Semana da Biologia para quê? Semana da Biologia para quem?

Texto escrito no grupo aberto de facebook Biologia UFSC no dia 26 de setembro de 2016, dia de início da Semana da Biologia UFSC.

Nos últimos dias, foram publicadas posições da Coletiva Maria Bonita (http://goo.gl/UxbxAF) e do GEABio (http://goo.gl/CBeL9Q) sobre a Semana da Biologia 2016, assim como cobranças do CABio já haviam sido feitas antes. A discussão que veio de espaços amplos e que surge a partir de seus acordos é muito mais importante que opiniões individuais, então peço que leiam (e respondam) esses grupos antes de pensar nesse texto aqui.

Acho fundamental reconhecer que a Semana da Biologia não é um evento privado, ela existe por um acordo coletivo do Curso, com aval do Colegiado. Isso significa, inclusive, que estudantes e servidores docentes concordam em ficar uma semana sem aulas por causa dela. Além disso, ela leva o nome de nosso Curso e aparece com visibilidade para a sociedade dessa forma. É por isso que todas e todos estudantes têm direito e dever de acompanhar os rumos da Semana e podem, sim, questionar suas decisões, mesmo que não tenham ajudado a construí-la (por qualquer motivo que seja). A Semana é nossa, não é um presente da Comissão Organizadora. A Comissão tem todo o mérito por se dedicar para fazer o evento acontecer, mas não está acima nem separada do Curso.

As críticas precisam ser entendidas com maturidade, não como interesses escusos de desmerecer o evento inteiro ou atacar uma ou outra pessoa. Não penso que ninguém acredite que a Comissão Organizadora quer tirar lucro individualmente, nem que se dedicou apenas para excluir uma ou outra proposta. Dito isso, esses são os apontamentos que acho essenciais em três categorias: acessibilidade, transparência e conteúdo.

1. Acessibilidade

1.1 A Semana é cobrada. Em uma Universidade pública, atividades obrigatórias do Curso não poderiam ser cobradas. Se ficamos uma semana sem aulas e se temos tarefas de disciplinas que envolvem a participação na Semana, implementar cobrança impede a participação, assim como cria obrigação de pagamento para estudantes. Isso fere o caráter básico e constitucional da educação pública, assim como diversas outras iniciativas que estão surgindo de privatização. Isso precisa ser denunciado, não apenas contornado. A Semana Acadêmica da Biologia – UFRGS 2016, por exemplo, foi gratuita e tinha uma programação completa de 5 dias (http://goo.gl/ZuHo9Z). Muitas Semanas Acadêmicas da UFSC nesse ano também estão sendo gratuitas, como Ciências Sociais (http://goo.gl/thLHmG), Física (http://saf.sites.ufsc.br/), Direito (http://goo.gl/vUv188), etc.

1.2 As isenções são insuficientes. A iniciativa de criar isenções foi importante, mas a quantidade não supriu a demanda. Temos mais de 600 estudantes matriculados, sendo que mais de 1/3 ingressou por política de ações afirmativas e centenas possuem cadastro de vulnerabilidade socioeconômica. Essa tendência só vai aumentar e a Universidade precisa acolher esses sujeitos, para que não entrem pela porta da frente e “saiam pela porta da PRAE”, como já tem acontecido.

1.3 O dinheiro dos mini-cursos não é para quem ministra. Muitas pessoas se dedicam para oferecer mini-cursos na Semana que são cobrados, mas não ganham nada em troca. Se o dinheiro é para pagar passagens de palestras ou coffee break, não é justo colocar a cobrança em minicursos de pessoas que podem ou não concordar com os gastos realizados. Isso impede ou diminui a participação nos mini-cursos. Após insistência de alguns ministrantes, foi oferecida a possibilidade de realizar mini-cursos gratuitos, mas isso não foi amplamente divulgado para que outros ministrantes escolhessem essa opção.

2. Transparência

2.1 Nunca houve espaço presencial de avaliação da Semana 2015. Ano passado o custo dos espaços e a cobrança de crachá para frequentar as atividades foi muito questionado. Por esse motivo, a Comissão Organizadora de 2015 disse que faria uma reunião interna de avaliação e depois uma reunião aberta para avaliação coletiva. Essa reunião nunca aconteceu. No lugar, foi feito um questionário privado online.

2.2 O resultado do questionário aplicado nunca foi divulgado. Essa ferramenta não é adequada para avaliação, porque nada nos informa que as opiniões foram lidas, compreendidas ou levadas em conta. Não sabemos se nossa opinião foi útil, se poderíamos ajudar a implementá-la ou oferecer novas ideias. Não tem como construir junto sem conversa. Ou seja, questionário online não é avaliação coletiva. Mesmo assim, o mínimo que deveria ter sido feito também não aconteceu: divulgar as avaliações enviadas através do formulário (sem nomes).

2.3 A convocação para as reuniões foi (quase) inexistente. Estamos em um Curso com forte tradição de participação nas atividades e instâncias. Em muitos desses grupos, as reuniões são convocadas publicamente, chegando ao ponto de expor a ata semanal da reunião do Centro Acadêmico em um grupo aberto de facebook. A única resposta da Comissão Organizadora é que divulgou reuniões no início do ano. Mesmo assim, a grande maioria das pessoas não lembra de chamado algum. Isso está longe de ser suficiente para quem quer fazer um evento representativo e aberto, como deveria ser. Temos muitos meios eficientes de divulgação e convite utilizados por todas as outras instâncias, mas não pela Semana da Biologia.

2.4 Não sabemos quem está na Comissão Organizadora. Mesmo quem participa de espaços como o Centro Acadêmico e o Colegiado não sabe quem é a maioria da Comissão Organizadora, fora quatro ou cinco pessoas que se apresentaram. Por que não divulgar publicamente quem está fazendo a Semana?

3. Conteúdo

3.1 A Semana é para dar espaço a temas que não cabem no atual currículo. Trazer novas discussões, atividades, romper com os limites disciplinares. Também é um espaço para pensar a sociedade e a relação do nosso Curso com ela. Nesse sentido, não faz sentido ter palestras e mini-cursos com temas que já fazem parte de nossas matérias regulares.

A lista de assuntos possíveis e importantes é infinita, mas queria ressaltar alguns que considero necessários nesse momento em que vivemos:
– A concorrência para o cargo de biólogo (formado) no concurso da UFSC desse mês, para as vagas gerais, foi de mais de 350/vaga. Vamos discutir a crise econômica e nosso mercado de trabalho?
– Governo Temer prometeu recentemente a retomada das atividades da Samarco/BHP/Billiton, empresa responsável pelo maior desastre ambiental de nossa história no ano passado. Vamos discutir meio ambiente e legislação?
– Após decisão judicial, o Plano Diretor Participativo de nossa cidade voltou à discussão pública, com objetivo de ser fechado nos próximos meses, delineando os rumos da cidade pelos próximo 20 anos. Vamos discutir Plano Diretor e especulação imobiliária?
– A UFSC sediou esse ano o II Encontro Municipal de Agricultura Urbana. Florianópolis é uma das cidades mais organizadas nessa discussão no país, contando com dezenas de iniciativas. Vamos discutir agroecologia e cidade?
– O tema de duas Semanas Acadêmicas da UFSC mês passado foi “Empreendedorismo” (Arquivologia e Química). Vamos discutir função social da educação pública e o empresariamento da educação?
– As Horas Felizes e as festas universitárias estão proibidas, restando como opção de diversão os bares e as festas caríssimas da cidade. Vamos discutir uso do espaço público e lazer?
– As Ações Afirmativas estão chegando ao patamar de 50% das vagas nas Universidades. Ao mesmo tempo, a mortalidade da juventude negra cresceu 18% no Brasil nos últimos 10 anos. Vamos discutir o racismo estrutural e o papel da Universidade?

Além disso, gostaria de convidar toda a Comunidade Universitária para participar dos espaços da Semana da Biologia. É imoral ter espaços tão ricos acontecendo com cadeiras vazias, enquanto tem gente interessada na parte de fora.

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Ensaios e jogos de cena do Governo Temer

O Governo Temer precisa implementar terríveis retrocessos em nossa realidade já precária. Para fazer isso, ele tem usado ensaios táticos. A CNI soltou a ideia de jornada de trabalho semanal de 80 horas, sentiu a repercussão e falou que era engano. Recentemente, o Ministro do Trabalho falou em jornada diária de 12 horas; quando a reação foi instantânea, Temer veio dizer que não era bem isso.

Ele já voltou atrás no fechamento do Ministério da Cultura, assim como voltou atrás na demissão do presidente da EBC. No reajuste do Judiciário foi um vai-não-vai, até que foi. Agora nega a extinção das disciplinas de Artes, Sociologia, Filosofia e Educação Física, anunciada publicamente em coletiva de imprensa e presente no texto da Medida Provisória. (Assim como no caso da jornada de 12 horas, parece apenas maquiagem da mesma proposta sob novas palavras, não dá nem para chamar de recuo ainda.)

Não se tratam de equívocos ou gafes. Isso é um governo sem legitimidade das urnas, sem legitimidade das ruas, sem legitimidade das pesquisas, colocado no poder para implementar medidas extremamente impopulares.

Nosso trabalho é fazer o medo que Temer sente em cada ataque virar realidade. GOLPISTA PASSA MAL!

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A agenda de retrocessos vai tornar o país ingovernável, lutaremos até fazer os de cima pedirem por “Eleições Gerais”

Mais de 80% da população desaprova o governo Temer. Cunha (que é Temer) foi cassado. Houve manifestações diárias pelo país desde que ele assumiu. Tem uma greve geral marcada para o dia 22/09 – embora seja apenas paralisação de um dia e pouco articulada por enquanto, é uma primeira ação no lento movimento sindical.

Ao mesmo tempo, a capa da Veja dessa semana acusa o Governo de frear a Lava Jato – a novidade não é o intuito óbvio do PMDB, mas a disposição da revista mais reacionária do País em denunciar isso. Os setores mais radicais entre os ultra-liberais já largaram a defesa de Temer, como deixou claro (de forma vergonhosa) o Instituto Liberal de São Paulo, que o chamou de “mais um comunista”.

Temer pode manejar o apoio do “baixo clero” na Câmara e no Senado com favores políticos espúrios, mas os verdadeiros donos do capital não são subornados com migalhas. O presidente golpista só será mantido no poder na medida em que cumprir a promessa de cortar direitos trabalhistas e políticas sociais. É isso que seu governo significa.

Se Temer falha nessa tarefa, ele será jogado fora. O capital não precisa de um ou outro governante, ele precisa do ajuste fiscal. Já é possível ver contornos da linha que esses setores defenderão: críticas à crise econômica, críticas ao Temer, mas apontando a flexibilização e os cortes como a solução. Essa é a essência que eles não podem jogar fora. Temer é só fachada.

Nossa verdadeira batalha é defender que as medidas neoliberais não passarão de forma alguma, seja quem estiver na presidência. O primeiro passo é tornar o país ingovernável para esse golpista, radicalizar os atos, pipocar ocupações e greves por todo canto. Quando o povo tiver colocado seu peso através da ação direta, impedindo as propostas de Temer, as “Eleições Gerais” serão a forma que os de cima terão para tentar pacificar o país. Para nós, qualquer pacificação nesse momento significará forte perda de direitos.

É por isso que discordo do chamado por “Eleições Gerais” em nossos atos e defendo “Nenhum Direito a Menos”, “Rumo à Greve Geral”, “Pelo Poder Popular”, “Só a Luta Popular Decide”, qualquer chamado que aponte para a força dos setores oprimidos, não para mecanismos de forjar consenso, legitimidade e apassivamento como são as eleições.

O golpe aos direitos sociais só se derruba nas ruas, não nas urnas. Mesmo que essa plataforma perca mais uma vez as eleições, como Aécio perdeu, ela continuará com risco de ser implementada – assim como Dilma a vinha aplicando (mais timidamente, é claro). Por mais boa vontade que exista, nenhum governo é capaz de impedir os ataques aos direitos por si só. A única forma de fazer isso é na correlação de forças, com povo organizado na rua.

Manifestação em Florianópolis pelo Fora Temer e Nenhum Direito a Menos, setembro de 2016.

Manifestação em Florianópolis pelo Fora Temer e Nenhum Direito a Menos, 12 de setembro de 2016.