Considerações sobre o ato na SC401

Texto publicado no facebook após o ato “Parar a SC401! Chega de Mortes!”, organizado de forma independente por ciclistas de Florianópolis no dia 29/01/2016. A manifestação aconteceu uma semana depois da morte de Simoni Bridi, que foi vítima de um carro em alta velocidade na rodovia enquanto voltava de bicicleta do trabalho, durante a madrugada. O ato contou com mais de 400 pessoas e chegou a trancar a rodovia estadual por cerca de 15 minutos nos dois sentidos. A carta de reivindicações pode ser lida na descrição do evento, aqui.

Antes de tudo, queria saudar todas e todos que construíram o ato e estiveram presentes, foi realmente um momento bonito e marcante na luta em defesa da bicicleta e da mobilidade urbana em Florianópolis. Éramos mais de 300 pessoas no ato! O esforço de quem divulgou o evento, convidou pessoas, preparou os materiais usados durante o ato, é sempre imprescindível.

Como acredito que podemos e precisamos fazer muito mais, queria fazer algumas sugestões e críticas, no espírito de quem assume junto os erros e procura soluções pra avançarmos juntos.

1. Quem faz a segurança do ato somos nós! Todas e todos queremos que o ato seja seguro e receptivo para todo mundo que usa a bicicleta, incluindo famílias com crianças, pessoas mais velhas, pessoas que não usam a bicicleta diariamente, etc. Ao contrário do que muitos podem acreditar, não é a escola da Polícia Militar Rodoviária que vai garantir isso pra nós.

Eu estava no fim da bicicletada tanto na ida quanto na volta. Precisamos lembrar todo mundo que o morro do início da SC401 não é leve. Teve gente que precisou descer da bicicleta e empurrar, além de gente que sofreu muita pressão pra ir rápido e acabou passando mal. Todos nós somos responsáveis por quem está no ato e precisamos ir no ritmo dos mais devagares.

Quem dita o ritmo do nosso ato somos nós, não é a PMRv. Na subida para voltar do ato, ficamos para trás e fomos hostilizados e ameaçados pela PMRv, que chegou a jogar a moto em cima de nós, nos xingou e por fim nos deixou sozinhos para enfrentar a fila de carros irritados. Tudo isso porque uma companheira do ato estava passando mal e não conseguiu subir pedalando.

2. Foi a PMRv que insistiu em todos os momentos para o ato ir mais rápido, causando esses problemas. A função constitucional da Polícia é manter a ordem, o que no limite se choca com a função de qualquer ato, que é subverter um pouco da ordem para chamar atenção e pressionar por alguma exigência. Ou seja, a gente precisa estar um pouco menos preso a tudo que a polícia pede, sabendo que o objetivo dela é minimizar nosso impacto.

Nesse sentido, acho que o momento mais simbólico, empolgante e eficiente foi onde tomamos todas as pistas dos dois sentidos da SC401. A causa é justa e urgente, precisamos abrir essas brechas para demonstrar nossa força. Não é querer incomodar não, é porque já estamos cansados de não ser ouvidos!

Aliás, os homens do ato que acham que são a própria polícia e gostam de ficar mandando em todo mundo, liberando pistas e acelerando nosso bonde, precisam parar com a atitude autoritária e entender que o ato é feito pelos ciclistas, dentro dos nossos objetivos.

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3. Essa “coincidência organizada”, essa junção espontânea de nossas vontades e necessidades em um ato é linda. No entanto, precisamos nos organizar melhor. Um ato apenas não vai dar resultado. Só que essa articulação não pode se dar por baixo dos panos ou entre “grupos de confiança”.

Precisamos de uma reunião aberta para conversar coletivamente e não devemos voltar pra rua sem antes tirar algumas diretrizes sobre: a) pauta de demandas do movimento, b) coordenação de táticas para atingi-las (quantos atos estamos dispostos a fazer, divulgação, abaixo-assinado, intervenções, etc), c) pessoas responsáveis para dialogar com a PMRv sob uma linha decidida coletivamente, e d) pessoas responsáveis para falar com a mídia sob uma linha decidida coletivamente.

4. Nós que estivemos nas últimas semanas organizando atos contra o aumento da tarifa de ônibus estivemos juntos nesse ato e estaremos nos próximos. Estamos convencidos que a exploração do transporte público está intimimente relacionada aos demais problemas de mobilidade da cidade e que temos muitas demandas conjuntas entre ciclistas e quem anda de busão. A mais óbvia delas é que a levamos em faixa hoje no ato: mais tarifa significa mais carros e menos mobilidade.

Convidamos todas e todos interessados em discutir a luta por mobilidade na cidade, considerando o histórico e importância da luta contra a tarifa em Florianópolis, pra um diálogo solidário sobre nossos próximos passos. Além disso, chamamos também pra somar no Bloco de Carnaval Pula Catraca, que vai acontecer dia 9/fev, às 16h30, organizado pela Frente de Luta pelo Transporte Público e pelo Movimento Passe Livre Floripa:
https://www.facebook.com/events/1685263138381672/

Já temos uma data marcada para seguir em nossas reivindicações, é hora de nos organizar melhor, manter a divulgação e seguir nessa luta que começou bem. NENHUMA MORTE A MAIS!

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