Mochileiros pedindo dinheiro em ano sabático deveriam ter vergonha de si mesmos

O texto abaixo foi publicado por Radhika Sanghani em 12 de abril de 2017 aqui no site inglês Telegraph.


Mochileiros vendendo postais na Tailândia. Créditos: Twitter

Mochileiros vendendo postais na Tailândia. Créditos: Twitter

Dê uma volta pela Khao San Road em Bangkok e você verá pessoas fazendo fila nas ruas pedindo dinheiro. Só que não são locais sem teto lutando para alimentar suas famílias; são mochileiros “gap yah” [1] que excederam seu orçamento semanal com drinks no bar do hostel #fail #YOLO.

Há um recente crescimento de “begpackers” – isto é, mochileiros pedintes – em alguns dos países mais pobres do mundo. Sua tentativa de financiar suas viagens através da mendicância, de apresentações nas ruas e, ocasionalmente, da venda de suas fotos de férias tem sido capturada e compartilhada nas redes sociais por viajantes com mais consciência social – e por locais enojados.

A maioria dos “begpackers” tem sido avistada no Sudeste Asiático, pela rota turística bastante trilhada entre Tailândia, Camboja, Laos, Vietnã e Malásia. Uma mulher da Cingapura, Maisarah Abu Samah, ficou chocada de ver dois casais brancos vendendo postais e tocando música por dinheiro.

“Nós achamos muito estranho pedir dinheiro para que outras pessoas te ajudem a viajar”, ela disse The Observers no France 24. “Vender coisas nas ruas ou pedir dinheiro não é considerado respeitável. As pessoas que fazem isso estão realmente necessitadas: elas pedem para comprar comida, pagar pela escola de suas crianças ou pagar dívidas. Mas não para fazer algo visto como um luxo”.

Viajar pelo mundo – mesmo em hostels baratos com um orçamento de 5 euros por dia – não é um direito concedido por Deus; é um luxo que milhões nunca terão. Mochileiros podem até justificar seu comportamento para si mesmos dizendo que não estão forçando ninguém, que realmente não conseguem pagar seu próximo vôo ou que estão se apresentando por dinheiro ao invés de pedir, mas no fundo certamente sabem que isso que estão fazendo é errado.

Não há como passar tempo em algumas das áreas mais empobrecidas do mundo e não ver a diferença entre ter seu smartphone roubado e não ter o que comer. Mesmo se você está viajando exclusivamente para usar a hashtag #peregrinação e ir a uma festa rave, é impossível ignorar a realidade da pobreza.

Mochileiros não podem – e não devem – nunca sentir que merecem os trocados de alguém quando estão se apresentando ao lado de outra pessoa que não comeu uma refeição adequada há dias.

Pessoas que não reconhecem isso são o ápice do privilégio branco. Elas acham que vender postais por alguns dólares é “hilário” e uma ótima história de viagem, enquanto estão potencialmente roubando clientes de alguma pessoa local que precisa desse dinheiro mais do que elas podem imaginar.

Um amigo, atualmente viajando no Sudeste Asiático, me disse: “As pessoas escolhem torrar dinheiro com bebidas, refeições e atividades caras, depois se perguntam por que ficaram sem grana. Viajantes em ano sabático podem gastar o salário mensal de um local em apenas um dia. Eles não têm nenhum direito a reclamar ou pedir. É nojento e sem noção. Se estão realmente sem dinheiro, não tenho dúvida de que podem vender seus iPads”.

Há inúmeras alternativas para mochileiros que ficaram sem dinheiro, como trabalhar em hostels ou participar de programas onde eles podem trabalhar em troca de acomodação. Não há necessidade alguma de sentar com suas sandálias Birkenstock e calças de yoga com placas onde se lê: “Estou viajando pela Ásia sem dinheiro. Por favor apoie minha viagem” – um cartaz real com o qual um homem foi fotografado.

Em anos recentes, houve também um crescimento em pessoas fazendo financiamento coletivo de suas viagens. Não é mais surpreendente ver um casal pedir doações para sua 5ª lua de mel em vez de presentes de casamento, ou ver alguém abrir um Kickstarter pedindo ajuda para financiar seu programa de voluntariado no exterior.

É o equivalente moderno das pessoas pedindo para seus amigos assinar seu formulário de patrocínio na escola – e está passando do limite.

Mochileiros estão tão convencidos de que estão “retribuindo” ou “vivendo uma importante experiência cultural” que perdem de vista o que estão realmente fazendo: pedindo para as pessoas por uma injeção de dinheiro em seu feriado. Já é ruim quando turistas vão em “tours na favela” em países subdesenvolvidos e tiram fotos dos pedintes, mas quando se juntam a eles para poder pagar por seu rafting radical, eles levaram seu sentimento de direito e merecimento longe demais.


[1] “Gap yah” é uma expressão criada por uma série de vídeos britânicos no YouTube que você pode acompanhar aqui. Ela se refere a estudantes britânicos de classe média-alta que tiram um ano sabático para viajar antes de entrar na Universidade e escolhem locais de terceiro mundo com uma atitude de fetiche sobre a pobreza e a colonização. Nota da tradução.

Anúncios

2 comentários sobre “Mochileiros pedindo dinheiro em ano sabático deveriam ter vergonha de si mesmos

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s