A visita de Pepe Mujica a Florianópolis

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e celebridade para determinada esquerda, está em Florianópolis.

O que me incomoda é ver quanta gente enxerga os avanços recentes naquele país como fruto da benevolência do “presidente mais pobre do mundo” e não como resultado da luta e mobilização social no país. Essa empolgação (que às vezes chega à adoração) só mostra como está difícil enxergar nossa força coletiva e fazer pelas nossas mãos o que a nós diz direito.

Ir de fusca para o trabalho não é relevante quando se está destruindo enormes áreas de preservação para mineração e para portos de águas profundas. Quando estive na região de Rocha, no Uruguai, vi as comunidades se mobilizando contra esses projetos governamentais que destruíam suas terras.

Doar parte do salário também não é relevante quando as políticas de governo permitem o custo de vida estourar, penalizando os mais pobres. O governo lá também criminaliza o protesto como aqui, nos últimos anos foram várias pessoas presas. Eles também ocupam militarmente o Haiti.

A legalização do aborto é fundamental. A legalização da maconha também. Mas espero o dia em que vamos lotar auditórios para ouvir falar os movimentos que se mobilizam por essas pautas, as mulheres, a população negra, as pessoas que são vítimas dessas políticas de Estado – e não um chefe de Estado.

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Comentário sobre o Rio Doce e o crime ambiental da Samarco/Vale/BHP

Ontem a televisão estava ligada passando uma reportagem sobre o crime ambiental da Samarco/Vale/BHP. Eu estava no computador, sem prestar atenção, até que um pescador ribeirinho do Rio Doce – agora destruído pela lama contaminada – começou a cantarolar na entrevista “oh meu rio doce, doce são os seios, da morena flor…” Me arrepiei.

Por alguma coincidência do destino, ouço essa música desde que era criança em Jaguaruna/SC, uma das mais tocadas no som do meu pai, que nunca foi mineiro mas também “levou sua mocidade pras velhas cidades e praias do sul”.

Eu não tinha percebido ainda que era o mesmo rio. E não é só isso. O Rio Doce é uma influência direta por trás do Clube da Esquina também, cantado em “Canoa, canoa” e vários outros clássicos da música brasileira.

Se a morte do rio que eu só conhecia pelo ouvido já me jogou pra baixo, nem consigo pensar o siginificado para quem cresceu nele, quem viveu dele, de quem foi Rio Doce.

A devastação não é só ambiental, é também cultural, histórica, espiritual. Esse sistema podre de espoliação da natureza, de sugar nosso trabalho, esse capitalismo que nunca será verde, não tem nenhuma consideração com a gente. A gente também não deve ter nenhum compromisso com ele. Que seja varrido por completo.

Comentário sobre #meuamigosecreto no Facebook

Estou totalmente angustiado com os relatos ‪#‎meuamigosecreto‬. Tenho certeza que a campanha vai dar muito impacto. Leio todos os relatos como se falassem sobre mim… e certamente alguns realmente são. Não conversei com nenhum cara sobre isso, mas tenho certeza que é a sensação de muitos por aí também. É impossível não olhar pra si mesmo e se questionar.

Quero dizer pra vocês que conheço muito bem a vontade de escapar do julgamento, seja respondendo, ignorando ou desmerecendo as denúncias de qualquer forma que for possível. Mas esse sentimento, meus caros, nos impede todo o crescimento e transformação. A gente precisa encarar a crítica de peito aberto.

Da série de importantes lições e estímulos que nos tem dado a construção revolucionária do povo curdo (Solidariedade à Resistência Popular Curda), além da auto-organização e libertação das mulheres, está o grande respeito dado à prática da crítica e da autocrítica.

Dizem que nas reuniões e assembleias, qualquer um pode passar por um processo de crítica onde precisa ouvir em silêncio o que todas e todos os companheiros têm a dizer sobre você. E pronto: digere em silêncio. Por outro lado, o exercício de quem faz a crítica também é reconhecido, visto como contribuição e auxílio na construção de novos valores a cada compa e à formação de uma nova sociedade.

Ando pensando muito sobre isso. Pra mim, contrasta com algumas tendências muito fortes em nossa sociedade, que nos impedem de ouvir e principalmente de mudar. A maior é essa urgência em se explicar ou se defender de qualquer acusação, na postura defensiva que eu mesmo sinto lendo os relatos da campanha. Não dá pra considerar de verdade a crítica da outra pessoa enquanto sua única preocupação é se defender.

Essa postura anda lado a lado com uma noção de pureza, onde qualquer crítica que recebemos demonstra um problema em nossa essência ou nossa moral, algo que nos marcará para sempre, por isso precisa ser rejeitado de alguma forma.

O exercício contínuo da crítica e autocrítica parte de ideias contrárias: as pessoas se criam socialmente, atravessadas pelo todo que é nossa realidade e nossa cultura. Além disso, estamos em perpétua transição, descontrução e construção. Não é questão de perdoar ou ignorar as opressões ou falhas cometidas, mas justamente nos tornar cada vez mais responsáveis por nossas ações e erros. Isso só se realiza de peito aberto, com coragem de ver as repercussões e impactos do que a gente faz.

Tá cada vez mais óbvio que temos muito a ouvir.