce, seja com o transporte público, mobilidade urbana, saúde, educação, segurança, lazer. É reflexo também desses fatores o isolamento social, já que as pessoas buscam solucionar suas vontades na esfera privada; por outro lado, surge um horizonte de luta pelo direito à cidade, que vem se esboçando a partir das lutas por transporte, moradia, resistência contra a limpeza social e gentrificação, assim como defesa de áreas e parques públicos.

E a Universidade pública dentro dessa sociedade, como se estrutura e que contradições vive?

Somos menos de 5% dos jovens de 18-24 anos que acessam a educação superior pública; e menos de 20% na educação superior, mesmo considerando a péssima condição da maioria das faculdades privadas e à distância pelo Brasil. Ainda assim, não podemos dizer que na Universidade pública estuda apenas a elite. Ela continua sendo uma instituição elitista, mas há uma mudança de perfil em curso sobre quem consegue entrar, principalmente pela ampliação das vagas e ações afirmativas, que já completaram um ciclo de formação de turmas e estão sendo expandidas.

Há uma juventude trabalhadora e pobre em ingresso, assim como negra e indígena, que vai viver todas as contradições e dificuldades da falta de políticas de assistência e permanência. São setores com necessidade e disposição de transformar a Universidade em seu caráter elitista. Nesse contexto, fazer trabalho de base é atuar nas pautas da base: uma esquerda universitária (e instâncias estudantis) que esteja no RU, que esteja no Hospital Universitário, na Moradia, na disputa pelas bolsas, no NDI (creche), etc. A partir da solidariedade e ação nessas lutas é que se pode formar um tecido social entre estudantes, uma ideia de pertencimento no movimento estudantil, e assim legitimar os espaços de representação.

É ótimo que as organizações políticas tenham projeto para a Universidade Popular, a Universidade Necessária, etc., vão poder acrescentar muito nos debates. Sem um horizonte estratégico não sabemos em que direção caminhar. Mas ele só vai fazer sentido se for discutido e reconstruído nos processos de luta que agregarem estudantes, a partir de suas necessidades, e precisam estar abertos à criatividade das lutas, senão pouco servirão.

Outra ausência gritante nessas análises são trabalhadores(as) terceirizados(as). A Universidade funciona todos os dias pelo trabalho quase invisível de gente que limpa o chão, corta a grama, recolhe lixo, vigia, abre e fecha portas, recepciona, tira xerox, transporta materiais, etc. Uma multidão de trabalhadores precarizados que, em geral, também faz parte da comunidade do entorno da Universidade, pois moram nos morros próximos, usam dos serviços da Universidade, vêm pras festas, etc.

É um setor altamente explorado por sua relação de trabalho e pela ausência de entidades representativas e de reivindicação. Além disso, não possuem nenhum espaço de participação e opinião sobre a gestão e os rumos da Universidade que constróem. O que explica a ausência de militância conjunta e solidariedade com esse setor? A dificuldade (jurídica e econômica) de se organizarem pra luta; os vícios da esquerda em focar apenas nos sindicatos e entidades estudantis; ou é mesmo um reflexo de elitismo que nos impede de reconhecer nesses trabalhadores nossos iguais?

Pra fechar o texto, queria divulgar uma proposta radical (e radicalmente necessária) pra nos iluminar os caminhos sobre outra Universidade e outra produção de conhecimento. O Movimento Independente Mães de Maio, articulação periférica de mães e familiares da juventude assassinada pelo Estado, que luta por direitos humanos, pela desmilitarização da polícia e da política, a partir de uma perspectiva classista e de base, lançou essa semana um importante chamado: exigir da academia e dos órgãos de fomento de pesquisa brasileiros Bolsas de Estudo e Pesquisa Recíprocas, para que lutadoras(es) sociais possam construir conhecimento sobre si próprios e analisar as pesquisas acadêmicas feitas sobre eles, que na maioria das vezes se dizem parceiras de sua luta, mas “acaba[m] fortalecendo as tecnologias de controle, as burocracias e hierarquias, e toda estrutura de poder e opressão contra nós mesmos”, como disse o próprio Movimento.

De “objetos de pesquisa” a criadores de conhecimento. E nós? Passaremos de receptores de conhecimento a criadores de uma nova Universidade?

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Elementos da conjuntura vista desde baixo – Março de 2015

Quero contribuir com um elemento para pensar a conjuntura atual que deveria ser central para nós, desde baixo e à esquerda, mas tem sido pouco considerado em detrimento de análises ora no campo institucional, ora de impressões avulsas das redes sociais: a força das ruas.

Desde o período das eleições (out de 2014), as maiores mobilizações de rua de expressão nacional foram as seguintes:

– Mobilizações dos professores e servidores públicos no Paraná contra cortes de direitos do governo Beto Richa (PSDB), que levaram 10 mil e depois 50 mil às ruas, a partir de um amplo leque da esquerda nos sindicatos e na categoria, desde o governismo aos setores mais críticos.

– Lutas contra aumento das tarifas de ônibus, que em São Paulo chegaram a levar 30 mil às ruas, além de organizar pelo menos 5 atos com mais de 10 mil pessoas e dezenas de outros menores pela periferia. Em SP, a luta enfrentava uma prefeitura do PT e era convocada pelo Movimento Passe Livre, uma força declaradamente anticapitalista e independente que articulou distintas forças à esquerda do governo.

– Atos do MTST, outra força à esquerda do governo e combativa (embora componha e defenda a Frente de Esquerda junto aos setores governistas) que mobilizaram mais de 10 mil pessoas na luta por moradia e também por outras pautas, como a questão do transporte público e, semana passada, da falta d’água.

– Atos de greves dos metalúrgicos no ABC Paulista que também colocaram 10 mil nas ruas pra lutar contra as milhares de demissões no setor no último período. Uma ativa solidariedade foi mobilizada entre trabalhadores de diferentes fábricas e o movimento conquistou vitórias, outra mobilização puxada pela classe organizada nos sindicatos com distintos setores da esquerda.

Apenas então podemos falar sobre os atos contra a Dilma, posteriores às eleições, que chegaram a colocar talvez 10 mil nas ruas. Ainda assim, esses atos tinham propostas políticas muito mais difusas e uma organização prévia bastante inferior, com menor capacidade de articular novas ações e propôr alternativas.

É claro que não só de marchas e atos se faz a pressão e a luta política; a greve (ou locaute) dos caminhoneiros é exemplo disso. No entanto, apesar da expressividade de suas ações – cuja divulgação contou com a boa vontade de uma direita golpista para seus propósitos – foram também bastante difusas, com reivindicações e motivações distintas em cada local. Parece inegável que, em algum grau, foram inclusive organizadas pelo empresariado do setor. A falta de uma organização e pauta conjunta, assim como entidades representativas de toda a categoria, elucida parte da dificuldade do governo em negociar com os bloqueios, assim como aponta para uma limitação da mobilização em suas reivindicações concretas – já que para a base, não se trata apenas de desgastar o governo.

O importante é que as ruas ainda são um espaço privilegiado de ação e demonstração de força. Inclusive, muito mais do que apenas levar gente às ruas (como aconteceu em Junho de 2013 e como provavelmente acontecerá no 15 de Março), o que conta é a organização, setores mobilizados e capazes de compartilhar análise, estratégia e projeto.

Apesar de tudo, nós temos força. Não é hora de nos paralizar nem temer, especialmente usando o Facebook como único parâmetro do ânimo popular e da articulação da direita. Enquanto ali manda o marketing político e o discurso oportunista, ir para a vida real exige muito mais, requer convicção e dedicação.

O governismo propaga um discurso alarmista sobre o impeachment buscando domesticar a luta social a seu favor, sustentando a mesma dicotomia de que precisa para se legitimar com o povo. É sim hora de ir às ruas e se organizar para construir uma alternativa política, que não seja o golpismo reacionário e nem o apoio a um governo de ex-querda, que hoje ataca frontalmente os direitos da classe trabalhadora e se alia aos setores conservadores e retrógrados em troca de governabilidade (que aos poucos lhe escapa aos dedos). Quem tá atento às ruas sabe que temos bons exemplos.