Eu não vou na manifestação de hoje (04/12) e quero te convidar para não ir também

Texto publicado no dia 04/12/2016 no facebook, comentando os atos de rua convocados por grupos como Vem Pra Rua e Movimento Brasil Livre, tratados como “atos contra a corrupção”. Cabe ressaltar que cada grupo propôs uma pauta própria e não houve acordo entre eles, mas as pautas incluíam “Fora Renan [Calheiros]” e principalmente a defesa do programa de “dez medidas contra a corrupção” formulado pelo Ministério Público Federal e encabeçado por Sérgio Moro.

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Eu não vou na manifestação de hoje (04/12) e quero te convidar para não ir também.

Não é só por causa das camisetas da CBF de quem organiza os atos, símbolo de escândalos no futebol. Não é só porque esses grupos, que agora chamam atos, nos deixaram sozinhos nas ruas enquanto o governo congela investimento em saúde e educação por 20 anos. Não é só porque eles estavam juntos com Eduardo Cunha seis meses atrás. Não é porque a Rede Globo, inimiga do povo, está convidando a ir pra rua. Não é nem só porque os defensores da ditadura militar vão ter espaço privilegiado na manifestação deles (http://ow.ly/Q77J306NihF), gente que gostaria que eu perdesse as unhas por minha visão política.

Todos os motivos acima são bons. Mas a verdade é que eu não vou, acima de tudo, porque não acredito que seja “contra a corrupção”. Todo mundo é contra a corrupção, mas a pergunta é: como? O resultado concreto desses atos é de apoio a Sérgio Moro e ao pacote de leis proposto pelo Ministério Público Federal sob o nome apelativo de “dez medidas anticorrupção”. Se você não sabe o que é esse pacote, não deveria ir para a rua, porque é isso que estará defendendo.

Quem tem analisado de forma crítica o pacote chamado “dez medidas” diz que ele faz aumentar o poder do Judiciário para ouvir menos, julgar mais e punir mais. Tira direito de habeas corpus, presunção de inocência, cria pagamento por delações, mais prisões preventivas. O Brasil já tem a quarta maior população carcerária do mundo e obviamente não são os chamados “corruptos” que estão atrás das grades. Sendo o Judiciário o que é, tudo indica que essas medidas vão servir também para colocar mais negros e pobres atrás das grades. O Judiciário quer mais poder, o Legislativo contra-ataca, mas nessa briga dos de cima nossos interesses não têm vez.

A Lava Jato já passou por cima de direitos democráticos de defesa, inclusive prendendo inocentes (http://ow.ly/v15x306Nita) e fazendo da sua investigação um espetáculo midiático com interesses político-eleitorais, blindando fortemente partidos como o PSDB. Mas o fato de que o PSDB foi quem articulou toda a ofensiva da classe política para mudar as leis do MPF (http://ow.ly/URbK306Niq1) não parece chamar atenção da Globo nem dos organizadores.

A corrupção não é um desvio de caráter de alguns degenerados que precisam ser presos. Ela é parte fundamental do funcionamento do capitalismo e de nossos instituições chamadas democráticas. Não se enfrenta com leis duras, se enfrenta transformando o sistema. Transformando o mesmo sistema que faz metade do dinheiro público inteiro ir para banqueiros e credores da dívida pública, ou que paga 224 bilhões anuais de “Bolsa Empresário” (http://ow.ly/B86I306Nivf), sem que nada disso seja corrupção. O maior roubo do nosso dinheiro é perfeitamente legal.

Enfim, por mais que eu esteja convidando para não ir hoje, tenho outro convite muito mais importante para fazer. Deixar de ir pra rua não resolve nada por si só. O que é fundamental, fundamental mesmo, é não ficar parado nesse momento tão sério. Precisamos muito de gente nas manifestações contra a PEC 55. Elas vão acontecer na próxima semana e são nossa única esperança de evitar o congelamento de investimento na saúde e educação por 20 anos. Tá na hora de lutar pelo nosso futuro! Não vai vir nenhuma solução de cima, nenhum juiz superpoderoso vai nos salvar, é nós por nós!