Carta a Patrícia

homenagem a uma desconhecida #1


te quiero porque tu boca
sabe gritar rebeldía
(mario benedetti)

É tempo de Escola Sem Partido (Escola do Partido Único), de Psicologia da sexualidade única (heterossexual), de consenso neoliberal na economia, de uma esquerda que insiste em uma estratégia única de vitória eleitoral através da conciliação com o poder. A gente precisa desesperadamente de dissenso. Precisamos das pessoas do contra.

Mas não é isso que temos construído.

Além da bomba, além da algema, além do processo judicial, além da violência patriarcal, além da ameaça de fome, da corda no pescoço, tem mecanismos mais sutis de manufaturar consentimento, normatizar, disciplinar os corpos, domesticar as ideias.

Quem aguenta ser, o tempo todo, a pessoa “radical”? Quando acaba a reunião, a assembleia, a aula, o almoço de família, quem permanece com o peso de ter trazido a discórdia, de ter levantando a crítica, quem segura o peso da responsabilidade pelo conflito? O que garante promoção de salário, nome em artigo, fim de semana na casa de praia, festinha open bar e open food, o que garante acordar de conchinha no domingo de manhã, é ser conveniente. Conivente. Congruente.

Taxar as pessoas “polêmicas”, “revoltadas”, construir seus muros de segurança e conforto com elas para fora, são escolhas políticas. Queimação implicitamente orientada por um projeto de sociedade que não é nosso.

É tarefa cotidiana, agora mais que nunca, produzir corpos, sujeitos e valores incômodos. Isso começa com a base material, estrutural, socialização dos meios de produção da crítica, mas está também na subjetividade. Precisamos agradecer, vibrar, acolher Pagu e seu crime sagrado de ser divergente. Vai ser desastroso estigmatizar a diferença, repelir o desassossego, afastar a pessoa que incomoda, porque incomodar está cada vez mais difícil.

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Ser uma força da Natureza

homenagem à metodologia de pesquisa #2


Uma seta e quatro letras de l-u-t-a.

Ser uma força da Natureza: implacável. Passível de derrota, mas não de desistência. A força da Natureza nem sempre vence, mas ela não se adapta. O mundo se adapta a ela. A força social é uma força natural.

Ser um raio, uma ventania, uma tormenta. A porra da própria gravidade. A chuva não se importa quem vai molhar, ela cai. Não concede, não vacila.

É o córrego que abre o cânion. O vento que desenha a montanha, mesmo que nunca a derrube. Aliás, nenhuma montanha dura para sempre.

Não se supera o Sol. Não se supera a maré. A onda transforma o rochedo em praia e continua.

O rio de Brecht que tudo arrasta. O vulcão não negocia, a lava leva o vilarejo. A avalanche deslancha megatoneladas de quinhentas casas duas mil pessoas todas as leis vaidades prazos vírgulas com a vontade da primeira pedra rolar rolar rolar.

Uma queimada só se impede na primeira chama. O cerrado vermelho em nuvens irresistíveis de calor e labareda.

Seremos um metero, uma força inimiga da NASA, da CIA, da GRANA. Ingovernável.

Projeto 2020

O texto abaixo foi circulado por e-mail em 22 de agosto de 2016, só entre pessoas de confiança, a partir das afinidades de ideias e práticas entre estudantes ou ex-estudantes de Biologia na UFSC. Agora que a situação de vida é outra, acho que dá para ter ele publicado aqui abertamente. A aposta nesse projeto de vida segue viva.


tenho 25 anos
de sonho e de sangue
e de américa do sul…
Amigas e amigos,

escrevo para vocês que compartilharam comigo momentos no CABio, GEABio e EREBs, principalmente. Para aquelas e aqueles, dentre nós, que já apontaram seus caminhos pra educação, ou que ainda não sabem que caminho trilhar.

Essa mensagem não existiria sem dois momentos simples, mas muito importantes: uma conversa (alcoólica) com a Mariah sobre projetos de vida e uma entrevista que eu respondi pra Bianca. Quem sabe esses momentos se tornam marcantes para mais gente?

Licença aqui para eu falar um pouco da minha vida.

Desde fevereiro estou dando aula em duas escolas de São José, na EJA e no ensino médio noturno. Uma escola mais central (Kobrasol) e uma escola na periferia (Zanellato). Também tô morando no Roçado (São José), um bairro pra lá da BR-101, feito de casinhas baixas, festa junina de bairro, cadeira de praia na calçada e tardes de domingo com pagode no volume máximo. Só na minha rua moram quatro estudantes que eu dou aula. Se eu ando pelos comércios do bairro, também sempre encontro alguns trabalhando.

Nas minhas turmas, a idade vai de 15 a 65 anos. Embora existam contextos bem variados, a maioria trabalha em empregos precários: faxineiras, seguranças, atendentes, ambulantes, ajudantes de cozinha. As pessoas que fazem a cidade acontecer. Muita gente pensa em fazer faculdade; mas, por uma perversidade da nossa sociedade, o acesso às faculdades privadas é mais fácil para eles.

Nas minhas turmas, tem pai, mãe e filho estudando juntos. Tem aluno surdo com intérprete em Libras. Tem aluno diagnosticado com TDAH, aluno que chega trincado da cocaína, aluna sem diagnóstico que precisa urgentemente de atendimento psicológico. Tem aluna trans. Tem muita, muita gente com dificuldade para interpretar textos básicos.

Eu estou muito feliz com o espaço da sala de aula e o convívio extraclasse com estudantes. Não posso dizer o mesmo da sala dos professores.

Professoras e professores pensam e falam mais sobre férias e sobre faltar aulas do que estudantes. A maioria está desgastada e desinteressada no que faz para viver. É o resultado de uma conta complexa que envolve a desvalorização social e financeira, as más condições de trabalho, falta de horizonte profissional, repetição e ritualização da prática docente, mas também a dificuldade ou incapacidade em criar uma sala de aula interessante e significativa. No limite, a sensação é de que a escola é uma prisão e ali você é o agente prisional. Se estudantes reclamam a cada vez que você entra em sala, é fácil de explicar o desconforto, estresse, crises de pânico e enorme número de professores em licença médica.

A rotina escolar também envolvem uma série de burocracias e rituais que todo mundo cumpre sem ânimo e sem reflexão. Parece um pacto de mediocridade, estimulado pela estrutura escolar e pelas direções, onde ninguém se questiona e nada se transforma, assim se evitam os incômodos e desconfortos. Tudo vira ponto, assinatura, chamada, nota e contabilidade. A equipe escolar está sempre ocupada com problemas e você é bem visto por passar despercebido, sem arranjar mais pepinos.

É claro que nem tudo está morto. Mas mesmo onde surgem ideias, debates ou projetos, às vezes não se encontra muita esperança. Em seis meses de trabalho, várias histórias me vêm à mente. Penso na vez em que a professora evangélica conseguiu apoio da Secretaria de Educação pra fazer a saída de campo no show gospel. Lembro do professor de história que defende cobrança na educação pública, para imitar o modelo que ele diz que conheceu na Alemanha. Os professores de esquerda, colegas de greve, chamando os alunos de “ignorantes” e “fascistas” por terem apoiado o Fora Dilma – saibam que professores falam tão mal dos alunos quanto vice-versa, no mesmo nível de refinamento. Teve também o professor aposentado explicando a posição social dos negros porque “não têm ambição” e “ainda vivem como caçadores nas tribos da África”. A diretora – indicada pela prefeita – que fez todo mundo trabalhar domingo pra levar estudantes na passagem da tocha olímpica.

Me chamou muita atenção quando estudantes me agradeceram por ser “imparcial” ou por “respeitar as visões deles”. Nunca dei “aula neutra” nem deixei de colocar opiniões controversas em sala. Junto com os exemplos acima, isso só me confirmou que o sentido da educação tá em disputa e essa disputa não é sutil. Mais importante ainda: essa disputa está em aberto, inclusive em aberto pra gente, e os impactos dela podem ser gigantescos.

Seis meses, 8 turmas, preciso reconhecer que as experiências ainda tão no começo. Mas já deu pra fazer bastante coisa.

Deu pra fazer debate sobre epidemia de zika discutindo falta de saneamento básico e direito ao aborto com todas as turmas. Discutir sexualidade falando sobre pessoas assexuais, lésbicas, gays, bi, trans, queer, pan, intersex. Discutir sexualidade falando sobre saúde física e mental, acesso às políticas de saúde – todo mundo é usuário do SUS –, consentimento, prazer. Dar apoio pra um aluno gay que tava sofrendo bullying, mesmo quando a Direção da escola disse pra “ele resolver os problemas sozinho”. Tirar tempo das aulas de genética para falar que cromossomo não define gênero nem sexualidade. Ler poesia sobre a África. Discutir a inexistência genética das raças, mas sua existência social bem concreta. Ler poesia sobre a violência policial. Apresentar leis de conservação ambiental, discutir especulação imobiliária e crescimento desordenado. Falar sobre espécies invasoras e extinções. Discutir alimentação saudável. Falar sobre drogas, redução de danos, legalização. Apresentar evidências da evolução e discutir relação ciência-religião. Mostrar que cientistas discordam entre si. Conversar sobre a greve. Convocar estudantes a participar da luta contra o aumento das passagens de ônibus. Fazer assembleia de avaliação das nossas aulas.

Dá pra fazer muito, muito mais coisa. Não é só o conteúdo trabalhado em sala de aula; a escola enquanto instituição é igualmente importante. Nenhum espaço hoje tem a capacidade de articular, juntar, mobilizar, oxigenar uma comunidade como a escola – no máximo os espaços religiosos, dependendo do local. A estrutura física, as festas escolares, o atendimento social, o diálogo com as famílias, o respeito da comunidade, a participação em conselhos de discussão e deliberação pública: tudo isso coloca a escola numa posição bem privilegiada para ser um agente de mudança social.

Existe uma disputa pelo aumento de democracia na gestão escolar, que é fundamental para que possa exercer esse papel – as eleições democráticas para Direção são novidade na rede. Ao mesmo tempo, é só pela enraizamento no espaço geográfico e social da escola que a gente pode entender as necessidades e potencialidades daquela localidade. Eu recém cheguei no bairro ao lado da escola, mas sei que esbarrar em estudantes pela rua, nos espaços de trabalho e convívio, já faz uma diferença real na participação e interesse pelas discussões e pela aula.

Quantos bairros da Grande Florianópolis não precisam discutir Plano Diretor, áreas de conservação, especulação imobiliária? Quantos precisam de um apoio para mobilizar na defesa de saneamento básico, áreas de lazer, mobilidade urbana acessível e sustentável? Quantas comunidades precisam discutir violência policial, violência LGBTfóbica e contra a mulher? Quanta biodiversidade não tá esquecida, quanta cultura e tradição sendo perdidas? A escola é um espaço para mobilizar isso tudo.

O Projeto 2020 é esse: trabalhar em alguma escola de bairro, morar na comunidade, criar laços e disputar um projeto de educação e um projeto de escola que criem um povo forte. Envolve disputar a sala de aula, o currículo, a juventude, mas também os bairros, os conselhos, as direções das escolas, as formações pedagógicas, as greves, o sindicato. Até 2020, quem tá no mestrado agora ou entrando ano que vem já vai ter saído; quem tá na graduação vai ter se formado ou quase, então já vamos ter um caldo bem grande. Pra quem tá na Universidade ainda, já tem muita disputa pra fazer na valorização da licenciatura, na extensão universitária e na (auto)formação pra chegar em 2020. Pra quem tá saindo agora, tô juntão pra ajudar no que for preciso nessa transição assutadora entre Universidade e sala de aula.

Só pra mim, pessoalmente, esse projeto já vale a pena. Inclusive, vale mais a pena que tentar uma carreira acadêmica, sair viajando por aí, ir morar em outro país. Todos esses projetos de vida são legais e muitos de nós também pensamos neles, mas eu reconheci que esse aqui envolve mais elementos do que eu quero pra minha vida.

Só que essa iniciativa é do tipo onde atua a sinergia, multiplicação dos esforços, onde a soma de 1 + 1 é maior que dois. Se formos dois vai ser muito; se formos oito vai ser incrível; mas se formos vinte ou trinta educadoras e educadores espalhados pela Grande Florianópolis, aí vai ser revolução.

Quem tá junto?

poética-te

homenagem à metodologia de pesquisa #1


bola rola cinética
semeia sentido fonética
fome afronta ética
alforria alegria estética

natureza cultura mimética
cor tato flor sintética
casa caiu caquética

brancura urdidura asséptica
mente monofilética
poética-te

Não esqueçam das profundas veias que compartilhamos com os povos irmãos da América Latina

Texto publicado no facebook em 01 de setembro de 2017, acompanhando a nota da Federación Anarquista de Rosario sobre o desaparecimento de Santiago Maldonado e a luta mapuche.


Não esqueçam das profundas veias que compartilhamos com os povos irmãos da América Latina.

Faz um mês que uma força do Estado argentino sumiu com Santiago Maldonado, um militante que estava junto ao povo indígena mapuche. Não sabemos onde ele está e se está com vida. Hoje acontece uma grande manifestação, em diferentes lugares da Argentina, em defesa de sua aparição com vida.

Ontem, na cidade de Córdoba, a polícia invadiu dezenas de sedes sociais, ateneus, centros comunitários onde se organiza a esquerda argentina. As primeiras batidas foram nos espaços puxados por anarquistas. Foram detidos companheiros, além da apreensão de diversos materiais dos movimentos, faixas, baterias, até mesmo comida, numa tentativa de amedrontar o campo popular.

O povo argentino já respondeu que não vai se intimidar. Hoje tomam as ruas pela aparição com vida de Santiago Maldonado e pela autodeterminação do povo mapuche. Tomam as ruas, também, pela própria liberdade de lutar.

Nesse continente, fodido mas rebelde, os ataques dos de cima não costumam distinguir onde estão as fronteiras dos países. E nós? Nós não podemos esquecer das profundas veias que compartilhamos com os povos irmãos da América Latina.

Mais informações:
Aparición Con Vida Ya De Santiago Maldonado
Federación Anarquista de Rosario
Organización Anarquista de Córdoba

Proposta de Congresso do Centro Acadêmico de Biologia UFSC

O texto abaixo foi publicado em 30 de junho de 2016 no grupo interno de facebook do Centro Acadêmico de Biologia – UFSC. Como gostei da proposta, coloco ela aqui publicamente, quem sabe interesse a outros Centros Acadêmicos, em especial aqueles autogestionados. Esse comentário surgiu após uma longa discussão sobre uma decisão que havia sido contestada por sobrepôr acordos prévios do CA a respeito do uso do espaço físico.



Oi gente. Só estou fazendo uma disciplina, vou uma vez por semana pra UFSC, não tenho como ir nas reuniões do CA nem construir nada que eu vou propôr. Só pra deixar isso claro.

Eu venho alimentando um sonho, desenvolvendo ele, agora acho que chegou a hora de sugerir. Vai ser só uma sugestão, porque é isso que eu consigo fazer. (Tem a ver com essa discussão aqui.)

1. Quem disputa eleições para DCE ou Centros Acadêmicos costuma justificar esse esforço com o argumento de que “é um bom momento para fazer discussão política”. Eu acho que esse argumento tem fundamento.

2. Nosso modelo de autogestão tem sido interpretado muitas vezes como “cada um faz o que quiser”. Eu não acho que seja isso, mas eu entendo que essa impressão não vem à toa. Durante muitos anos, participei do CA e me envolvi em coisas através do CA sem ter apoio ou mesmo acordo com outras pessoas que frequentavam as reuniões.

3. A situação “2” é positiva porque permite um CA amplo, onde junta vários interesses distintos: quem quer organizar Bio na Rua organiza, quem quer participar do Conselho participa, quem quer pensar a calourada pensa, quem quer ir pra Ponta do Coral vai, etc.

4. Porém, a situação “2” é ruim porque pode criar um CA sem identidade, sem posições coletivas e, consequentemente, um espaço de representação individual e não coletiva.

Exposto esse problema, surge a pergunta: de que forma o CA pode tomar decisões e expressar opiniões de forma mais legítima, representativa e confiável? E de que forma podemos discutir e aprender juntos para chegar nessas posições?

Eu pensei no seguinte modelo.

5. O CABio continua sendo uma autogestão, sem eleições, reuniões abertas, decisões em reunião (pra mim não deveria precisar de consenso, só maioria de votos, mas não quero comprar essa discussão agora).

6. Porém, periodicamente (sugiro uma vez por ano), se organize um “Congresso do CABio”, um espaço de assembleia amplamente divulgado, com antecedência, realizado num horário acessível, onde se votem TESES para o CA.

7. O que são teses? São propostas. “Por motivos A, B e C, o CA é favorável à terceirização do RU”. “Por motivos D, E, e F, o CA é contrário à presença da PM no Campus”. “Pelos motivos G, H, e I, o CA é contrário a emprestar o espaço para festas de outros cursos”. “Por motivos J, K e L, o CA defende a realização de avaliação docente independente feita por estudantes”. Etc, etc.

8. Algumas teses seriam contraditórias umas com as outras, se tudo der certo. Todas elas são apresentadas em site, grupo de facebook, etc, e existe um debate público. “Eu acho a tese 22 um absurdo, vamos lá no Congresso votar contra”, etc. Levamos tudo pro Congresso e votamos.

9. Ao final do processo, a gente teria algo similar a um “programa de chapa eleitoral”, mas discutido abertamente e aprovado pela maioria em assembleia. Isso iria reger as ações do Centro Acadêmico pelo período.

10. Seria necessário um prazo para construção das teses, depois um prazo para veicular essas teses e elas serem debatidas pelas pessoas, depois uma divulgação e registro das teses adotadas. Ou seja, isso envolve uma comissão organizadora do Congresso, que estabeleça datas, faça divulgação, organize a assembleia, etc.

11. É necessário também recuperar o Estatuto do CABio ou, melhor, escrever um Estatuto novo, que explique o funcionamento da entidade, que fale sobre instâncias de decisão, quórum, etc e que seja aprovado em Assembleia com muita gente. Poderia ser votado junto no primeiro Congresso.

Por que fazer tudo isso? Meu motivo principal para essa proposta é que eu acho que vai propiciar muito debate e discussão saudável e interessante no curso. Outros motivos são mobilizar mais pessoas pra participar do CA e dar mais legitimidade institucional pras nossas opiniões.

Que tal?

A reforma trabalhista passou

Texto publicado no facebook algumas horas depois da aprovação da reforma trabalhista no Senado, em 11/07/17.

A reforma trabalhista passou. Tem momento para o choro, o cansaço e a desilusão, sim, porque somos humanos.

Mas é necessário dizer para os milionários que apoiaram essa merda (e aos milionários que votaram nela) que não vai ter paz. Justamente porque somos humanos. Se vocês não conseguirem fugir para outro país, estejam preparados para o que é capaz de fazer quem passa fome, quem tá desempregado, quem está desesperado. Não vai ser bonito. Não vai ter segurança para nenhum de vocês aqui.

É necessário também falar às nossas e aos nossos. Companheira, companheiro, a luta não acabou. Justamente porque somos humanos. Nenhuma opressão vai passar impune para sempre. Quem vê os seus morrendo, passando fome, sendo explorado até a última gota, vai tremer de indignação, assim como você já sentiu muitas vezes.

Pode chamar de raiva, de dignidade, de rebeldia, de amor: é um pouco de tudo isso. É lei da ação e reação, é instinto de sobrevivência. Mas, principalmente, é a matéria-prima da resistência que vai ressurgir. Da mesma forma que surgiu em cada canto desse mundo, em cada episódio histórico onde pisaram nos de baixo. Nenhum império durou para sempre.

É nossa tarefa, a partir de hoje, a construção de respostas coletivas e libertárias às nossas necessidades. Tarefa de contribuir para a confluência das rebeldias que certamente virão.

Que essa resistência surja do sangue quente, como tem que ser, mas que surja também com o aprendizado dos erros que nos trouxeram a essa situação. Até agora, sobrou gente pensando nas eleições e nos acordões, mas faltou gente cerrando os punhos de verdade contra as reformas. Daqui pra frente, não pode mais ter conciliação. Seremos ingovernáveis.