Hoje a gente só disputa a superfície da Universidade

Texto publicado dia 17 de abril de 2018 no facebook.


Hoje a Câmara Municipal de Florianópolis ignorou a vigorosa greve dos trabalhadores da cidade, o consenso de todos os conselhos populares de saúde e a posição da maioria da população ao aprovar o caminho para a destruição do caráter público de nossa saúde e educação municipais. Essa é, sem dúvida, a pauta urgente. Amanhã, 13h, todas e todos precisam estar no centro da cidade.

Ainda assim, hoje eu não fui para o centro. Tinha que trabalhar e tinha, também, um dia agitado na Universidade. A UFSC foi palco de três eventos incríveis durante a tarde. Dentro do auditório da Reitoria, um dia inteiro de atividades e debates organizados pelos estudantes indígenas. Em frente à Reitoria, bandeiras dos movimentos camponeses indicavam o início da 5ª Jornada Universitária pela Reforma Agrária, com um dia inteiro discutindo a luta camponesa. E, em frente ao DCE, foi feita a inauguração de uma placa de memória sobre estudantes de SC presos durante a ditadura, alguns dos quais estavam lá, ou suas famílias. Tudo muito bonito e emocionante.

Os mais desavisados poderiam pensar que a Universidade é, talvez, uma bolha separada da guinada conservadora e autoritária da sociedade. Alguns falam até em doutrinação de esquerda na educação pública. Não enxergariam a verdade nem se batessem com ela na sua cara. Essas atividades de hoje, por fundamentais e incríveis que sejam, representam migalhas. Se custaram algo dos cofres da Universidade, foram centenas ou alguns milhares de reais. Atingiram algumas centenas de pessoas. O que os movimentos populares conseguem disputar das universidades públicas hoje é só a superfície.

Senão, o que estão produzindo as centenas de grupos de pesquisa da Universidade? Drogas para a Natura e indústria farmacêutica, refrigeradores mais eficientes para a Embraco, aviões para a Embraer, tecnologias de vigilância em massa para a Polícia Militar e Federal, para dar alguns exemplos da pesquisa de ponta da UFSC. Quantas parcerias público-privadas nós temos? Quantos milhares de trabalhadores qualificados estamos formando obedecendo todas as demandas do mercado? Quanto ganham os especuladores imobiliários quando a UFSC decide mandar milhares de estudantes ter aulas em uma área inóspita de Joinville, dentro de um parque industrial privado, que aliás vai custar por dia 10 vezes mais do que essas três atividades de hoje?

As críticas que uma bandeira do MST ou um canto de luta indígena na praça central da UFSC recebem, hoje, são totalmente desproporcionais, sem propósito. Nossa luta é para disputar nossas pesquisas, nossa formação, nosso orçamento, e fazer com que todo esse incômodo tenha sentido.

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