Angela Davis: A esquerda mundial irá falhar se não entender a feminização da força de trabalho

A entrevista abaixo foi publicada em dezembro de 2016 no site The Wire, ela foi realizada por Sidharth Bhatia com Angela Davis antes de uma palestra que ela realizou na Índia. O original em inglês pode ser lido aqui.

 


O capitalismo global ataca principalmente as minorias étnicas¹, diz a renomada ativista

Angela Davis. Crédito: Oakland Local/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Angela Davis é uma intelectual excepcional. Ela é uma acadêmica, ativista e escritora. Richard Nixon a chamou de “terrorista” e o governador da Califórnia, Ronald Reagan, pediu que ela fosse barrada de lecionar na Universidade da Califórnia. Nos anos agitados e politizados de 1960 e 1970, Davis – com sua marca Afro – era um nome que recebia o mesmo nível de reconhecimento, admiração e condenação. Ela era uma militante radical, líder do Partido Comunista dos EUA, além de ser muito próxima dos Panteras Negras.

Davis foi condenada por conspiração, ao ser relacionada à invasão armada de um tribunal na Califórnia nos anos 1970, onde quatro pessoas foram mortas. Ela foi presa por 16 meses, período no qual uma campanha mundial foi realizada exigindo justiça em seu nome. Enfim, ela foi liberta sob fiança e posteriormente absolvida de todas as acusações.

Celebrada em filmes, músicas e nas artes, Davis esteve diretamente envolvida nas campanhas contra o racismo e o que ela chama de “complexo industrial-prisional”. Em Mumbai para palestrar no memorial anual Anuradha Ghandy, ela conversou com The Wire sobre os movimentos de esquerda, o capitalismo global e a vitória de Trump.

Desde o movimento Panteras Negras nos anos 1960 até agora, como você vê o progresso das relações raciais nos EUA?

É importante não ignorar o progresso que aconteceu. Em vários sentidos as coisas estão melhores, principalmente devido às lutas realizadas por movimentos radicais ou progressistas e pelos movimentos antirracismo. Mas, ao mesmo tempo, o racismo não mudou substancialmente. Isso está relacionado à força com que o racismo está imerso nas estruturas da sociedade estadunidense. Enquanto a ênfase geralmente tem sido nas expressões individuais ou atitudinais do racismo, as formas institucionais do racismo permanecem intocadas. Muitas pessoas têm a impressão de que, por tanta violência policial que vemos hoje, isso é um fenômeno novo, mas a verdade é que esse fenômeno está conosco desde a época da escravidão.

O Partidos dos Panteras Negras foi fundado exatamente sobre a premissa de que era importante combater a violência policial nas comunidades negras. Embora o impacto dos Panteras Negras tenha sido profundo, particularmente no que diz respeito à consciência do papel da política e das prisões na manutenção do racismo nos EUA, essas estruturas não mudaram substancialmente.

Por que isso aconteceu?

Em alguns casos elas até pioraram, particularmente por causa da emergência do capitalismo globalizado, que teve como impacto a deterioração da vida de minorias étnicas e pobres como resultado do processo de desindustrialização, a saída de corporações dos EUA para partes do mundo onde os trabalhadores não estão organizados, onde a força de trabalho pode ser comprada muito mais barato. Isso causa uma perda para as pessoas que precisam de empregos no setor produtivo e muitas vezes elas recorrem a mercados clandestinos, o que as torna vulneráveis à polícia e às prisões. Isso é um exemplo de como condições históricas são agravadas pelo desenvolvimento do capitalismo e das ideologias neoliberais.

Mas nada substantivo mudou, mesmo durante os oito anos de presidência do Obama?

Eu acho que é importante não subestimar o significado da eleição de Obama. Mas não estou falando tanto da conquista do indivíduo, mas dos movimentos que foram responsáveis por alcançar o que parecia impossível. De forma que, se mudamos a perspectiva, do indivíduo que foi o primeiro presidente negro a ocupar o posto mais alto dos EUA para os movimentos que possibilitaram que tal pessoa fosse eleita, podemos enxergar além da esperança de eleger tal presidente – que ainda é o presidente dos Estados Unidos da América capitalista – para ter a esperança de um futuro muito diferente. E me parece que, precisamente porque essa esperança não pode ser cumprida através da presidência, esses movimentos cresceram e se expandiram. Eu gosto de pensar em movimentos produzindo a mudança histórica, não o indivíduo.

Foto de arquivo de Angela Davis (esquerda) e a cosmonauta russa Valentina Tereshkova (direita). Créditos: RIAN Archive.

Como a esquerda estadunidense e a esquerda global responderam a essas mudanças na economia mundial?

A esquerda, da forma que a conhecemos, por mais importante que tenha sido, não pode manter a mesma força a não ser que lide adequadamente com esses desenvolvimentos. Portanto, é importante para a esquerda reconhecer que a constituição das classes trabalhadoras mundiais é muito diferente agora. De várias formas, a esquerda ainda está lidando com essa noção das classes trabalhadoras como brancas, ou de homens brancos, como no caso dos EUA. Acho que o feminismo, o feminismo radical², o feminismo antirracista e anticapitalista nos ajuda a fazer a reconceitualização que é necessária para produzir uma esquerda mais alinhada com as vastas mudanças ocorridas na era do capital global, reconhecendo a feminização da força de trabalho, as mudanças estruturais na economia mundial, o fato de que alguns ramos produtivos são amplamente compostos por mulheres, ramos baseados no trabalho reprodutivo, no trabalho de cuidado e criação das crianças, serviço doméstico, assistência de saúde, etc. Me parece que, de várias formas, centrais sindicais por todo o mundo não estão dispostas a reconhecer essas mudanças. Organizar o desorganizado, nesse momento, é organizar as mulheres.

Existe um argumento, muitas vezes dito, que classe é mais importante do que raça. Aqui na Índia, a esquerda se focou mais em classe do que em casta, por exemplo.

Se olharmos para a última campanha presidencial nos EUA, Bernie Sanders vocalizou uma importante mensagem, uma mensagem anticapitalista. Ao mesmo tempo, ele não falou necessariamente às pessoas que estão no que as feministas chamam de intersecções. O racismo não é só uma função da classe. Não se pode presumir que abolir o capitalismo é também abolir o racismo. É preciso abandonar essas análises reducionistas e desenvolver análises mais complexas que reconheçam a sobreposição, a inter-influência e a intersecção dessas questões.

Por todo o mundo estão crescendo forças de extrema-direita e ultranacionalistas. Isso combina com o capitalismo neoliberal e globalizado?

Sim, especialmente o racismo – e formas de racismo, discriminação, como a xenofobia, sentimentos anti-imigrantes, ou, na Índia, o sistema de castas. Infelizmente a esquerda sempre presumiu que se deve focar na classe trabalhadora e todas essas coisas serão resolvidas. Mas políticos de direita são capazes de criar bodes expiatórios e guiar a compreensão popular dos impactos do capitalismo globalizado para esses bodes expiatórios: imigrantes, muçulmanos, pessoas negras, dalits. Pense na conferência de Durban em 2001 sobre racismo, onde a Índia insistiu que as castas eram uma questão interna e portanto não faziam parte das agendas mundiais de estratégias para combater o racismo.

Quando se olha para os EUA, onde aconteceram os protestos de Ferguson no verão de 2014, antes disso, havia uma relutância esmagadora em se falar sobre raça e racismo. A premissa era, uma vez que Barack Obama foi eleito, então passamos a uma era pós-racial. Agora, em menos de dois anos, raça está bem no centro do debate político nos EUA. Isso nos mostra como protesto, organização e mobilização na luta de massas pode causar guinadas em um período muito curto de tempo.

Os EUA acabaram de ter eleições marcantes com um resultado chocante. A grande maioria esperava que Hillary Clinton vencesse. Em sua opinião, o que deu errado para ela e os Democratas? Para onde os EUA estão indo agora?

Pouquíssimas pessoas previram a eleição de Donald Trump. Havia uma presunção generalizada de que, independente de quais fossem as afinidades políticas das pessoas, Clinton iria ganhar. Acho que até mesmo Trump pensou que Clinton venceria (risos). Minha sensação, e estou acompanhada por muitos militantes radicais aqui, é de que nosso papel era exatamente evitar a vitória de Trump, por causa do impacto disso na história futura. A Suprema Corte, por exemplo, a possibilidade de que sua gestão possa desfazer muito do que aconteceu na gestão Obama e foi produtivo, como o esforço para garantir que jovens imigrantes, sonhadores, tivessem a possibilidade de se tornarem cidadãos, permanecer nas escolas e outras instituições. Ou o sistema de saúde pública, mesmo que não tenha sido aquilo que deveria.

Clinton era muito relacionada a Wall Street e raramente fez algum comentário sobre a necessidade de abordagens anticapitalistas; ela só começou a mudar timidamente sua abordagem após ver o apoio que Bernie Sanders estava recebendo. Algumas das pessoas que votaram em Trump argumentaram que foram totalmente esquecidas pelo Partido Democrata, que Clinton nunca mencionou a classe trabalhadora. Ela falou sobre os mineiros como se fossem dispensáveis – “ah, sim, você precisa de um novo emprego”. Então reconheci que o apelo deveria ter sido direcionado à classe trabalhadora, às pessoas pobres, às minorias étnicas, que é de onde pode surgir um futuro progressista naquela parte do mundo, a possibilidade de uma aliança. Infelizmente isso não aconteceu e Trump conseguiu apontar para os muçulmanos, aos imigrantes e às minorias étnicas como bodes expiatórios. Aqueles que historicamente votaram nos Democratas mudaram seu voto para Trump porque ele estava dizendo que sua situação era o resultado direto dos muçulmanos, de imigrantes, e que chutá-los do país, construir um muro em nossa fronteira, poderia magicamente trazer seus empregos de volta.

Trump também está falando sobre a perda de vagas de emprego para a Índia, China, Indonésia. Ele vai trazer esses empregos de volta?

Eu não acho que ele vai trazer esses empregos de volta. Ele tomou uma posição anti-globalização, a qual muita gente respondeu. Mas o próprio Trump se beneficiou enormemente; todos seus negócios são baseados no capitalismo global. Então ele pode se envolver em alguns esforços simbólicos, como ele fez a respeito dos empregos em Wisconsin, mas não vai reverter o impacto do capitalismo global. A forma em que se pode lidar com essas mudanças não é pedindo retorno a uma época passada, não é falar sobre como fazer a América grande novamente, mas falar sobre o que é necessário nesse contexto e como é possível criar centrais sindicais mundiais e unidade para que os capitalistas dos EUA não possam apenas se mudar para outra parte do mundo e encontrar força de trabalho mais barata.

Você trabalhou com o tema da reforma prisional e criou o grupo Critical Resistance³ [Resistência Crítica] nos anos 1980. Ele surgiu com o foco nas prisões privadas, o “complexo industrial-prisional”, mas isso logo se tornou maior e pior. Isso está baseado em mais e mais prisioneiros e, portanto, mais e mais lucros.

Absolutamente. E esse é um âmbito onde se pode ver como racismo é parte dramaticamente integrante da estrutura. Pense em punição – o racismo sempre carregou a punição nos EUA, desde a época da escravidão. Nos anos 1980, com o ascenso da globalização que levou à desindustrialização, ao desmonte da assistência social, ao crescimento do neoliberalismo, quando havia uma premissa de que bens públicos deveriam ser transformados em estruturas que gerassem lucro privado, vimos o declínio das corporações na metalurgia, automobilística, etc. As primeiras pessoas a perder empregos foram aquelas que haviam conseguido emprego por último e aconteceu de serem pessoas negras e minorias étnicas.

Quando elas não puderam continuar construindo a vida que tinham antes, acabaram buscando outros meios e vimos o crescimento dos mercados clandestinos, que foi seguido então pela demanda por lei e ordem. Ao mesmo tempo, houve um fortalecimento em instituições, prisões, que capturam aqueles que se tornam dispensáveis. Durante os anos 1980, vimos um incrível crescimento nas populações carcerárias, um aumento na construção de prisões, a emergência de um mercado das prisões privadas e a emergência da corporativização do processo punitivo.

Emprestamos o termo complexo industrial-prisional do acadêmico-ativista Mike Davis, que o usou para se referir primeiramente à situação da Califórnia. Nós usamos o termo para apontar a nova confluência de punição, corporações, mídia, políticos; nós o vemos como um conjunto de relações, não apenas como a construção de novos complexos prisionais. As ligações são econômicas, políticas, ligações midiáticas que são todas altamente lucrativas. Os EUA possui agora um quarto de toda a população encarcerada mundial e a maioria é de minorias étnicas. Vemos agora esse modelo ser exportado para a Europa, América do Sul e África. Esse modelo é, de fato, um fracasso em lidar os reais problemas sociais e econômicos, mas agora a própria punição se tornou rentável.

¹: Angela Davis usa o conceito de “people of color”, um termo em inglês que engloba pessoas negras, asiáticas, indígenas e latinas. O termo é geralmente reivindicado por militantes desses grupos, ao contrário de “colored people”, que geralmente é utilizado apenas para se referir a pessoas negras, com caráter preconceituoso. Nessa entrevista, “people of color” será traduzido por minorias étnicas, entendendo que esses grupos foram historicamente considerados como minorias políticas, mesmo quando são a maioria da população. (N. da T.)

²: Nos EUA, o termo “radical” é muito utilizado para caracterizar um campo político mais à esquerda, da forma como utilizamos “combativo” ou “revolucionário”, então Angela não se refere necessariamente à corrente do Feminismo Radical. (N. da T.)

³: http://criticalresistance.org/

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