Nenhuma pessoa é ilegal

Comentário no Facebook sobre a reportagem: “Enquanto Europa busca soluções, nasce uma cidade de imigrantes em Budapeste“, publicada no The New York Times em 04 de setembro de 2015.

Na última semana, eu vi minha antiga cidade e morada na televisão aqui do Brasil, mas ela só me trouxe aflição e desgosto. Eu morei a poucas estações de metrô da estação internacional de trens Keleti, em Budapeste, na Hungria, e fui bem-vindo em alguns embarques e desembarques por lá.

A Hungria está no meio do caminho entre a Europa Central e países que vivem guerras e crises humanitárias na Europa Oriental, Oriente Médio e Norte da África. O país enfrenta uma séria crise econômica que se evidencia pelas milhares de pessoas morando nas ruas, desemprego e altas taxas de migração da população local.

Além dos muitos imigrantes e refugiados de passagem, vive na Hungria uma minoria étnica cigana com cerca de 10% da população, que enfrenta um preconceito gritante e institucionalizado pelo governo conservador de direita, que propõe escolas separadas e atribui crimes violentos à natureza cigana. Mais de 70% da população cigana está desempregada.

A xenofobia, o ódio ao diferente e a identidade nacionalista são fortemente trabalhados politicamente para explicar os problemas sociais e legitimar os setores no poder. Fechar estações de trem contra refugiados ou levantar um imenso muro em toda a fronteira sul do país são medidas respaldadas em um forte ódio que ganhou espaço na cultura e em amplos setores da sociedade húngara.

São as pessoas que nutrem e defendem essas ideias que sustentam toda a estrutura de exclusão e agressão, mesmo quando elas se reproduzem por piadas, por comentários levianos, por estereótipos sem reflexão. A cultura é um campo de batalha, tanto lá quanto aqui.

A vinda de imigrantes haitianos para cá foi destaque nos últimos meses, entre diversas demonstrações racistas e também demonstrações de solidariedade, que parecem refletir uma auto-imagem otimista brasileira sobre nossa receptividade. As políticas brasileiras para imigrantes, sejam haitianos ou sírios, não existem no vácuo, elas são reflexo da batalha cultural entre a solidariedade e o ódio que coexistem na fila do pão, no busão, no estádio de futebol, na entrevista de emprego.

O dinheiro já viaja livremente no capitalismo, entra no país que quiser sem precisar de passaporte e deixa também seu rastro de desemprego, devastação ambiental, apagamento cultural, exploração e guerras. É urgente abrir as fronteiras para as pessoas vítimas do livre-trânsito financeiro, para todas as pessoas.

E, por fim, se você acha que manter a cultura tradicional de um lugar ou sua composição étnica justifica as fronteiras nacionais, você está nessa fila de policiais da estação de trem, mandando as pessoas de volta pra guerra e pra fome.

Quem teria a coragem de colocar as próprias mãos no caminho da busca por uma vida digna?

(Para mais informações sobre a Hungria, sugiro a página do coletivo de apoio a imigrantes e refugiados MigSzol Csoport, que tem acompanhado a situação de perto e publicado notícias em inglês).

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