Relato do EREB Sul de 1836, em Manufaturé

Recentemente, estávamos lembrando de histórias do Movimento Estudantil da Biologia e resgatamos o texto abaixo. Na construção do Encontro Regional de Estudantes de Biologia Sul, que seria em Maquiné (RS), estava proposto um espaço para carnear um boi. Após algumas pessoas levantarem críticas ao ritual, porque não queriam financiar ou apoiar a morte do animal, respostas muito mal-educadas apareceram e motivaram a escrita dessa piada. Isso aconteceu no final de 2012 e pode ser conferido aqui.

O ano é 1836, um dos primeiros encontros de estudantes de biologia que se tem notícia na região sul, que ocorre na cidade de Manufaturé.

A maioria dos estudantes conseguira, junto a suas Universidades, charretes para chegar à cidade, mas um bravo grupo de algumas dezenas, partindo da cidade de Florianópolis, vai de bicicleta.

Os prestativos e amorosos organizadores do EREB mandam a todas as escolas, por barcos ou jegues, uma carta escrita à pena donde consta a programação do encontro. Uma nota de rodapé avisa: “Excelepmtíssymos Srs., inphormamos que não será necepssário si preocupar com os aphazeres, uma vez que seremos todos servidos por escravos da mais phina quallidade”.

Cerca de 2 meses após o envio da carta surge outra, desta vez trazida por um pombo correio que visita todas as cidades com cursos de Biologia, e questiona a presença dos escravos no encontro.

Após muitas discussões, a resposta é a seguinte: “Apóz muitas dyscussões, decipdimos manter tal posição, que poderá servvir para qüestionar em todos suas aptitudez. Além disso, i) os escravos phazem parte essensial de nossa cultura há séculos, ii) a mayoría dos estudantes também tem seus escravos, iii) não há ouptra maneyra de realizar o encontro, uma ves que várias phunções braçais são essenciais, iv) os escravos já eram escravos cuando os contrátamos para nosso evempto, e assim continuariam, e v) os que são contra a escravidão têm todo direyto de não usar delles, resppeitamos todos os caprichos, já que somos todos estudantes de Biologya”.

Naquele ano a decisão prevaleceu. No entanto, dentro de menos de uma geração de EREBs-sul, a escravidão foi abolida nos encontros, dando grande impulso à luta antiescravagista ainda no Brasil Imperial.

Referências Bibliográfica:

SAALFELD, K. O Movimento Estudantil da Biologia. 1894. EdUFSC. Florianópolis. In: Memórias de meus primeiros anos como professor.

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Considerações sobre o ato na SC401

Texto publicado no facebook após o ato “Parar a SC401! Chega de Mortes!”, organizado de forma independente por ciclistas de Florianópolis no dia 29/01/2016. A manifestação aconteceu uma semana depois da morte de Simoni Bridi, que foi vítima de um carro em alta velocidade na rodovia enquanto voltava de bicicleta do trabalho, durante a madrugada. O ato contou com mais de 400 pessoas e chegou a trancar a rodovia estadual por cerca de 15 minutos nos dois sentidos. A carta de reivindicações pode ser lida na descrição do evento, aqui.

Antes de tudo, queria saudar todas e todos que construíram o ato e estiveram presentes, foi realmente um momento bonito e marcante na luta em defesa da bicicleta e da mobilidade urbana em Florianópolis. Éramos mais de 300 pessoas no ato! O esforço de quem divulgou o evento, convidou pessoas, preparou os materiais usados durante o ato, é sempre imprescindível.

Como acredito que podemos e precisamos fazer muito mais, queria fazer algumas sugestões e críticas, no espírito de quem assume junto os erros e procura soluções pra avançarmos juntos.

1. Quem faz a segurança do ato somos nós! Todas e todos queremos que o ato seja seguro e receptivo para todo mundo que usa a bicicleta, incluindo famílias com crianças, pessoas mais velhas, pessoas que não usam a bicicleta diariamente, etc. Ao contrário do que muitos podem acreditar, não é a escola da Polícia Militar Rodoviária que vai garantir isso pra nós.

Eu estava no fim da bicicletada tanto na ida quanto na volta. Precisamos lembrar todo mundo que o morro do início da SC401 não é leve. Teve gente que precisou descer da bicicleta e empurrar, além de gente que sofreu muita pressão pra ir rápido e acabou passando mal. Todos nós somos responsáveis por quem está no ato e precisamos ir no ritmo dos mais devagares.

Quem dita o ritmo do nosso ato somos nós, não é a PMRv. Na subida para voltar do ato, ficamos para trás e fomos hostilizados e ameaçados pela PMRv, que chegou a jogar a moto em cima de nós, nos xingou e por fim nos deixou sozinhos para enfrentar a fila de carros irritados. Tudo isso porque uma companheira do ato estava passando mal e não conseguiu subir pedalando.

2. Foi a PMRv que insistiu em todos os momentos para o ato ir mais rápido, causando esses problemas. A função constitucional da Polícia é manter a ordem, o que no limite se choca com a função de qualquer ato, que é subverter um pouco da ordem para chamar atenção e pressionar por alguma exigência. Ou seja, a gente precisa estar um pouco menos preso a tudo que a polícia pede, sabendo que o objetivo dela é minimizar nosso impacto.

Nesse sentido, acho que o momento mais simbólico, empolgante e eficiente foi onde tomamos todas as pistas dos dois sentidos da SC401. A causa é justa e urgente, precisamos abrir essas brechas para demonstrar nossa força. Não é querer incomodar não, é porque já estamos cansados de não ser ouvidos!

Aliás, os homens do ato que acham que são a própria polícia e gostam de ficar mandando em todo mundo, liberando pistas e acelerando nosso bonde, precisam parar com a atitude autoritária e entender que o ato é feito pelos ciclistas, dentro dos nossos objetivos.

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3. Essa “coincidência organizada”, essa junção espontânea de nossas vontades e necessidades em um ato é linda. No entanto, precisamos nos organizar melhor. Um ato apenas não vai dar resultado. Só que essa articulação não pode se dar por baixo dos panos ou entre “grupos de confiança”.

Precisamos de uma reunião aberta para conversar coletivamente e não devemos voltar pra rua sem antes tirar algumas diretrizes sobre: a) pauta de demandas do movimento, b) coordenação de táticas para atingi-las (quantos atos estamos dispostos a fazer, divulgação, abaixo-assinado, intervenções, etc), c) pessoas responsáveis para dialogar com a PMRv sob uma linha decidida coletivamente, e d) pessoas responsáveis para falar com a mídia sob uma linha decidida coletivamente.

4. Nós que estivemos nas últimas semanas organizando atos contra o aumento da tarifa de ônibus estivemos juntos nesse ato e estaremos nos próximos. Estamos convencidos que a exploração do transporte público está intimimente relacionada aos demais problemas de mobilidade da cidade e que temos muitas demandas conjuntas entre ciclistas e quem anda de busão. A mais óbvia delas é que a levamos em faixa hoje no ato: mais tarifa significa mais carros e menos mobilidade.

Convidamos todas e todos interessados em discutir a luta por mobilidade na cidade, considerando o histórico e importância da luta contra a tarifa em Florianópolis, pra um diálogo solidário sobre nossos próximos passos. Além disso, chamamos também pra somar no Bloco de Carnaval Pula Catraca, que vai acontecer dia 9/fev, às 16h30, organizado pela Frente de Luta pelo Transporte Público e pelo Movimento Passe Livre Floripa:
https://www.facebook.com/events/1685263138381672/

Já temos uma data marcada para seguir em nossas reivindicações, é hora de nos organizar melhor, manter a divulgação e seguir nessa luta que começou bem. NENHUMA MORTE A MAIS!

A visita de Pepe Mujica a Florianópolis

Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai e celebridade para determinada esquerda, está em Florianópolis.

O que me incomoda é ver quanta gente enxerga os avanços recentes naquele país como fruto da benevolência do “presidente mais pobre do mundo” e não como resultado da luta e mobilização social no país. Essa empolgação (que às vezes chega à adoração) só mostra como está difícil enxergar nossa força coletiva e fazer pelas nossas mãos o que a nós diz direito.

Ir de fusca para o trabalho não é relevante quando se está destruindo enormes áreas de preservação para mineração e para portos de águas profundas. Quando estive na região de Rocha, no Uruguai, vi as comunidades se mobilizando contra esses projetos governamentais que destruíam suas terras.

Doar parte do salário também não é relevante quando as políticas de governo permitem o custo de vida estourar, penalizando os mais pobres. O governo lá também criminaliza o protesto como aqui, nos últimos anos foram várias pessoas presas. Eles também ocupam militarmente o Haiti.

A legalização do aborto é fundamental. A legalização da maconha também. Mas espero o dia em que vamos lotar auditórios para ouvir falar os movimentos que se mobilizam por essas pautas, as mulheres, a população negra, as pessoas que são vítimas dessas políticas de Estado – e não um chefe de Estado.

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Comentário sobre #meuamigosecreto no Facebook

Estou totalmente angustiado com os relatos ‪#‎meuamigosecreto‬. Tenho certeza que a campanha vai dar muito impacto. Leio todos os relatos como se falassem sobre mim… e certamente alguns realmente são. Não conversei com nenhum cara sobre isso, mas tenho certeza que é a sensação de muitos por aí também. É impossível não olhar pra si mesmo e se questionar.

Quero dizer pra vocês que conheço muito bem a vontade de escapar do julgamento, seja respondendo, ignorando ou desmerecendo as denúncias de qualquer forma que for possível. Mas esse sentimento, meus caros, nos impede todo o crescimento e transformação. A gente precisa encarar a crítica de peito aberto.

Da série de importantes lições e estímulos que nos tem dado a construção revolucionária do povo curdo (Solidariedade à Resistência Popular Curda), além da auto-organização e libertação das mulheres, está o grande respeito dado à prática da crítica e da autocrítica.

Dizem que nas reuniões e assembleias, qualquer um pode passar por um processo de crítica onde precisa ouvir em silêncio o que todas e todos os companheiros têm a dizer sobre você. E pronto: digere em silêncio. Por outro lado, o exercício de quem faz a crítica também é reconhecido, visto como contribuição e auxílio na construção de novos valores a cada compa e à formação de uma nova sociedade.

Ando pensando muito sobre isso. Pra mim, contrasta com algumas tendências muito fortes em nossa sociedade, que nos impedem de ouvir e principalmente de mudar. A maior é essa urgência em se explicar ou se defender de qualquer acusação, na postura defensiva que eu mesmo sinto lendo os relatos da campanha. Não dá pra considerar de verdade a crítica da outra pessoa enquanto sua única preocupação é se defender.

Essa postura anda lado a lado com uma noção de pureza, onde qualquer crítica que recebemos demonstra um problema em nossa essência ou nossa moral, algo que nos marcará para sempre, por isso precisa ser rejeitado de alguma forma.

O exercício contínuo da crítica e autocrítica parte de ideias contrárias: as pessoas se criam socialmente, atravessadas pelo todo que é nossa realidade e nossa cultura. Além disso, estamos em perpétua transição, descontrução e construção. Não é questão de perdoar ou ignorar as opressões ou falhas cometidas, mas justamente nos tornar cada vez mais responsáveis por nossas ações e erros. Isso só se realiza de peito aberto, com coragem de ver as repercussões e impactos do que a gente faz.

Tá cada vez mais óbvio que temos muito a ouvir.

Sobre a onda arco-íris no Facebook

Coloquei a foto arco-íris. Acho que a comoção generalizada é importante como mostra de força, de esperança e como uma tomada de posição e disputa de espaço, considerando que o ódio e a intolerância no Brasil têm ganhado lugar como moeda de usufruto político e também pra naturalizar toda a violência sofrida pelas pessoas LGBT.

Mas respeito muito as várias críticas levantadas e a posição de quem se recusou a “comemorar”. A crítica pode não trazer tanta popularidade, mas ao fim e ao cabo, é com ela que avançamos.

Quero chamar atenção pra três.

É mais um dito avanço “LGBT” que pouco diz respeito às pessoas trans, que seguem enfrentando uma série de preconceitos e falta de direitos muito mais básicos, recebendo bem menos empatia e mobilização por suas pautas.

Não por acaso, durante o anúncio na Casa Branca, Obama foi interrompido em sua fala por uma trans latinoamericana que exigia a não-deportação da comunidade LGBTQ imigrante no país, e a resposta de Obama foi para que a retirassem, dizendo que ela “estava na casa dele”.
http://www.democracynow.org/…/undocumented_trans_activist_j…

Outra questão é a mobilização e interesse causado por uma vitória em um país central, imperialista como os EUA, com todo seu amplo histórico de guerras, ataques, saqueios, apoio a ditaduras no Sul do mundo. Esse país não é, não pode ser visto, como exemplo.

O Brasil já tem jurisprudência pra casamento gay e lésbico desde 2013. A Argentina, no nosso lado, aprovou em 2012 uma Lei de Identidade de Gênero que garantiu uma série de avanços políticos e de direitos civis pra pessoas trans. Nada disso gerou uma comoção próxima a que os EUA levantou. Precisamos atentar mais para nossos povos irmãos, cujo histórico de agressões vindas dos EUA unifica em uma história compartilhada.
https://vimeo.com/27755606

Por fim, a pauta do casamento não interessa a muitas pessoas LGBT. O casamento não é sempre símbolo de amor. Sua origem é um contrato de posse sobre outra pessoa e, muitas vezes, serve ainda hoje mais para mascarar violências ou pra garantir status que para demonstrar alguma forma de amor, que não respeita nunca contratos.

Enfim, vamos aproveitar a movida pra mostrar força e apoio social às demandas LGBTs, mas vamos transformar isso em defesa da diversidade sexual e de gênero nas escolas (barrada pela Dilma e pela bancada fundamentalista), na defesa da despatologização das pessoas trans e pelo direito ao nome social (em voga no PL João Nery), por políticas de saúde e auxílio jurídico específicas, pela visibilidade LGBT na mídia, na cultura, nas lutas sociais, etc. etc. Mobilizar e avançar!