Sobre a onda arco-íris no Facebook

Coloquei a foto arco-íris. Acho que a comoção generalizada é importante como mostra de força, de esperança e como uma tomada de posição e disputa de espaço, considerando que o ódio e a intolerância no Brasil têm ganhado lugar como moeda de usufruto político e também pra naturalizar toda a violência sofrida pelas pessoas LGBT.

Mas respeito muito as várias críticas levantadas e a posição de quem se recusou a “comemorar”. A crítica pode não trazer tanta popularidade, mas ao fim e ao cabo, é com ela que avançamos.

Quero chamar atenção pra três.

É mais um dito avanço “LGBT” que pouco diz respeito às pessoas trans, que seguem enfrentando uma série de preconceitos e falta de direitos muito mais básicos, recebendo bem menos empatia e mobilização por suas pautas.

Não por acaso, durante o anúncio na Casa Branca, Obama foi interrompido em sua fala por uma trans latinoamericana que exigia a não-deportação da comunidade LGBTQ imigrante no país, e a resposta de Obama foi para que a retirassem, dizendo que ela “estava na casa dele”.
http://www.democracynow.org/…/undocumented_trans_activist_j…

Outra questão é a mobilização e interesse causado por uma vitória em um país central, imperialista como os EUA, com todo seu amplo histórico de guerras, ataques, saqueios, apoio a ditaduras no Sul do mundo. Esse país não é, não pode ser visto, como exemplo.

O Brasil já tem jurisprudência pra casamento gay e lésbico desde 2013. A Argentina, no nosso lado, aprovou em 2012 uma Lei de Identidade de Gênero que garantiu uma série de avanços políticos e de direitos civis pra pessoas trans. Nada disso gerou uma comoção próxima a que os EUA levantou. Precisamos atentar mais para nossos povos irmãos, cujo histórico de agressões vindas dos EUA unifica em uma história compartilhada.
https://vimeo.com/27755606

Por fim, a pauta do casamento não interessa a muitas pessoas LGBT. O casamento não é sempre símbolo de amor. Sua origem é um contrato de posse sobre outra pessoa e, muitas vezes, serve ainda hoje mais para mascarar violências ou pra garantir status que para demonstrar alguma forma de amor, que não respeita nunca contratos.

Enfim, vamos aproveitar a movida pra mostrar força e apoio social às demandas LGBTs, mas vamos transformar isso em defesa da diversidade sexual e de gênero nas escolas (barrada pela Dilma e pela bancada fundamentalista), na defesa da despatologização das pessoas trans e pelo direito ao nome social (em voga no PL João Nery), por políticas de saúde e auxílio jurídico específicas, pela visibilidade LGBT na mídia, na cultura, nas lutas sociais, etc. etc. Mobilizar e avançar!

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