A mobilização da Biologia/UFSC e para onde ela pode levar

O semestre 2015.2 da UFSC começou em meio aos anúncios de corte de verba federal na Educação Pública e uma situação local de grande precariedade para as aulas: sem Restaurante Universitário; Biblioteca; sem a Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis e novos editais para as políticas de permanência; com várias disciplinas sem professores.

Essa situação – causada pelos cortes de verba e pela falta de negociação do governo com as categorias de técnicos e docentes em greve – se somou às dificuldades acumuladas dos últimos anos: demissão de trabalhadoras terceirizadas da limpeza; turmas lotadas pela falta de professores; falta de verba para saídas de campo nas disciplinas; grande dificuldade em conseguir auxílio financeiro para viagens, eventos acadêmicos e estudantis.

Nas primeiras 5 semanas do calendário letivo, entre 10 de agosto e 14 de setembro, estudantes de Biologia participaram e ajudaram a organizar três Assembleias Gerais da Comunidade Universitária, além de uma Assembleia Geral de Estudantes da UFSC, construindo a unidade entre servidores TAEs, docentes e estudantes que alcançou vitórias na negociação da pauta unificada com a Reitoria.

Nesse período, também organizaram quatro Assembleias Gerais Estudantis da Biologia; realizaram uma paralisação estudantil de uma semana; constituíram uma Comissão Estudantil de Mobilização com dezenas de estudantes de todos os anos e períodos; realizaram duas semanas de atividades de debate e mobilização; convocaram uma Roda de Conversa do CCB com professores, técnicos e estudantes; e construíram uma ampla Carta de Reivindicações Locais com demandas e propostas sobre o Centro de Ciências Biológicas e os Cursos de Ciências Biológicas, que está em processo de negociação com a Direção e Coordenação.

Momento da votação sobre a paralisação, na primeira Assembleia Estudantil do semestre.

Momento da votação sobre a paralisação, na primeira Assembleia Estudantil do semestre.

Passadas algumas semanas desse período intenso, mas que foi muito gratificante para mim, gostaria de lançar um balanço crítico e algumas provocações que caibam em 10 pontos, começando pela análise e indo para as hipóteses e especulações sobre o futuro.

1. O cenário na Universidade é de crescimento de ideias conservadoras.

Pra entender a importância das mobilizações em 2015.2, vale recordar o contexto da UFSC e do movimento estudantil. A reitora Roselane, em seu último ano de gestão, está bastante desgastada após várias medidas impopulares que a fizeram perder apoio de setores da esquerda que a ajudaram a se eleger, especialmente entre TAEs e estudantes. Ações como a implementação de cancelas nas entradas da Universidade; a posição contrária à jornada de 30h e a perseguição a TAEs que lutavam por essa pauta; a falta de posição sobre temas importantes como a EBSERH; o manejo de todas as disputas universitárias para fóruns, GTs e conselhos inócuos. Ainda assim, a crítica a essa gestão e a mobilização foram sempre freadas pela capilaridade do campo político de Roselane dentro das categorias, postura que causa o mesmo efeito seja no Governo Federal ou na gestão de Reitoria: desarma os setores mobilizados e possibilita mais guinadas à direita no comando.

Enquanto isso, entre estudantes as últimas três eleições para o DCE foram vencidas pela direita, com especial destaque para a eleição de 2015.1, onde uma chapa unitária da esquerda com mais de 280 integrantes perdeu para a continuidade do DCE, que inclui desde a UJS (juventude do PCdoB, defensora árdua do governo) aos ultraliberais do EPL. Mas o fenômeno não diz respeito apenas às entidades representativas: as redes sociais e várias atividades na UFSC demonstram o crescimento de um sentimento “anti-esquerda”: contrário às greves e mobilizações da classe trabalhadora; às demandas do movimento negro e feminista; e favoráveis às privatizações dos serviços públicos. Como exemplos, temos os ataques estudantis a piquetes de greves; as postagens liberais, racistas e sexistas que dominaram o grupo de facebook UFSC; a organização de debates e de grupos liberais ou conservadores.

Esse crescimento tem relação óbvia com a falência da gestão petista e o fortalecimento da oposição de direita no país, mas não pode ser vinculado unicamente a fatores externos. É necessário observar a própria organização da direita, que já cresce há anos através das críticas a mobilizações como o Levante do Bosque, a luta contra as Empresas Júnior no CFH e as ocupações de Reitoria. Todas essas lutas recentes foram fundamentais, mas sofreram com a dificuldade de dialogar com a maioria dos estudantes, seja por ter localidade específica ou por sofrerem de acusações mentirosas amplamente divulgadas.

Não existe vácuo na política: se a esquerda está apenas disputando entre si e não imersa entre os estudantes, mobilizando por pautas de seu interesse direto, outras forças tomam o espaço. Sem uma ação estudantil que defenda as demandas da maioria e aponte para os reais responsáveis (governo e reitoria), as mesmas demandas podem ser articuladas com fins muito distintos (atacando trabalhadores, por exemplo).

2. O texto “Onde estão os professores legais?” falhou, mas clareou o cenário.

Quando dezenas de estudantes da Biologia participam da 1ª Assembleia Geral da Comunidade Universitária, ao mesmo tempo em que enfrentam a precariedade da situação universitária e a dificuldade de permanência no início do semestre, ganha corpo entre nós a proposta que saiu da Assembleia de construir a inviabilidade do semestre letivo, seja através do apoio e fortalecimento das greves; paralisações e greves estudantis por Curso e por Centro; mobilização em unidade das categorias; etc.

Enquanto é organizada a primeira Assembleia Estudantil da Biologia, algumas estudantes escrevem – de maneira independente – o texto “Onde estão os professores legais?“. Esse texto parte de algumas premissas:

2.a. Os cortes de verba na Educação Pública são reais e afetam a UFSC. Ainda que houvesse planejamento financeiro para o começo de 2015, a restrição de verbas já está afetando as contratações de professores, projetos acadêmicos, serviços de limpeza e segurança, saídas de campo, manutenção do campus, etc. O risco iminente é que no próximo período os cortes afetem as políticas de permanência estudantil (RU, Moradia Estudantil e bolsas).

2.b. Os cortes de verba na Educação Pública são significativos. Ou seja, não é possível lidar com os cortes sem haver sucateamento e precarização da Educação Pública. Não basta “gerenciar melhor”, como tem dito Roselane Neckel. Existe uma guinada brusca para o financiamento da educação superior privada (exemplificado no aumento de R$5 bilhões para o FIES concomitante ao corte de R$12 bilhões) que demonstra uma tendência visível de desmonte da Universidade Pública.

2.c. Os cortes de verba na Educação Pública são possíveis de ser enfrentados. Com a perda de popularidade e a crise econômica, o Governo Federal está sofrendo pressão de todos os lados. Até agora, tem cedido exclusivamente aos bancos, ruralistas, ao sistema financeiro e ao grande empresariado, incluindo aqui a educação privada. Mas essa não é a única maneira de fazer ajuste fiscal: poderia estar taxando as grandes fortunas, as remessas de lucro ao exterior, fazendo a Auditoria da Dívida Pública, etc. Ou seja, é possível fazer os ricos pagarem a conta.

2.d. Construir a inviabilidade do semestre letivo era necessário. O movimento de greve estava forte nacionalmente. Comandos de greve de TAEs em todas as Universidades Federais e greve docente na maioria delas, com adesões variáveis. Algumas Universidades não voltaram às aulas por conta da falta de verbas e das greves, expondo verdadeiramente a situação e pressionando diretamente o Governo Federal a tomar alguma providência. Enquanto o semestre continuasse na UFSC, nenhuma ação teria força real para enfrentar o corte de verbas porque a situação se demonstraria regular e controlada.

2.e. Muitos professores são sensíveis, mas estavam mal informados sobre a situação. Fora das Assembleias e atos de greve, havia silenciamento no assunto dos cortes de verba na UFSC. Quem participou desses espaços viu e ouviu muitas histórias sobre a situação universitária, mas não víamos nenhum professor nesses espaços, nem mesmo discussão nas reuniões de Colegiado, de Conselho ou debates nas aulas.

2.f. Estudantes não tinham força pra paralisar as aulas e o semestre sozinhas. Além do esforço de organizar as assembleias e debates com centenas de estudantes para politizar o curso e nos mobilizarmos, ainda tivemos que enfrentar a pressão de muitos professores que não respeitaram nossos debates e decisões, inclusive usando de seu poder institucional para cobrar presença e dar notas. Se mais alguns professores aderissem à greve em nosso curso, se tornaria muito mais fácil manter a paralisação e dar peso para a luta.

Com isso, achamos que um texto – misturando dados factuais sobre os cortes e uma provocação sobre a necessidade de tomar posição – fosse capaz de pressionar professores que discutem educação pública (principalmente no MEN) ou sociedade em uma perspectiva crítica (principalmente no ECZ) para que apoiassem a luta, em especial aderindo à greve.

Não funcionou.

É necessário, em primeiro lugar, identificar que existe uma disposição baixíssima de docentes para discutir politicamente com estudantes de igual para igual. A presunção de que somos incapazes de entender a situação da Universidade e os interesses em jogo ficou evidente. Ouvimos comentários de que estávamos sendo manipulados; de que não sabíamos o que queríamos; críticas sobre como organizamos as Assembleias vindas de quem nem acompanhou o processo; etc.

Mesmo os espaços que organizamos convidando docentes a participar – por sugestão deles – foram esvaziados. Muitas conversas funcionaram bem no nível pessoal, visitando laboratórios e salas de professores, assim como vários abriram espaço nas disciplinas para discutirmos. No entanto, a completa falta de experiência em mobilização conjunta também nos manteve separados: alguns professores se posicionaram favoráveis e saudaram nossas ações, mas apenas obsevaram de longe.

Embora o documento “Onde estão os professores legais?” tenha repercutido bem entre docentes grevistas e entre estudantes de outros cursos, tivemos poucas respostas na Biologia. Infelizmente, alguns leram o texto e levaram para o âmbito pessoal, interpretando como um ataque e não como um chamado à mobilização. Para mim, isso é mais um exemplo da falta de disposição pra discussão de igual para igual e demonstração de que temos muito a avançar se queremos construir lutas em unidade.

3. Há professores e professores…

Analisando as reações à luta que travamos na paralisação estudantil, vale notar que houve professores e estudantes que discordaram já no item 2.a, mas foram minoria. Entre os professores, identifico dois setores principais: um setor com pouca experiência de atuação política e que muitas vezes acompanha a situação através do senso comum; e outro setor mais politizado, inteirado nas discussões e forças políticas dentro da Universidade e preocupado com a ascensão de direita na sociedade.

O primeiro grupo esbarra geralmente no item 2.c, pois não acreditam no poder da mobilização dos trabalhadores e não simpatizam com as greves, as quais consideram corporativistas (só pensam no salário), pouco eficientes (conquistam muito pouco) ou mesmo “coisa de vagabundo” (uma desculpa para não trabalhar). Até aqui nenhuma surpresa. Na verdade, não são visões absurdas: elas partem de observações reais, mas convenientemente ignoram a possibilidade de superar essas limitações das greves, preferindo se ausentar dos processos coletivos. Processos coletivos são sempre difíceis, muitas vezes demorados e nunca estão livres de contradições. Mas, para quem acredita na transformação e nas pessoas, não pode haver outro caminho.

A parte mais surpreendente foi identificar que parte do grupo de professores mais politizado tenha questionado o item 2.b, alegando que muito foi investido nos últimos anos, então era normal que houvesse um corte! Esse setor evitou quando pode – ou deslegitimou quando foi preciso – a análise de que há um projeto de desmonte da educação pública no Brasil.

Não espero dos “professores legais” (pois são realmente legais!) que pensem dessa forma. Entender esse fenômeno poderia ser difícil naquele momento, mas fica mais claro agora durante as eleições para a Reitoria. Roselane Neckel possui uma forte base de apoio no CCB, que agora vemos por aí nos corredores fazendo campanha; professores críticos ao antigo clientelismo e domínio da maçonaria na Universidade. Tratava-se de replicar e sustentar a postura da própria Reitora, que evita qualquer crítica ao Governo Federal e quer passar a impressão de normalidade e casa arrumada na UFSC, visando sua reeleição.

Infelizmente, a posição desse setor de professores se torna mais engessada que qualquer outra. Quem não está dedicado a sustentar os ataques do governo ainda pode ser contagiado pela subversão e pela força de uma luta que paute realmente a educação pública: trata-se de nossa tarefa de politização e empolgação. Alguns dos professores mais simpáticos à nossa mobilização eram desse grupo que não participa das greves nem dos processos políticos da Universidade, do tipo que infelizmente tem uma descrença generalizada na política. Porém, para quem está de braços dados com o novo projeto neoliberal da “ex-querda”, só sobrarão os esforços em defesa da apatia e desmobilização.

Com esse setor, a construção precisa ser diferente. Digo isso de igual para igual, nos incluindo nesse grupo de quem defende a igualdade e os serviços públicos: precisamos resgatar os valores da independência e da combatividade na luta social. Não se disputa na política com manobras ou posições dúbias, é preciso colocar com clareza nossas demandas e é preciso bater o pé. O PMDB, a velha oligarquia, o empresariado neoliberal – estão todos dando as cartas no jogo do governo. Resgatar a força da luta sindical e popular não vai “fortalecer a direita” nem “facilitar um golpe” se nossa mobilização colocar à frente as bandeiras de esquerda como a defesa da educação pública.

(Essa pode não ser a melhor análise das posições docentes; aliás, eu espero que não seja. Porém, foi a melhor que pode ser construída pelo nível de participação e diálogo que professores tiveram com estudantes. Onde estão os outros professores?)

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Faixa colocada por estudantes no prédio EFI: “Greve UFSC – Bio na luta”

4. Discutir valeu a pena: construímos a legitimidade da paralisação.

Quando a gente se movimenta, o tabuleiro se chacoalha e algumas peças ficam bambas. A paralisação estudantil colocou legalidades em cheque e se equilibrou nas legitimidades. Uma Assembleia de 170 estudantes pode deliberar por 800? E as provas? Vão cobrar presença? Professores vão deixar? O terreno é movediço.

A legitimidade não depende das leis sobre greve – que não existem no caso estudantil – nem apenas do número de votos em uma assembleia ou do apoio de algum órgão da UFSC como o Conselho ou Colegiado. Em nosso caso, apesar da participação nas atividades ter sido relativamente alta, a legitimidade foi construída ao longo do processo, absorvendo os percalços do caminho, tentando cumprir as burocracias (emails, informes, atas, reuniões) sem abandonar a parte mais essencial: diálogo e participação.

Foram semanas em que provavelmente passamos em todas as salas de aula do curso, várias vezes em algumas delas (desculpa!). Foram visitas e conversas com professores e técnicos do Centro. Não menos importante que isso, foi muita discussão no Facebook também. As conversas ao vivo são sempre mais produtivas, mas não dá para ignorar a importância da internet na comunicação e integração do nosso curso. Mesmo discussões que parecem infrutíferas, onde dois lados nunca irão concordar, são importantes: tem sempre uma multidão de opiniões intermediárias ou dúvidas por perto, lendo e digerindo os argumentos.

Críticas, discordância e ânimos exaltados fazem parte do movimento, desde que não cheguem a romper o diálogo e o processo de construção. Custou muito estresse e angústia saber ouvir, saber ponderar e saber discordar nesse período. Pra mim, a maior legitimidade veio do grupo diverso que abraçou a mobilização e a disposição que houve para conversar com quem esteve contra.

Na primeira assembleia, montamos uma comissão com pessoas de todos os anos do Curso, diurno e noturno. Evitar a identificação da mobilização com apenas uma turma, período, grupo de amigos ou instância foi um passo essencial. Ainda que tenha havido uma diferença clara de atitude do curso diurno (mais envolvido e favorável à paralisação) em relação ao noturno, houve esforço real para fazer a discussão chegar a todas e todos.

Enfrentar esses rachas não dependeu só da disposição ao diálogo, mas também da transparência: construir todas as reuniões abertas, bem divulgadas e tentar ao máximo usar horários em que o noturno poderia participar. Isso pode parecer óbvio, mas é muito fácil se defender das críticas abdicando da transparência e decidindo tudo entre as pessoas próximas que já se conhecem e costumam concordar. Para quem estava no olho do furacão não foi assim: a mobilização mexeu também as peças da amizade – novas relações de aprendizado e confiança se criaram entre quem nem se conhecia, mas se articulou por acreditar no que estávamos fazendo.

Muita gente pode achar que as discussões no Facebook eram motivadas por pirraça ou vontade de “ver o circo pegar fogo”. Pelo contrário: foi um trabalho de abraçar a mobilização de peito aberto. Quem fez o trabalho essencial de escrever textos públicos sobre os motivos da paralisação (como o Haddad ou a Ari) estava dizendo também: nós acreditamos na paralisação, não temos vergonha dela. Sem responder às dúvidas e críticas, fechamos o diálogo e perdemos a moral. Não foram poucas as pessoas que mudaram de opinião durante as atividades e assembleias da primeira semana: por mais que exista sempre a tendência de colocar as pessoas em caixinhas fechadas, momentos como esse nos mostram que estamos sempre construindo a nós mesmas, a favor ou contra nosso meio social.

No fim, em que pese a enorme variedade de opiniões, grau de participação nas atividades, pesquisas sobre os temas que discutimos – a maioria parece ter concordado que a situação da Universidade é crítica e que valeu a pena sair da rotina para discutir essas questões. Reflexo disso é que a última polêmica não foi com o “estado de greve” que tiramos para as negociações, mas sim com o belo apoio estudantil à manutenção de cargos públicos no Restaurante Universitário, enquanto servidores técnicos eram atacados pela terceirização temporária que rompeu sua greve.

5. Mulheres na linha de frente, mas ainda menos visíveis.

O curso de Biologia tem uma predominância de mulheres, ainda que não seja absoluta. Na mobilização desse semestre, a maior parte das pessoas na Comissão de Mobilização eram mulheres e foram elas que fizeram a maioria do trabalho (passagens em sala, cartazes, refeições, mesa nas assembleias). Mais significativamente ainda, encabeçaram as discussões sobre assédio e posturas opressoras por parte de professores, além de escrever nosso manifesto no tema.

Ainda assim, os poucos homens diretamente envolvidos se tonaram algumas das pessoas mais visíveis e vocais de todo o processo, independente das intenções visadas. É necessário reconhecer o enorme conjunto de fatores, muitos sutis, que tornam o espaço público e a arena de debates mais acessíveis para os homens: a separação de tarefas mais ou menos valorizadas (falar na assembleia, reunião com professores vs. cozinhar o almoço, organizar o sarau); a participação prioritária de homens nas primeiras frente às posições relegadas historicamente às mulheres; a atenção e consideração superiores recebidas pelas falas dos homens; o senso comum de que mulheres agem mais por emoção do que por razão; a tendência de homens serem vistos e tratados como lideranças e porta-vozes de qualquer mobilização; etc.

Sei que vi vários desses mecanismos atuando em mim e não sei até que ponto soube lidar com eles, mas me parece essencial identificar que existe toda uma rede de fatores por trás do que cada pessoa sente como sua “vergonha” ou sua “desinibição” para falar e agir em público. Isso não é dom, é uma construção; e não é “a essência de fazer política”, é só mais uma das tarefas que todo mundo é capaz de se apropriar. É tarefa do movimento saber dar espaço e estimular a criação de mecanismos de participação e expressão que subvertam essas lógicas.

6. Próximos anos: mesma luta, novas estratégias.

O desmonte da Educação Pública está em curso. Desde o fim da mobilização, onde discutíamos o corte de 12 bilhões de reais, houve mais uma tesourada de que atingiu concursos públicos, reajustes salariais e Ministérios inteiros. Até mesmo as políticas sociais que eram a bandeira do governo como o Ciências sem Fronteiras estão sendo cortados; o Minha Casa Minha Vida sofreu fortes cortes e o Bolsa Família tem seu valor defasado sem os reajustes inflacionários. Essa é a política neoliberal pela qual pressiona o grande empresariado e não existe disposição alguma do Governo em enfrentá-la, muito menos do PMDB, do PSDB ou da oposição golpista. Ou seja, aconteça o que acontecer no plano político, as Universidades vão abrir 2016 em forte crise e precisarão voltar à luta.

Nós estudantes temos potencial para reforçar essa luta, mas também temos vários limites. Os principais são a apatia e desinteresse de grande parte de nós; o foco tecnicista em nossa formação que nos enche obrigações sem relação com a realidade social e política; a radical desestrutura de poder na Universidade favorecendo docentes frente outros setores; as preocupações individuais com o próprio percurso no Curso em vez da preocupação com o próprio Curso e com nossa futura profissão; e os discursos de que não existe saída, de que estudantes são incapazes de entender e mudar a Universidade. Há outros menores, mas também essenciais: nossa dificuldade de articulação com outros setores da Universidade; nossa representação estudantil (DCE) contrária às mobilizações; a desintegração entre os cursos diurno e noturno na Biologia.

O que é certo, também, é que a conjuntura da Universidade ano que vem não será igual à de hoje; com essa mudança também precisam mudar nossas táticas. Esse semestre foi importante para sair da apatia e tatear nossas possibilidades, mas os novos caminhos pra avançar frente a esses limites vão surgir da criatividade e de manter os pés apoiados e os olhos atentos na situação do Curso e da UFSC.

7. Olhar pra trás e encontrar sempre onde que melhorar.

Política não é ciência exata, está mais para a arte do que para a matemática. Por mais que se analise pelo que foi conquistado ou produzido, nosso sucesso ou fracasso envolve muitos outros fatores de ordem mais subjetiva, envolve empolgação, satisfação, mística. Estou sendo elogioso à nossa mobilização porque realmente acho que ela foi impressionante e temos que estar felizes com o que foi feito.

Porém, enxergar apenas as vitórias é também o melhor caminho de encontrar cada vez menos delas. O que permite que a gente avance, enquanto pessoas e enquanto movimento, é a crítica e autocrítica. Saber reconhecer os erros é a melhor forma de se aproximar dos nossos objetivos.

Brevemente, quero apontar onde acho que erramos ou poderíamos ter sido melhores:

  • Todo o processo pareceu muito abrupto para professores e estudantes que não foram na primeira Assembleia, o que criou um compreensível sentimento de rejeição ou suspeita;
  • A falta de divulgação é nociva para qualquer ação coletiva; deixar setores do curso pra trás na divulgação de atividades ou atas também cria sentimento de suspeita ou rejeição;
  • A participação não depende só de divulgação, é necessário pensar nas condições distintas. Tentamos pensar ao máximo no horário das pessoas que trabalham durante o dia e não podiam vir nas atividades. Mas precisamos também pensar nas motivações e percepções de estudantes que usam a UFSC apenas pela noite, pois quem não usa RU, LabUFSC ou vários outros serviços e atividades da Universidade vai ter uma noção diferente do processo de precarização que vivemos.
  • O acesso à informação e sua interpretação foram fatores cruciais das greves. Os boatos e informações falsas são reflexo direto da falta de transparência e da política da Reitoria em blindar o Governo. Além disso, o que era verdade em determinado momento era negado institucionalmente no outro. A sensação de que tudo são especulações ou invenções joga a favor da apatia e da resignação: nosso movimento precisa trabalhar com a melhor informação possível e não ser conivente com interpretações equivocadas, mesmo quando elas “joguem a nosso favor”.
  • Aliás, o que é “jogar a nosso favor”? Ninguém quer o RU fechado ou cortes nas bolsas de permanência. Informações positivas sobre as finanças e projetos da Universidade não “jogam contra nós”, elas são o que esperamos conseguir, desde que sejam verdadeiras. Construir o melhor entendimento sobre a situação da Universidade é papel de todos estudantes, favoráveis às táticas de luta ou não.
  • Paralisação ou greve são apenas táticas. Eu acho que são táticas essenciais para esse período, pois não vejo nenhuma outra forma de demonstrar força coletiva e pressionar o Governo de maneira eficiente. Mesmo assim, enxergar inimigos em quem é contra essa tática vai nos dividir e enfraquecer. Precisamos achar as melhores táticas entre todos, com argumentos e não com rótulos sobre as pessoas.

8. Seguir na luta de unidade, mas dar a nossa cara.

No âmbito da luta na Universidade como um todo, dá pra acumular muita coisa a partir de 2015. No plano estudantil, ficou evidente que não se faz mais luta sem colocar as políticas de permanência em destaque e sem prestar atenção nas demandas específicas: estudantes pais e mães, estudantes negras e negros, estudantes indígenas, estudantes LGBT*, políticas contra opressões. Isso não é à toa, nem é favor de ninguém, isso é reflexo dos novos sujeitos na luta estudantil e do novo perfil de estudantes na Universidade. Esses setores estão organizados e enfrentando a velha política com suas vozes, sua necessidade e sua ação.

Outro elemento de avanço em 2015 foi a articulação entre docentes, TAEs e estudantes, que serviu pra dar legitimidade de uma luta pra outra, mas principalmente para avançar nas pautas gerais da Universidade, reduzindo o espaço das demandas mais corporativistas e fortalecendo as que atingem a educação pública como um todo.

No entanto, é necessário reconhecer que essa costura se deu entre minorias: a enorme maioria de docentes, TAEs e estudantes se manteve alheia às Assembleias Gerais da Comunidade Universitária. Para estudantes que não estão familiarizados com o movimento estudantil, esses espaços não foram interessantes nem significativos. Mesmo nosso curso, um dos mais mobilizados, teve pouca presença e quase nenhuma participação real nas Assembleias. As falas repetidas, os discursos prontos, a ausência de reflexão política, assim como a insistência de organizações políticas em aparecer e hegemonizar os espaços, criam uma concepção de política para entendidos, com resultados frustrantes para quem quer mobilizar novas pessoas. Criticar essas características das Assembleias e a atuação de determinadas siglas políticas já é chover no molhado e, sinceramente, nos faz parecer impotentes frente a essa realidade. Na verdade, depende de nós superar essa política de palanque e impôr outra dinâmica, outros mecanismos que possam envolver e estimular a participação. Uma política para entendidos é uma política de fachada, nós já vimos que podemos fazer melhor do que isso.

Primeira Assembleia Geral da Comunidade Universitária, no início do semestre.

Primeira Assembleia Geral da Comunidade Universitária, no início do semestre.

9. Romper o binário governismo x direita.

A geração que é estudante hoje se tornou adulta em um Brasil governado pelo PT. Afinal, já são mais de 12 anos. Sabemos mais na teoria que na prática o que foi o PT histórico, das lutas sindicais e sem terra, assim como o que foram os governos do PSDB. Mas não digo isso pra tirar valor da nossa interpretação política, pelo contrário. Acho que isso ajuda a explicar o fenômeno de muitos professores e TAEs com histórico de militância pela educação, mas que não aderiram às lutas. A imagem daquele PT histórico constroi o mito do “governo em disputa” ou do governo que ainda pode dar uma guinada à esquerda, como prometeu nas eleições de 2014.

Não acho que isso seja possível. O petismo foi um governo de pacto de classes antagônicas que permitiu algumas medidas sociais enquanto beneficiava determinados setores da burguesia – aliados ao governo – aos custos de nossa desmobilização e apassivamento. Agora o tempo de consensos acabou, não existe mais margem para todos lucrarem e o governo escolheu seu lado de forma inequívoca: é o lado de Joaquim Levy e dos banqueiros, da Kátia Abreu e dos latifundiários, das grandes construtoras; não é o nosso.

Essa posição dúbia sobre a conjuntura e o medo de ir pra luta pelo receio do “uso político” da greve foi um fator que nos enfraqueceu em 2015. Ano que vem, não sabemos quem estará na Presidência nem quem vai estar na Reitoria e isso pode mudar bastante o quadro e a disposição de professores e TAEs. Porém, sabemos que as lutas vão partir do acúmulo desse ano, acúmulo do setor que manteve a independência e deu combate. Quem fez greve em 2015 não era pelo impeachment, pelo contrário, era quem sabia que a classe trabalhadora tem força e que sua mobilização não pode ser manobrada tão facilmente. Era quem sabia que “Fora EBSERH” não vira “Impeachment já” porque a privatização da saúde pública é justamente o programa da direita.

A conjuntura de 2015 já dá mostras de que nossas batalhas serão ferrenhas por vários anos daqui pra frente. O que pode mudar o jogo, mexer as peças a nosso favor, é apenas nossa organização, construção e luta. Diz o ditado: se você não se organiza, é porque tem alguém organizando você. Se a Universidade não se mexer, o projeto de desmonte e privatização que vem de cima é quem vai dar a linha daqui pra frente.

10. A mudança concreta se expressa nas relações sociais.

Ou, dito de outra forma, as mudanças estruturais e institucionais são apenas formas de assimilar ou responder às mudanças nas relações sociais. O tecnicismo do nosso currículo, a hierarquia institucional de professores dentro da Universidade, a separação gigantesca entre a UFSC e a sociedade que a circunda não são fatores independentes, mas são reflexo das relações capitalistas e dominantes na sociedade. Isso não é dizer que vamos mudar o mundo de forma individual, através da forma como vemos as coisas ou tratamos as pessoas. É dizer que somos também constituídos pelo meio social, mas não somos reféns dele: agimos e transformamos o mundo que nos faz ser quem somos.

Nossa mobilização vai mudar esses fatores mais enraizados e profundos da dinâmica social? Não acho que seja possível responder agora, mas acho que podemos prestar atenção em algumas peças no tabuleiro, a ver se mexeram ou não. Penso, primeiro, nas relações professor-aluno na sala de aula. A maioria das disciplinas do Curso tem um currículo oculto de apassivamento e hierarquia transmitidos pelo modelo escolar: a autoridade docente; as respostas prontas dos exercícios; o livro-texto como limite do conhecimento; o disciplinamento dos corpos nas cadeiras; a limitação do movimento no trajeto ao banheiro. Subverter as relações de poder na sala de aula – assim como subverter o abismo entre teoria e prática, fruto da hierarquia entre trabalho intelectual e manual – seria a maior vitória da mobilização. Acho que temos indicações e possibilidades nesse sentido.

Temos duas áreas onde tivemos discussões ricas e podemos concretizar esses avanços. A primeira é a discussão sobre a reforma curricular, onde já está bem estabelecida a ideia de exigirmos disciplinas que tratem de temas étnico-raciais, de gênero e relações sociais de opressão em nossa realidade, assim como valorizar o papel da extensão. O tema do currículo é extenso e possibilita vários caminhos para quem quer enfrentar o marasmo intelectual e o tecnicismo vigentes, assim como desvirar nossos corpos que estão de costas para a realidade social – só temos indicações por enquanto, há muitas respostas a se encontrar.

Outro debate que ganhou força em nossa mobilização é a extensão universitária. Identificamos o enorme descaso com a extensão e a maquiagem de atividades acadêmicas como extensão (chegando ao ridículo de incluir a participação em bancas acadêmicas). A extensão é patinho feio na Universidade porque não dá pontos no Lattes e não é vista como prioridade para docentes que fecham os olhos ou sequer conhecem a realidade social da maioria brasileira. Por outro lado, já temos algumas gerações de estudantes em nosso curso que se questionaram e, através do Centro Acadêmico, GEABio ou outras iniciativas, produziram seus próprios projetos de extensão com perspectiva popular e crítica. Teremos outros?

A dinâmica das lutas sociais é sempre de fluxo e refluxo: muitas vezes após grandes mobilizações as coisas parecem esfriar por completo. Há fatores compreensíveis para isso, como cansaço, problemas acumulados, desgaste das polêmicas enfrentadas, necessidade de sedimentar e reavaliar o que foi feito. Essa análise, escrita no momento em que me afasto do Centro Acadêmico e finalizo o curso, faz parte da minha maturação sobre o que vivemos e busca evitar que a rica experiência se perca. Não sei se o movimento continua e para onde vai, mas saio tranquilo e confiante na galera. Só vai!

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