Angela Davis: A esquerda mundial irá falhar se não entender a feminização da força de trabalho

A entrevista abaixo foi publicada em dezembro de 2016 no site The Wire, ela foi realizada por Sidharth Bhatia com Angela Davis antes de uma palestra que ela realizou na Índia. O original em inglês pode ser lido aqui.

 


O capitalismo global ataca principalmente as minorias étnicas¹, diz a renomada ativista

Angela Davis. Crédito: Oakland Local/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Angela Davis é uma intelectual excepcional. Ela é uma acadêmica, ativista e escritora. Richard Nixon a chamou de “terrorista” e o governador da Califórnia, Ronald Reagan, pediu que ela fosse barrada de lecionar na Universidade da Califórnia. Nos anos agitados e politizados de 1960 e 1970, Davis – com sua marca Afro – era um nome que recebia o mesmo nível de reconhecimento, admiração e condenação. Ela era uma militante radical, líder do Partido Comunista dos EUA, além de ser muito próxima dos Panteras Negras.

Davis foi condenada por conspiração, ao ser relacionada à invasão armada de um tribunal na Califórnia nos anos 1970, onde quatro pessoas foram mortas. Ela foi presa por 16 meses, período no qual uma campanha mundial foi realizada exigindo justiça em seu nome. Enfim, ela foi liberta sob fiança e posteriormente absolvida de todas as acusações.

Celebrada em filmes, músicas e nas artes, Davis esteve diretamente envolvida nas campanhas contra o racismo e o que ela chama de “complexo industrial-prisional”. Em Mumbai para palestrar no memorial anual Anuradha Ghandy, ela conversou com The Wire sobre os movimentos de esquerda, o capitalismo global e a vitória de Trump.

Desde o movimento Panteras Negras nos anos 1960 até agora, como você vê o progresso das relações raciais nos EUA?

É importante não ignorar o progresso que aconteceu. Em vários sentidos as coisas estão melhores, principalmente devido às lutas realizadas por movimentos radicais ou progressistas e pelos movimentos antirracismo. Mas, ao mesmo tempo, o racismo não mudou substancialmente. Isso está relacionado à força com que o racismo está imerso nas estruturas da sociedade estadunidense. Enquanto a ênfase geralmente tem sido nas expressões individuais ou atitudinais do racismo, as formas institucionais do racismo permanecem intocadas. Muitas pessoas têm a impressão de que, por tanta violência policial que vemos hoje, isso é um fenômeno novo, mas a verdade é que esse fenômeno está conosco desde a época da escravidão.

O Partidos dos Panteras Negras foi fundado exatamente sobre a premissa de que era importante combater a violência policial nas comunidades negras. Embora o impacto dos Panteras Negras tenha sido profundo, particularmente no que diz respeito à consciência do papel da política e das prisões na manutenção do racismo nos EUA, essas estruturas não mudaram substancialmente.

Por que isso aconteceu?

Em alguns casos elas até pioraram, particularmente por causa da emergência do capitalismo globalizado, que teve como impacto a deterioração da vida de minorias étnicas e pobres como resultado do processo de desindustrialização, a saída de corporações dos EUA para partes do mundo onde os trabalhadores não estão organizados, onde a força de trabalho pode ser comprada muito mais barato. Isso causa uma perda para as pessoas que precisam de empregos no setor produtivo e muitas vezes elas recorrem a mercados clandestinos, o que as torna vulneráveis à polícia e às prisões. Isso é um exemplo de como condições históricas são agravadas pelo desenvolvimento do capitalismo e das ideologias neoliberais.

Mas nada substantivo mudou, mesmo durante os oito anos de presidência do Obama?

Eu acho que é importante não subestimar o significado da eleição de Obama. Mas não estou falando tanto da conquista do indivíduo, mas dos movimentos que foram responsáveis por alcançar o que parecia impossível. De forma que, se mudamos a perspectiva, do indivíduo que foi o primeiro presidente negro a ocupar o posto mais alto dos EUA para os movimentos que possibilitaram que tal pessoa fosse eleita, podemos enxergar além da esperança de eleger tal presidente – que ainda é o presidente dos Estados Unidos da América capitalista – para ter a esperança de um futuro muito diferente. E me parece que, precisamente porque essa esperança não pode ser cumprida através da presidência, esses movimentos cresceram e se expandiram. Eu gosto de pensar em movimentos produzindo a mudança histórica, não o indivíduo.

Foto de arquivo de Angela Davis (esquerda) e a cosmonauta russa Valentina Tereshkova (direita). Créditos: RIAN Archive.

Como a esquerda estadunidense e a esquerda global responderam a essas mudanças na economia mundial?

A esquerda, da forma que a conhecemos, por mais importante que tenha sido, não pode manter a mesma força a não ser que lide adequadamente com esses desenvolvimentos. Portanto, é importante para a esquerda reconhecer que a constituição das classes trabalhadoras mundiais é muito diferente agora. De várias formas, a esquerda ainda está lidando com essa noção das classes trabalhadoras como brancas, ou de homens brancos, como no caso dos EUA. Acho que o feminismo, o feminismo radical², o feminismo antirracista e anticapitalista nos ajuda a fazer a reconceitualização que é necessária para produzir uma esquerda mais alinhada com as vastas mudanças ocorridas na era do capital global, reconhecendo a feminização da força de trabalho, as mudanças estruturais na economia mundial, o fato de que alguns ramos produtivos são amplamente compostos por mulheres, ramos baseados no trabalho reprodutivo, no trabalho de cuidado e criação das crianças, serviço doméstico, assistência de saúde, etc. Me parece que, de várias formas, centrais sindicais por todo o mundo não estão dispostas a reconhecer essas mudanças. Organizar o desorganizado, nesse momento, é organizar as mulheres.

Existe um argumento, muitas vezes dito, que classe é mais importante do que raça. Aqui na Índia, a esquerda se focou mais em classe do que em casta, por exemplo.

Se olharmos para a última campanha presidencial nos EUA, Bernie Sanders vocalizou uma importante mensagem, uma mensagem anticapitalista. Ao mesmo tempo, ele não falou necessariamente às pessoas que estão no que as feministas chamam de intersecções. O racismo não é só uma função da classe. Não se pode presumir que abolir o capitalismo é também abolir o racismo. É preciso abandonar essas análises reducionistas e desenvolver análises mais complexas que reconheçam a sobreposição, a inter-influência e a intersecção dessas questões.

Por todo o mundo estão crescendo forças de extrema-direita e ultranacionalistas. Isso combina com o capitalismo neoliberal e globalizado?

Sim, especialmente o racismo – e formas de racismo, discriminação, como a xenofobia, sentimentos anti-imigrantes, ou, na Índia, o sistema de castas. Infelizmente a esquerda sempre presumiu que se deve focar na classe trabalhadora e todas essas coisas serão resolvidas. Mas políticos de direita são capazes de criar bodes expiatórios e guiar a compreensão popular dos impactos do capitalismo globalizado para esses bodes expiatórios: imigrantes, muçulmanos, pessoas negras, dalits. Pense na conferência de Durban em 2001 sobre racismo, onde a Índia insistiu que as castas eram uma questão interna e portanto não faziam parte das agendas mundiais de estratégias para combater o racismo.

Quando se olha para os EUA, onde aconteceram os protestos de Ferguson no verão de 2014, antes disso, havia uma relutância esmagadora em se falar sobre raça e racismo. A premissa era, uma vez que Barack Obama foi eleito, então passamos a uma era pós-racial. Agora, em menos de dois anos, raça está bem no centro do debate político nos EUA. Isso nos mostra como protesto, organização e mobilização na luta de massas pode causar guinadas em um período muito curto de tempo.

Os EUA acabaram de ter eleições marcantes com um resultado chocante. A grande maioria esperava que Hillary Clinton vencesse. Em sua opinião, o que deu errado para ela e os Democratas? Para onde os EUA estão indo agora?

Pouquíssimas pessoas previram a eleição de Donald Trump. Havia uma presunção generalizada de que, independente de quais fossem as afinidades políticas das pessoas, Clinton iria ganhar. Acho que até mesmo Trump pensou que Clinton venceria (risos). Minha sensação, e estou acompanhada por muitos militantes radicais aqui, é de que nosso papel era exatamente evitar a vitória de Trump, por causa do impacto disso na história futura. A Suprema Corte, por exemplo, a possibilidade de que sua gestão possa desfazer muito do que aconteceu na gestão Obama e foi produtivo, como o esforço para garantir que jovens imigrantes, sonhadores, tivessem a possibilidade de se tornarem cidadãos, permanecer nas escolas e outras instituições. Ou o sistema de saúde pública, mesmo que não tenha sido aquilo que deveria.

Clinton era muito relacionada a Wall Street e raramente fez algum comentário sobre a necessidade de abordagens anticapitalistas; ela só começou a mudar timidamente sua abordagem após ver o apoio que Bernie Sanders estava recebendo. Algumas das pessoas que votaram em Trump argumentaram que foram totalmente esquecidas pelo Partido Democrata, que Clinton nunca mencionou a classe trabalhadora. Ela falou sobre os mineiros como se fossem dispensáveis – “ah, sim, você precisa de um novo emprego”. Então reconheci que o apelo deveria ter sido direcionado à classe trabalhadora, às pessoas pobres, às minorias étnicas, que é de onde pode surgir um futuro progressista naquela parte do mundo, a possibilidade de uma aliança. Infelizmente isso não aconteceu e Trump conseguiu apontar para os muçulmanos, aos imigrantes e às minorias étnicas como bodes expiatórios. Aqueles que historicamente votaram nos Democratas mudaram seu voto para Trump porque ele estava dizendo que sua situação era o resultado direto dos muçulmanos, de imigrantes, e que chutá-los do país, construir um muro em nossa fronteira, poderia magicamente trazer seus empregos de volta.

Trump também está falando sobre a perda de vagas de emprego para a Índia, China, Indonésia. Ele vai trazer esses empregos de volta?

Eu não acho que ele vai trazer esses empregos de volta. Ele tomou uma posição anti-globalização, a qual muita gente respondeu. Mas o próprio Trump se beneficiou enormemente; todos seus negócios são baseados no capitalismo global. Então ele pode se envolver em alguns esforços simbólicos, como ele fez a respeito dos empregos em Wisconsin, mas não vai reverter o impacto do capitalismo global. A forma em que se pode lidar com essas mudanças não é pedindo retorno a uma época passada, não é falar sobre como fazer a América grande novamente, mas falar sobre o que é necessário nesse contexto e como é possível criar centrais sindicais mundiais e unidade para que os capitalistas dos EUA não possam apenas se mudar para outra parte do mundo e encontrar força de trabalho mais barata.

Você trabalhou com o tema da reforma prisional e criou o grupo Critical Resistance³ [Resistência Crítica] nos anos 1980. Ele surgiu com o foco nas prisões privadas, o “complexo industrial-prisional”, mas isso logo se tornou maior e pior. Isso está baseado em mais e mais prisioneiros e, portanto, mais e mais lucros.

Absolutamente. E esse é um âmbito onde se pode ver como racismo é parte dramaticamente integrante da estrutura. Pense em punição – o racismo sempre carregou a punição nos EUA, desde a época da escravidão. Nos anos 1980, com o ascenso da globalização que levou à desindustrialização, ao desmonte da assistência social, ao crescimento do neoliberalismo, quando havia uma premissa de que bens públicos deveriam ser transformados em estruturas que gerassem lucro privado, vimos o declínio das corporações na metalurgia, automobilística, etc. As primeiras pessoas a perder empregos foram aquelas que haviam conseguido emprego por último e aconteceu de serem pessoas negras e minorias étnicas.

Quando elas não puderam continuar construindo a vida que tinham antes, acabaram buscando outros meios e vimos o crescimento dos mercados clandestinos, que foi seguido então pela demanda por lei e ordem. Ao mesmo tempo, houve um fortalecimento em instituições, prisões, que capturam aqueles que se tornam dispensáveis. Durante os anos 1980, vimos um incrível crescimento nas populações carcerárias, um aumento na construção de prisões, a emergência de um mercado das prisões privadas e a emergência da corporativização do processo punitivo.

Emprestamos o termo complexo industrial-prisional do acadêmico-ativista Mike Davis, que o usou para se referir primeiramente à situação da Califórnia. Nós usamos o termo para apontar a nova confluência de punição, corporações, mídia, políticos; nós o vemos como um conjunto de relações, não apenas como a construção de novos complexos prisionais. As ligações são econômicas, políticas, ligações midiáticas que são todas altamente lucrativas. Os EUA possui agora um quarto de toda a população encarcerada mundial e a maioria é de minorias étnicas. Vemos agora esse modelo ser exportado para a Europa, América do Sul e África. Esse modelo é, de fato, um fracasso em lidar os reais problemas sociais e econômicos, mas agora a própria punição se tornou rentável.

¹: Angela Davis usa o conceito de “people of color”, um termo em inglês que engloba pessoas negras, asiáticas, indígenas e latinas. O termo é geralmente reivindicado por militantes desses grupos, ao contrário de “colored people”, que geralmente é utilizado apenas para se referir a pessoas negras, com caráter preconceituoso. Nessa entrevista, “people of color” será traduzido por minorias étnicas, entendendo que esses grupos foram historicamente considerados como minorias políticas, mesmo quando são a maioria da população. (N. da T.)

²: Nos EUA, o termo “radical” é muito utilizado para caracterizar um campo político mais à esquerda, da forma como utilizamos “combativo” ou “revolucionário”, então Angela não se refere necessariamente à corrente do Feminismo Radical. (N. da T.)

³: http://criticalresistance.org/

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Insurreições nas intersecções: feminismo, interseccionalidade e anarquismo

O seguinte artigo foi escrito pelas anarquistas estadunidenses Abbey Volcano e J. Rogue. O texto original encontra-se no livro “Quiet Rumours: An Anarcha-Feminist Reader” da editora AK Press, mas também pode ser lido aqui no portal Libcom.

Insurreições nas intersecções: feminismo, interseccionalidade e anarquismo

Uma crítica de concepções liberais da “interseccionalidade” e o esboço de uma abordagem anarquista e classista

Precisamos entender o corpo não como algo ligado ao privado ou a si próprio – a ideia ocidental de um indivíduo autônomo – mas ligado integralmente a expressões materiais de comunidade e espaço público. Nesse sentido, não existe divisão clara entre o corporal e o social; existe, no lugar, o que tem sido chamado de ‘corpo social’”.
Wendy Harcourt e Arturo Escobar [1]

mp087[1]


O nascimento da interseccionalidade

Em resposta a vários feminismos e esforços de organização feminista nos EUA, o Combahee River Collective [2], uma organização de feministas-socialistas negras e lésbicas [3], escreveu um comunicado que se tornou a parteira da interseccionalidade. A interseccionalidade floresceu da política do feminismo negro perto do fim dos anos 1970 e início dos anos 1980, e é geralmente entendida como uma resposta à construção do feminismo hegemônico sobre uma ideia errônea de “mulher universal” ou “sororidade” [4]. No coração da interseccionalidade reside um desejo de destacar a miríade de formas pelas quais categorias e locais sociais como raça, gênero e classe se interseccionam, interagem e sobrepõem para produzir desigualdades sociais sistêmicas; dada essa realidade, falar sobre uma experiência universal de mulheres era obviamente baseado em premissas falsas (e tipicamente refletia as categorias mais privilegiadas de mulheres – i.e., brancas, não-deficientes, “classe média”, heterossexuais, e assim por diante).

Inicialmente concebida sobre a tríade “raça/classe/gênero”, a interseccionalidade foi posteriormente expandida por Patricia Hill Collins para incluir locais sociais tais como nação, deficiência, sexualidade, idade e etnia [5]. Ao invés de ser conceitualizada como um modelo aditivo, a interseccionalidade nos oferece uma lente pela qual ver raça, classe, gênero, sexualidade, etc. como processos que se constituem mutuamente (isso é, essas categorias não existem independentemente uma da outra; pelo contrário, elas reforçam uma à outra mutuamente) e relações sociais que se apresentam materialmente na vida cotidiana das pessoas de maneiras complexas. Ao invés de categorias distintas, a interseccionalidade teoriza as posições sociais como configurações complexas e muitas vezes contraditórias, que se sobrepõem, interagem e interseccionam.

Por uma crítica anarquista da interseccionalidade liberal

A interseccionalidade foi, e geralmente ainda é, centrada na identidade. Embora a teoria sugira que as hierarquias e sistemas de opressão são interligados, se constituem mutuamente, e às vezes se contradizem, a interseccionalidade muitas vezes tem sido usada de uma forma que nivela hierarquias estruturais e opressões. Por exemplo, “raça, classe e gênero” são geralmente vistos como opressões que são experienciadas em uma variedade de formas/graus por qualquer pessoa – isso é, ninguém está livre de designações forçadas de identidade. Esse conceito pode ser útil, especialmente quando se trata da luta, mas as três “categorias” são muitas vezes tratadas apenas como identidades, e como se elas fossem similares porque elas são “opressões”. Por exemplo, é colocado que todos nós possuímos uma raça, um gênero e uma classe. Já que todos experienciam essas identidades de forma diferente, muitas pessoas teorizando sobre a interseccionalidade se referiram a algo chamado “classismo” para complementer o racismo e o sexismo.

Isso pode levar à noção seriamente confusa de que a opressão de classe precisa ser retificada por pessoas ricas tratando as pessoas pobres “melhor”, enquanto a sociedade de classes se mantém. Essa análise trata diferenças de classe como se fossem apenas diferenças culturais. Por sua vez, isso leva à limitada estratégia de “respeitar a diversidade” ao invés de lidar com a raiz do problema. Esse argumento impede a análise da luta de classes que vê o capitalismo e a sociedade de classes como instituições e inimigos da liberdade. Nós não queremos “nos dar bem uns com os outros” sob o capitalismo, abolindo o esnobismo e o elitismo de classe. O que queremos é derrubar o capitalismo e a sociedade de classes inteira. Nós reconhecemos que existem alguns pontos relevantes levantados pelas pessoas que estão falando sobre classismo – não queremos ignorar a estratificação de salários dentro da classe trabalhadora.

Organizar-se dentro da classe trabalhadora extremamente diversa dos Estados Unidos requer que reconheçamos e tenhamos consciência dessa diversidade. No entanto, sentimos que é inadequado unir isso com possuir poder sistêmico sobre outros – muita da chamada classe média pode ter relativa vantagem financeira sobre seus iguais de piores salários, mas isso não é o mesmo que explorá-los ou estar em uma posição de poder sobre eles. Essa análise de classe baseada na sociologia confunde ainda mais as pessoas, levando elas a achar, de maneira equivocada, que sua “identidade” como membro da “classe média” (um termo com tantas definições que se torna irrelevante) as coloca no time da classe dominante/opressora, contribuindo para a falta de consciência de classe nos Estados Unidos. O capitalismo é um sistema de exploração onde a grande maioria trabalha pra ganhar a vida, enquanto pouquíssimos possuem (i.e., roubam) para ganhar a vida. O termo classismo não explica a exploração, o que o torna um conceito falho. Queremos um fim à sociedade de classes, não uma sociedade onde as classes “se respeitam”. É impossível erradicar a exploração enquanto a sociedade de classes ainda existir. Para acabar com a exploração, devemos também acabar com a sociedade de classes (e todas as outras hierarquias institucionalizadas).

Essa questão crítica é frequentemente ignorada por teóricos que usam a interseccionalidade para reivindicar um fim ao “classismo”. Enquanto anarquistas, nós reinvidicamos um fim a toda exploração e opressão e isso inclui um fim à sociedade de classes. Interpretações liberais da interseccionalidade perdem a singularidade da classe ao vê-la como uma identidade e tratá-la como se fosse o mesmo que racismo ou sexismo colocando um “ismo” no fim. Erradicar o capitalismo significa um fim à sociedade de classes; significa guerra de classes. Igualmente, raça, gênero, sexualidade, deficiência, idade – a gama de relações sociais arranjadas por hierarquias – são singulares em sua própria forma. Como anarquistas, podemos apontar essas qualidade únicas ao invés de nivelar todas essas relações sociais no mesmo quadro.

Ao ver a classe como “apenas outra identidade” que deveria ser considerada na tentativa de entender as “identidades” dos outros (e a sua própria), concepções tradicionais de interseccionalidade fazem um desserviço para processos de libertação e luta. Embora a interseccionalidade ilustre as formas pelas quais as relações de dominação interagem e apoiam umas às outras, isso não significa que esses sistemas sejam idênticos ou possam ser equiparados. Eles são únicos e funcionam de formas diferentes. Esses sistemas também reproduzem uns aos outros. A supremacia branca é sexualizada e tem gênero, a heteronormatividade é racializada e tem classe. Instituições e estruturas opressivas e exploratórias são tecidas firmemente juntas e seguram umas às outras. Destacar essas intersecções – suas costuras – nos dá ângulos úteis a partir dos quais os desmontar e construir relações mais libertadoras, mais desejáveis e mais sustentáveis com as quais começamos a confeccionar nossos futuros.

Uma interseccionalidade anarquista para chamar de nossa

Apesar de ter apontado esse erro particularmente comum de teóricos e ativistas escrevendo sob o rótulo de interseccionalidade, a teoria tem muita coisa a oferecer que não deveria ser ignorada. Por exemplo, a interseccionalidade rejeita a ideia de uma opressão central ou primária. Como dito anteriormente, todas as opressões se sobrepõem e geralmente se constituem umas às outras. Interpretado nos níveis estruturais e institucionais, isso significa que a luta contra o capitalismo deve ser também a luta contra o heterossexismo, o patriarcado, a supremacia branca, etc. Muito comumente a interseccionalidade é usada apenas como uma ferramenta para entender como essas opressões se sobrepõem na vida cotidiana das pessoas para produzir uma identidade que seja única a elas em grau e composição.

O que é mais útil para nós enquanto anarquistas é usar a interseccionalidade para entender como a vida cotidiana das pessoas pode ser usada para falar sobre as formas em que estruturas e instituições se interseccionam e interagem. Esse projeto pode embasar nossas análises, estratégias e lutas contra todas as formas de dominação. Isso é, anarquistas podem usar a realidade vivida para traçar conexões com processos institucionais que criam, reproduzem e mantêm relações sociais de dominação. Infelizmente, uma interpretação liberal da interseccionalidade impede esse tipo de análise institucional, então apesar de podermos usar da interseccionalidade, precisamos também criticá-la de uma perspectiva claramente anarquista.

Vale a pena ressaltar que não há interpretação universalmente aceita da interseccionalidade. Como o feminismo, requer um adjetivo para que seja verdadeiramente descritivo, que é o motivo pelo qual usaremos o termo “interseccionalidade anarquista” para descrever nossa perspectiva nesse ensaio. Acreditamos que uma perspectiva anti-capitalista e anti-estatista (assim como uma posição revolucionária sobre a supremacia branca e o heteropatriarcado) é a conclusão lógica da interseccionalidade. No entanto, há muitos que usam da interseccionalidade, mas em uma abordagem mais liberal. Novamente, isso pode ser visto nas críticas ao “classismo” ao invés do capitalismo e da sociedade de classes, e da ausência frequente de uma análise do Estado[6]. Adicionalmente, existe às vezes uma tendência para se focar quase exclusivamente em experiências individuais ao invés de sistemas e instituições.

Embora todos esses pontos de luta sejam relevantes, é também verdade que pessoas criadas nos Estados Unidos, socializadas em uma cultura fortemente egocêntrica, têm uma tendência a se focarem na opressão e repressão a indivíduos, muitas vezes em detrimento de uma perspectiva mais ampla, mais sistêmica. Nosso interesse reside em como as instituições funcionam e como instituições são reproduzidas através de nossas vidas cotidianas e padrões de relações sociais. Como podemos traçar nossas “experiências individuais” até os sistemas que as (re)produzem (e vice-versa)? Como podemos traçar as maneiras que esses sistemas (re)produzem uns aos outros? Como podemos destruí-los e criar novas relações sociais que promovam liberdade?

Com uma análise institucional e sistêmica da interseccionalidade, anarquistas adquirem a possibilidade de destacar o corpo social mencionado na citação inicial. E se buscamos uma representação completa desse corpo social – as formas como hierarquias e desigualdades são costuradas em nosso tecido social – seríamos negligentes se falhássemos em destacar uma flagrante omissão em praticamente tudo que foi escrito sobre teorias interseccionais: o Estado. Nós não existimos em uma sociedade de iguais políticos, mas em um complexo sistema de dominação onde alguns são governados, controlados e mandados em processos institucionais que anarquistas descrevem como o Estado. Gustav Landauer, que discutiu esse arranjo hierárquico da humanidade onde alguns mandam sobre outros em um corpo político acima e além do controle do povo, viu o Estado como uma relação social. [7]

Não somos apenas corpos que existem em identidades assignadas como raça, classe, gênero, deficiência e o resto da tradicional lista de compras. Somos também sujeitos políticos em uma sociedade governada por políticos, juízes, polícia e burocratas de todas as formas. Uma análise interseccional que dê conta do corpo social pode, então, ser extendida por anarquistas para fins insurrecionais, já que nossa miséria está incorporada em instituições como o capitalismo e o Estado que produzem, e são (re)produzidas, pela rede de identidades usadas para dispôr a humanidade em grupos claros de opressores e oprimidos.

Como anarquistas, entendemos que a interseccionalidade é útil na medida em que pode embasar nossas lutas. A interseccionalidade tem servido para entender as formas pelas quais as opressões se sobrepõem e influenciam a vida cotidiana das pessoas. No entanto, quando interpretada por perspectivas liberais, as análises interseccionais típicas costumam presumir que a miríade de opressões funciona de maneira idêntica, o que pode impedir uma análise de classe, uma análise do Estado e análises das instituições que nos governam. Nossa avaliação é de que as experiências cotidianas de opressão e exploração são importantes e úteis para a luta se utilizarmos a interseccionalidade de forma a englobar os diferentes métodos pelos quais a supremacia branca, a heteronormatividade, o patriarcado, a sociedade de classes, etc. influenciam a vida das pessoas, ao invés de apenas listá-los como se todos operassem de maneira similar.

A verdade é que as histórias da heteronormatividade, da supremacia branca, da sociedade de classes precisam ser entendidas por suas similaridades e diferenças. Além disso, elas precisam ser entendidas pela forma como elas funcionaram para (re)formar umas às outras. Esse nível de análise leva a uma visão mais holística de como nossas instituições dominantes funcionam e como isso influencia a vida cotidiana das pessoas. Seria um equívoco não usar a interseccionalidade dessa forma.

Da abstração à organização: liberdade reprodutiva e interseccionalidade anarquista

As formas pelas quais o capitalismo, a supremacia branca, o heteropatriarcado – e a sociedade disciplinar de forma mais geral – adquiriram controle sobre os corpos têm sido fartamente detalhadas em outros lugares [8], mas nós gostaríamos de oferecer um pouco dessa história para ajudar a construir um argumento de que a organização por liberdade reprodutiva se beneficiaria de uma análise interseccional anarquista. A liberdade reprodutiva, que usamos como uma interpretação explicitamente anti-estatista, anti-capitalista da justiça reprodutiva, defende que uma posição apenas “pró-escolha” não é suficiente para uma abordagem revolucionária de “direitos” reprodutivos. Traçar como raça, classe, sexualidade, nacionalidade e deficiência interagem e forjam o acesso das mulheres à saúde reprodutiva requer um entendimento profundo dos sistemas de opressão, que Andrea Smith esboça em seu livro Conquest [9]. Olhar para a história do colonialismo nas Américas nos ajuda a entender as complexidades da liberdade reprodutiva no contexto atual. O Estado como instituição sempre teve um interesse velado em manter controle sobre a reprodução social e, em particular, nas formas pelas quais os povos colonizados se reproduziam ou não. Dada a história de esterelizações forçadas de povos nativos americanos, assim como afro-americanos, latinos e mesmo mulheres brancas pobres [10], podemos ver que o simples acesso ao aborto não trata da questão completa da liberdade reprodutiva [11]. Para termos um movimento abrangente e revolucionário, precisamos lidar com todos os aspectos dessa questão: condições de ter e criar crianças; acesso a saúde, moradia, educação e transporte; adoção; famílias não-tradicionais; e assim por diante. Para um movimento ser verdadeiramente revolucionário, ele precisa ser inclusivo; o movimento pró-escolha tem frequentemente negligenciado as necessidades daquelas pessoas às margens. O caso Roe v. Wade [N. da T.: caso judicial de destaque nos EUA, que decidiu pelo direito ao aborto em 1973] cobre as complexidades das vidas de mulheres e mães na prisão?

E as experiências de pessoas que não têm documentos [N. da T.: o texto se refere às refugiadas e imigrantes ilegais]? Pessoas trans* há muito vêm lutando por acesso inclusivo à saúde [12]. Defender apenas o direito a aborto legal não agrega todas essas pessoas afetadas pelo heteropatriarcado. Similarmente, uma “escolha” legal enquanto abortos são procedimentos caros não ajuda em nada mulheres pobres e ressalta a necessidade de destruir o capitalismo para acessar liberdades positivas. Defensores da justiça reprodutiva têm sustentado uma abordagem interseccional a esses assuntos; uma análise feminista anarquista da liberdade reprodutiva poderia se beneficiar de uma análise interseccional anarquista.

Uma análise interseccional anarquista da liberdade reprodutiva nos mostra que, quando uma comunidade começa a lutar junto, ela requer compreensão sobre como relações de dominação operam juntas, para ter uma noção holística daquilo pelo que estão lutando. Se podemos desvendar as formas pelas quais relações sociais opressivas e exploradoras trabalham juntas – e formam a costura que é a vida cotidiana – estamos melhor equipados para desmanchá-las. Por exemplo, para analisar os modos pelos quais mulheres negras têm sido, particular e historicamente, alvo de esterelizações forçadas requer entendimento sobre como o heteropatriarcado, o capitalismo, o Estado e a supremacia branca funcionam juntos para criar a situação onde mulheres negras são miradas corporalmente através de programas sociais, experimentos médicos e eugenia.

Como o racismo e a supremacia branca funcionaram para apoiar o heteropatriarcado? Como a sexualidade foi racializada de forma a facilitar aos colonizadores viver sem culpa pelo estupro, genocídio e escravidão, tanto historicamente quanto hoje em dia? Como a supremacia branca ganha gênero a partir de imagens como de Mammy e Jezebel [13] [N. da T.: estereótipos femininos da cultura racista dos EUA, relacionados ao trabalho escravo doméstico e à hipersexualização das negras escravas, respectivamente]? Como o estado de bem-estar social foi racializado e marcado por gênero com o objetivo de exterminar o corpo negro? [14] Opressões sistêmicas como a supremacia branca não podem ser entendidas sem uma análise de como esses sistemas têm gênero, sexo, classe, etc. Similarmente, esse tipo de análise pode ser estendido para entender como o heteropatriarcado, a heteronormatividade, o capitalismo, o Estado – e todas as relações humanas de dominação funcionam. Esse é o peso por trás de uma análise interseccional anarquista.

Uma análise interseccional anarquista, ao menos da forma que estamos usamos o ponto de vista, não centraliza nenhuma estrutura ou instituição acima da outra, exceto por contexto. Essas estruturas e instituições operam para (re)produzir umas às outras. Elas são uma a outra. Vistas dessa forma, uma estrutura opressiva ou exploradora que seja central ou primária simplesmente não faz sentido. Pelo contrário, essas relações sociais não podem ser separadas uma da outra e declaradas “centrais” enquanto as outras são “periféricas”. E elas são interseccionais. Afinal de coisas, de que serve uma insurreição se alguns de nós são deixados para trás?

1. Harcourt, Wendy, and Arturo Escobar. 2002. “Women and the politics of place.” Development 45 (1): 7-14.

2. Combahee River Collective Statement. 1977. In Anzalduza, Gloria, and Cherrie Moraga (Eds). 1981. This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color. Watertown, Mass: Persephone Press. Disponível em: http://circuitous.org/scraps/combahee.html

3. “Refusing to Wait: Anarchism and Intersectionality.” Disponível em: https://libcom.org/library/insurrections-intersections-feminism-intersectionality-anarchism.

Versão em português: https://muitoalemdoceu.wordpress.com/2013/08/16/recusando-esperar-anarquismo-e-interseccionalidade/.

4. Por exemplo: Crenshaw, Kimberlé W. 1991. “Mapping the Margins: Intersectionality, Identity Politics, and Violence against Women of Color.” Stanford Law Review, 43 (6): 1241–1299.

5. Ver: Purkayastha, Bandana. 2012. “Intersectionality in a Transnational World.” Gender & Society 26: 55-66.

6. “Refusing to Wait: Anarchism and Intersectionality.” Ver ponto 3.

7. Landauer, Gustav. 2010. Revolution and Other Writings, translated by Gabriel Kuhn. Oakland: PM Press.

8. Para mais análises sobre como raça, gênero e sexualidade moldaram o capitalismo e colonialismo nos EUA, ver: Smith, Andrea. 2005. Conquest: Sexual Violence and American Indian Genocide. Cambridge, MA: South End Press.

9. Smith, Andrea. 2005. Conquest: Sexual Violence and American Indian Genocide. Cambridge, MA: South End Press.

10. Por exemplo: http://rockcenter.nbcnews.com/_news/2011/11/07/8640744-victims-speak-out-about-north-carolina-sterilization-program-which-targeted-women-young-girls-and-blacks

11. Para um bom livro que mostra exemplos e a história da justiça reprodutiva, ver: Silliman, Jael M. 2004. Undivided Rights: Women of Color Organize for Reproductive Justice. Cambridge, Mass: South End Press.

12. Trans* é usado de forma geral para significar: transgênero, transexual, genderqueer, não-binário, gênero fluido, genderfuck, intersexo, terceiro gênero, travesti, cross-dresser, bigênero, homem trans, mulher trans, agênero.

13. Hill Collins, Patricia. 1991. Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness, and the Politics of Empowerment. New York: Routledge.

14. Roberts, Dorothy E. 1999. Killing the Black Body: Race, Reproduction, and the Meaning of Liberty. New York: Vintage.

Anarquismo, Opressão & Exploração – Workers Solidarity Movement

O seguinte material foi publicado em outubro de 2014 como resultado do Congresso do Workers Solidarity Movement [Movimento de Solidariedade dos Trabalhadores], uma organização anarquista da Irlanda que existe há mais de 30 anos e faz parte do projeto internacional Anarkismo.net, que reúne organizações plataformistas e especifistas. O material foi divulgado pelo facebook aqui, onde abriram uma discussão para comentários e críticas ao texto.

Anarquismo, Opressão & Exploração – Material com a posição do WSM

1. O ponto central de unidade número 7 da Constituição do WSM diz:
“Nos opomos ativamente a todas as manifestações de preconceito dentro do movimento dos trabalhadores e na sociedade em geral, e trabalhamos juntos com aqueles que lutam contra o racismo, sexismo, sectarismo [religioso] e a homofobia como uma prioridade. Vemos o sucesso de uma revolução e a eliminação bem-sucedida dessas opressões após a revolução determinadas pela construção de tais lutas no período pré-revolucionário. Os métodos de luta que promovemos são uma preparação para fazer funcionar a sociedade nas linhas anarquista e comunista após a revolução”.

2. O ponto de unidade acima foi desenvolvido a partir de experiências individuais e coletivas de membros do WSM. Essas experiências embasaram nossa adaptação do anarquismo a nossos contextos locais, que incluem experiências específicas de opressão e experiências pessoas e históricas de luta anti-colonialista na Irlanda e em outros lugares.

3. O desenvolvimento deste material envolveu nossas próprias experiências, junto a nossas discussões sobre o amplo conjunto de escritos e observações que emergiram de estudos anarquistas e feministas sobre a relação entre gênero, classe e raça, em particular daquilo que se chama hoje de “Interseccionalidade”.

4. Esse desenvolvimento também contou com nossa experiência direta e com o estudo de lutas anti-colonialistas na Irlanda e outros lugares, lutas que foram muitas vezes similares ou que influenciaram o anarquismo.

5. O movimento histórico dos trabalhadores, do qual o anarquismo é parte, tradicionalmente viu seu papel como a auto-emancipação da classe trabalhadora da escravidão econômica e da exploração. Logo, é necessário entender como isso se relaciona às lutas por libertação da dominação e opressão.

6. Todas as sociedades não-livres da história foram baseadas em relações de dominação e opressão assim como de exploração. Relações que são sociais e não apenas pessoais. Em sociedades pré-capitalistas, as relações de produção eram tais que a exploração era imposta de fora, através das estruturas de dominação. Nessas sociedades as relações de dominação e exploração são efetivamente as mesmas. Na sociedade capitalista a exploração se torna integrada às relações de produção. A coerção se mostra como uma força anônima (pobreza) e as relações sociais são cada vez mais separadas entre esferas políticas e econômicas.

7. Essa separação relativa significa que a sociedade liberal se torna possível. A sociedade liberal é especificamente a sociedade capitalista, não-livre, onde os explorados são politicamente livres da escravidão de algum dono em particular, mas permanecem economicamente não-livres. Isso abre a possibilidade para libertação a opressões de categorias de identidade cuja dominação é um legado do sistema social recentemente substituído pelo capitalismo. Mas isso também possibilita a proliferação de novas categorias de identidade, já que identidade é dissociada das relações de produção e exploração específicas do capitalismo. Isso pode permitir a liberdade positiva de explorar novas relações pessoas e maneiras de ser. Mas também pode fornecer uma maneira de criar novas opressões, específicas à atual fase da necessidade da sociedade capitalista em estratificar, hierarquizar e dividir a classe trabalhadora. Consciência de classe deve, portanto, transcender – sem suprimir – qualquer identidade particular. Mas isso não pode acontecer na ausência de solidariedade nas lutas para superar as opressões que dividem a classe.

8. Historicamente, existe uma tensão na esquerda (incluindo muito de nosso trabalho prévio) entre reconhecer o que foi delineado acima e ainda continuar a ver estrategicamente a unidade como uma questão de identificar a principal contradição na sociedade e se alinhar atrás de uma única identidade unificadora, geralmente aquela do homem branco trabalhador industrial. Uma abordagem “Unidade é Força”, então, muito frequentemente significou o silenciamento ou a minimização de vozes que não cabem facilmente nessa identidade.

9. Em contraste a essa abordagem, argumentamos que existe necessidade de dar voz a todas as opressões, mesmo aquelas que podem não afetar grandes grupos, ao invés de silenciar tais vozes por trás de uma única imagem representativa. Reconhecemos que, dependendo de suas circunstâncias de vida, as pesoas experienciam opressões de formas diferentes.

10. Também não encontramos o caminho para a solidariedade competindo para identificar quem é “mais oprimido”, para que fosse feito de “imagem representativa” alternativa cuja voz poderia, então, sobrepôr a dos “menos oprimidos”. A ideia de tentar criar uma hierarquia de opressões, por níveis de severidade, é fútil e contra-produtiva. A solidariedade requer aceitar que a diferença não pode ser subordinada a nenhuma imagem representativa específica, seja a suposta mais comum ou a mais oprimida.

11. Nós buscamos “unir os pontos” – isto é, olhar para como as opressões e as intersecções de opressões se relacionam uma com a outra e impactam as relações daquelas pessoas na luta. É através de tal entendimento e ao garantir que todas as vozes serão ouvidas que uma unidade significativa na luta será forjada e mantida.

12. No entanto, nós entendemos a necessidade de reconhecer que as pessoas possuem múltiplas identidades e nosso desafio é criar um movimento revolucionário capaz de derrubar todas as opressões e criar coletivamente uma sociedade livre.

13. Se acreditamos que nossos movimentos devem ser baseados em nossas experiências, isso significa que movimentos, incluindo o WSM, são moldados por aqueles que os compõem. Essa composição vai determinar que lutas são vistas como prioridade, o que é negligenciado e mesmo a metodologia que será trazida para as lutas. Nós buscamos estar conscientes disso e desenvolver meios para contrabalançar essas tendências em nossas organizações e outras onde trabalhamos.

14. Esse reconhecimento teórico requer um esforço coletivo para minimizar os efeitos da marginalização e dos privilégios na cultura interna do WSM, através do desenvolvimento de processos de facilitação e também programas de treinamento e conscientização contra opressões, tanto para membros quanto apoiadores.

15. Nosso papel é colaborar com o cultivo de espaços onde as pessoas historicamente marginalizadas por sua opressão possam falar e se auto-organizar. Enquanto organização, somos solidários com tais esforços organizativos, que certamente também contarão com alguns de nossos membros. Nós vamos coletivamente apoiar tais trabalhos e ampliar a agência dos oprimidos.

Acordado em outubro de 2014.

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Prisões generalizadas de anarquistas e ativistas de esquerda radical no Egito

O texto abaixo é uma tradução de artigo publicado dia 7 de setembro de 2014 aqui, em inglês, além de ter sido amplamente divulgado na internet. O texto é assinado por “Anarchist Network”, com um link redirecionando a sua página no facebook.

Caros(as) amigos(as),

A partir do último contato que tivemos com Anarquistas Egípcios(as), eles(as) estão em uma situção de emergência.

O regime militar fascista de Al Sisi / Mubarak está buscando mais agressivamente prender todos anarquistas e qualquer outro(a) ativista da esquerda radical.

De acordo com o jornal do governo fascista, mais de 41 mil pessoas foram presas. Entre elas estão: “Alaa Abdel Alfatah“, blogueiro muito conhecido, e “Mahienour El-Massry“, uma grande ativista pelos direitos humanos, direitos das mulheres e dos trabalhadores, e também advogada progressista e militante contra a sociedade de classes.

Esses números enormes de prisões aconteceram em menos de um ano!! Foram entre julho de 2013 e maio de 2014.

O regime militar repressivo continua a prender todos(as) anarquistas e qualquer outro(a) ativista da esquerda radical que estiveram envolvidos(as) na organização de qualquer ato ou ação contra o regime militar/fascista, apoiado pela CIA-Sionismo e outros poderes sanguinários do Ocidente.

A intensidade dos últimos dias levou a uma enorme pressão na vida de nossos(as) caros(as) companheiros(as), de forma que o resto deles(as) foi forçado a viver escondido(a) ou clandestino(a).

Nós anarquistas do Oriente Médio estamos pedindo por qualquer tipo de suporte e solidariedade, mesmo que seja apenas a disseminação dessas notícias.

Abaixo o regime militar de Al Sisi / Mubarak!

Abolir as forças reacionárias de todas as organizações religiosas e líderes religiosos!

Destruir todo o poder dos fomentadores das guerras, incluindo CIA/EUA, Sionismo, poderes ocidentais, Rússia e China!

Por um Egito Livre, Oriente Médio Livre e um Mundo Livre.

Anarchist Network

07/09/2014

Protestos em todo o mundo contra a criminalização dos sem-teto na Hungria

O seguinte texto foi publicado em inglês no dia 17 de fevereiro, na página oficial do grupo A Város Mindenkié [A Cidade é Para Todos, em húngaro], e pode ser acessado aqui. A Cidade é Para Todos é um grupo húngaro de “moradores de rua, ex-moradores de rua, pessoas com problemas de moradia e seus aliados, que trabalham juntos por uma sociedade justa e igualitária”. O grupo busca “oferecer uma oportunidade às pessoas em situação de rua para defender sua dignidade e lutar pelo direito à moradia”. Mais informações sobre o grupo podem ser encontradas em inglês aqui.

Em resposta ao chamado de ação do A Cidade é Para Todos, organizações locais e indivíduos de 14 cidades em três continentes – de Nova Iorque a Bangkok, de Dublin a Istambul – realizaram protestos contra a criminalização dos sem-teto na Hungria, em frente a embaixadas e consulados húngaros.

Como foi enfatizado no chamado de ação pelo A Cidade é Para Todos, os partidos no governo insistem na criminalização da situação de rua, apesar da decisão de novembro de 2012 da Corte Constitucional que decidiu que “nem a remoção das pessoas sem-teto de áreas públicas, nem o incentivo para que elas participem do sistema de assistência social, podem ser usadas como uma razão constitucional que seja a base para a criminalização das pessoas sem-teto vivendo em áreas públicas” e que “a situação de rua é um problema social que o Estado deve lidar no campo da administração e da assistência social, e não da punição”. O governo e muitas das autoridades locais desconsideraram tanto a decisão da Corte Constitucional quanto a difundida oposição interna e internacional, primeiro ao inscrever a criminalização da situação de rua na “Lei Fundamental” (a constituição formal da Hungria) e depois na Lei de Delitos e portarias locais.

A criminalização da situação de rua é parte de uma abrangente guinada autoritária e punitiva na Hungria que seguiu as eleições de 2010: a democracia constitucional foi essencialmente abolida; direitos trabalhistas foram cerceados; o direito à greve limitado; o direito a benefícios sociais foi restrito e um duro regime de trabalho foi implementado; aqueles buscando asilo se tornaram sujeitos a um injustificável regime de detenções; severas políticas penais foram introduzidas; e a vigilância de funcionários do Estado foi autorizada. Desde a transição ao capitalismo em 1990, os índices de pobreza e de desigualdade salarial nunca estiveram tão altos como hoje.

Houve protestos em frente às embaixadas e consulados húngaros em Bangkok, Viena, Essen e Lisboa na quinta-feira, 13 de fevereiro; em Berlim, Bruxelas, Dublim (veja também aqui), Istambul (veja também aqui), Cluj, Nova Iorque, Paris e Praga na sexta-feira, 14 de fevereiro; e em Londres no sábado, 15 de fevereiro. A maioria dos protestos incluiu a entrega de cartas endereçadas ao governo húngaro, condenando a criminalização da situação de rua. Muitos protestos foram realizados por organizações de pessoas diretamente afetadas pela pobreza e a situação de rua. O protesto de Londres foi organizado por húngaros que moram em Londres, junto a grupos locais. Uma organização de Bucareste se juntou à campanha internacional com imagens de solidariedade online, e grupos locais mandaram uma carta de protesto à embaixada da Hungria na Holanda. Para breves resumos de todos os protestos, veja aqui para 13 de fevereiro, e aqui para 14 e 15 de fevereiro. Para ver uma seleção de fotos da solidariedade internacional, clique aqui.

Em Budapeste, A Cidade é Para Todos está organizando um protesto no sábado, 22 de fevereiro, em frente ao escritório do governo que foi criado para deter as pessoas processadas por morar em locais públicos. O governo gastou 20 milhões de florins (65 mil euros) em 2013, e 226 milhões de florins (730 mil euros) em 2014 para a operação deste escritório. A Cidade é Para Todos exige que esse escritório seja fechado e que toda a legislação que criminaliza a situação de rua seja revogada.

Evento do protesto no Facebook: http://www.facebook.com/events/687511691299409/

Página do A Cidade é Para Todos: http://avarosmindenkie.blog.hu/
E-mail: avarosmindenkie@gmail.com
Facebook: http://www.facebook.com/AVarosMindenkie

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Declaração da AWU [União dos Trabalhadores Autônomos] sobre a situação na Ucrânia

O texto original foi publicado no dia 19 de fevereiro aqui. Uma tradução para o inglês foi publicada no dia 20 no portal Anarkismo.net, que pode ser lida aqui.

A guerra civil começou na Ucrânia ontem. Uma manifestação pouco pacífica entrou em confronto com as forças de defesa e as divisões formadas por apoiadores do atual governo, perto do Vekhovna Rada (Parlamento).

Em 18 de fevereiro a polícia, junto aos paramilitares, realizou um banho de sangue nos quarteirões governamentais, onde inúmeros manifestantes foram mortos. Sanguinários das divisões especiais terminavam com detidos. Deputados do Partido das Regiões, no poder, e seus lacaios burgueses do Partido “Comunista” da Ucrânia fugiram do Parlamento por um túnel subterrâneo. A votação por emendas constitucionais, que visavam limitar o poder presidencial, por fim não aconteceu.

Após sua derrota nos quarteirões governamentais, manifestantes voltaram ao Maidan[1]. Às 18h, o Ministro de Assuntos Internos e o Escritório de Segurança Interna (SBU) declararam um ultimato aos manifestantes, exigindo sua dispersão. Às 20h, forças da polícia especial e os paramilitares, equipados com canhões de água e veículos blindados, começaram sua investida nas barricadas.

A polícia, as divisões especiais do SBU, assim como soldados pró-governo, fizeram uso de suas armas de fogo. Porém, os manifestantes conseguiram tacar fogo em um dos veículos blindados da polícia, e no fim as forças governamentais não eram as únicas em posse de armas.

De acordo com as informações divulgadas pela polícia (no dia 19 de fevereiro, às 16h), 24 pessoas foram mortas: 14 manifestantes e 10 policiais. Trinta e um policiais foram alvejados.

Mesmo se sua estimativa de mortes no lado policial estiver correta, o número de vítimas entre os manifestantes foi certamente diminuído. Os médicos do Maidan contabilizam pelo menos 30 mortos.

Tem-se a impressão de que o Presidente Yanukovich estava certo de que pela manhã a resistência estaria arrasada, e então convocou uma reunião com as lideranças da Oposição às 11h, no dia 19 de fevereiro. Como as negociações não aconteceram, podemos concluir que os planos do governo falharam.

Durante a operação mal-sucedida de esvaziar o Maidan, cidadãos de várias regiões ao oeste do país ocuparam prédios administrativos e rechaçaram a polícia.

Nesse momento a polícia, enquanto instituição, não existe em Lviv[2]. De acordo com o SBU, manifestantes capturaram 1500 armas de fogo. Em menos de 24 horas, o governo central perdeu controle de uma região do país.

Agora, a única solução pode ser a renúncia do Presidente, porém isso significaria que ele, sua família e seus muitos seguidores e dependentes, que formam um grande grupo no poder, perderiam sua fonte de lucro. É provável que eles não vão aceitar isso.

Caso Yanukovich vença, ele vai se tornar mandante vitalício e os restantes estarão fadados a uma vida onde enfrentarão pobreza, corrupção e a abolição de seus direitos e liberdades. Regiões rebeldes estão agora passando massivamente por restaurações da “ordem constitucional”.

Não é improvável que a supressão de tais “grupos terroristas” na Galícia tenha a forma de uma limpeza étnica. Radicais Ortodoxos do Partido das Regiões têm visto os conservadores grego-católicos, há muito tempo, como a AIDS da “Eurosodoma”. Tal operação “antiterrorista” seria realizada com a ajuda do exército, como já foi anunciado pelo Ministro da Defesa, Levedev.

Hoje, a Ucrânia vive uma tragédia, mas o verdadeiro horror irá começar quando o governo derrubar a oposição e “estabilizar” a situação.

Sinais de preparação para uma operação de limpeza social massiva já estavam visíveis no início de fevereiro, quando processos criminais foram abertos contra as divisões de auto-defesa do Maidan, julgadas como formações militares ilegais. De acordo com o Artigo 260 do Código Criminal, membros de tais divisões podem enfrentar prisão de 2 a 15 anos. Isso significa que o governo estava planejando colocar mais de 10 mil cidadãos atrás das grades.

Em outras regiões, assim como na capital, “divisões da morte” especiais estão atuando como um suplemento das forças policiais usuais. A responsabilidade por queimar viva uma pessoa ativista do Maidan de Zaporozhye, por exemplo, foi reivindicada por uma dessas “divisões da morte”, que se autodenomina como “Fantasmas de Sebastopol”. Eles anunciaram que estão prontos para submeter participantes do Maidan no leste a um tratamento similar.

Caso haja uma vitória da Oposição a vida também estaria longe da perfeição.

Embora fascistas sejam minoria entre os manifestantes, eles são bastante ativos e não são os caras mais inteligentes do pedaço. No meio de fevereiro, alguns dias de trégua levaram a conflitos entre os grupos de direita, resultando em vários confrontos violentos e sem sentido, assim como ataques aos ideologicamente “heréticos”.

Além dos fascistas, Oposicionistas velhos e experientes também tentarão tomar o poder. Muitos deles já têm alguma experiência de trabalho no governo e não são estranhos ao mundo da corrupção, do favoritismo e do uso de fundos públicos para interesses pessoais.

As “concessões” que a Oposição está exigindo agora no Parlamento são lamentáveis. Mesmo a Constituição de 2004, que eles estão tentando restaurar, dá poder excessivo ao Presidente (o controle sobre a polícia de conflitos e as forças especiais é um exemplo), e o sistema eleitoral proporcional, com listas fechadas, entrega o Parlamento ao controle de líderes que agem como ditadores, que podem ser contados nos dedos de uma mão. Junto com o Presidente eles vão governar sem obstruções.

Sua segunda exigência – a nomeação de um Gabinete de Ministros compostos por líderes da Oposição – é completamente vergonhosa. As pessoas estão arriscando sua saúde, liberdade e suas vidas para que alguém se torne primeiro-ministro, e que alguém tenha a oportunidade de controlar o fluxo de dinheiro sujo? Esse é o resultado lógico de se optar por conversações sobre “a nação” dirigidas pelo pathos, e de se focar em estruturas verticais amarradas aos mesmos políticos odiados, ao invés de desenvolver organizações de baixo pra cima, em torno de interesses materiais e financeiros.

Essa é a principal lição que o Maidan ainda está por aprender.

Porém, nós estaremos aptos a colocar essa lição em prática apenas se o governo atual perder a batalha.

A Oposição dentro e fora do Parlamento está rachada em múltiplas facções hostis que competem entre si. Se vencer, o governo subsequente será instável e desprovido de coerência. Ele será tão burguês e repressivo como era o Partido das Regiões antes de sua primeira demonstração de força contra os manifestantes em novembro.

A culpa pelo sangue derramado é parcialmente da União Europeia, que recebe alegremente o dinheiro dos canalhas corruptos da Ucrânia, Rússia e vários países africanos, enquanto negligencia sempre checar a origem destes “investimentos”. É apenas após ver os corpos das vítimas de tais “investidores” que a UE se torna tão sentimental e repleta do pathos humanitário.

Essa não é a nossa guerra, mas a vitória do governo significará uma derrota dos trabalhadores. A vitória da Oposição também não garante nada de bom. Nós não podemos convocar o proletariado a se sacrificar pela Oposição e seus interesses. Achamos que o nível de participação nesse conflito é uma questão de escolha pessoal. Porém, encorajamos todas as pessoas a evitar a convocação das forças militares internas controladas por Yanukovich, e a sabotar as ações do governo usando todos os meios possíveis.

Sem deuses, sem amos, sem nações, sem fronteiras!

AWU [União dos Trabalhadores Autônomos], organização de Kiev

[1] Maidan é um nome para manifestações que acontecem na Praça da Independência, em Kiev. O movimento para a associação da Ucrânia com a União Europeia e pela renúncia de Yanukovych também é chamado de Euromaidan. (Nota da tradução)

[2] Lviv é uma das maiores cidade da Ucrânia, localizada no oeste do país, na região da Galícia. (N. da T.)

Chamado de solidariedade para a renovação da Livraria Autônoma Gondolkodó (Gondolkodó Autonóm Antikvárium), inverno de 2014

Segue abaixo a tradução para o português brasileiro do chamado de solidariedade à Livraria Autônoma Gondolkodó, de Budapeste na Hungria. A Gondolkodó é uma antiga e pequena livraria que vende e distribui materiais sobre o movimento operário em todo o mundo, em uma perspectiva revolucionária e libertária. O contato da livraria está no texto.

[PORTUGUÊS]
A Livraria Autônoma Gondolkodó é a única livraria e local de distribuição de materiais do movimento operário, além de local de encontro, na região do Centro-Leste Europeu (conhecida como Hungria) que funciona de maneira contínua há muitos anos (mais de 20). Agora o local precisa de renovação, as paredes estão úmidas e mofadas, o reboco está caindo, as estantes estão começando a se desvencilhar, o ralo está constantemente entupido, etc. As condições da livraria têm piorado gradualmente e, assim, a distribuição das publicações está dificultada.

Como não podemos pagar por todos esses reparos, pedimos sua ajuda financeira para poder fazer a manutenção durante o verão. Por favor, ajudem a essa causa com o que puderem (se podem enviar 10 euros, não hesitem, mas se tiverem mais podem oferecer uma quantia maior).

Companheiros, ativistas e simpatizantes, por favor espalhem nosso apelo de solidariedade e nos apoiem!

Agradecemos a ajuda em nome da solidariedade do internacionalismo proletário!

A sua ajuda pode ser enviada para esta conta bancária:
Bank / Banco: Raiffeisen Bank
Name / Nome : Tütö László
Iban / Número Bancário Internacional (IBAN) : HU 3912 0101 5401 3152 1900 2000 06
Swift code / Código interbancário: UBRTHUHB

Obrigado! Solidariedade! Saudações!

No que diz respeito à renovação completa da livraria – a situação é deprimente. Nós pudemos resolver alguns problemas menores (limpamos a canalização, etc.), mas recentemente o Serviço Nacional de Impostos começou a exigir o pagamento de uma dívida antiga sem atrasos, então tivemos que pagar. Ninguém esperava por isso. No caso de não pagamento, o Estado teria hipotecado o apartamento de um companheiro, o que quase certamente levaria à perda do mesmo. A maior parte do dinheiro arrecadado foi para essa questão. Infelizmente, a livraria não assegura a subsistência – para colocar de forma suave. O companheiro não tem outro emprego e não consegue achar nenhum posto que seja compatível com fazer funcionar a loja. Por isso, ele vive de um dia para o outro, e a livraria precisa de ajuda financeira. Por favor distribua o apelo por solidariedade se puder, e nos ajude! Obrigado! A renovação precisa ser feita e a ajuda também é necessária para além disso, por isso continuamos pedindo por apoio.

Nós não estamos desmoralizados, mas sim olhando para frente. Os moinhos do capital continuam trabalhando – de maneira cruel e sanguinária, dia após dia, mas nós continuamos lutando contra ele. Avante! Longa vida ao comunismo!

Saudações,

LIVRARIA AUTÔNOMA GONDOLKODÓ
Hungria, Budapeste – 1012, Logodi utca 51
Website: http://gondolkodo.mypressonline.com
E-mail: gondolkodo@citromail.hu
Facebook: http://www.facebook.com/gondolkodo.antikvarium

[INGLÊS]
Solidarity appeal for the renovation of Gondolkodó Autonóm Antikvárium (Gondolkodó Autonomous Bookshop) winter, 2014

The Gondolkodó Autonomous Bookshop is the only workers’ movementary distribution place, library and meeting-place in the East Central European region (namely in Hungary) which has been functioning continuously for many years (now for 20 years). Now this place must be renovated because the walls are wet and mouldy, the mortar has been falling, the sets of shelves are rickety, the drainpipe is often clogged up etc. The condition of the library has been worsening gradually and also the distribution of publications is harder under these circumstances.

Since we can not pay for all the costs of the general renovation we ask for your financial help in order that we could do the renovation during winter. Please support this aim according to your possibilities (if you can send 10 Euros then do it, but if you have more money you can send bigger amount).

Comrades, activists and sympathisers, please spread our solidarity appeal and support us!

Thanks for your help in the name of internationalist proletarian solidarity!

Raiffeisen BANK (in euro)
Name : Tütö László
Iban : HU 3912 0101 5401 3152 1900 2000 06
Swift code : UBRTHUHB

What concerns the complete renovation of the bookshop – the situation is depressing. We managed to solve some minor problems (the cleaning of the canalisation etc.), but recently the National Office of Taxes began to demand the payment of a past dept without delay, so we had to pay. Nobody expected that. In the case of not paying, the state would have hypothecated the flat of a comrade which almost surely would have led to the losing of the flat. The vast part of the collected money was consumed by this issue. Unfortunately, the movement bookshop does not secure a living – to put it mildly. The comrade has no other job and also can’t find any employment which is compatible with the running of the shop. Therefore he lives from one day to another, and the shop needs financial support. Please distribute the solidarity appeal if you can, and support us! Thanks! The renovation has to be made and support is needed apart from this, too, this is why we continue to ask for support.

We are not demoralized, but are looking forward, the mills of capital are working this way – bloodily and cruelly, day by day, but we continue to struggle against it. Forward! Long live communism!

Greetings,
GONDOLKODÓ AUTONOMOUS BOOKSHOP
Hungary, Budapest – 1012, Logodi utca 51
Website: http://gondolkodo.mypressonline.com
E-mail: gondolkodo@citromail.hu
Facebook: http://www.facebook.com/gondolkodo.antikvarium

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