Por que tem uma bandeira do MST no CABio?

Nessa semana, li novamente uma discussão que já vi acontecer várias vezes e senti necessidade de falar sobre isso: a política sobre bandeiras e cartazes no Centro Acadêmico. Não foi um reencontro de incômodo nem de cansaço. Acho que a discussão é fundamental e não quero encerrar ela pra sempre. O que espero é, humildemente, sistematizar algumas informações pra que ela continue de outro patamar no futuro – mas que continue, não que seja silenciada.

Eu não quero falar aqui como o super-veterano, até porque acho a transformação é fundamental. Nada “precisa ser” apenas porque “sempre foi”. Mas justamente por ter entrado há muito tempo no curso, ainda me sinto mais calouro do que as pessoas novas me imaginam. Isso é porque eu tenho lembrança de muitas e muitos que vieram bem antes de mim, com quem aprendi muito do que o CA foi e continua sendo.

A ata da reunião conta que a bandeira do MST deve ficar lá porque “é histórica”. O argumento não tá errado, mas acho sim que ele tá mal explicado. Ser histórico não é garantia de nada. Tem certas figuras “históricas”, quase lendárias, no nosso quadro docente que já mereciam muito bem ter virado história de vez. Certas atitudes – como o assédio a estudantes – merecem ir pra lata de lixo da história.

Sem-terra

Essas bandeiras tão ali porque existe uma relação íntima entre a vida acadêmica e política do Centro Acadêmico da Biologia com as lutas camponesas. Uma memória afetiva e formativa para muitas e muitos que construíram esse CA antes de nós, assim como para algumas pessoas que seguem construindo ainda hoje. Eu sei que isso não tá explícito nem explicado em nenhum lugar, então queria fazer isso aqui. Não tenho uma lista completa, mas só de cabeça posso citar – entre pessoas que estiveram diretamente envolvidas no CA:

  • gente que fez pesquisa junto ao MST ou movimentos camponeses, como o Zique lá em 2008, que fez TCC junto da Natália Hanazaki num assentamento;

  • gente que fez estágio e deu aulas no MST através do PRONERA/UFSC, como o Chitão;

  • gente que puxou cursos e começou a Horta Agroecológica da Biologia, participando de encontros, festas e congressos com os movimentos camponeses, como a Ana Paula, Chitão, Mick e Mentira;
  • muita gente que participou e construiu o Estágio Interdisciplinar de Vivências (EIV-SC), conhecendo e lutando junto com os movimentos camponeses, como o Denso (2010), Ariana (2010), Sarah Py da UFAM (2010), Poca da UFRJ (2010), Mentira (2011), Daniel (2011), JG (2011), Jungle (2012), Giancarlo (2013), Sami (2014), Raíza (2014), Rinaldo (2015), Malu (2015), Bianca (2016), sem falar da lista de agregados queridos(as);
  • muita gente que participou dos EREBs desde 2009 até 2015, pois todos tiveram algum nível de relação com agricultura familiar, ecológica ou diretamente com os movimentos camponeses – como aliás foi o caso dos EREBs 2010 e 2013, organizados aqui na UFSC por dezenas de nós.

Nesse ponto, é bem importante esclarecer o que essas bandeiras não significam para nós. Elas não significam uma defesa do governo PT. Elas não significam roubo nem destruição. Também não significam algum dogma ou visão única. Inclusive, elas não significam nem que concordamos com tudo que esses movimentos fazem.

Eu não posso me atrever a dizer o que elas significam pra cada pessoa que eu citei acima, muito menos para as pessoas que trouxeram essas bandeiras para o CA (que eu nem sei quem foi, provavelmente veteranos dos meus veteranos). Mas eu quero dizer o que as bandeiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e da Via Campesina significam pra mim.

Antes de tudo, elas não são externas a minha formação. Elas representam muita coisa que eu aprendi durante a Universidade, fora e dentro de sala de aula. Por exemplo, elas falam sobre a necessidade histórica da conservação ambiental em um momento de escolha entre a sobrevivência ecológica ou o colapso. Falam sobre a manutenção dos solos férteis e a produção de alimentação saudável, sem agrotóxicos e sem transgênicos, como esses movimentos defendem e colocam em prática em larga escala.

Elas representam também a superação do resquício feudal que é a estrutura agrária brasileira, uma gigantesca demonstração de que não rompemos de vez com as capitanias hereditárias e a ultraconcentração de terra – pra quem não sabe, reforma agrária não é revolução comunista, é uma medida de justiça e também modernização econômica, adotada em ampla escala por países como… os EUA, mas não por nós.

Mais importante ainda, essas bandeiras representam pra mim um grito de esperança, porque elas são a demonstração de que “se tu lutas tu conquistas (é tipo assim!)“. Não é opinião, é fato: centenas de milhares de trabalhadores pobres saíram do desemprego no campo ou nas periferias das cidades e conseguiram terra para plantar e viver através da reivindicação feita nesses movimentos. Tem injustiça demais, gente fodida demais por aí, pra gente tirar da parede um símbolo que mostra que é possível mudar as coisas, mesmo sem ser ninguém, sem ter nada, sem passar por cima de outra pessoa.

maior reuniao do ca

Por fim, é óbvio que essas bandeiras representam também a esquerda. Só que elas não representam toda e qualquer esquerda, pois nem toda e qualquer esquerda nos serve. O que recebe o nome de “esquerda” aqui não é nada mais do que o povo pobre e oprimido, a partir das suas necessidades e da sua própria força e organização, buscando construir justiça social sem acordos de gabinete, sem abrir mão de princípios, sem promessas ilusórias. Elas representam um movimento popular, algo que eu sei que tem muito mais legitimidade com a gente, porque tá muito mais próximo do que eu acho que a maioria de nós acredita ou respeita.

Eu sei que nem toda esquerda é assim. Eu sei, inclusive, que nem tudo no MST é assim. Tenho uma simpatia ainda maior, mais forte, por camponeses indígenas do México, os zapatistas. A estratégia anticapitalista deles é um pouco diferente, do autogoverno autônomo no campo, da assembleia comunitária, da resistência paciente, do resgate da cultura e tradição indígena e insurgente. Os zapatistas expressam seu horizonte como um mundo onde caibam muitos mundos. Mas ainda que eu tenha muitas críticas pra fazer sobre esses movimentos das bandeiras do CA, elas não chegam nem perto de desmerecê-los, porque o que eles fazem na prática ainda é fundamental e urgente.

O que eu gostaria de ver no CA é o que eu gostaria de ver em todo lugar. Justiça na diversidade, crítica na união. Um CA onde não caibam opressões, onde não tenha “toda e qualquer bandeira”, mas onde tenha espaço pra diversidade de coisas que movem a nós, estudantes de biologia. Assim, quem sabe, ele possa fazer parte de construir un mundo donde quepan muchos mundos.

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