Polícia e escola junto não dá, a lógica é incompatível

Texto publicado aqui no facebook em 18/11/2017.


Por motivos de trabalho, frequentei alguns anos atrás uma escola pública de outro Estado que atende principalmente juventude de periferia. Em uma visita, tirei essa foto da parede de uma turma de primeiro ano do ensino médio. No canto, borrei o nome e o símbolo de uma facção da região, pois não importa nesse momento qual é.

As outras trabalhadoras que estavam visitando a escola logo repararam esses escritos, pois o nome da facção estava pixado por toda a sala. Soubemos que a Polícia Militar tinha entrado nessa sala de aula algumas semanas antes. Juntando com algumas informações sobre comportamento de estudantes, logo chegamos na hipótese de que aquela turma era “difícil”, que vários desses jovens estavam nas mãos do tráfico e que frequentavam a escola apenas para desafiá-la.

Mas ao conviver um pouco mais com eles, essa explicação se tornou cada vez mais insuficiente.

Um dia, perguntei para um dos professores da escola por que a PM entrou naquela sala. O que ele me disse é que não houve nenhuma denúncia específica naquela turma, apenas uma visita de rotina da polícia dentro da escola, onde entraram em várias turmas. O professor me disse que aqueles jovens não eram do tráfico, só pixaram a sala por indignação com a abordagem da PM na sala. Segundo ele, foi uma atitude de “revolta”.

Isso aqui é Brasil. Quem trabalha no serviço público ganha mal e precisa fazer do possível e impossível para cumprir suas tarefas sem a estrutura mínima necessária. A gente atende essa enorme parcela da população sem oportunidade nem direitos mínimos, das quais muitas vezes nós próprios fazemos parte.

Tem uma massa de jovens que não enxerga qualquer horizonte profissional, sua forma de cantar e dançar é criminalizada, sua pipa ou a pelada resistem em uma cidade que não reservou espaço nenhum para eles. Sua família adoece e sofre nas filas ou nos recibos dos remédios. Nossa escola, ainda que precarizada, é a migalha que o Estado oferece a essa juventude. A escola precisa reconhecer essa realidade para pensar qual estratégia é capaz de disputar um horizonte junto a esses jovens.

Mas aí vem a PM com outra estratégia. A nossa polícia é militar porque ela é uma estrutura de guerra. É por isso que ela trata a população negra e pobre como inimiga, por isso que ela mata tantos dos nossos e nossas. A polícia entra em uma escola de periferia como os EUA invadindo um país estrangeiro: busca controlar o território demonstrando sua presença e seu domínio pela força.

A consequência disso é previsível. Muito mais do que a escola, a PM é o símbolo do Estado, é o sistema. Mas o sistema só oprime, então a juventude é jogada para a força que se insurge contra esse sistema, infelizmente a única força que eles têm acesso cotidiano e que mostra capacidade de enfrentar esse sistema, as facções.

Tem quem acredite que esse é o único caminho possível para essa juventude periférica. Nós, que acreditamos na escola pública, não achamos. Temos outro plano para essa juventude, mas a invasão da PM em nosso espaço de trabalho é um obstáculo para nossa estratégia. A PM implementa uma lógica oposta à lógica da escola.

Essa juventude também acredita em outro caminho possível. Quem olhar a foto novamente, com mais atenção, vai ver outro escrito, feito a caneta, muito sutil: “Em vez de me prender, por que não voa comigo?” Fazer essa juventude voar é tarefa nossa, que a polícia fique longe disso.

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