Comentário sobre #meuamigosecreto no Facebook

Estou totalmente angustiado com os relatos ‪#‎meuamigosecreto‬. Tenho certeza que a campanha vai dar muito impacto. Leio todos os relatos como se falassem sobre mim… e certamente alguns realmente são. Não conversei com nenhum cara sobre isso, mas tenho certeza que é a sensação de muitos por aí também. É impossível não olhar pra si mesmo e se questionar.

Quero dizer pra vocês que conheço muito bem a vontade de escapar do julgamento, seja respondendo, ignorando ou desmerecendo as denúncias de qualquer forma que for possível. Mas esse sentimento, meus caros, nos impede todo o crescimento e transformação. A gente precisa encarar a crítica de peito aberto.

Da série de importantes lições e estímulos que nos tem dado a construção revolucionária do povo curdo (Solidariedade à Resistência Popular Curda), além da auto-organização e libertação das mulheres, está o grande respeito dado à prática da crítica e da autocrítica.

Dizem que nas reuniões e assembleias, qualquer um pode passar por um processo de crítica onde precisa ouvir em silêncio o que todas e todos os companheiros têm a dizer sobre você. E pronto: digere em silêncio. Por outro lado, o exercício de quem faz a crítica também é reconhecido, visto como contribuição e auxílio na construção de novos valores a cada compa e à formação de uma nova sociedade.

Ando pensando muito sobre isso. Pra mim, contrasta com algumas tendências muito fortes em nossa sociedade, que nos impedem de ouvir e principalmente de mudar. A maior é essa urgência em se explicar ou se defender de qualquer acusação, na postura defensiva que eu mesmo sinto lendo os relatos da campanha. Não dá pra considerar de verdade a crítica da outra pessoa enquanto sua única preocupação é se defender.

Essa postura anda lado a lado com uma noção de pureza, onde qualquer crítica que recebemos demonstra um problema em nossa essência ou nossa moral, algo que nos marcará para sempre, por isso precisa ser rejeitado de alguma forma.

O exercício contínuo da crítica e autocrítica parte de ideias contrárias: as pessoas se criam socialmente, atravessadas pelo todo que é nossa realidade e nossa cultura. Além disso, estamos em perpétua transição, descontrução e construção. Não é questão de perdoar ou ignorar as opressões ou falhas cometidas, mas justamente nos tornar cada vez mais responsáveis por nossas ações e erros. Isso só se realiza de peito aberto, com coragem de ver as repercussões e impactos do que a gente faz.

Tá cada vez mais óbvio que temos muito a ouvir.

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