Uma nova greve de caminhoneiros é fake news?

Centenas de mensagens de whatsapp e áudios alegam que a greve dos caminhoneiros vai voltar no domingo ou segunda-feira. O que pouca gente parece entender é que essas mensagens não são verdadeiras, mas tanto quanto elas não são falsas.

Em uma categoria que se espalha nacionalmente, com rotinas de trabalho sem descanso, sem pontos de encontro coletivos para ter assembleias e sem um sindicato com grande legitimidade, só podemos tirar uma conclusão dessas mensagens: há pessoas tentando fazer com que os caminhoneiros parem novamente. Podem ser caminhoneiros, podem não ser.

Nesse sentido, esses avisos de greve não são um resultado da sua deliberação, são antes o lançamento da proposta, o início da discussão. Ela vem em formato de notícia, apresenta elementos falsos, mas chamar isso de “fake news” esconde a intenção dessa mensagem. Ela é um tipo de profecia que busca se auto-realizar e, em algumas situações, tem funcionado.

Um dos riscos de trabalhar com esse modelo de mobilização é a alta possibilidade da mensagem “não colar”, ou seja, não fazer as coisas acontecerem. Quando isso acontece, se reduz a crença no método, na própria possibilidade de outras mobilizações. Não é como na fábula em que a pessoa dá vários avisos falsos de que o lobo vai chegar, aí quando o lobo vem de verdade ninguém acredita. Nesse caso, ao avisar que o lobo vem e ele não aparece, efetivamente se dificulta com que o lobo (a greve) venha outra vez.

Por isso, eu não espero que essas mensagens “sejam” verdade. Eu espero que elas se tornem verdade. A luta precisa continuar para abaixar os preços da gasolina e do gás, para mudar a política de preços da Petrobrás e sua gestão neoliberal.

O tipo de repercussão dessas mensagens faz grande diferença, porque vimos o sentimento coletivo dos caminhoneiros de terem sido “traídos” por muitos de seus apoiadores, ou pelo “povo” (de forma genérica). Mas, no fim, quem faz uma greve é a categoria, em sua capacidade coletiva de parar. Os caminhoneiros, transportadores de quase toda a produção e riqueza no país, continuam com o poder nas mãos.

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Quem é contra a luta dos caminhoneiros?

Texto publicado no facebook em 28 de maio de 2018.


1. A luta é contra o aumento dos custos no trabalho dos caminhoneiros, que impactam diretamente nos custos de vida de toda a classe trabalhadora.

2. Reduzir impostos não vai reduzir o preço de forma consistente, enquanto eles estiverem atrelados ao mercado internacional. A única solução efetiva para reduzir o custo é tirar a gestão neoliberal de Pedro Parente da Petrobrás, que atrelou o preço ao mercado internacional (http://bit.do/ekCGs).

3. Temer não quer fazer isso porque depende do apoio do capital financeiro e busca privatizar a Petrobrás, como já tem feito quando cede a exploração de poços de petróleo para empresas estrangeiras e quando vende refinarias, como fez um mês atrás (https://bit.ly/2xk473M).

4. Bolsonaro diz que apoia a greve porque sabe que ela tem muito apoio popular. No entanto, ele é contra a vitória da greve porque também precisa do apoio do capital financeiro e tem adotado um programa cada vez mais privatista e neoliberal (http://bit.do/ekCHm). Observem que ele não vai criticar nunca a política de preços da Petrobrás, nem vai defender sua manutenção 100% pública.

5. Quadros do Exército dizem que apoiam a greve e estimulam os defensores da ditadura a estar junto com os caminhoneiros porque querem legitimidade para seu projeto autoritário e possuem interesse eleitoral nisso, já que dezenas de militares vão se candidatar esse ano (http://bit.do/ekCH4). No entanto, eles não têm interesse em defender a Petrobrás 100% pública, nem mudar sua política de preços, porque sempre estiveram de joelhos para o imperialismo dos EUA e os interesses de mercado. Ou seja, militares no poder seriam incapazes de resolver a pauta da greve.

6. Quem pode resolver a pauta da greve é o povo em luta. Ninguém lá em cima tem interesse em fazer o que precisa ser feito. Só vai acontecer quando nós, os de baixo, obrigarmos eles. O poder da classe trabalhadora não está no voto, está na capacidade de parar a produção, como estão ensinando os caminhoneiros e petroleiros. É hora de dar todo apoio e construir uma greve geral em defesa da Petrobrás 100% pública, de uma nova política de preços, conta o aumento dos custos de vida do povo pobre e contra qualquer saída autoritária. A única solução para a luta dos caminhoneiros está junto ao resto da classe trabalhadora, junto aos sindicatos e movimentos sociais que não têm rabo preso com o poder e podem defender a mesma pauta que eles.

Fotografia por Karol Moraes @retinainsurgente para Disparadora.

Relato da visita à greve dos caminhoneiros no posto Catarinão (Palhoça, SC)

Texto publicado no facebook em 27 de maio de 2018.


Estivemos visitando um importante posto de greve dos caminhoneiros ontem e hoje, na Palhoça (SC). Confirmamos algumas impressões e relatos: a categoria está muito mobilizada, tem apoio de setores muito diversos da sociedade e não está pensando no fim da greve. Quem tá puxando a luta são trabalhadores muito precarizados, embora tenham apoio de grande parte do empresariado. A categoria tem um rechaço muito forte à toda a mídia corporativa, especialmente a Rede Globo. Chega doação o tempo todo, gente passa buzinando, muitos carros com bandeiras e escritos em apoio aos caminhoneiros. Apesar do apoio formal de praticamente toda a esquerda, nos dois momentos em que estivemos lá não vimos mais nenhum militante organizado da esquerda junto (mas sabemos que tem gente se organizando para isso).

Acredito que dois dilemas são fundamentais nos rumos da greve.

Um deles diz respeito à pauta principal das condições de trabalho e de vida (preço do diesel, pedágio, etc). As falas e reivindicações estão girando muito em torno da redução dos impostos, o que interessa aos patrões, mas não vai resolver a alta de preços e vai certamente gerar falta ainda maior de investimentos em direitos sociais. Há caminhoneiros pautando a mudança na política de preços da Petrobrás, mas parece que eles ainda estão em minoria.

O outro dilema é o horizonte político para além do Fora Temer, que é consensual. A defesa de uma intervenção militar está bem presente, mas surge geralmente de forma externa, a partir de setores de extrema-direita que estão lá o tempo todo. Em geral, são aposentados e aposentadas de classe média-alta, que podem ser facilmente distinguidos da categoria. A adesão ativa da categoria aos militares varia muito em cada lugar, mas tem apoio significativo entre caminhoneiros na Palhoça, onde há várias faixas e escritos em caminhões sobre essa pauta. Quem levou esses materiais foi a extrema-direita organizada, mas tudo indica que há espaço para outras faixas de apoio com nossa perspectiva política, coisas como “toda força à luta da classe trabalhadora”, “Petrobrás a serviço do povo”, “fora Pedro Parente”, “intervenção popular já”, etc.

As propostas dos patrões (reduzir impostos) e da extrema-direita (intervenção militar) não possuem qualquer perspectiva de resolver a pauta da greve. Os militares não iriam enfrentar os interesses dos acionistas estrangeiros para abaixar os preços. Esse debate está em aberto para ser feito com a categoria e considero que há espaço para isso.

Enfim, acho que os resultados e consequências dessa greve precisam ser disputados e abaixo proponho algumas formas.

1. A pauta concreta são os custos de trabalho e de vida dos caminhoneiros, uma reivindicação com potencial de atingir toda a classe trabalhadora. Com a dimensão que a luta tomou, existe um risco de se perder essa pauta na discussão pelo horizonte político, entre “Fora Temer”, “Intervenção Já”, “Eleições Já”, etc. Assim como em junho de 2013, quando a esquerda teve que fincar o pé no tema das tarifas (e conquistou a gigantesca vitória de baixar a tarifa em mais de 100 cidades), penso que temos que lutar para manter a pauta do preço dos combustíveis e outros custos dos caminhoneiros. A greve precisa alcançar vitórias materiais.

2. A participação da esquerda junto aos pontos de greve é importante, mas precisa ser feita de forma coletiva e qualificada, a partir dos sindicatos, entidades e movimentos sociais. Apoio de verdade é levar comida, bebida, ajudar com a infraestrutura, logística, ajudar com mídia, divulgação e contatos internacionais. Ao contrário da extrema-direita, que tenta colonizar o espaço sem escrúpulos, colocando suas faixas e gritos por cima das reivindicações da categoria, a esquerda precisa estar lá garantindo a autonomia da categoria, que não pode ser tratada como gado. O objetivo lá é questionar as pautas da redução de impostos e da intervenção militar, dialogando para mostrar que elas não vão resolver as necessidades da categoria e, nesse processo, desmascarar a extrema-direita e os patrões oportunistas.

3. Mais importante ainda do que estar lá é a esquerda se mobilizar em seus espaços de atuação, com solidariedade à greve, mas colocando a sua agenda política nesse momento de confusão nacional. Essa agenda mínima inclui a mudança da política de preços da Petrobrás; a defesa da Petrobrás pública e a serviço do povo; e o repúdio ao governo neoliberal de Temer, repúdio à repressão da luta e às saídas autoritárias representadas nos militares. Quem é trabalhador sindicalizado, precisa cobrar seus sindicatos imediatamente para entrar em solidariedade e puxar greves (nas escolas e universidades também). Mobilizações nos bairros e atos com as nossas pautas também são fundamentais e podem ser organizados através dos movimentos sociais e organizações de esquerda.

Quem não for pra disputa vai ver a história passando batida e ela dificilmente vai virar pro nosso lado sozinha.

Hoje a gente só disputa a superfície da Universidade

Texto publicado dia 17 de abril de 2018 no facebook.


Hoje a Câmara Municipal de Florianópolis ignorou a vigorosa greve dos trabalhadores da cidade, o consenso de todos os conselhos populares de saúde e a posição da maioria da população ao aprovar o caminho para a destruição do caráter público de nossa saúde e educação municipais. Essa é, sem dúvida, a pauta urgente. Amanhã, 13h, todas e todos precisam estar no centro da cidade.

Ainda assim, hoje eu não fui para o centro. Tinha que trabalhar e tinha, também, um dia agitado na Universidade. A UFSC foi palco de três eventos incríveis durante a tarde. Dentro do auditório da Reitoria, um dia inteiro de atividades e debates organizados pelos estudantes indígenas. Em frente à Reitoria, bandeiras dos movimentos camponeses indicavam o início da 5ª Jornada Universitária pela Reforma Agrária, com um dia inteiro discutindo a luta camponesa. E, em frente ao DCE, foi feita a inauguração de uma placa de memória sobre estudantes de SC presos durante a ditadura, alguns dos quais estavam lá, ou suas famílias. Tudo muito bonito e emocionante.

Os mais desavisados poderiam pensar que a Universidade é, talvez, uma bolha separada da guinada conservadora e autoritária da sociedade. Alguns falam até em doutrinação de esquerda na educação pública. Não enxergariam a verdade nem se batessem com ela na sua cara. Essas atividades de hoje, por fundamentais e incríveis que sejam, representam migalhas. Se custaram algo dos cofres da Universidade, foram centenas ou alguns milhares de reais. Atingiram algumas centenas de pessoas. O que os movimentos populares conseguem disputar das universidades públicas hoje é só a superfície.

Senão, o que estão produzindo as centenas de grupos de pesquisa da Universidade? Drogas para a Natura e indústria farmacêutica, refrigeradores mais eficientes para a Embraco, aviões para a Embraer, tecnologias de vigilância em massa para a Polícia Militar e Federal, para dar alguns exemplos da pesquisa de ponta da UFSC. Quantas parcerias público-privadas nós temos? Quantos milhares de trabalhadores qualificados estamos formando obedecendo todas as demandas do mercado? Quanto ganham os especuladores imobiliários quando a UFSC decide mandar milhares de estudantes ter aulas em uma área inóspita de Joinville, dentro de um parque industrial privado, que aliás vai custar por dia 10 vezes mais do que essas três atividades de hoje?

As críticas que uma bandeira do MST ou um canto de luta indígena na praça central da UFSC recebem, hoje, são totalmente desproporcionais, sem propósito. Nossa luta é para disputar nossas pesquisas, nossa formação, nosso orçamento, e fazer com que todo esse incômodo tenha sentido.

A repercussão da execução de Marielle nas redes sociais é nossa

Texto publicado no facebook no dia 17/03/2018, dois dias depois das manifestações que tomaram o país por Marielle Franco.


A execução da vereadora mulher, negra, lésbica, socialista e favelada Marielle (PSOL), em poucos dias, gerou mais atenção e debate nas redes sociais do que o impeachment de Dilma.

No twitter, todas as principais postagens falavam sobre choque, comoção, e ressaltavam as pautas pelas quais Marielle sempre lutou. Foram 88% dos tweets positivos a sua memória. No facebook, também 75% das principais postagens expressaram tristeza e não ódio ou críticas, embora estas tenham existido em grandes números.

A vereadora é um símbolo muito diretamente ligado à esquerda, ao movimento negro e ao combate à intervenção federal. Como não podem ignorar o fato político, nem apagar o histórico de suas lutas, setores de extrema-direita estão fazendo tudo que podem para desmerecer Marielle com falsas notícias, ao mesmo tempo que buscam algum malabarismo argumentativo para defender o aumento da repressão que ela sempre combateu. Os dados acima mostram que não terão sucesso fácil nessa tarefa.

Infelizmente, enquanto isso acontece muitas e muitos entre nós estão generalizando alguns comentários dos setores punitivistas e anti-direitos humanos como se representassem a maioria do povo, ao contrário do que dizem os dados. Condenam nosso povo à caricatura fascista e, ao mesmo tempo, se condenam a ficar longe do povo. Pelo contrário, o momento é fundamental para fazer chegar a mensagem de Marielle o mais longe possível.

Marielle vive na luta contra o genocídio do povo negro, a Polícia Militar e a intervenção federal

Texto publicado no facebook no dia 15/03/2018, dois dias após a morte da militante Marielle e um dia depois dos atos que tomaram o país.


A indignação popular pela execução da militante Marielle Franco (PSOL) tomou as ruas como pólvora no dia de ontem. De forma espontânea, mais de 30 cidades pelo país realizaram atos, cerimônias e vigílias. No Rio de Janeiro, mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas. O povo chorou, em luto coletivo, mas também cantou pelo fim do genocídio do povo negro, pela desmilitarização da Polícia Militar e pelo fim da intervenção federal no Rio de Janeiro. O assassinato da 5ª vereadora mais votada na segunda maior cidade brasileira não teria como ser ignorado: também tomou as notícias mundiais, durou 35 minutos na edição do Jornal Nacional e exigiu pronunciamentos de todas as grandes figuras políticas e candidatos a presidência (menos Bolsonaro, que se recusou).

Nesse momento, tudo indica a continuidade das manifestações massivas. O cenário lembra Junho de 2013, pela força, indignação e espontaneidade, mas também pelo comportamento que começa a apontar na mídia hegemônica e nas lideranças políticas. Em 2013, após as vitórias contra o aumento da tarifa em Porto Alegre e Goiânia, atos do Movimento Passe Livre em São Paulo foram brutalmente reprimidos pela Polícia Militar, levando atos espontâneos às ruas em dezenas de cidades, que começaram pela indignação contra a violência policial e as tarifas. Após um crescimento incontrolável das ruas, a mídia opta por não criminalizar mais as manifestações, mas por deturpar completamente seu significado, empurrando a pauta anticorrupção e outras demandas genéricas que diluíram as reivindicações.

Nesse momento, é fundamental que a esquerda saiba disputar o sentido dessa indignação, a partir do legado de luta que Marielle nos deixou: contrária à violência de Estado nas periferias e ao racismo estrutural. Temer aproveitou sua declaração de condolências para defender a intervenção militar (goo.gl/SNVG7m). A inteligência do Governo Federal veiculou a hipótese de um crime premeditado pelas facções para deslegitimar a intervenção (goo.gl/ByuZ6c). Na mídia e nas redes sociais, diferentes agentes tentam retratar a execução de Marielle como um crime comum, causado pela violência generalizada no RJ, que poderia ser resolvida com mais polícia ou uma possível intervenção nacional, como sugeriu o senador Jorge Viana, do PT (goo.gl/ohh4uQ). Exatamente o tipo de medida genocida contra qual Marielle dedicou sua luta e pela qual foi morta também.

Ainda que alguns setores nas ruas tentem colocar panos quentes dizendo que “não se pode especular” sobre uma execução sob o comando do Exército ou da Polícia – ou mesmo alegando que “não se pode achar que a polícia se mistura com o crime”, como colocou o deputado Marcelo Freixo (PSOL) de maneira infeliz (goo.gl/3qXiJN) – a comoção das ruas caminha para manter o legado da vida de Marielle, denunciando a violência da Polícia Militar contra as favelas, o genocídio do povo negro, repudiando a intervenção federal e todos os ataques contra os pobres. Esse é significado dos atos que a mídia não irá permitir, é esse o significado que precisamos sustentar.

Foto: Guilherme Prado / PSOL

Foto: Guilherme Prado / PSOL

Comentários sobre a condenação de Lula

Texto publicado no facebook em 25 de janeiro, escrito algumas horas depois da condenação de Lula no STF.

Vou arriscar umas opiniões aqui em cima da hora. Como toda análise apressada, pode se mostrar equivocada em pouco tempo, mas achei importante compartilhar.

1. Simpatizo com quem tá cobrando o PT por não ter mobilizado tanto nas greves e demais lutas contra os retrocessos (ou mesmo por tantas vezes ter boicotado e puxado o freio de mão das mobilizações). Mas acho que, nesse momento, esse argumento dá um poder pro PT que ele não tem mais.

Com meses de antecedência para a mobilização, gente vindo do País todo, em uma cidade e Estado de histórico do petismo, as fotos dificilmente mostram atos com mais de poucas dezenas de milhares. Para quem tá lutando pela sobrevivência política do maior ícone da esquerda brasileira das últimas décadas e seu partido de massas, é uma miséria. Como foi dito em outro lugar, “1/3 das intenções de voto é uma coisa, amplas camadas da população se mobilizarem em torno ao slogan ‘Eleição sem Lula é fraude’ é outra, bem diferente” (http://bit.ly/2rytBI4).

Fora a repercussão na bolha de facebook Mídia Ninja / MST / Brasil de Fato / Jean Wyllys, a verdade é que a movimentação foi fraca. Nos dias que antecederam o julgamento, o tema foi menos comentado no conjunto das redes sociais do que a pré-candidatura de Collor ou a (não)posse da nova Ministra do Trabalho (http://bit.ly/2BsgHe9).

2. Nem mesmo no período pré-eleitoral, nos discursos para animar a militância, Lula se posicionou de forma convincente de que iria desfazer os retrocessos do Governo Temer (http://bit.ly/2DyCGC1). Pelo contrário, se empenhou em refazer o arco de alianças com o MDB e afastar a imagem de “radical” (http://bit.ly/2wlq5Sd).

Como já vimos em 2014, é tático para o PT dar um discurso bem à esquerda daquele que tenta colocar em prática. Então não tem sustentação alguma achar que sua eleição era uma arma confiável ou estratégica para combater os retrocessos. Tudo indica um governo ainda mais subserviente às elites, caso ele aconteça (e ainda pode acontecer). Política não se faz só com vontade, muito menos com promessa, se faz com correlação de forças.

A arma para barrar os retrocessos é a única, a mesma que sempre foi: organização popular e luta nas ruas, nas greves e nas ocupações. É ela que faz a diferença, ela que transforma o impossível em alcançável, depois em vitória, é ela que nos oferece horizontes respiráveis. Independente de quem esteja lá em cima.

3. Do ponto de vista das elites, o julgamento fechava posição se era mais útil ter Lula dentro ou fora do jogo. Se a mobilização em sua defesa fosse forte, combativa, impactante, tudo que isso conquistaria era o lugar do PT novamente dentro do pacto de conciliação de classes junto com nossos inimigos.

Esse pacto se sustentou durante mais de 10 anos porque o PT prometeu e cumpriu acalmar os ânimos populares, desarmar as lutas combativas e dar estabilidade à exploração capitalista. Se mais gente tivesse ido às ruas em defesa de Lula, talvez esse papel voltasse a ser necessário às elites, mas não foi.

Quem tá fazendo memes do “acordão nacional, com Supremo, com tudo” nesse momento, tá esquecendo que o Sergio Machado disse assim pro Romero Jucá: “O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo. Esse país volta à calma, ninguém aguenta mais”. É nesse acordo nacional que as mobilizações iriam colocar o Lula de volta, se conseguissem.

Agora, para quem não quer dar estabilidade e vida fácil para quem nos explora e humilha, para quem não tem horizonte de conciliação de classes, Lula lá de volta não seria uma vitória, assim como Lula impedido de concorrer também não é.

4. Sobre o significado dessa condenação para o fortalecimento da repressão, é preciso responder que o Estado Democrático de Direito e a Constituição não foram rasgados agora. Pra uma parcela enorme da população, eles nunca existiram. Antes de ser vítima, o PT é um dos responsáveis por isso. Durante os anos de governo PT, o encarceramento da população negra e pobre explodiu, cresceu mais de 200%. O PT criou a Força de Segurança Nacional, a Lei Antiterrotismo, defendeu as UPPs, militarizou as cidades na Copa do Mundo, só para dar alguns exemplos.

A judicialização da política foi uma tática central dos setores golpistas desde o início da sua ofensiva, como a CAB e outros já apontaram no início de 2016 (http://bit.ly/2DAXWeG). Mas ela dependeu da conivência do PT, que não buscou democratizar o Judiciário durante todos seus anos de governo. Pior que isso, o golpe parlamentar foi facilitado pelo poder intocado das grandes corporações de mídia, servidas com concessões irrestritas e amplas remessas de dinheiro público pelo PT durante todos os anos de governo.

Por fim, a repressão e criminalização das lutas sociais foi também marca dos governos do PT, sentidas por todas e todos lutadores combativos nos últimos anos, com militarização, prisões, processos, invasões, que vieram do próprio PT ou que foram ignoradas por ele. O fortalecimento do Estado repressor e punitivo não depende do PT para seguir, isso está nítido. O que é difícil de acreditar é que seu retorno iria frear essa tendência.

Não vejo nenhum sentido de justiça, muito menos vingança, em ver Lula ser condenado. Mas é preciso que seja analisado o trajeto que nos trouxe até esse ponto e o papel do PT em cavar essa cova, porque precisamos aprender com os erros cometidos.

5. Apesar do esforço de tantas e tantos de nós, a esquerda não tem força hoje para puxar mobilizações de massa capazes de reverter os ataques sofridos pelo conjunto dos oprimidos, como a Reforma Trabalhista demonstrou. Superar essa incapacidade coletiva precisa ser prioridade.

A estratégia que o PT articulou durante décadas se demonstrou insuficiente desde sempre e desastrosa em seu fim. O que quiser se propôr a alternativa precisa passar por fora do PT, no mínimo, porque precisa passar por fora da conciliação de classes com empresariado, grande mídia e partidos burgueses, assim como precisa passar por fora da militarização e repressão política e por fora do aparelhamento e desarme dos movimentos sociais e das lutas combativas. Senão não é alternativa, é tragédia.

Essa é uma tarefa em construção, aberta a todas e todos dispostos. Nós, anarquistas especifistas da Coordenação Anarquista Brasileira – CAB, temos apontado a estratégia de construir um povo forte, ou seja, um conjunto das classes oprimidas capaz de se defender e avançar através de seus próprios instrumentos de luta, acumulando força social a partir da organização popular, ação direta e solidariedade de classe. Sem vender nossos princípios, sem descanso, sem desistir, continuaremos.