A repercussão da execução de Marielle nas redes sociais é nossa

Texto publicado no facebook no dia 17/03/2018, dois dias depois das manifestações que tomaram o país por Marielle Franco.


A execução da vereadora mulher, negra, lésbica, socialista e favelada Marielle (PSOL), em poucos dias, gerou mais atenção e debate nas redes sociais do que o impeachment de Dilma.

No twitter, todas as principais postagens falavam sobre choque, comoção, e ressaltavam as pautas pelas quais Marielle sempre lutou. Foram 88% dos tweets positivos a sua memória. No facebook, também 75% das principais postagens expressaram tristeza e não ódio ou críticas, embora estas tenham existido em grandes números.

A vereadora é um símbolo muito diretamente ligado à esquerda, ao movimento negro e ao combate à intervenção federal. Como não podem ignorar o fato político, nem apagar o histórico de suas lutas, setores de extrema-direita estão fazendo tudo que podem para desmerecer Marielle com falsas notícias, ao mesmo tempo que buscam algum malabarismo argumentativo para defender o aumento da repressão que ela sempre combateu. Os dados acima mostram que não terão sucesso fácil nessa tarefa.

Infelizmente, enquanto isso acontece muitas e muitos entre nós estão generalizando alguns comentários dos setores punitivistas e anti-direitos humanos como se representassem a maioria do povo, ao contrário do que dizem os dados. Condenam nosso povo à caricatura fascista e, ao mesmo tempo, se condenam a ficar longe do povo. Pelo contrário, o momento é fundamental para fazer chegar a mensagem de Marielle o mais longe possível.

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Marielle vive na luta contra o genocídio do povo negro, a Polícia Militar e a intervenção federal

Texto publicado no facebook no dia 15/03/2018, dois dias após a morte da militante Marielle e um dia depois dos atos que tomaram o país.


A indignação popular pela execução da militante Marielle Franco (PSOL) tomou as ruas como pólvora no dia de ontem. De forma espontânea, mais de 30 cidades pelo país realizaram atos, cerimônias e vigílias. No Rio de Janeiro, mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas. O povo chorou, em luto coletivo, mas também cantou pelo fim do genocídio do povo negro, pela desmilitarização da Polícia Militar e pelo fim da intervenção federal no Rio de Janeiro. O assassinato da 5ª vereadora mais votada na segunda maior cidade brasileira não teria como ser ignorado: também tomou as notícias mundiais, durou 35 minutos na edição do Jornal Nacional e exigiu pronunciamentos de todas as grandes figuras políticas e candidatos a presidência (menos Bolsonaro, que se recusou).

Nesse momento, tudo indica a continuidade das manifestações massivas. O cenário lembra Junho de 2013, pela força, indignação e espontaneidade, mas também pelo comportamento que começa a apontar na mídia hegemônica e nas lideranças políticas. Em 2013, após as vitórias contra o aumento da tarifa em Porto Alegre e Goiânia, atos do Movimento Passe Livre em São Paulo foram brutalmente reprimidos pela Polícia Militar, levando atos espontâneos às ruas em dezenas de cidades, que começaram pela indignação contra a violência policial e as tarifas. Após um crescimento incontrolável das ruas, a mídia opta por não criminalizar mais as manifestações, mas por deturpar completamente seu significado, empurrando a pauta anticorrupção e outras demandas genéricas que diluíram as reivindicações.

Nesse momento, é fundamental que a esquerda saiba disputar o sentido dessa indignação, a partir do legado de luta que Marielle nos deixou: contrária à violência de Estado nas periferias e ao racismo estrutural. Temer aproveitou sua declaração de condolências para defender a intervenção militar (goo.gl/SNVG7m). A inteligência do Governo Federal veiculou a hipótese de um crime premeditado pelas facções para deslegitimar a intervenção (goo.gl/ByuZ6c). Na mídia e nas redes sociais, diferentes agentes tentam retratar a execução de Marielle como um crime comum, causado pela violência generalizada no RJ, que poderia ser resolvida com mais polícia ou uma possível intervenção nacional, como sugeriu o senador Jorge Viana, do PT (goo.gl/ohh4uQ). Exatamente o tipo de medida genocida contra qual Marielle dedicou sua luta e pela qual foi morta também.

Ainda que alguns setores nas ruas tentem colocar panos quentes dizendo que “não se pode especular” sobre uma execução sob o comando do Exército ou da Polícia – ou mesmo alegando que “não se pode achar que a polícia se mistura com o crime”, como colocou o deputado Marcelo Freixo (PSOL) de maneira infeliz (goo.gl/3qXiJN) – a comoção das ruas caminha para manter o legado da vida de Marielle, denunciando a violência da Polícia Militar contra as favelas, o genocídio do povo negro, repudiando a intervenção federal e todos os ataques contra os pobres. Esse é significado dos atos que a mídia não irá permitir, é esse o significado que precisamos sustentar.

Foto: Guilherme Prado / PSOL

Foto: Guilherme Prado / PSOL