“Pint of science”? Ou uns gorós entre cientistas e o povo?

Em Florianópolis, SC, nos dias 15, 16 e 17 de maio, está acontecendo o evento mundial chamado “Pint of Science”, onde cientistas vão falar sobre seus trabalhos tomando cerveja com o público. A iniciativa se propõe a ser “um festival de divulgação científica sem fronteiras”. A divulgação das atividades pode ser vista aqui. Tentei publicar o seguinte texto no facebook do evento na cidade, mas a moderação não liberou a publicação até agora.

Mercado São Jorge? JACK & JACKS? Eu sou estudante de pós-graduação e nem eu consigo frequentar esses lugares! Queria saber quando os doutores vão divulgar ciência ali na pista de skate da Costeira, onde junta gente toda semana pra fazer umas rimas na Batalha Da Costeira. Quando vão falar lá no Coreto da Praça XV, onde o Mnpr/sc – Movimento Nacional População Rua – Santa Catarina se reúne com as irmãs e irmãos da rua? Quando vão levar os trabalhos lá no barracão da Ocupação Contestado, na Serraria (São José), onde tem mais de 100 crianças? Quando vão subir o Mont Serrat pra dar palestra lá no Colégio Marista?

Lá onde a Universidade não chega, onde o Neil deGrasse Tyson não chega, onde mal chega escola. Porque se ninguém for lá disputar o futuro dessa molecada, saibam que já tem gente lá com esse objetivo e não é pra dar uma perspectiva de vida nem de estudo, não.

Não é nem mesmo uma questão de alcançar o público. Minha hipótese é que a ciência brasileira precisa deixar um pouco de lado quem bebe cerveja artesanal gringa e tentar apresentar algo que interesse as pessoas que bebem Schin, quem toma energético Flying Horse, garrafão de vinho e destilado em garrafa de plástico, porque aí vai perceber o abismo entre a ciência produzida no país e as reais necessidades e interesses da maioria da população.

A gente não tá precisando de divulgação científica que só ensine o povo que o DNA é uma fita em dupla hélice, a gente também precisa que os cientistas aprendam com o povo o que é viver num país colonizado, na periferia do capitalismo; com 1/4 da população em moradias insalubres; com crescimento de doenças tratáveis há décadas, como tuberculose; com milhares de mortes por doenças tropicais pouco pesquisadas; com a maior taxa de uso de agrotóxico por pessoa do mundo; um país que não tem serviços públicos básicos, entre outros motivos, porque paga alguns bilhões anuais em licenças e royalties das tecnologias alheias. Existe uma ciência e tecnologia capaz de se comprometer com a longa tarefa de emancipação do nosso povo. Mas nunca vamos olhar para elas enquanto estivermos tomando chopp de 18 reais.

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