Semana da Biologia para quê? Semana da Biologia para quem?

Texto escrito no grupo aberto de facebook Biologia UFSC no dia 26 de setembro de 2016, dia de início da Semana da Biologia UFSC.

Nos últimos dias, foram publicadas posições da Coletiva Maria Bonita (http://goo.gl/UxbxAF) e do GEABio (http://goo.gl/CBeL9Q) sobre a Semana da Biologia 2016, assim como cobranças do CABio já haviam sido feitas antes. A discussão que veio de espaços amplos e que surge a partir de seus acordos é muito mais importante que opiniões individuais, então peço que leiam (e respondam) esses grupos antes de pensar nesse texto aqui.

Acho fundamental reconhecer que a Semana da Biologia não é um evento privado, ela existe por um acordo coletivo do Curso, com aval do Colegiado. Isso significa, inclusive, que estudantes e servidores docentes concordam em ficar uma semana sem aulas por causa dela. Além disso, ela leva o nome de nosso Curso e aparece com visibilidade para a sociedade dessa forma. É por isso que todas e todos estudantes têm direito e dever de acompanhar os rumos da Semana e podem, sim, questionar suas decisões, mesmo que não tenham ajudado a construí-la (por qualquer motivo que seja). A Semana é nossa, não é um presente da Comissão Organizadora. A Comissão tem todo o mérito por se dedicar para fazer o evento acontecer, mas não está acima nem separada do Curso.

As críticas precisam ser entendidas com maturidade, não como interesses escusos de desmerecer o evento inteiro ou atacar uma ou outra pessoa. Não penso que ninguém acredite que a Comissão Organizadora quer tirar lucro individualmente, nem que se dedicou apenas para excluir uma ou outra proposta. Dito isso, esses são os apontamentos que acho essenciais em três categorias: acessibilidade, transparência e conteúdo.

1. Acessibilidade

1.1 A Semana é cobrada. Em uma Universidade pública, atividades obrigatórias do Curso não poderiam ser cobradas. Se ficamos uma semana sem aulas e se temos tarefas de disciplinas que envolvem a participação na Semana, implementar cobrança impede a participação, assim como cria obrigação de pagamento para estudantes. Isso fere o caráter básico e constitucional da educação pública, assim como diversas outras iniciativas que estão surgindo de privatização. Isso precisa ser denunciado, não apenas contornado. A Semana Acadêmica da Biologia – UFRGS 2016, por exemplo, foi gratuita e tinha uma programação completa de 5 dias (http://goo.gl/ZuHo9Z). Muitas Semanas Acadêmicas da UFSC nesse ano também estão sendo gratuitas, como Ciências Sociais (http://goo.gl/thLHmG), Física (http://saf.sites.ufsc.br/), Direito (http://goo.gl/vUv188), etc.

1.2 As isenções são insuficientes. A iniciativa de criar isenções foi importante, mas a quantidade não supriu a demanda. Temos mais de 600 estudantes matriculados, sendo que mais de 1/3 ingressou por política de ações afirmativas e centenas possuem cadastro de vulnerabilidade socioeconômica. Essa tendência só vai aumentar e a Universidade precisa acolher esses sujeitos, para que não entrem pela porta da frente e “saiam pela porta da PRAE”, como já tem acontecido.

1.3 O dinheiro dos mini-cursos não é para quem ministra. Muitas pessoas se dedicam para oferecer mini-cursos na Semana que são cobrados, mas não ganham nada em troca. Se o dinheiro é para pagar passagens de palestras ou coffee break, não é justo colocar a cobrança em minicursos de pessoas que podem ou não concordar com os gastos realizados. Isso impede ou diminui a participação nos mini-cursos. Após insistência de alguns ministrantes, foi oferecida a possibilidade de realizar mini-cursos gratuitos, mas isso não foi amplamente divulgado para que outros ministrantes escolhessem essa opção.

2. Transparência

2.1 Nunca houve espaço presencial de avaliação da Semana 2015. Ano passado o custo dos espaços e a cobrança de crachá para frequentar as atividades foi muito questionado. Por esse motivo, a Comissão Organizadora de 2015 disse que faria uma reunião interna de avaliação e depois uma reunião aberta para avaliação coletiva. Essa reunião nunca aconteceu. No lugar, foi feito um questionário privado online.

2.2 O resultado do questionário aplicado nunca foi divulgado. Essa ferramenta não é adequada para avaliação, porque nada nos informa que as opiniões foram lidas, compreendidas ou levadas em conta. Não sabemos se nossa opinião foi útil, se poderíamos ajudar a implementá-la ou oferecer novas ideias. Não tem como construir junto sem conversa. Ou seja, questionário online não é avaliação coletiva. Mesmo assim, o mínimo que deveria ter sido feito também não aconteceu: divulgar as avaliações enviadas através do formulário (sem nomes).

2.3 A convocação para as reuniões foi (quase) inexistente. Estamos em um Curso com forte tradição de participação nas atividades e instâncias. Em muitos desses grupos, as reuniões são convocadas publicamente, chegando ao ponto de expor a ata semanal da reunião do Centro Acadêmico em um grupo aberto de facebook. A única resposta da Comissão Organizadora é que divulgou reuniões no início do ano. Mesmo assim, a grande maioria das pessoas não lembra de chamado algum. Isso está longe de ser suficiente para quem quer fazer um evento representativo e aberto, como deveria ser. Temos muitos meios eficientes de divulgação e convite utilizados por todas as outras instâncias, mas não pela Semana da Biologia.

2.4 Não sabemos quem está na Comissão Organizadora. Mesmo quem participa de espaços como o Centro Acadêmico e o Colegiado não sabe quem é a maioria da Comissão Organizadora, fora quatro ou cinco pessoas que se apresentaram. Por que não divulgar publicamente quem está fazendo a Semana?

3. Conteúdo

3.1 A Semana é para dar espaço a temas que não cabem no atual currículo. Trazer novas discussões, atividades, romper com os limites disciplinares. Também é um espaço para pensar a sociedade e a relação do nosso Curso com ela. Nesse sentido, não faz sentido ter palestras e mini-cursos com temas que já fazem parte de nossas matérias regulares.

A lista de assuntos possíveis e importantes é infinita, mas queria ressaltar alguns que considero necessários nesse momento em que vivemos:
– A concorrência para o cargo de biólogo (formado) no concurso da UFSC desse mês, para as vagas gerais, foi de mais de 350/vaga. Vamos discutir a crise econômica e nosso mercado de trabalho?
– Governo Temer prometeu recentemente a retomada das atividades da Samarco/BHP/Billiton, empresa responsável pelo maior desastre ambiental de nossa história no ano passado. Vamos discutir meio ambiente e legislação?
– Após decisão judicial, o Plano Diretor Participativo de nossa cidade voltou à discussão pública, com objetivo de ser fechado nos próximos meses, delineando os rumos da cidade pelos próximo 20 anos. Vamos discutir Plano Diretor e especulação imobiliária?
– A UFSC sediou esse ano o II Encontro Municipal de Agricultura Urbana. Florianópolis é uma das cidades mais organizadas nessa discussão no país, contando com dezenas de iniciativas. Vamos discutir agroecologia e cidade?
– O tema de duas Semanas Acadêmicas da UFSC mês passado foi “Empreendedorismo” (Arquivologia e Química). Vamos discutir função social da educação pública e o empresariamento da educação?
– As Horas Felizes e as festas universitárias estão proibidas, restando como opção de diversão os bares e as festas caríssimas da cidade. Vamos discutir uso do espaço público e lazer?
– As Ações Afirmativas estão chegando ao patamar de 50% das vagas nas Universidades. Ao mesmo tempo, a mortalidade da juventude negra cresceu 18% no Brasil nos últimos 10 anos. Vamos discutir o racismo estrutural e o papel da Universidade?

Além disso, gostaria de convidar toda a Comunidade Universitária para participar dos espaços da Semana da Biologia. É imoral ter espaços tão ricos acontecendo com cadeiras vazias, enquanto tem gente interessada na parte de fora.

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Ensaios e jogos de cena do Governo Temer

O Governo Temer precisa implementar terríveis retrocessos em nossa realidade já precária. Para fazer isso, ele tem usado ensaios táticos. A CNI soltou a ideia de jornada de trabalho semanal de 80 horas, sentiu a repercussão e falou que era engano. Recentemente, o Ministro do Trabalho falou em jornada diária de 12 horas; quando a reação foi instantânea, Temer veio dizer que não era bem isso.

Ele já voltou atrás no fechamento do Ministério da Cultura, assim como voltou atrás na demissão do presidente da EBC. No reajuste do Judiciário foi um vai-não-vai, até que foi. Agora nega a extinção das disciplinas de Artes, Sociologia, Filosofia e Educação Física, anunciada publicamente em coletiva de imprensa e presente no texto da Medida Provisória. (Assim como no caso da jornada de 12 horas, parece apenas maquiagem da mesma proposta sob novas palavras, não dá nem para chamar de recuo ainda.)

Não se tratam de equívocos ou gafes. Isso é um governo sem legitimidade das urnas, sem legitimidade das ruas, sem legitimidade das pesquisas, colocado no poder para implementar medidas extremamente impopulares.

Nosso trabalho é fazer o medo que Temer sente em cada ataque virar realidade. GOLPISTA PASSA MAL!

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A agenda de retrocessos vai tornar o país ingovernável, lutaremos até fazer os de cima pedirem por “Eleições Gerais”

Mais de 80% da população desaprova o governo Temer. Cunha (que é Temer) foi cassado. Houve manifestações diárias pelo país desde que ele assumiu. Tem uma greve geral marcada para o dia 22/09 – embora seja apenas paralisação de um dia e pouco articulada por enquanto, é uma primeira ação no lento movimento sindical.

Ao mesmo tempo, a capa da Veja dessa semana acusa o Governo de frear a Lava Jato – a novidade não é o intuito óbvio do PMDB, mas a disposição da revista mais reacionária do País em denunciar isso. Os setores mais radicais entre os ultra-liberais já largaram a defesa de Temer, como deixou claro (de forma vergonhosa) o Instituto Liberal de São Paulo, que o chamou de “mais um comunista”.

Temer pode manejar o apoio do “baixo clero” na Câmara e no Senado com favores políticos espúrios, mas os verdadeiros donos do capital não são subornados com migalhas. O presidente golpista só será mantido no poder na medida em que cumprir a promessa de cortar direitos trabalhistas e políticas sociais. É isso que seu governo significa.

Se Temer falha nessa tarefa, ele será jogado fora. O capital não precisa de um ou outro governante, ele precisa do ajuste fiscal. Já é possível ver contornos da linha que esses setores defenderão: críticas à crise econômica, críticas ao Temer, mas apontando a flexibilização e os cortes como a solução. Essa é a essência que eles não podem jogar fora. Temer é só fachada.

Nossa verdadeira batalha é defender que as medidas neoliberais não passarão de forma alguma, seja quem estiver na presidência. O primeiro passo é tornar o país ingovernável para esse golpista, radicalizar os atos, pipocar ocupações e greves por todo canto. Quando o povo tiver colocado seu peso através da ação direta, impedindo as propostas de Temer, as “Eleições Gerais” serão a forma que os de cima terão para tentar pacificar o país. Para nós, qualquer pacificação nesse momento significará forte perda de direitos.

É por isso que discordo do chamado por “Eleições Gerais” em nossos atos e defendo “Nenhum Direito a Menos”, “Rumo à Greve Geral”, “Pelo Poder Popular”, “Só a Luta Popular Decide”, qualquer chamado que aponte para a força dos setores oprimidos, não para mecanismos de forjar consenso, legitimidade e apassivamento como são as eleições.

O golpe aos direitos sociais só se derruba nas ruas, não nas urnas. Mesmo que essa plataforma perca mais uma vez as eleições, como Aécio perdeu, ela continuará com risco de ser implementada – assim como Dilma a vinha aplicando (mais timidamente, é claro). Por mais boa vontade que exista, nenhum governo é capaz de impedir os ataques aos direitos por si só. A única forma de fazer isso é na correlação de forças, com povo organizado na rua.

Manifestação em Florianópolis pelo Fora Temer e Nenhum Direito a Menos, setembro de 2016.

Manifestação em Florianópolis pelo Fora Temer e Nenhum Direito a Menos, 12 de setembro de 2016.

Proposta para avançar a autogestão no CABio

O texto abaixo foi escrito no grupo interno de Facebook do CABio UFSC em 30 de junho de 2016, período onde eu já não participava mais ativamente do Centro Acadêmico. Foi uma proposta para potencializar as ações do CABio, que já funciona em autogestão e sem eleições há mais de 10 anos e agrega semanalmente em suas reuniões mais de 20 estudantes, sendo provavelmente um dos CAs mais ativos da Universidade.

Oi gente. Só estou fazendo uma disciplina, vou uma vez por semana pra UFSC, não tenho como ir nas reuniões do CA nem construir nada que eu vou propôr. Só pra deixar isso claro.

Eu venho alimentando um sonho, desenvolvendo ele, agora acho que chegou a hora de sugerir. Vai ser só uma sugestão, porque é isso que eu consigo fazer. (Tem a ver com essa discussão aqui.)

1. Quem disputa eleições para DCE ou Centros Acadêmicos costuma justificar esse esforço com o argumento de que “é um bom momento para fazer discussão política”. Eu acho que esse argumento tem fundamento.

2. Nosso modelo de autogestão tem sido interpretado muitas vezes como “cada um faz o que quiser”. Eu não acho que seja isso, mas eu entendo que essa impressão não vem à toa. Durante muitos anos, participei do CA e me envolvi em coisas através do CA sem ter apoio ou mesmo acordo com outras pessoas que frequentavam as reuniões.

3. A situação “2” é positiva porque permite um CA amplo, onde junta vários interesses distintos: quem quer organizar Bio na Rua organiza, quem quer participar do Conselho participa, quem quer pensar a calourada pensa, quem quer ir pra Ponta do Coral vai, etc.

4. Porém, a situação “2” é ruim porque pode criar um CA sem identidade, sem posições coletivas e, consequentemente, um espaço de representação individual e não coletiva.

Exposto esse problema, surge a pergunta: de que forma o CA pode tomar decisões e expressar opiniões de forma mais legítima, representativa e confiável? E de que forma podemos discutir e aprender juntos para chegar nessas posições?

Eu pensei no seguinte modelo.

5. O CABio continua sendo uma autogestão, sem eleições, reuniões abertas, decisões em reunião (pra mim não deveria precisar de consenso, só maioria de votos, mas não quero comprar essa discussão agora).

6. Porém, periodicamente (sugiro uma vez por ano), se organize um “Congresso do CABio”, um espaço de assembleia amplamente divulgado, com antecedência, realizado num horário acessível, onde se votem TESES para o CA.

7. O que são teses? São propostas. “Por motivos A, B e C, o CA é favorável à terceirização do RU”. “Por motivos D, E, e F, o CA é contrário à presença da PM no Campus”. “Pelos motivos G, H, e I, o CA é contrário a emprestar o espaço para festas de outros cursos”. “Por motivos J, K e L, o CA defende a realização de avaliação docente independente feita por estudantes”. Etc, etc.

8. Algumas teses seriam contraditórias umas com as outras, se tudo der certo. Todas elas são apresentadas em site, grupo de facebook, etc, e existe um debate público. “Eu acho a tese 22 um absurdo, vamos lá no Congresso votar contra”, etc. Levamos tudo pro Congresso e votamos.

9. Ao final do processo, a gente teria algo similar a um “programa de chapa eleitoral”, mas discutido abertamente e aprovado pela maioria em assembleia. Isso iria reger as ações do Centro Acadêmico pelo período.

10. Seria necessário um prazo para construção das teses, depois um prazo para veicular essas teses e elas serem debatidas pelas pessoas, depois uma divulgação e registro das teses adotadas. Ou seja, isso envolve uma comissão organizadora do Congresso, que estabeleça datas, faça divulgação, organize a assembleia, etc.

11. É necessário também recuperar o Estatuto do CABio ou, melhor, escrever um Estatuto novo, que explique o funcionamento da entidade, que fale sobre instâncias de decisão, quórum, etc e que seja aprovado em Assembleia com muita gente. Poderia ser votado junto no primeiro Congresso.

Por que fazer tudo isso? Meu motivo principal para essa proposta é que eu acho que vai propiciar muito debate e discussão saudável e interessante no curso. Outros motivos são mobilizar mais pessoas pra participar do CA e dar mais legitimidade institucional pras nossas opiniões.

Que tal?

O programa político da Fantástica Fábrica de Cadáver (Eduardo Taddeo)

vou instigar no gueto uma revolta popular
sou o pilar do stress pós-traumático do governo
analfabeto funcional que interpreta texto
discorda da tese do estudioso em conflito urbano
mas não tá ligado a gancho de abrir tampa de crânio
onde escreve homicídios e déficit cultural
eu leio pós-abolição ficcional

(as vozes da estatística – eduardo taddeo)

A campanha Reaja ou será morto, reaja ou será morta diz que seus sociólogos são os homens e as mulheres do rap. Como eu conheci a esquerda antes de conhecer o rap de verdade, não canso de me surpreender como as grandes vozes do rap brasileiro têm sistematicamente desenvolvido e estimulado ideias progressistas ou mesmo revolucionárias entre a periferia, com um alcance muito maior que qualquer grupo ou corrente anticapitalista.

Não ignoro a necessidade de organização política para a transformação social – pelo contrário, acho que ela tem um papel que é só dela – mas não dá pra negar que o rap tá mais enraizado e presente no cotidiano da classe trabalhadora precarizada brasileira. Não acho nenhum exagero falar que no rap estão as sociólogas e sociólogos das ruas porque eles não tão só relatando a realidade social, também tão desenvolvendo uma interpretação da sociedade e apontando rumos de luta e transformação.

Se eu fosse um acadêmico, talvez eu tentasse convencer vocês de que 20 teses de doutorado não falam tudo que um disco de rap fala. Até acredito nisso, mas eu não sou acadêmico. Como militante que busco ser, quero mostrar que tem um verdadeiro programa político nessas letras. Aliás, acho que tá exposto aqui um programa mais avançado que qualquer partido político apresenta pro debate público. Duvida?

Apresento a vocês o Programa Político retirado de A Fantástica Fábrica de Cadáver, último trabalho de Eduardo Taddeo, ex-vocal do Facção Central, um dos maiores grupos de rap do país. Todos os trechos em itálico são apenas do primeiro CD.



longe do poder só vamos preservar a espécie

nascendo com uma película anti-chumbo na pele

(a fantástica fábrica de cadáver – eduardo taddeo)

Referências teórico-políticas

  • Rap de atitude, Black Panthers, Marx, Proudhon, Bakunin, Che Guevara

se eu for o bobo alegrando a corte da playboyzada
traio os black panthers, che e sua causa
tá no rap de atitude é igual tá na máfia
pra sair é só rígido num caixão de lata

pra marx, proudhon, bakunin e che guevara
ditador merecia punhal barbeando sua cara

  • Compromisso com o favelado

quando fiz pacto vitalício com o favelado
fui condenado a ser outro vladimir herzog enforcado!

Sistema político

  • Fim dos privilégios políticos

joguei pedra no choque porque mandato é cumprido em sauna

  • Pena capital para crimes de corrupção

pressão no congresso pra alterar o código penal
pra que crimes políticos recebam pena capital

  • Morte aos tiranos e ditadores

querer tirano no poste, não me faz sensacionalista
me aproxima das mais brilhantes mentes esquerdistas

  • A democracia atual é uma farsa

sou inimigo público porque uso caixa e bumbo
pra afirmar que ainda vigora os anos de chumbo

vi kamikaze atacando patrimônio público
porque o estado democrático é artigo de luxo

pra milícia de gol, placa fria, gerar 10 sepultamentos
o toque de recolher do governo de esquerda
criam retiro de arrasados pelos estágios da perda

  • Expropriar o dinheiro de grandes políticos

se pudesse bloquearia o patrimônio do governador
pra dividir com degradados pelo terror

  • Revolução armada para tomar o poder

se nossas armas não fossem pra treta sem sentido
era golpe de estado contra regime assassino
em vez de comemorar vitória de fidel em havana
teríamos nossa revolução cubana

Economia

  • Fim do direito de herança

aí bacana, sabe por que eu não tenho bens?
porque minha família nunca escravizou ninguém
se eu fosse descendente de um colonizador arrombado
tinha marca de cerveja, hipermercado

  • Ascensão para “nova classe média” é enganação

roubo dados sigilosos e injeto nos bairros pobres
tento impedir que convençam você
com o xaveco dos 30 milhões que entraram na classe c

  • A crise deve ser paga pelos ricos
  • Fim aos bancos

não jogo crise na conta do marginalizado
não é o mano de rifle oxidado nosso cancro
o problema não é quem assalta mas quem constrói o banco

  • Expropriação do comércio contrário aos interesses populares

moralmente qual o problema de roubar hamburgueria
quem mata criança com propaganda indutiva?
personagem infantil, brinquedo colorido
e o novo venenoso big lixo vendido

  • Consciência de classe

seu rival não tá de m16 e bombeta
tá de armani num gabinete dizimando com uma caneta
não desfigure um semelhante com arma branca ou fuzis
entre na campanha, não faça um rico feliz

Segurança Pública

  • Transparência nas informações sobre segurança pública

50 mil defuntos só é a taxa apresentada
porque homicídio no datasus é morte causa ignorada

  • Fim os autos de resistência e dos homicídios policiais

tanto enforcado com as tripas, as diligências
quem cobre a lei do abate com auto de resistência

só não aprovam pena de morte no congresso
porque é mais barato chacinar sem custas de processo
pra que criar papelada e assinatura?
se é só deixar gambé descarregar na viela escura

aprendi que aqui democracia é carnificina
que os crimes hediondos são cometidos pela polícia

com dados que não aparecem no relatório da onu
é minha forma de militar, e exigir justiça
aos 3 que morrem extrajudicialmente por dia

  • Autodefesa armada da classe trabalhadora

a campanha pede o desarmamento da periferia
só que os calibre letais protegem a burguesia

no mar de mentiras montam ponto pra recolher seu oitão
pra te manter inofensivo diante da aniquilação
faminto desarmado não invade condomínio
não reage à bala contra os grupos de extermínio

  • Legalização e fim da guerra às drogas

denuncio que os autores da constituição cidadã
nos faz sacar 45 pela carga da tam
que recebemos penas hediondas em julgamentos
porque acatamos a proibição das drogas sem questionamento

  • Combate à corrupção policial

fui na mesma viatura que me fornecia dinamite
a mesma tropa do acerto que recebe o combinado
mete corrupção ativa e manda seus filhos pro juizado

Direitos Humanos

  • Fim das torturas às pessoas em privação de liberdade

cansei de gastar caneta escrevendo carta
denunciando maus-tratos pro juiz da comarca
os semiabertos pendentes, as crises alérgicas
o contêiner adaptado como cela

não quer filhinho de papai que virou delegado
te golpeando com toalha cheia de cadeado
se não te convenci, se prepara pro boy te torturar
te fazer lamber privada atrás de celular
vão te matar e apontar como membro de facção
que resistiu a prisão e jogou na guarnição

  • Fim do encarceramento em massa

sigo injetando na rima gás neurotóxico
contra os que encarceram 30 mil por ano em depósito

é pelo fim da hecatombe diária praticada por deic e rota
minha letra carregada com substância venenosa
é pelo fim da prisão em massa, da indução à venda de droga

  • Apoio às mobilizações populares

o sistema quer você no busão irritado
com a marcha contra o genocídio que deixa o trânsito engarrafado
porque assim gringo não vê que o país da moda
é líder em mortes por arma de fogo, deficiência dolosa

vértebras foram reduzidas a poeira no ar
pra que eu tivesse o direito de me manifestar

militantes sagram, denunciando a injustiça seletiva
que criminaliza, condena, dizima, população empobrecida

  • Acesso a moradia e cultura para todos

verso feliz quando não tivermos no prédio invadido
admirando teatro e imóvel que pra nós é proibido

nas páginas do nosso caderno de cultura
o passeio é pelos corredores de sepulturas
não tem visita em museu, cinemas, teatros
só busca pra achar a quadra que o ente foi enterrado

  • Comissão da Verdade e Justiça para os crimes da falsa democracia

também queria uma comissão de verdade e justiça
pra jugar 19 milhões de assassinos racistas

Educação

  • Ampliação das escolas e universidades

quando a meta do vencedor da eleição
for inaugurar a faculdade, não centro de correção

sem escola o aprendizado é no abrigo, no caps
na caixa de papelão, cdp, dp, cohab

só a educação gera igualdade social
só ensino erradica as leis jim crow do brasil

  • Por uma educação crítica

apoio furas importados de miami no colchão
se inserir ciência política na educação

  • Subsídio para produção de livros e materiais didáticos

o que eu canto tá explícito nos livros
que custam 120 reais pela estratégia dos ricos
quanto mais dígitos no preço da informação
menos revoltado mirando uzi sobre a luz da razão

  • Educação pública, gratuita e de qualidade em todos os níveis

os dias que o aluno pobre virava sequestrador
porque reitor leiloava ensino superior

  • 90% de vagas por ações afirmativas nas Instituições de Ensino Superior

só abaixo minhas armas e deixo o combate
com 90% das vagas das faculdades

Mulheres

  • Fim da prostituição infantil

contra os que ensinam idioma pra adolescente
atender nos bordéis da copa gringo cliente

  • Formação e oportunidades para as jovens

enquanto rimo a fazenda assassina de futuros ensina
a menina a ser atriz pornô da brasileirinhas

  • Restrição à pornografia e sexualização precoce na mídia

a matéria prima é extraída da adolescente que engravida,
induzida pela pornografia vinda das ondas televisivas

  • Planejamento familiar e apoio às mães solteiras

mano, a criança no reformatório prostituída
é consequência das noites regadas à bebida
a mina que depois de gozar cê mete o pé no rabo
pode carregar no ventre o próximo desamparado

sistema quer maternidade, paternidade precoce
pra adolescente sustentar dependente com corre
se a criança não planejada não for dispensada
vira motivo pra fita amarela na cantina assaltada

Relações étnico-raciais

  • Combate aos padrões racistas

não tô incluso nos dados sobre adotado pretendido
o ‘x’ é na cor branca e no cabelo liso
casal de boy não quer tá no restaurante jantando
com polícia colando achando que é sequestro relâmpago

pra que o número da instituição de recolhimento
pra quem, se igual ao michael, não se diz pigmentar
nunca vai tá no carro no adesivo familiar

  • Valorização da consciência negra todos os dias

porque o 13 de maio só vigora com morteiro
ainda nos treinam pra ser os escravos da casa

comemore a consciência negra todos os dias
exija direito à vida com ou sem data fifa

  • Combate ao racismo e opressões na mídia

instrui que o bullying vem no sedex televisionado
a programação induz a desprezar a pele escura
o deficiente, o que tem mais gordura

  • Política de cotas raciais

negam cotas pros herdeiros da escravidão
permitimos que alvo da polícia repressiva
não exista geneticamente pra política afirmativa

Juventude

  • Tratamento digno e humano para menores em situação de privação de liberdade

as alienantes salas escolares;
é brutalmente exportada a tortura
nos reformatórios, CDPs e penitenciárias

cê não vai precisar de proteção do provita
se der amparo no lugar de medida socioeducativa

  • Efetivar o Estatudo da Criança e Adolescente
  • Tratamento digno e apoio a jovens e crianças em situação de abandono

pelo ECA meu martírio tinha que ser temporário
não a porra de um vitalício calvário
em média em um ano um vira lata
deixa o instituto de zoonose e ganha uma casa
a sociedade se preocupa com bem-estar de cachorro
mas que se foda se o preterido aqui tá vivo ou morto

sou candidato a tá na cracolândia com a pele marcada
pelo selo de qualidade da fundação casa
quem não recebe sobrenome no RG
ganha artigos 121 no DVC

  • Inclusão digital

que depois de dar ré na porta de aço
faz a inclusão digital com pcs furtados

  • Combate ao trabalho infantil

faça um minuto de silêncio na churrascaria
pelos meninos aprisionados na carvoaria
nem cloro limpa mancha do seu casaco
costurado pelo boliviano mirim explorado

  • Direito à vida, alimentação saudável, educação e vestimenta para todos os jovens

não tem como ver kungfu panda e avatar
com a córnea afetada pela falta de vitamina a
no registro digital de ocorrência não aparece
quem priva os moleque de escola, biblioteca, creche
ei favelado, vem comigo agir como mandela
exigir direito à vida pras crianças da favela
elas querem sorrir com boot na sua numeração
vestir um agasalho que não seja de doação

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Por que tem uma bandeira do MST no CABio?

Nessa semana, li novamente uma discussão que já vi acontecer várias vezes e senti necessidade de falar sobre isso: a política sobre bandeiras e cartazes no Centro Acadêmico. Não foi um reencontro de incômodo nem de cansaço. Acho que a discussão é fundamental e não quero encerrar ela pra sempre. O que espero é, humildemente, sistematizar algumas informações pra que ela continue de outro patamar no futuro – mas que continue, não que seja silenciada.

Eu não quero falar aqui como o super-veterano, até porque acho a transformação é fundamental. Nada “precisa ser” apenas porque “sempre foi”. Mas justamente por ter entrado há muito tempo no curso, ainda me sinto mais calouro do que as pessoas novas me imaginam. Isso é porque eu tenho lembrança de muitas e muitos que vieram bem antes de mim, com quem aprendi muito do que o CA foi e continua sendo.

A ata da reunião conta que a bandeira do MST deve ficar lá porque “é histórica”. O argumento não tá errado, mas acho sim que ele tá mal explicado. Ser histórico não é garantia de nada. Tem certas figuras “históricas”, quase lendárias, no nosso quadro docente que já mereciam muito bem ter virado história de vez. Certas atitudes – como o assédio a estudantes – merecem ir pra lata de lixo da história.

Sem-terra

Essas bandeiras tão ali porque existe uma relação íntima entre a vida acadêmica e política do Centro Acadêmico da Biologia com as lutas camponesas. Uma memória afetiva e formativa para muitas e muitos que construíram esse CA antes de nós, assim como para algumas pessoas que seguem construindo ainda hoje. Eu sei que isso não tá explícito nem explicado em nenhum lugar, então queria fazer isso aqui. Não tenho uma lista completa, mas só de cabeça posso citar – entre pessoas que estiveram diretamente envolvidas no CA:

  • gente que fez pesquisa junto ao MST ou movimentos camponeses, como o Zique lá em 2008, que fez TCC junto da Natália Hanazaki num assentamento;

  • gente que fez estágio e deu aulas no MST através do PRONERA/UFSC, como o Chitão;

  • gente que puxou cursos e começou a Horta Agroecológica da Biologia, participando de encontros, festas e congressos com os movimentos camponeses, como a Ana Paula, Chitão, Mick e Mentira;
  • muita gente que participou e construiu o Estágio Interdisciplinar de Vivências (EIV-SC), conhecendo e lutando junto com os movimentos camponeses, como o Denso (2010), Ariana (2010), Sarah Py da UFAM (2010), Poca da UFRJ (2010), Mentira (2011), Daniel (2011), JG (2011), Jungle (2012), Giancarlo (2013), Sami (2014), Raíza (2014), Rinaldo (2015), Malu (2015), Bianca (2016), sem falar da lista de agregados queridos(as);
  • muita gente que participou dos EREBs desde 2009 até 2015, pois todos tiveram algum nível de relação com agricultura familiar, ecológica ou diretamente com os movimentos camponeses – como aliás foi o caso dos EREBs 2010 e 2013, organizados aqui na UFSC por dezenas de nós.

Nesse ponto, é bem importante esclarecer o que essas bandeiras não significam para nós. Elas não significam uma defesa do governo PT. Elas não significam roubo nem destruição. Também não significam algum dogma ou visão única. Inclusive, elas não significam nem que concordamos com tudo que esses movimentos fazem.

Eu não posso me atrever a dizer o que elas significam pra cada pessoa que eu citei acima, muito menos para as pessoas que trouxeram essas bandeiras para o CA (que eu nem sei quem foi, provavelmente veteranos dos meus veteranos). Mas eu quero dizer o que as bandeiras do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), Movimento de Mulheres Camponesas (MMC), Movimento de Pequenos Agricultores (MPA) e da Via Campesina significam pra mim.

Antes de tudo, elas não são externas a minha formação. Elas representam muita coisa que eu aprendi durante a Universidade, fora e dentro de sala de aula. Por exemplo, elas falam sobre a necessidade histórica da conservação ambiental em um momento de escolha entre a sobrevivência ecológica ou o colapso. Falam sobre a manutenção dos solos férteis e a produção de alimentação saudável, sem agrotóxicos e sem transgênicos, como esses movimentos defendem e colocam em prática em larga escala.

Elas representam também a superação do resquício feudal que é a estrutura agrária brasileira, uma gigantesca demonstração de que não rompemos de vez com as capitanias hereditárias e a ultraconcentração de terra – pra quem não sabe, reforma agrária não é revolução comunista, é uma medida de justiça e também modernização econômica, adotada em ampla escala por países como… os EUA, mas não por nós.

Mais importante ainda, essas bandeiras representam pra mim um grito de esperança, porque elas são a demonstração de que “se tu lutas tu conquistas (é tipo assim!)“. Não é opinião, é fato: centenas de milhares de trabalhadores pobres saíram do desemprego no campo ou nas periferias das cidades e conseguiram terra para plantar e viver através da reivindicação feita nesses movimentos. Tem injustiça demais, gente fodida demais por aí, pra gente tirar da parede um símbolo que mostra que é possível mudar as coisas, mesmo sem ser ninguém, sem ter nada, sem passar por cima de outra pessoa.

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Por fim, é óbvio que essas bandeiras representam também a esquerda. Só que elas não representam toda e qualquer esquerda, pois nem toda e qualquer esquerda nos serve. O que recebe o nome de “esquerda” aqui não é nada mais do que o povo pobre e oprimido, a partir das suas necessidades e da sua própria força e organização, buscando construir justiça social sem acordos de gabinete, sem abrir mão de princípios, sem promessas ilusórias. Elas representam um movimento popular, algo que eu sei que tem muito mais legitimidade com a gente, porque tá muito mais próximo do que eu acho que a maioria de nós acredita ou respeita.

Eu sei que nem toda esquerda é assim. Eu sei, inclusive, que nem tudo no MST é assim. Tenho uma simpatia ainda maior, mais forte, por camponeses indígenas do México, os zapatistas. A estratégia anticapitalista deles é um pouco diferente, do autogoverno autônomo no campo, da assembleia comunitária, da resistência paciente, do resgate da cultura e tradição indígena e insurgente. Os zapatistas expressam seu horizonte como um mundo onde caibam muitos mundos. Mas ainda que eu tenha muitas críticas pra fazer sobre esses movimentos das bandeiras do CA, elas não chegam nem perto de desmerecê-los, porque o que eles fazem na prática ainda é fundamental e urgente.

O que eu gostaria de ver no CA é o que eu gostaria de ver em todo lugar. Justiça na diversidade, crítica na união. Um CA onde não caibam opressões, onde não tenha “toda e qualquer bandeira”, mas onde tenha espaço pra diversidade de coisas que movem a nós, estudantes de biologia. Assim, quem sabe, ele possa fazer parte de construir un mundo donde quepan muchos mundos.

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Servidores de São José mantêm greve

Texto publicado aqui no Passa Palavra no dia 25 de março de 2016. A greve durou do dia 02 de março a 04 de abril de 2016. Mais informações sobre a luta de servidoras e servidores de São José no blog Prof da Base.

12042622_1259889410692078_7305336493113123173_nNo dia 02 de março, servidoras e servidores da cidade de São José (SC) decidem paralisar suas funções. O salário de dezembro havia atrasado e só foi recebido após manifestações em janeiro, com vigília na Prefeitura e trancamento de vias. O Acordo de Greve de 2015 também foi desrespeitado pela prefeita Adeliana Dal Pont (PSD): os projetos de lei da incorporação da regência e dos benefícios para pós-graduados foram retirados da Câmara após a categoria conseguir o número necessário de votos para aprová-los. Por fim, a inflação estourou no último ano e o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) indica 11,03% de aumento, que precisaria ser reposto para não haver prejuízo ao salário real.

São José é a segunda maior cidade da região metropolitana da Grande Florianópolis, uma cidade de porte médio (230 mil pessoas), com metade da população da vizinha capital. A categoria do funcionalismo municipal envolve principamente professoras, assistentes sociais, profissionais da saúde, guarda municipal e setor administrativo. São mais de 3 mil servidoras, com maior adesão à greve nas unidades escolares e de saúde, onde há relação cotidiana entre muitas trabalhadoras e o controle das gestoras da Prefeitura sobre o trabalho é menor.

A greve passou por uma barreira de fogo na semana passada: a paralisação iniciada em Florianópolis na mesma data, com maior mobilização e influência na mídia, foi encerrada com ganho de apenas 6% de reposição – apesar de outras conquistas para setores da categoria. A proposta que São José recebeu foi de 8,5%, que ainda representava perda real, mas o cenário de crise nas prefeituras aumentava a legitimidade da tese de que não há de onde tirar dinheiro.

No entanto, apesar do cansaço visível da maioria da direção do sindicato (Sintram-SJ/CUT) e do Comando de Greve após 5 dias de acampamento em frente à Prefeitura, sob condições climáticas desfavoráveis, no dia 22/03 a grande maioria da base votou pela continuidade da greve e por uma contra-proposta que não abre mão da reposição completa. A greve entra em uma nova fase, onde a Prefeitura começa a usar mão de meios desleais, como liberar não-grevistas do trabalho para ir na assembleia, assim como divulgar uma interpretação legal pouco plausível de que não poderá mais conceder reposição referente a 2015, por conta da legislação eleitoral.

As companheiras e companheiros mais antigos apontam que a mobilização da categoria vem crescendo em participação pelo menos desde 2012, após sucessivas greves com resultados visíveis. No entanto, ainda há pouca cultura de mobilização nas bases: no início da greve, isso se tornava aparente pela falta de cantos e palavras de ordem nos atos, setores de oposição organizados nas assembleias ou, principalmente, iniciativas independentes vindo das unidades de trabalho.

10600606_1259889454025407_8987561383240592628_nAinda assim, é visível que a força da greve vem da organização no local de trabalho: além daquelas 50 ou 100 trabalhadoras convictas, presentes em toda atividade, os atos ganham corpo de verdade através de professoras ou servidoras da saúde que chegam em grupo, vindo junto às colegas. O medo de represálias, receio da “queimação” por outras trabalhadoras, descrença na efetividade da mobilização ou falta de informação e confiança na luta são todas enfrentadas da melhor forma pela organização desde o local de trabalho, que deveria ser o principal método de cada servidora convicta da luta.

No decorrer da greve, a passividade da base vem sendo quebrada através dos novos contatos e relações criados durante as atividades, além da necessidade cada vez mais urgente de pressionar a Prefeitura. Novas pessoas se posicionando nas assembleias, produção de faixas junto a estudantes e pais nas escolas, meios de comunicação próprios da categoria no facebook ou whatsapp, composição criativa de paródias e gritos de ordem para as marchas, entre outros.

Na segunda-feira (28/3), após o feriado de Páscoa, há uma nova assembleia onde dificilmente surgirá uma proposta melhor que possa encerrar a greve. Ainda assim, está claro que o desfecho da luta se aproxima, exigindo o máximo de comprometimento da categoria. A solidariedade de outras categorias, entidades, movimentos sociais e coletivos é fundamental para a correlação de forças, mas também para avançar na politização da luta, que possa enxergar além da exigência salarial ou das saídas eleitorais, tão veiculadas em ano de pleito municipal.

Mais informações sobre os rumos da luta na página Prof da Base – São José: https://www.facebook.com/profdabase/

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