Respeitem as conversas coloquiais

A fila já contava algo como meia hora. Foram 15 minutos tentando reconectar a wi-fi e o resto dividido entre o terrorismo deles no facebook e uma conferida no whatsapp, pra ver se não era hoje que o genocídio estatal no bairro do lado ia explodir o mundo cor de rosa dos grupos da família e dos funcionários do quarto andar. Só de praxe.

Você pediu licença, disse que estava atrasado, entrou comigo na fila e eu não soube o que responder (como sempre). Reclamou da chuva, pediu fogo, fingiu que as informações na tela do seu celular não eram tão medíocres quanto as que eu vi. Você cumprimentou umas meninas que passaram de skate e olhou o relógio. Eu perguntei se você tinha aula de tarde, você me perguntou se eu acreditava mesmo naquele altruísmo todo ou se estava só correndo atrás de status e conforto – e foi como me deixar pelado no pátio da escola, mas no caso a escola era só minha consciência mesmo e por isso doía muito mais.

Você nunca teve respeito nenhum pelas conversas coloquiais. Eu já tive certeza que não era de propósito, mas também não tenho dúvidas de que você se diverte com isso. Foi nesse ponto que eu não consegui mais fingir que não reparei no centímetro de barba a mais, no leve sotaque mineiro que você trouxe das últimas férias e nas meias que você ainda vestia com os pares trocados, seu preguiçoso.

A casa caiu e os escombros deixaram expostas aquelas noites de vento e vinho na terceira casa com a melhor vista do morro; aquela viagem de 38 horas de ônibus conversando sobre todas as (poucas) possibilidades de ganhar dinheiro sem vender nossa alegria; assim como os dois melhores sexos da vida – um na barraca, outro na coberta de microfibra novinha; não foi no mesmo ano, mas foi no mesmo dia e com a mesma pessoa.

Eu nunca mais fui feliz de verdade, nem triste de verdade, apenas distante. Porra, faz 4 anos e eu ainda cozinho todo dia as coisas que você me ensinou a comer.

É o quinto dia que eu não durmo – eu pesadelo – e a culpa é minha, como das outras vezes (mas eu direi que é sua). Se eu não fosse a única pessoa no planeta capaz de interpretar todas aquelas planilhas que eu escrevi nos últimos dois anos, eu já estaria despedido. Tenho certeza que o carrasco que se apresenta como meu chefe já pediu para o setor de TI resolver isso, sem saber que a função gerencial dele vai ser terceirizada antes que a minha, problema resolvido por um adolescente chinês escrevendo código em algum galpão – e isso não é consolo algum, é só mais uma justificativa para sonhar com pedras e gasolina.

Esse texto não vai sair em nenhum lugar, a última coisa que eu preciso é algum otimista vir me falar como é ótimo que eu voltei a escrever – porque a culpa é sua, como das outras vezes, e eu não terei coragem de dizer.

 

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